Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
“Ela é maraVida ou é sofrimento.”
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Bombas contra a ABI e a imprensa que a linha-dura não calou, por Luiz Carlos AzedoCorreio BrazilienseO que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar, contra a liberdade de imprensa, e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura
Há 50 anos, a bomba que explodiu na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em 19 de agosto de 1976, não tinha como alvo apenas o icônico Edifício Herbert Moses, na Rua Araújo Porto Alegre, 71, no Centro do Rio de Janeiro, simbolo do Modernismo brasileiro. Construído entre 1936 e 1938, e projetado pelos Irmãos Roberto, é uma joia da nossa arquitetura, com funcionalidade e plantas livres, além de uma fachada com quebra-sóis em venezianas de concreto para barrar o sol forte e pilotis sem portaria fechada na entrada.
O que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar contra a liberdade de imprensa e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura. A explosão atingiu o sétimo andar do prédio da ABI, próximo à presidência da entidade, danificando salas, elevadores e outros pavimentos. Não houve feridos, mas os prejuízos foram estimados em cerca de 1 milhão de cruzeiros. Em panfleto deixado no local, a autodenominada Aliança Anticomunista Brasileira assumiu a autoria e acusou a associação de estar dominada por comunistas.
Naquele mesmo dia, outro artefato foi colocado na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), também no Rio, durante uma solenidade que reunia centenas de pessoas. A bomba não explodiu por uma falha. A escolha simultânea da ABI e da OAB mostrava que a extrema-direita identificava na imprensa e na advocacia dois obstáculos fundamentais à manutenção do regime militar. O general Ernesto Geisel, que presidia o país, havia anunciado uma abertura “lenta, gradual e segura”, mas os órgãos repressivos continuavam operando. A distensão era uma transição controlada, conduzida de cima para baixo, sem que o regime abrisse mão de seus instrumentos autoritários. Mesmo assim, era contestada por dentro das Forças Armadas.
A contradição da abertura havia se tornado evidente em outubro de 1975, com a morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-Codi paulista. A reação da sociedade ganhou dimensão histórica no culto ecumênico celebrado na Catedral da Sé por dom Paulo Evaristo Arns, pelo pastor Jaime Wright e pelo rabino Henry Sobel. Em janeiro de 1976, a morte do operário Manoel Fiel Filho, igualmente sob custódia militar, aprofundou a crise e levou Geisel a substituir o comandante do II Exército.
Esses episódios expuseram a resistência da linha-dura à abertura. Setores radicais recorreram aos atentados para espalhar o medo, atribuir a violência à esquerda e justificar novos retrocessos. O ataque à ABI integrou essa escalada. Documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), recuperados pelo Arquivo Nacional e reunidos na edição especial do Boletim ABI, site da entidade, revelam que a associação não era observada apenas por manifestar opiniões inconvenientes, mas porque representava um espaço de articulação da sociedade civil em defesa dos direitos humanos e contra a censura.
Dona Lyda e Riocentro
Nos anos seguintes, gráficas, livrarias, universidades, jornais, sindicatos, entidades profissionais e bancas que distribuíam publicações alternativas entraram na mira. A Comissão Nacional da Verdade registrou uma série de 40 atentados a bomba entre janeiro de 1980 e abril de 1981. A Fundação Getulio Vargas menciona aproximadamente 74 ações terroristas no mesmo contexto ampliado.
A violência atingiu um ponto especialmente grave em 27 de agosto de 1980. Um novo atentado foi feito com êxito contra a OAB: uma carta-bomba matou a secretária Lyda Monteiro da Silva. Outro atentado, na Câmara Municipal do Rio, no gabinete de vereador Antonio Carlos, o Tonico (MDB), deixou vítimas feridas. Não se tratava de episódios isolados, mas de uma estratégia terrorista de militares contra instituições, lideranças e profissionais comprometidos com a redemocratização.
Essa engrenagem começou a ruir na noite de 30 de abril de 1981, durante um espetáculo em comemoração ao Dia do Trabalhador, no Riocentro. Cerca de 20 mil pessoas estavam no local, quando uma bomba explodiu dentro de um automóvel ocupado pelo sargento Guilherme Pereira do Rosário e pelo capitão Wilson Machado, vinculados ao DOI-Codi do Rio. Rosário morreu, Machado ficou ferido. Uma segunda explosão atingiu a área de energia do complexo.
A Comissão da Verdade concluiu que o Riocentro resultou de uma ação planejada por militares ligados ao I Exército e ao SNI. Também apontou que o primeiro inquérito policial militar foi manipulado para apresentar os responsáveis diretos como vítimas, protegendo a cadeia de comando e evitando responsabilizações.
No Superior Tribunal Militar (STM), o almirante Júlio de Sá Bierrenbach se destacou ao contestar o arquivamento do caso. Seu posicionamento mostrou que a defesa da verdade não era incompatível com a condição militar: incompatível com a democracia era utilizar instituições do Estado para acobertar o terrorismo.
Nesta quarta-feira, 19 de agosto, a ABI recordará os 50 anos do atentado com um ato em sua sede, a partir das 17h, e a instalação de uma placa no sétimo andar, que homenageia Ana Arruda Callado, Barbosa Lima Sobrinho, Fernando Segismundo Esteves, Fichel Davit Chargel, Lygia Maria Collor Jobim e Oscar Maurício de Lima Azêdo, alguns postumamente.
O Que É, o Que É?Beth Carvalho
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver
E não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei (eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver
E não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei (eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
E a vida
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce ilusão?
E a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é, o que é, meu irmão?
Há quem fale que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do Criador
Numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que o melhor é morrer
Pois amada não é e o verbo sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça, eu ponho a força da fé
Somos nós quem fazemos a vida
Como der ou puder ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
A pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver
E não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei (eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver
E não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei (eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
É bonita, é bonita e é bonita
Composição: Gonzaguinha.O HOMEM QUE DESAFIOU OS SOVIÉTICOS
Em agosto de 1968, a cúpula do Partido Comunista da Tchecoslováquia, inclusive o seu secretário-geral Alexandre Dubček, foi sequestrada, levada a Moscou e obrigada a assinar autorização para a invasão do país pelas tropas do Pacto de Varsóvia.
A invasão marcou o fim do processo de democratização e reestruturação econômica conhecido como “A Primavera de Praga”.
A “PRIMAVERA DE PRAGA”
Desde 1948, a Tchecoslováquia havia adotado o modelo político e econômico da então União Soviética, de domínio do Partido Comunista sobre os demais, economia totalmente estatal e de planejamento centralizado.
A Tchecoslováquia, que era uma economia desenvolvida e industrializada e de padrão de vida comparável ao da Áustria e da Alemanha, enfrentava baixa produtividade e estagnação econômica.
Os comunistas reformistas, liderados por Dubček, aprovaram o “Programa de Ação”, que, além de buscar uma democracia pluripartidária, tentava dar maior autonomia às empresas estatais e abria espaço para pequenas empresas privadas, principalmente no setor de serviços, ainda muito longe do que seriam, posteriormente, as reformas econômicas da China, a partir de 1978. Hoje, 70% da economia chinesa é privada.
O SEQUESTRO
Assisti ontem no Prime Vídeo O HOMEM QUE DESAFIOU OS SOVIÉTICOS, filme de 2023 que retrata o sequestro da cúpula do PC tcheco para assinar a autorização da invasão.
Um deles, porém, se recusou a assinar: František Kriegel, médico filiado ao PC desde a juventude, membro das Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola (1936–1939) e presidente da Frente Nacional, a frente de partidos democráticos que combateu a ocupação nazista da Tchecoslováquia.
Em 1969, Alexandre Dubček foi substituído por Gustav Husák, que comandou a chamada “normalização”, um processo de repressão política que perseguiu os comunistas reformistas e todos os dissidentes do regime e manteve o modelo econômico soviético, responsável pelo empobrecimento do país.
Dubček, de principal líder do país, caiu em desgraça, sendo obrigado a trabalhar como guarda florestal em um parque na Eslováquia. Em 1989, após a “Revolução de Veludo” que pôs fim ao regime stalinista, Dubček retornou à vida pública, sendo escolhido presidente do Parlamento federal. Filiou-se então ao Partido Social-Democrata e morreu em um acidente de automóvel, em 1992.
Trailler do filme O HOMEM QUE DESAFIOU OS SOVIÉTICOS
https://youtu.be/BS6i_1vqwHU?si=0dRb18AU4_wzH-5wO Homem que Desafiou os Soviéticos (The Man Who Stood in the Way) | Trailer DubladoElite Filmes
7 de nov. de 2025 #trailer #trailerdublado
#trailer #trailerdublado Sinopse: O herói da Primavera de Praga, Frantisek Kriegel, foi preso pelas tropas soviéticas junto de outros cinco líderes políticos. Mesmo sob forte ameaça, ele foi o único que se recusou a assinar o Protocolo de Moscou, que permitiria a ocupação soviética na Tchecoslováquia.
Estreia: 12/11/25
Onde: Prime Video, Apple TV , Claro tv+, Vivo Play, Google TV e YouTube Filmes
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"Eu disse não"No relato do brigadeiro, o telefonema crucial para a 'trincheira antigolpista'MARCELO GODOY
Trincheira Antigolpista: Os Bastidores Militares de 2022
O ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, lança em setembro o livro "Eu disse não". A obra revela bastidores inéditos da intensa pressão sofrida pelos chefes militares durante o governo de Jair Bolsonaro.
Em depoimento marcante, o militar detalha as dores e os dilemas éticos que cercaram as reuniões de alta patente no fim de 2022. Na imagem, o registro histórico do encontro com o então presidente simboliza o peso institucional carregado pela alma e pela consciência daqueles que escolheram manter as Forças Armadas nos trilhos da legalidade e da harmonia democrática, recusando-se a embarcar em uma aventura golpista.
TeresinhaChico Buarque
O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse: Não
O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse: Não
O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração
Composição: Chico Buarque.
BEM PENSADO "O que é um homem rebelde? Um homem que diz não" Albert Camus
“Ela é maraVida ou é sofrimento.”
"Mattinha, Da vida é pra viver."
Inexoravelmente
As idades do cronista, por Roberto DaMattaO Estado de S. PauloEm meio aos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança
É maravilhado, surpreso e assustado que, pensante e andante, fui vestido por 90 anos no dia 29 do mês passado. Aliás, fui distinguido com uma foto na primeira página e entrevista neste jornal no qual escrevo desde 2001, o que tocou fundo o meu coração.
"Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa."
"Esse inexorável destino que o envelhecer trata muitas vezes como benefício, pois o velho corpo pode ser mais pesado do que a alma por ele inventada."
"Exceto por meio das imagens pastorais das crenças religiosas, muito embora essa morte seja experimentada todas as noites, quando dormimos, como conceitua um imenso Manuel Bandeira."
"Conheci de perto a velhice casmurra do meu avô e o mais ou menos soturno envelhecimento do meu amado pai."
"Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você."
"P.S.: Ah! Antes que eu me esqueça: na velhice não há futuro ou retornos..."
Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você. Viramos uma espécie de vivente além da conta, pois coisas velhas deveriam estar num porão, mas a vivência insiste em nos manter vivos. Ser um velho mantendo dentro de si um jovem e uma criança, um demônio e um anjo, um mortal e, quem sabe, o desejo amaldiçoado da imortalidade, é um paradoxo. Causa espanto e, nuns poucos, desolação. Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa.
Sou e estou velho. Vivi enfrentando minhas deficiências, dores e, no meio dos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança. Apesar de tudo, permaneci companheiro de mim mesmo. Aprendi as chamadas “idades do homem” num tempo em que o gênero masculino englobava o feminino. Havia infância, juventude, maturidade e velhice. Abafava-se o nascimento para não terminar mencionando o que o nosso progressismo e desencanto reprimem: a morte ou o fim. Esse inexorável destino que o envelhecer trata muitas vezes como benefício, pois o velho corpo pode ser mais pesado do que a alma por ele inventada.
O fato é que as imposições da vida escondem e afugentam a inevitabilidade do fim. Esse fim que uma consciência onipresente e desenhada para a vida é incapaz de imaginar. Exceto por meio das imagens pastorais das crenças religiosas, muito embora essa morte seja experimentada todas as noites, quando dormimos, como conceitua um imenso Manuel Bandeira.
Tenho plena consciência de que cheguei ao término de um ciclo. Não é um fim, é uma fase. Na infância, almejamos a beleza da juventude. Na juventude, experimentamos os becos das escolhas. Maduros, inevitavelmente nos tornamos sérios, quadrados, controladores e, às vezes, sectários. Velhos, temos a suprema felicidade de testemunhar as estradas da vida que criamos. Conheci de perto a velhice casmurra do meu avô e o mais ou menos soturno envelhecimento do meu amado pai. Agiota que sou – como quer o paradoxo da vida –, mais velho que eles, entendo que há muitos estilos de viver e de morrer. O remédio é o amor que nos alegra, nos completa, nos traz prazer e tudo isso que compete de igual para igual com a morte.
P.S.: Ah! Antes que eu me esqueça: na velhice não há futuro ou retornos...
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As idades do cronista: Um ensaio sobre o tempo e a memória
É de se espantar, de se maravilhar e, por que não, de se assustar um pouco quando o calendário nos prega essa peça indescritível: a de nos vestir com noventa casacos de inverno e outras tantas primaveras. Olho-me no espelho desta biblioteca, cercado por fantasmas de papel que me fitam com cumplicidade, e percebo que a vida não é um acúmulo de gavetas que se fecham, mas um fluxo contínuo, uma passarela onde o passado e o presente teimam em dançar a mesma valsa.
O cronista, esse eterno farejador do cotidiano, descobre aos 90 anos uma inversão gramatical e existencial avassaladora: "Aos 90, você não mais 'faz', 'chega', 'completa' ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você." Já não somos donos do tempo; somos por ele habitados, sequestrados por sua cadência sutil. Viramos inquilinos de nossa própria biografia.
O bailado dos termos: Entre a explosão da alma e o peso da carne
Na tempestade de ideias que precede a escrita — esse brainstorm sagrado onde as palavras caem como chuva estrelada sobre a cabeça — alguns termos se agitam, exigindo o seu lugar de direito no texto. Eles não são meros adornos; são o arcabouço, as âncoras que sustentam a leveza e a gravidade de ser:
Maravilhado e maraVida: O choque do envelhecimento é, antes de tudo, um susto estético. Estar vivo, pensante e andante aos 90 é um milagre que flerta com o neologismo. É a constatação de que a existência, apesar de suas dores, continua sendo uma explosão de espanto criativo. Uma verdadeira maraVida que se impõe contra a biologia.
Da vida é pra viver: Há um eco lírico, quase musical, que atravessa essa teimosia em permanecer feliz. É o chamado ancestral à ação, a recusa litúrgica de se recolher ao porão da história antes da hora. A vivência insiste em nos manter vivos porque a vida, afinal, é uma avenida a ser percorrida até o último acorde.
Inexorável e Inexoravelmente: A repetição do termo funciona como o tique-taque de um relógio de parede antigo. É o destino inevitável que o envelhecer traz consigo. Uma força que avança sem pedir licença, transformando o corpo biológico em algo, muitas vezes, mais pesado do que a própria alma que ele inventou.
As âncoras culturais: O diálogo com os mestres
Ninguém cruza as estradas do tempo sozinho. Para compreender o paradoxo de carregar, num mesmo peito, um jovem e um velho, um demônio e um anjo, o cronista convoca os seus pares, os arquitetos da nossa sensibilidade:
Tom Jobim e a Ofensa da Felicidade: Chegar à nona década falando, andando e pensando com lucidez é quase um ato de insurreição. O maestro soberano já advertia, com sua ironia fina, sobre as dificuldades de se destacar no cenário nacional. Manter-se "teimosamente feliz" na grande seara dos descrentes soa, inevitavelmente, como uma provocação.
Manuel Bandeira e a Concreção do Sono: A morte, esse mistério que o progressismo moderno tenta recalcar e abafar, é nossa velha conhecida. O poeta de Pasárgada nos ensinou que a experimentamos todas as noites, deitados na cama, quando fechamos os olhos e nos entregamos ao descanso. O sono é o ensaio geral, a metáfora perfeita para a transição de uma fase para outra.
A Linhagem no Espelho (Casmurra e Soturno): Ao olhar para trás, o cronista reencontra a velhice casmurra do avô — com aquele silêncio machadiano impregnado de memórias recolhidas — e o envelhecimento soturno e melancólico do amado pai. Como um "agiota do tempo", que cobrou juros da vida e viveu mais do que ambos, o autor compreende que cada homem desenha o seu próprio estilo de se despedir do palco.
Post Scriptum: A geometria do instante
Ao fechar as cortinas desta reflexão, resta o realismo nu do antropólogo que aprendeu a ler os mitos e os ritos da existência. Na velhice não há futuro ou retornos... O horizonte diminui de tamanho, as estradas de volta são bloqueadas pelas escolhas que já foram feitas, e o amanhã deixa de ser uma promessa abstrata de longo prazo.
O que sobra, então? Sobra o remédio do amor. Esse sentimento maduro que nos alegra, nos completa, nos traz prazer e compete de igual para igual com a finitude. Não há espaço para o azedume. Diante do inexorável, que a nossa alma permaneça leve, companheira de si mesma, celebrando cada curva da estrada que teimosamente ajudamos a construir.
Use o código com cuidado.
As idades do cronista: Um ensaio sobre o tempo e a memóriaÉ de se espantar, de se maravilhar e, por que não, de se assustar um pouco quando o calendário nos prega essa peça indescritível: a de nos vestir com noventa casacos de inverno e outras tantas primaveras. Olho-me no espelho desta biblioteca, cercado por fantasmas de papel que me fitam com cumplicidade, e percebo que a vida não é um acúmulo de gavetas que se fecham, mas um fluxo contínuo, uma passarela onde o passado e o presente teimam em dançar a mesma valsa.O cronista, esse eterno farejador do cotidiano, descobre aos 90 anos uma inversão gramatical e existencial avassaladora: "Aos 90, você não mais 'faz', 'chega', 'completa' ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você." Já não somos donos do tempo; somos por ele habitados, sequestrados por sua cadência sutil. Viramos inquilinos de nossa própria biografia.O bailado dos termos: Entre a explosão da alma e o peso da carneNa tempestade de ideias que precede a escrita — esse brainstorm sagrado onde as palavras caem como chuva estrelada sobre a cabeça — alguns termos se agitam, exigindo o seu lugar de direito no texto. Eles não são meros adornos; são o arcabouço, as âncoras que sustentam a leveza e a gravidade de ser:Maravilhado e maraVida: O choque do envelhecimento é, antes de tudo, um susto estético. Estar vivo, pensante e andante aos 90 é um milagre que flerta com o neologismo. É a constatação de que a existência, apesar de suas dores, continua sendo uma explosão de espanto criativo. Uma verdadeira maraVida que se impõe contra a biologia.Da vida é pra viver: Há um eco lírico, quase musical, que atravessa essa teimosia em permanecer feliz. É o chamado ancestral à ação, a recusa litúrgica de se recolher ao porão da história antes da hora. A vivência insiste em nos manter vivos porque a vida, afinal, é uma avenida a ser percorrida até o último acorde.Inexorável e Inexoravelmente: A repetição do termo funciona como o tique-taque de um relógio de parede antigo. É o destino inevitável que o envelhecer traz consigo. Uma força que avança sem pedir licença, transformando o corpo biológico em algo, muitas vezes, mais pesado do que a própria alma que ele inventou.As âncoras culturais: O diálogo com os mestresNinguém cruza as estradas do tempo sozinho. Para compreender o paradoxo de carregar, num mesmo peito, um jovem e um velho, um demônio e um anjo, o cronista convoca os seus pares, os arquitetos da nossa sensibilidade:Tom Jobim e a Ofensa da Felicidade: Chegar à nona década falando, andando e pensando com lucidez é quase um ato de insurreição. O maestro soberano já advertia, com sua ironia fina, sobre as dificuldades de se destacar no cenário nacional. Manter-se "teimosamente feliz" na grande seara dos descrentes soa, inevitavelmente, como uma provocação.Manuel Bandeira e a Concreção do Sono: A morte, esse mistério que o progressismo moderno tenta recalcar e abafar, é nossa velha conhecida. O poeta de Pasárgada nos ensinou que a experimentamos todas as noites, deitados na cama, quando fechamos os olhos e nos entregamos ao descanso. O sono é o ensaio geral, a metáfora perfeita para a transição de uma fase para outra.A Linhagem no Espelho (Casmurra e Soturno): Ao olhar para trás, o cronista reencontra a velhice casmurra do avô — com aquele silêncio machadiano impregnado de memórias recolhidas — e o envelhecimento soturno e melancólico do amado pai. Como um "agiota do tempo", que cobrou juros da vida e viveu mais do que ambos, o autor compreende que cada homem desenha o seu próprio estilo de se despedir do palco.Post Scriptum: A geometria do instanteAo fechar as cortinas desta reflexão, resta o realismo nu do antropólogo que aprendeu a ler os mitos e os ritos da existência. Na velhice não há futuro ou retornos... O horizonte diminui de tamanho, as estradas de volta são bloqueadas pelas escolhas que já foram feitas, e o amanhã deixa de ser uma promessa abstrata de longo prazo.O que sobra, então? Sobra o remédio do amor. Esse sentimento maduro que nos alegra, nos completa, nos traz prazer e compete de igual para igual com a finitude. Não há espaço para o azedume. Diante do inexorável, que a nossa alma permaneça leve, companheira de si mesma, celebrando cada curva da estrada que teimosamente ajudamos a construir.
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