quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CARIMBO CONSTITUCIONAL

História do Brasil - Almirante (Carnaval de 1934)

A famosa marchinha de 1934, História do Brasil de Lamartine Babo, ganha uma nova versão focada em Cuba, substituindo o refrão "Foi seu Cabral" por "Foi seu Fidel". A adaptação preserva o ritmo e o humor anacrônico, introduzindo elementos culturais cubanos e celebrando a figura de Fidel Castro.

História de Cuba (Marchinha Adaptada)

Refrão
Quem foi que inventou Cuba?
Foi seu Fidel! Foi seu Fidel!
Num dia primeiro de janeiro,
Com charuto e de chapéu!

Verso 1
Depois Cuba amou o mar,
O mar beijou Havana,
Ao som... Ao som do Guantanamera!
Do Guantanamera ao rum,
Surgiu o Ropa Vieja,
E mais tarde o Daiquiri!

Verso 2
Depois a salsa virou son,
O mambo virou cha-cha-cha,
De lá... Pra cá tudo mudou!
Passou-se o tempo do açúcar,
Quem manda é a rumba boa,
E a saúde que curou!

Poucos artistas retrataram o exílio e a fragilidade humana com tanta propriedade quanto Josef Koudelka. O fotógrafo tcheco, nascido em 1938, abandonou a carreira na engenharia para imortalizar momentos decisivos da história História e Solidariedade A aproximação do centenário de nascimento de Fidel Castro, em 13 de agosto de 2026, convida à reflexão sobre o seu complexo legado político e as históricas relações entre Cuba e o Brasil. No plano político-partidário, a relação do líder cubano com a esquerda brasileira nem sempre foi linear. Durante as décadas de 1960 e 1970, o apoio de Havana à luta armada contrastava com a estratégia de resistência institucional e pacífica defendida pela direção tradicional do Partido Comunista Brasileiro (PCB). As divergências partidárias, contudo, nunca anularam a profunda solidariedade dos trabalhadores brasileiros, especialmente no campo da cultura, da música e das artes, que historicamente manifestaram apoio à soberania da ilha frente ao isolamento internacional. Com o fim da ditadura militar e o processo de redemocratização do Brasil, a diplomacia brasileira resgatou sua autonomia na política externa altiva e ativa. O restabelecimento das relações diplomáticas bilaterais ocorreu formalmente em 14 de junho de 1986, sob o governo de José Sarney, consolidando um anseio das forças progressistas da Frente Ampla. Nos anos seguintes, a transição política brasileira continuou a abrir canais de diálogo. Durante o governo de Itamar Franco, o protagonismo de lideranças vindas da tradição comunista, como Roberto Freire, que liderou a transição do antigo PCB para uma linha social-democrata no início dos anos 1990, exemplificou a convivência democrática e institucional no país. Celebrar esta efeméride a partir do Brasil reafirma o desejo permanente de paz e de autodeterminação dos povos, defendendo que a política e a diplomacia convivam soberanas entre a Terra de Cabral e a Cuba de Fidel. A famosa marchinha de 1934, "História do Brasil" de Lamartine Babo, ganha uma nova versão focada em Cuba, substituindo o refrão "Foi seu Cabral" por "Foi seu Fidel". A adaptação preserva o ritmo e o humor anacrônico, introduzindo elementos culturais cubanos e celebrando a figura de Fidel Castro.História de Cuba (Marchinha Adaptada)RefrãoQuem foi que inventou Cuba?Foi seu Fidel! Foi seu Fidel!Num dia primeiro de janeiro,Com charuto e de chapéu!Verso 1Depois Cuba amou o mar,O mar beijou Havana,Ao som... Ao som do Guantanamera!Do Guantanamera ao rum,Surgiu o Ropa Vieja,E mais tarde o Daiquiri!Verso 2Depois a salsa virou son,O mambo virou cha-cha-cha,De lá... Pra cá tudo mudou!Passou-se o tempo do açúcar,Quem manda é a rumba boa,E a saúde que curou! Guantanamera Compay Segundo I am Cuba | DRAMA | FULL MOVIE Mosfilm 371.699 visualizações Estreou em 29 de out. de 2021 #Cuba #FullMoviesWithEngSubs #Kalatozov A Soviet-Cuban two-part feature film directed by Mikhail Kalatozov, released in 1964. The film was shot after the triumph of the Cuban revolution, the advent of the socialist regime in Cuba, and allied relations between Cuba and the USSR. Plot-wise, it consists of four unrelated novellas that tell the story of the Cubans fighting against "American oppressors" to turn their country into the Island of Liberty. In the 1960s, due to the rise of socialist ideals, the theme of revolution became relevant both for Soviet and Western cinema. The film is made on a high professional level, primarily due to the innovations of DP Sergey Urusevsky and his crew. This was the last time Urusevsky, and director Kalatozov worked together. The films’s production was challenging in regards to staging, camerawork, intraframe editing, hand-held shooting for creating dynamic scenes using a hand-held camera in motion and transferring it from hand to hand, using specially made engineering structures, etc. The film was shot between 1963 and 1964 with a considerable support from the Soviet and Cuban authorities during one of the most strained episodes of the Cold War - the Cuban Missile Crisis, the US blockade of the island, and the difficult economic situation in Cuba. Year of production: 1964 Directed by: Mikhail Kalatozov Written by: Yevgeny Yevtushenko, Enrique Pineda Barnet Director of photography: Sergei Urusevsky Music: Carlos Fariñas Production designer: Yevgeni Svidetelev Starring: Sergio Corrieri, José Gallardo, Raúl García, Salvador Wood, Luz María Collazo, Jean Bouise, Celia Rodriguez The film was digitally restored by Mosfilm Cinema Concern Find out more: https://cg.mosfilm.ru/en Subscribe to our YouTube channel, and be sure to click the bell so that you won’t miss the best Soviet movies! #FullMoviesWithEngSubs #Cuba #Kalatozov Entrevista com Gustavo Franco | Warren Política | Episódio 29 Warren Investimentos 12 de ago. de 2026 Warren Política Neste episódio do Warren Política, Felipe Salto conversa com Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e um dos nomes centrais na implantação e consolidação do Plano Real. Na conversa, Gustavo relembra os bastidores da criação do Real, fala sobre a hiperinflação brasileira, a independência do Banco Central, a situação fiscal do país, o risco de deterioração das contas públicas e os desafios para modernizar o processo orçamentário brasileiro. Entre os temas abordados: 00:00-01:32 — Introdução 01:32-04:37 — O que a hiperinflação brasileira tem em comum com outros países 04:37-12:29— Os bastidores da construção do Plano Real 12:29-18:54 — O problema fiscal brasileiro 18:54-29:14 — A independência do Banco Central 29:14-35:02 — A fronteira entre política fiscal e monetária 35:02-39:26 — O risco de deterioração das contas públicas 39:26-46:34 — Congresso e responsabilidade fiscal 46:34-48:13 — Arcabouço fiscal e reforma orçamentária 48:13-53:04— Relação com FHC 53:04-53:37 — Encerramento ---
quarta-feira, 12 de agosto de 2026 O espectro que ronda a eleição de 2026, por Wilson Gomes Folha de S. Paulo Escândalos chegam a uma disputa polarizada Ambiente digital multiplica impactos públicos Um espectro ronda a eleição presidencial de 2026. Aliás, não um, dois. O primeiro vem do escândalo dos descontos ilegais do INSS. O segundo, das investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master. Ambos continuam em desenvolvimento e já alcançaram as duas principais candidaturas. Num país em que a prova de corrupção continua a ser uma arma letal na disputa pelo Executivo, todos sabem que, a qualquer momento, um dos dois escândalos pode desferir o golpe fatal. A circunstância torna-se especialmente explosiva porque esta não é uma eleição normal de conquistar. O país chega à disputa partido ao meio, com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em levantamentos recentes de segundo turno e rejeitados por parcelas enormes do eleitorado. Numa eleição assim, o veto pode importar mais do que o voto. Na impossibilidade de ampliar o próprio eleitorado, as campanhas passam a torcer —e, quando podem, a trabalhar— para que o outro lado seja o mais rejeitado. Uma revelação devastadora de última hora, a associação ao personagem errado e a vaca vai para o brejo. É nesse terreno que entram os dois escândalos. O dos descontos ilegais do INSS já alcançou o entorno de Lula, com investigações envolvendo Lulinha e integrantes do governo e da campanha. O Banco Master, por sua vez, aproximou-se diretamente de Flávio Bolsonaro, que confirmou ter solicitado a Vorcaro financiamento para um filme sobre o pai. Ambos possuem ramificações que atravessam partidos e campos políticos. Para a eleição, porém, importa menos reconstituir aqui cada episódio do que perceber que os dois casos já chegaram suficientemente perto das candidaturas para permanecerem como ameaças reais até outubro. Nenhum de nós, cidadãos comuns, é capaz de saber o que ainda falta aparecer, embora alimentemos a suspeita de que tem gente que não só sabe o que ignoramos como está cuidadosamente reservando coisas para revelar no momento que considerar conveniente. É este o suspense que as campanhas e os candidatos adorariam evitar e que vai tornar essa disputa presidencial tensa até o último minuto. Ocorre que, na política digital contemporânea, aquilo que não apareceu também circula. Basta alguém anunciar que viu um vídeo, ouviu um áudio ou conhece mensagens comprometedoras para que um conteúdo ainda inexistente para o público comece a produzir efeitos políticos reais. Foi o que ocorreu com boatos sobre gravações das festas de Vorcaro. Planta-se a promessa de que há registro de malfeitos para que se gerem cortes, comentários, buscas, memes, acusações e desmentidos, o que obriga o alvo a responder a uma prova que ninguém pode sequer examinar. Agora imaginem isso num debate ou na propaganda eleitoral. Há, depois, a questão do timing. Uma revelação verdadeira divulgada a dois dias da votação pode ser eleitoralmente tão difícil de desmentir de forma convincente quanto uma falsificação. A campanha atingida terá poucas horas para responder. O jornalismo terá poucas horas para verificar contexto, origem e autenticidade. Notem, além disso, que 2026 é a primeira eleição presidencial brasileira realizada sob condições de inteligência artificial generativa madura, em que fabricar áudio, imagem, vídeo, documentos visuais e dezenas de versões adaptadas da mesma acusação se tornou muito mais barato e rápido. Na era do sintético, o desmentido pode chegar quando a urna já estiver fechada. Existe, ainda, o carimbo institucional. Uma busca da Polícia Federal, a abertura de um inquérito pelo Supremo, um indiciamento ou um relatório de quebra de sigilo têm natureza e peso jurídicos muito diferentes. Na arena eleitoral, porém, essas distinções tendem a desaparecer. PF e STF não fazem campanha quando cumprem suas funções, mas o que ocorrer nesta seara de agora até outubro, queiram ou não as autoridades, entra imediatamente na campanha. E, se trechos de investigações, mensagens ou depoimentos continuarem sendo vazados seletivamente e revelados deliberadamente em momentos-chave da corrida eleitoral, o efeito sobre uma candidatura pode ser decisivo. Nada disso significa que os escândalos do INSS e do Master decidirão a eleição, mas, sim, que ambos permanecerão como reservas de imprevisibilidade até o fim. Significa também que um vídeo, um print ou um áudio com uma revelação decisiva de última hora, se viralizar, pode ser o empurrão que basta para destruir uma campanha inteira. Por enquanto, os dois espectros rondam como uma ameaça à eleição, mas, até outubro, não será surpresa se um deles acabar abatendo uma candidatura.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026 Lula e a Segurança 24 anos depois, por Marcelo Godoy O Estado de S. Paulo Plano de segurança do petista repete promessas feitas por sua primeira campanha em 2002 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria reler o documento Projeto Segurança Pública para o País. Editado em 2002, ele defendia a criação dos Conselhos Consultivo de Segurança Pública e de Proteção a Testemunhas, a unificação progressiva das polícias, com corregedorias únicas, bem como academias integradas de formação. Também afirmava ser preciso investir no policiamento comunitário e na criação de um piso nacional para as polícias, assim como aumentar o controle do uso da força letal pelos agentes da lei. O documento defendia 28 propostas, pregava uma “reforma das polícias”, com a criação de uma Escola Superior de Segurança e Proteção Social. Atacava a corrupção, afirmando que “o grau de promiscuidade das polícias com as organizações criminosas” constituía “também variável decisiva” no quadro de insegurança. E concluía: “ou haverá segurança para todos, ou ninguém estará seguro no Brasil”. Vinte e quatro anos depois, metade das propostas não saiu do papel. A principal delas, a criação do Sistema Único de Segurança Pública, só se tornou realidade em 2018, quando Michel Temer criou o Ministério da Segurança Pública, depois encerrado em 2019, por Jair Bolsonaro. Lula seria eleito em 2002. O documento que devia reler era assinado por luminares do partido da área de Segurança, como Luiz Eduardo Soares, Antonio Carlos Biscaia e Benedito Domingos Mariano. Oito anos depois, quase nada do que ali havia tinha sido cumprido por Lula. Desde então, passaram-se outros seis anos de governo de Dilma Rousseff e mais três anos e meio de Lula 3. De 28 propostas ali enumeradas, só sete foram cumpridas e 14 foram esquecidas. Agora, Lula promete de novo ações integradas das forças de segurança – ele criou as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado, mas sob controle da PF, em vez de uma agência com a participação de todas as polícias – e diz que recriará o Ministério da Segurança, o que não fez durante o terceiro mandato. A implantação de policiamento de proximidade se tornou um fantasma após o fim das Unidades de Polícia Pacificadora, no Rio. Mas lá está de novo essa mesma promessa no programa de Lula, que também diz que priorizará “investimentos continuados na urbanização de favelas e periferias, na requalificação de espaços públicos e na ampliação do acesso a serviços públicos”. Parece cópia do plano de Lula, em 2002, que prometia “urbanizar os territórios” dos espaços “abandonados pelo poder público, onde se instala o varejo do tráfico”. O programa atual defende valorizar o policial, mas o que Lula e o PT fizeram em 17 anos e meio para cumprir suas promessas na Segurança? Seu desafio é provar ao eleitor que agora será diferente. •
Editorial do jornal O Estado de S. Paulo analisa declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre atuação de advogados criminalistas e sua própria defesa jurídica. Lula, o ‘inocente’ Por O Estado de S. Paulo Presidente diz que advogados criminalistas ‘não sabem defender inocentes’ como ele O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, numa entrevista ao podcast Inteligência Ltda., que não contratou um advogado criminalista para defendê-lo na Lava Jato porque “criminalista não sabe defender inocente, criminalista defende bandido”. A declaração do petista é tão eivada de absurdos que causou justa indignação entre advogados. Dela se depreende que, na concepção de Lula, advogados criminalistas se dedicam apenas a tentar livrar criminosos da cadeia, e não a garantir ao acusado de um crime o amplo direito de defesa, conforme assegurado pela Constituição. Lula tampouco reconhece a presunção de inocência de todo acusado. Para o presidente, ao que parece, a culpa de qualquer réu na esfera criminal já está estabelecida no instante da acusação, cabendo ao advogado criminalista, presume-se, somente a missão de tentar engabelar os que vão julgar seu cliente para evitar que ele seja preso. Esqueceu-se, o presidente, que ele mesmo foi defendido por um dos mais brilhantes criminalistas da história brasileira, Heleno Cláudio Fragoso, nos anos 1980 – época em que, então líder sindical, Lula foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional e julgado pela Justiça Militar por agitar greves. Outro importante criminalista, Márcio Thomaz Bastos, teve papel decisivo na trajetória política de Lula. Sem cobrar honorários, Thomaz Bastos também defendeu Lula e o PT durante o regime militar e acabou se tornando um dos maiores amigos e conselheiros do futuro presidente da República – este que agora deu de destratar advogados criminalistas como o já falecido Thomaz Bastos, que deve estar se revirando no túmulo. A ânsia de Lula de se declarar inocente é tanta, contudo, que ele nem sequer pensa nas consequências do que diz. Ao afirmar que não queria ser representado por um advogado criminalista na Lava Jato porque criminalistas “não sabem defender inocente, criminalistas defendem bandido”, Lula quis dizer que, como inocente, não precisava de advogados que “defendem bandidos”. Esqueçamos, por um instante, que Lula não foi inocentado de coisa nenhuma e que seu processo foi anulado porque o Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu, cerca de quatro anos depois do início do caso, que o foro que julgou o petista não era o adequado. Esqueçamos que o STF, ao longo desses quatro anos, sentou em cima da tese da defesa de que o foro não era adequado. Fixemo-nos apenas na ideia de que, para Lula, quem tem advogado criminalista é porque não é inocente. Eis aí uma dupla ofensa do presidente: aos advogados criminalistas e aos milhões de cidadãos brasileiros acusados de crimes e que, conforme a Constituição, só podem ser considerados culpados depois de submetidos a julgamento justo, no qual tenham tido amplo direito de defesa. Como lembrou o advogado criminalista Antônio Cláudio Mariz de Oliveira em uma “carta aberta ao presidente Lula”, “há uma presunção, que deveria ser de seu conhecimento, que é a da inocência”, razão pela qual os advogados criminalistas são “porta-vozes dos direitos constitucionais dos acusados, culpados ou inocentes, santos ou demônios”. Lula, que está longe de ser santo, deveria ser o primeiro a saber disso.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026 Breve história da política brasileira, de Carneiro Leão a Lula da Silva, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense A reeleição não pode depender apenas da frente formada por PT, PSB e outros partidos de esquerda, precisa de setores conservadores e velhas oligarquias O apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva vai além das conveniências eleitorais da Paraíba. Reproduz o pacto entre o poder central e as oligarquias regionais, pelo qual interesses contraditórios se acomodam em torno da governabilidade e da preservação do poder. É a recidiva da velha “política de conciliação” incorporada ao projeto eleitoral de Lula. José Honório Rodrigues analisou esse fenômeno em Conciliação e reforma no Brasil: um desafio histórico-político (Editora Civilização Brasileira), escrito depois do golpe militar de 1964. Discípulo de Capistrano de Abreu, o mestre via a conciliação de maneira crítica: “Os poderes dominantes tiveram sempre força para conter as aspirações profundas de mudança e reverter os movimentos de modo a sustentar seu sistema e seus privilégios”. Para José Honório, a Independência, as revoltas do período regencial, a República e as crises de 1930, 1945, 1961 e 1964 revelavam uma característica recorrente da formação do Brasil: as estruturas do patronato brasileiro demonstram extraordinária capacidade de sobrevivência. “O povo brasileiro é uma vítima, um derrotado no processo histórico.” Essa contradição atravessou a República. É a raiz da “modernização pelo alto”, capaz de incorporar demandas sociais sem romper necessariamente com estruturas tradicionais. Como insistia Luiz Werneck Vianna em A revolução passiva (Revan), o Brasil se transforma sem abandonar o antigo, em . Modernizou a economia, urbanizou-se, democratizou instituições e ampliou direitos sem o moderno na política dominante: preservou o patrimonialismo, o fisiologismo, as desigualdades e o poder das elites regionais. A matriz histórica dessa característica da política brasileira está no Império. Em 1853, Honório Hermeto Carneiro Leão, o Marquês do Paraná, organizou o Gabinete da Conciliação, aproximando conservadores, os “saquaremas”, e liberais, os “luzias”. O conselheiro Nabuco de Araújo, conservador, havia perdido as eleições em Pernambuco, mas aceitou participar do gabinete de maioria liberal, porém sem abandonar seus aliados provinciais. Surgia ali a célebre “ponte de ouro” narrada por Joaquim Nabuco no monumental Um estadista no Império (Topbooks). Ao contrário de Capistrano e Honório, Nabuco enxergava virtudes nessa engenharia. Para ele, o reformador brasileiro “detém-se diante do obstáculo; dá longas voltas para não atropelar nenhum direito”. Era uma concepção gradualista: mudar sem destruir as pontes com aqueles que controlavam parcelas importantes do poder. Pacto de poder O fato é que governos reformistas estabeleceram alianças com forças conservadoras para governar. Juscelino Kubitschek construiu uma ampla composição política para executar o Plano de Metas. Fernando Henrique Cardoso aliou o PSDB ao PFL de Marco Maciel, Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen para garantir sustentação parlamentar ao Plano Real e às reformas constitucionais. Lula fez movimento semelhante nos dois primeiros mandatos, em aliança com o ex-presidente José Sarney e as oligarquias regionais representadas no Congresso. Dilma Rousseff, porém, entrou em conflito com parcelas importantes desse sistema, perdeu sua base parlamentar e acabou afastada pelo impeachment. No terceiro mandato, contingenciado pela correlação de forças, Lula reencontrou essa estrutura ainda mais poderosa. O fortalecimento do Congresso por meio das emendas parlamentares e a ascensão do Centrão reduziram a autonomia do Executivo. A aproximação com PP e Republicanos foi uma resposta pragmática a essa realidade. A eleição de Hugo Motta para a Presidência da Câmara aprofundou o processo. É nesse contexto que seu apoio à reeleição de Lula adquire significado histórico. Formalmente, o Republicanos permanece neutro na eleição presidencial. Politicamente, abriu espaço para que suas lideranças façam escolhas conforme as circunstâncias estaduais. Tarcísio de Freitas preserva em São Paulo sua identidade conservadora e a ligação com o eleitorado bolsonarista, enquanto Motta apoia Lula na Paraíba. Não demora muito será a vez de o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), outro represenante do Centrão, reaproximar-se de Lula em razão das eleições no Amapá; no rastro, do PP de Ciro Nogueira (PI). É o velho pacto dos “luzias” e “saquaremas”. Lula conhece profundamente esse mecanismo. Sua candidatura à reeleição não pode depender apenas da frente formada por PT, PSB e outros partidos de esquerda, precisa de setores conservadores que controlam governos estaduais, prefeituras e bancadas. Mudaram os partidos e os personagens, mas o pacto perverso atravessou o Império, sobreviveu à República e chegou à eleição de 2026. Mas há um preço para o transformismo: a conciliação é eficiente para estabilizar o sistema político, porém à custa da participação popular e das reformas estruturais.
O insuportável país das ambiguidades Roberto DaMatta É ANTROPÓLOGO, ESCRITOR E AUTOR DE 'CARNAVAIS, MALANDROS E HERÓIS'
Recibo Declaro que recebi a quantia de X (xis) reais da agência Z (zê), após mandar a minha empregada confeccionar um carimbo fajuto na esquina aqui de casa, de uma firma fajuta, de um endereço fajuto, na cidade de Vargem Grande Paulista, onde nunca estive e nunca carimbei. Carimbo ao custo de três reais e cinquenta centavos, feito em sete minutos, pois, sem ele, não poderia, em hipótese alguma, receber a supra mencionada quantia. Carimbo este, símbolo máximo da honestidade burocrática ibérica, herança de nossos ancestrais portugueses, introduzido nessas bandas por meio do nosso primeiro documento, a carta de Caminha. Tem um carimbo lá, sim senhora. Carimbo este que vale muito mais que os X (xis) reais, muito mais que os 38 anos do meu ofício, muito mais que o meu talento para beber e vender cerveja, que foi o que eu fiz para a agência. Carimbo este, carimbado com carinho para ser admirado pelos amigos e amigas da agência, a quem agradeço a oportunidade do trabalho e para quem coloco (eu e meu carimbo) à disposição para novas carimbadas em futuro a ser fixado e devidamente carimbado. Com carinho, carimbo e afeto, modestamente carimbo. Mario Alberto Campos de Morais Prata (tarimbado e carimbado diretor-presidente da Ponto e Vírgula Produções Artísticas Ltda).

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