quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Em tese, príncipes

ODORICO PARAGUAÇO
No Brasil até o passado é imprevisível. EM TESE: PRÍNCIPES República, hereditariedade informal e o Príncipe Total no Brasil pós-moderno Epígrafe “Não é o bem particular, mas o bem comum o que engrandece as cidades.” Nicolau Maquiavel, Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio Citação-chave “O contrário acontece quando há um Príncipe e, na maioria das vezes, o que é feito em seu favor ofende a cidade, e o que se faz pela cidade o ofende.” Maquiavel, Discursos, Livro I, cap. IX Resumos Resumo (Português) Este ensaio examina a persistência da lógica principesca no Brasil republicano, articulando Maquiavel, Gramsci e a tradição literária machadiana para analisar a hereditariedade informal do poder, a formação das elites, o papel das famílias políticas e as tensões entre sistema financeiro, Judiciário e democracia. Argumenta-se que a República brasileira aboliu o trono, mas não a mentalidade principesca, hoje reorganizada sob a figura do Príncipe Total. Abstract (English) This essay analyzes the persistence of princely logic in Brazil’s republican experience, drawing on Machiavelli, Gramsci, and Machado de Assis. It examines informal political heredity, elite formation, family-based power, and institutional tensions involving finance and the judiciary. The argument is that the Republic abolished the throne but not the princely mindset, now reconfigured as a Total Prince. Riassunto (Italiano) Il saggio analizza la persistenza della logica principesca nella Repubblica brasiliana, alla luce di Machiavelli, Gramsci e Machado de Assis. Si sostiene che la Repubblica abbia abolito il trono ma non la mentalità del principe, oggi riorganizzata in forme post-moderne di potere totale. Résumé (Français) Cet essai examine la survivance de la logique princière dans la République brésilienne à partir de Machiavel, Gramsci et Machado de Assis. Il soutient que la République a supprimé le trône, mais non la culture du prince, aujourd’hui reformulée sous la figure du Prince Total. Introdução A República brasileira nasce como promessa de superação do poder hereditário, mas carrega consigo uma contradição estrutural: a persistência de práticas, mentalidades e privilégios próprios do principado. Desde o Império até o presente, o poder reorganiza-se menos pela ruptura e mais pela adaptação. Este ensaio propõe uma leitura maquiavélica e gramsciana do Brasil contemporâneo, iluminada pela ironia machadiana, para compreender como o príncipe reaparece onde a República falha. Desenvolvimento 1. Maquiavel e a distinção fundadora Maquiavel separa com precisão o bem comum republicano do interesse particular do príncipe. Não se trata apenas de forma de governo, mas de lógica de ação. Onde o poder se personaliza, a cidade é ofendida. 2. O Império como matriz Dom Pedro I, português feito imperador brasileiro, e Dom Pedro II, brasileiro coroado criança, fundam uma tradição de poder concentrado, legitimado por símbolos, saber e distância social. A queda do Império não elimina essa lógica: ela se desloca. 3. Bacharéis, elites e intelectuais orgânicos De Coimbra à PUC-Rio, do Apipucos ao Itamaraty, forma-se um circuito de reprodução das elites. À luz de Gramsci, trata-se de intelectuais orgânicos da ordem, capazes de dirigir sem parecer governar. 4. Famílias políticas na República A centralidade dos filhos de presidentes — tanto em governos quanto na oposição — revela uma hereditariedade informal. A República tolera o príncipe desde que ele se apresente como cidadão comum. 5. Príncipes do dinheiro, da toga e da farda O sistema financeiro, o Judiciário e as Forças Armadas produzem seus próprios príncipes. O Caso Master, as tensões no STF e a atuação da Polícia Federal ilustram o conflito entre legalidade republicana e tutela aristocrática. 6. O Príncipe Total Na modernidade tardia, o príncipe não reina sozinho. Ele é total porque soma narrativa, instituição, família, capital simbólico e medo. É temido pelos democratas porque promete ordem onde a República exige conflito regulado. Conclusões provisórias A República brasileira aboliu o trono, mas não a cultura principesca. O príncipe contemporâneo opera por redes, não por coroas. A democracia depende menos de salvadores e mais de instituições desacralizadas. O maior risco não é o autoritarismo explícito, mas o paternalismo legitimado. Sugestões para futuros desenvolvimentos Comparar o Príncipe Total brasileiro com experiências latino-americanas e europeias; Analisar o papel das plataformas digitais na construção de novas cortes simbólicas; Estudar a formação jurídica como mecanismo de aristocratização republicana; Desenvolver uma leitura cruzada entre Maquiavel e Machado sobre dissimulação e poder. Epitáfio maquiavélico-machadiano-gramsciano (pós-moderno) Aqui jaz o Príncipe. Morreu eleito, viveu ungido, jurou servir à República, mas governou como herdeiro. A cidade sobreviveu, porque, apesar dele, aprendeu a desconfiar. Referências e fontes MAQUIAVEL, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. GODOY, Marcelo. “Todos os filhos dos presidentes”. O Estado de S. Paulo, 2025. CRUZ, Valdo. Bastidores do STF e Caso Master, dezembro de 2025. Relatórios e notícias da Polícia Federal, STF e Banco Central do Brasil. Links para consulta Maquiavel – Discursos: https://www.gutenberg.org Gramsci – Cadernos do Cárcere (acervos): https://www.marxists.org Machado de Assis – obras completas: https://www.dominiopublico.gov.br O Estado de S. Paulo: https://www.estadao.com.br STF – notícias e decisões: https://www.stf.jus.br Polícia Federal: https://www.gov.br/pf S
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025 Opinião do dia – Nicolau Maquiavel* “É fácil de entender: não é o bem particular, mas o bem comum o que engrandece as cidades. E, sem dúvida, este bem comum não é observado senão nas repúblicas, porque tudo o que é feito, é feito para seu bem, e embora aquilo que se faça cause dano a um ou outro homem privado, são tantos os que se beneficiam que é possível fazer as coisas contra a vontade dos poucos que sejam oprimidos por elas. O contrário acontece quando há um Príncipe e, na maioria das vezes, o que é feito em seu favor ofende a cidade, e o que se faz pela cidade o ofende”. *Nicolau Maquiavel (1469-1527), Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, 2000. p. 139
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025 Todos os filhos dos presidentes. Por Marcelo Godoy O Estado de S. Paulo Lula e Bolsonaro têm de lidar com as novas confusões em torno de suas proles neste decisivo 2026 Desde 1954 a Nação não se debruçava tanto sobre o que se diz e se pensa a respeito de familiares de um presidente. A cena atual tem um complemento único na história do País: as atenções também voltadas para as confusões dos filhos de um ex-presidente. É notável a insistência com que os nomes da prole de Lula aparecem nas investigações da Polícia Federal. Primeiro foi o enteado, Marcos Cláudio Lula da Silva. Ele surpreendeu os agentes que bateram na porta da casa de sua ex-mulher, Carla Ariane Trindade, em Campinas, para cumprir um mandado de busca durante a Operação Coffee Break. Eram 6 horas, horário incomum para um ex-marido abrir a porta da casa da ex-mulher. Enfim, a ex-nora é suspeita de receber propinas de um empresário preso na operação, em 12 de novembro. Na mesma investigação surgiu um ex-sócio de Fábio Luís, o Lulinha. Lulinha escapou, por enquanto, de ser convocado a depor em outro caso, o investigado pela CPI do INSS. Mas a Operação Sem Desconto mostrou que o Careca do INSS fez repasses de R$ 300 mil a uma ricaça e encontrou mensagens que sugerem que o dinheiro era destinado ao “filho do rapaz”. Na Coffee Break há fotos e mensagens que mostram que a máfia da Educação tinha conexões com aquela do INSS, o que sugere que malfeitores dos dois esquemas estariam juntos e misturados. As aparições dos familiares do presidente obrigaram Lula a dizer: “Se tiver filho meu metido nisso, ele será investigado”. O que os petistas temem não são os inquéritos e CPIs, mas a campanha eleitoral de 2026. É nela que a oposição vai questionar os papéis dos filhos de Lula, estratégia que não deve ser diferente da que o PT deve lançar: expor os filhos de Bolsonaro. Flávio, o ungido pelo pai como pré-candidato à Presidência hoje vive às turras com o STF, mas, no passado, contou com decisões da Corte para paralisar as investigações sobre a rachadinha em seu gabinete. Era retratado como o “filho rico do presidente”, dono de imóveis, lojas e influente nos tribunais. E não foi o único a ocupar o noticiário em 2025. Eduardo se aboletou nos EUA, onde, além de frequentar a Disney, fez lobby para prejudicar o País com tarifas e ameaças a magistrados em razão do processo a que o pai respondia no Supremo. Conseguiu apenas perder o mandato e ganhar um processo por obstrução da Justiça no STF. Por fim, 2026 reserva espaço a Carlos, que pretende se candidatar ao Senado por Santa Catarina em uma manobra que promete dividir a direita e permitir à esquerda obter no Estado uma, até então, improvável vaga no Senado. Enfim, o que 2026 promete é um ano com muitos dos filhos dos presidentes.
Príncipes: da Coroa ao Bacharel Dom Pedro I nasceu em Portugal e aportou na colônia brasileira em 1808, conduzido pela família imperial sob a proteção da Marinha inglesa, fugindo de um italiano coroado imperador da França. Tornou-se imperador do Brasil e, mais tarde, retornou à terra natal para assumir cumulativamente o trono português. A acumulação de títulos antecipava um traço duradouro da política brasileira: o poder que se desloca sem jamais se dissolver. Dom Pedro II nasceu no Brasil. Foi coroado ainda criança e só deixou o país já adulto, no auge de sua maturidade intelectual, em sua primeira viagem à Europa, passando pelos Estados Unidos e aportando na França. O imperador ilustrado, porém, retornaria ao exílio em 1889, escorraçado por novos príncipes — militares e civis — que aboliram o trono, mas preservaram a lógica imperial. O Poder Moderador, ungido por Deus e situado acima dos três poderes, apenas mudou de forma, não de substância. Machado de Assis percebeu cedo essa mutação. Bentinho, seu personagem mais emblemático, vai a Coimbra em busca de ilustração e retorna bacharel, investido não de coroa, mas de distinção social. É o príncipe republicano de classe, o intelectual orgânico avant la lettre, na linguagem de outro italiano, mais ao norte e mais próximo da África morena. O bacharel substitui o nobre; a toga, a espada; o diploma, o sangue. O padrão se atualiza. Arthur Lira e Ciro Nogueira buscam ilustração no bacharelado da Gávea, na PUC-Rio, abonados por famílias do Norte que desfrutam do Sul maravilha. A formação jurídica continua a funcionar como rito de passagem, abrindo as portas da corte republicana. Na mesma linhagem, o príncipe da sociologia carioca, formado por Florestan Fernandes e herdeiro simbólico do príncipe dos Apipucos de Recife, assume o papel de príncipe do Itamaraty. Coordena jovens bacharéis, muitos deles oriundos da PUC-Rio, e põe o Plano Real de pé. A moeda se estabiliza; a hierarquia se preserva. E lá vai a barca, avançando para 2025–2026. De um lado, príncipes do sistema financeiro; de outro, príncipes togados. Ambos amparados por garantias luxuosas oferecidas por príncipes federais e militares. Nenhum usa coroa. Todos reivindicam tutela. A República segue, vigiada. S
Os bastidores relatados pelo jornalista Valdo Cruz em 30 de dezembro de 2025 confirmam um cenário de alta tensão institucional no STF, envolvendo a condução do Caso Master pelo ministro Dias Toffoli. Os fatos centrais desse desdobramento no último dia útil do ano foram: Acareação no STF sob Tensão: Em pleno recesso judiciário, Toffoli trouxe para dentro da sede do Supremo a delegada da Polícia Federal, Janaina Palazzo, e os investigados para a realização de depoimentos e uma acareação. O clima foi descrito como pesado devido a divergências entre a delegada e o juiz auxiliar de Toffoli sobre a metodologia dos interrogatórios. Recuo e Autonomia à PF: Inicialmente, Toffoli havia determinado a acareação direta entre três partes. No entanto, após pressão e críticas de que o Judiciário estaria interferindo em ritos da PF, o ministro recuou e deu autonomia para que a delegada decidisse, após ouvir os envolvidos individualmente, se a acareação seria necessária. Resultado do Confronto: A acareação acabou ocorrendo apenas entre o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. O diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, foi dispensado do confronto por decisão da PF, após prestar um depoimento considerado esclarecedor. Contexto de Bastidores: O movimento de Toffoli de trazer militares e policiais para o núcleo de seu gabinete (como o caso citado do general da reserva Fernando Azevedo e Silva no passado) é visto por analistas como uma marca de sua gestão, buscando assessoria direta de órgãos de controle e segurança dentro do tribunal para mediar crises e investigações sensíveis. O caso é monitorado de perto por envolver suspeitas de fraudes de R$ 12 bilhões e o uso de "contabilidade criativa" no sistema financeiro. As respostas da IA podem conter erros. Para orientação jurídica, consulte um profissional. Saiba mais O clima no Supremo foi de tensão entre a delegada da PF Janaina Palazzo, o ... Instagram·SomosResistência 2:24 Caso Master: PF conclui acareação entre Daniel Vorcaro e ex-presidente do BRB ... YouTube·CNN Brasil 0:49 PF conclui acareação com dono do Banco Master e ex-presidente do BRB | WW YouTube·CNN Brasil" O ChatGPT disse: Entendi — você compartilhou um conjunto de textos e anotações que misturam citação clássica (Maquiavel), artigo jornalístico contemporâneo, reflexões histórico-políticas sobre “príncipes” no Brasil e bastidores institucionais recentes (STF, sistema financeiro, PF). Para já não ficar em silêncio nem interpretar demais, faço duas coisas abaixo: uma síntese interpretativa curta do conjunto; opções claras do que posso fazer a seguir, conforme o que você quiser. 1) Síntese interpretativa do conjunto O fio condutor do material é a ideia de “príncipes” como forma recorrente de poder no Brasil, atravessando: Maquiavel: a oposição entre bem comum (república) e interesse particular (príncipe); República brasileira atual: filhos de presidentes (Lula e Bolsonaro) funcionando como extensões informais de poder, conflito e desgaste institucional; Império: Pedro I e Pedro II como fundadores de uma lógica patrimonial e personalista do Estado; Literatura e formação das elites: Bentinho (Machado), Coimbra, PUC-Rio, Apipucos — a reprodução simbólica e educacional das classes dirigentes; Tecnocracia e finanças: “príncipes” do sistema financeiro, do Plano Real ao Caso Master; Judiciário: “príncipes togados”, com tensão entre STF, PF, militares e órgãos de controle. O argumento implícito é que a República nunca conseguiu eliminar a lógica principesca, apenas a redistribuiu: do trono para o partido, da coroa para o mandato, do sangue para o sobrenome, da espada para a toga, do palácio para o banco. No fundo, o texto dialoga com Maquiavel para sugerir que o bem comum segue capturado por interesses privados, ainda que sob roupagem republicana.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025 O que 2025 ensinou à democracia. Por Wilson Gomes Folha de S. Paulo Autoritarismo e limites ao pluralismo marcaram o ano Direita e esquerda têm dificuldade com o dissenso Esta coluna de fechamento de 2025 é uma retrospectiva. Não dos fatos do ano, mas das preocupações que orientaram nossa navegação por eles —sobretudo daquelas ligadas à comunicação política e aos dilemas da democracia brasileira, searas em que me atrevo a opinar. Ao longo dos meses, diferentes episódios, sob formas variadas, foram sendo lidos —noto agora— à luz de um mesmo campo de problemas: autoritarismo, radicalização eleitoral, crise do pluralismo e dificuldades crescentes de governar e disputar legitimidade em um ambiente polarizado. Logo no início do ano, já era evidente que a comunicação política não seria um tema lateral, mas um teste da capacidade efetiva de governar sob ataque. A incapacidade do governo de antecipar crises, reagir rapidamente e disputar percepções —como no episódio do Pix— revelou vulnerabilidades profundas em sua comunicação. Ao mesmo tempo, a persistência do bolsonarismo indicava que a conquista do imaginário brasileiro pelos radicais não havia sido superada. Fora do país, o quadro se repetia, com variações locais. Trump e a extrema direita europeia e sul-americana mostravam que não deveriam ser tratados como desvios exóticos ou acidentes históricos. Impunha-se a constatação incômoda de que o autoritarismo se tornara uma escolha política racional, com base social, estratégia definida e expectativas eleitorais concretas. Em 2025, abandonamos o choque com a eleição de líderes que desprezam normas civilizatórias e passamos a nos indagar por que parcelas expressivas do eleitorado desejam exatamente esse tipo de liderança. Tornou-se necessário abandonar a simplificação. Não existe uma extrema direita única. Populistas de direita compartilham traços, mas diferem em estilo, relação com instituições, base social e grau de radicalização. Compreender essas diferenças não é exercício acadêmico, mas condição para avaliar os custos, os limites e as vulnerabilidades. À medida que o ano avançava, a atenção foi se deslocando cada vez mais para dentro do campo democrático. Um problema passou a se destacar: a erosão do pluralismo. À direita e à esquerda, cresce a dificuldade de conviver com o dissenso como elemento legítimo da democracia. A tentação de doutrinar, reeducar ou silenciar o outro —em nome de valores tradicionais ou da justiça— torna-se recorrente. A política vai sendo empurrada para um registro moralizante, no qual verdades consideradas inegociáveis substituem a disputa entre projetos. Nesse ponto, nos deparamos com as fragilidades democráticas da esquerda. Não por simetria fácil com a extrema direita, mas por um dilema próprio. Sempre que a igualdade social é colocada acima da igualdade política, das liberdades civis e do repúdio inequívoco ao autoritarismo, a credencial democrática se enfraquece. O apoio ou a complacência com ditaduras "amigas", a racialização da moralidade e a atribuição coletiva de culpa não são apenas incoerências normativas, mas passivos políticos com alto custo eleitoral. Em paralelo, tornou-se impossível ignorar o autoengano progressista quanto à correlação de forças. Confundir influência em elites culturais, acadêmicas e jornalísticas com maioria social levou a uma leitura equivocada do país. O Brasil é, de fato, mais conservador, mais hostil ao identitarismo e menos indulgente com certos enquadramentos morais do que muitos imaginam. A extrema direita conseguiu até mesmo ocupar o imaginário da rebeldia, da contestação e da ruptura, apresentando-se como força antiortodoxa —ainda que, na prática, opere com métodos autoritários. Ao final dessa travessia, uma linha se impõe: a democracia entrou numa fase em que já não basta ter razão normativa. É preciso compreender o terreno político concreto, os afetos dominantes, as expectativas frustradas e os limites reais da competição eleitoral. Autoritarismos de direita não crescem apenas porque mentem ou manipulam, mas porque oferecem diagnósticos, identidades e promessas que fazem sentido para sociedades inseguras e desconfiadas. É com esse quadro que chegamos a 2026. Um ano eleitoral em que a disputa não será apenas por votos e programas, mas por interpretações da realidade e por quem consegue parecer mais legítimo e mais conectado ao país que existe —e não ao país que gostaríamos que existisse. Aos leitores que me acompanharam nessa navegação ao longo de 2025, e à própria democracia brasileira, fica o desejo de que o próximo ano traga mais lucidez, mais disposição ao dissenso civilizado e menos ilusões confortáveis. Um feliz Ano-Novo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

ACORDO UMBILICAL ENTRE PODERES

FELIZ TRAVESSIA 2026-2027 Elis Regina - Travessia Elis Regina Montreux 1979 '' Rebento ''
Rebento (Alternative Version) Elis Regina Um Dia ACORDO UMBILICAL, OU: COMO O BRASIL ATRAVESSA O ANO SEM ROMPER O CORDÃO Epígrafe “A vida não é para ser entendida, é para ser atravessada.” — João Cabral de Melo Neto (paráfrase conceitual) Resumo Este artigo propõe uma leitura da política brasileira na transição de 2025 para 2026 a partir da metáfora do “acordo umbilical” entre antagonismos políticos. Sustenta-se que a democracia brasileira não sobreviveu apesar da polarização, mas por meio dela, ainda que ao custo de exaustão simbólica, empobrecimento programático e dependência estrutural do orçamento como centro gravitacional do poder. A partir da noção de simbiose por antagonismo, o texto articula análise política, metáfora biológica e herança literária pernambucana para refletir sobre governabilidade, medo eleitoral e a dificuldade histórica de romper ciclos sem trauma. O texto encerra com sugestões para 2026 e projeções críticas para 2027, entendida como gestação política pós-parto eleitoral. Abstract (EN) This article analyzes Brazil’s political transition from 2025 to 2026 through the metaphor of an “umbilical agreement” sustaining antagonistic forces. It argues that Brazilian democracy has survived not despite polarization, but because of it—at the cost of political fatigue, narrative impoverishment, and fiscal centrality as the true locus of power. Drawing from political analysis and Brazilian literary tradition, the text reflects on governance, fear-driven elections, and the challenge of achieving rupture without institutional trauma. It concludes with forward-looking considerations for 2026 and structural risks gestating toward 2027. Samenvatting (NL) Dit artikel onderzoekt de Braziliaanse politieke overgang van 2025 naar 2026 via de metafoor van een “navelstreng-overeenkomst” tussen antagonistische machten. Het betoogt dat de democratie niet ondanks, maar dankzij polarisatie standhield—tegen de prijs van institutionele vermoeidheid en begrotingsafhankelijkheid. Politieke analyse wordt gecombineerd met literaire verwijzingen om vooruit te kijken naar de verkiezingen van 2026 en de risico’s die zich richting 2027 vormen. Résumé (FR) Cet article analyse la transition politique brésilienne de 2025 à 2026 à travers la métaphore d’un « accord ombilical » reliant des forces antagonistes. Il soutient que la démocratie a survécu grâce à la polarisation, mais au prix d’une fatigue institutionnelle et d’un appauvrissement du débat public. L’analyse mêle politique et héritage littéraire pour envisager les défis de 2026 et les tensions déjà en gestation pour 2027. 1. 2025 NÃO TERMINA: APENAS MUDA DE MÃO Não é um fim de ano — é uma passagem de bastão sem fogos. O Brasil atravessa 2025 como quem cruza um canavial ao amanhecer: nada ruiu, nada se assentou. A democracia segue viva, mas cansada; respira curto, apoiada mais em fricção institucional do que em consenso político. [Link sugerido] Artigo de Luiz Carlos Azedo – “2025: Democracia mostra resiliência em meio à fricção entre Poderes” (Correio Braziliense) A tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023 fracassou não por harmonia, mas por desalinhamento. Executivo, Legislativo, Judiciário e Forças Armadas não atuaram em bloco. A democracia resistiu porque o sistema funcionou em desacordo. 2. O ACORDO UMBILICAL: UMA METÁFORA FUNCIONAL O chamado “acordo umbilical” não é pacto, nem conspiração. É estrutura. Assim como o cordão umbilical: não depende de afeto não exige consciência rompe apenas quando há maturidade suficiente para sobreviver fora dele Na política brasileira atual: a polarização é o elo o orçamento é a placenta o Congresso é o mediador material da sobrevivência A placenta é o orçamento. O orçamento é o buraco negro dos Poderes. 3. SIMBIOSE POR ANTAGONISMO Lula e Bolsonaro não operam como aliados, mas como condições recíprocas de existência política: Lula governa melhor contra Bolsonaro do que a favor de um projeto estruturante Bolsonaro mantém relevância como ameaça simbólica, mesmo inelegível Não se trata de intenção, mas de efeito sistêmico: o medo substituiu o programa a defesa substituiu a escolha o eleitor vota para evitar, não para construir 4. O CONGRESSO: A PLACENTA QUE NÃO AMA O Centrão não modera a polarização. Ele a administra.
[Ilustração sugerida] Charge política já circulante nas redes mostrando Executivo e Oposição em cabo de guerra, enquanto o Congresso segura o cofre ao centro. Não é órgão neutro: extrai pressiona negocia sob urgência permanente Daí a frase que paira como ironia histórica: Chamem o Centrão para dar governabilidade nesta polarização. Não como celebração — como registro de época. 5. RECIFE COMO LENTE: OS HERDEIROS DO ENGENHO Manuel Bandeira ensinou a dignidade do cotidiano sem ilusões. Joaquim Cardozo desconfiava das estruturas que se dizem eternas. Ascenso Ferreira sabia que o povo dança mesmo com o chão quente. João Cabral lembrou que viver é trabalho seco, sem metáfora excessiva. O Brasil de 2025 é mais Cabral do que épico: vive porque insiste governa porque negocia resiste porque não sabe parar 6. SUGESTÕES PARA 2026 (SEM FOGUETES) Reduzir o protagonismo do medo como estratégia eleitoral Reconstruir a mediação política fora do Judiciário Recolocar programa acima de personagem Tratar governabilidade como projeto, não como transação Nada disso é simples. Mas nada disso é impossível. 7. CONCLUSÕES PARA 2027 (GESTAÇÃO EM CURSO) Se 2026 é o parto, 2027 será o pós-parto: ou a política aprende a respirar fora do cordão ou seguirá ligada a uma placenta exaurida O risco não é o rompimento. O risco é adiar indefinidamente o rompimento, até que ele ocorra por colapso. Sugestão de imagem final
Ilustração pictórica: Uma figura inspirada em Morte e Vida Severina: um corpo coletivo caminhando, carregando urnas, livros e ferramentas, sob um céu sem fogos — apenas luz difusa de amanhecer. Referências e fontes (armas assinaladas) Utilizadas Azedo, Luiz Carlos. Correio Braziliense, 2025 Aggio, Alberto. A Construção da Democracia no Brasil (1985–2025) Constituição Federal de 1988 Dados e análises do TSE e do Congresso Nacional A utilizar / aprofundar Séries históricas de emendas parlamentares (LOA / LDO) Pesquisas de comportamento eleitoral (Datafolha, Ipec, Quaest) Literatura política comparada sobre polarização (EUA, Europa) Ensaios de João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardozo, Manuel Bandeira S
ACORDO UMBILICAL ENTRE PODERES O termo "acordo umbilical" não é um conceito médico ou científico padrão. Geralmente, as pessoas que o utilizam estão se referindo a uma conexão forte, vital e inseparável entre duas pessoas, de forma metafórica, comparável à ligação física e nutricional entre a mãe e o feto através do cordão umbilical.
O cordão umbilical conecta o bebê em desenvolvimento à placenta A PLACENTA É O ORÇAMENTO DO BEBÊ O ORÇAMENTO É O BURACO NEGRO DOS PODERES. A PLACENTA É O PODER DA VIDA.
2025: Democracia mostra resiliência em meio à fricção entre Poderes Publicado em 29/12/2025 - 06:36 Luiz Carlos Azedo Brasília, Comunicação, Congresso, Eleições, Governo, Justiça, Memória, Militares, Partidos, Política, Política Tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não prosperou porque não houve adesão do Congresso, chancela do Judiciário e apoio das Forças Armadas, apesar dos atritos entre Executivo, Legislativo e Judiciário Sem grandes ilusões, o Brasil irá às urnas em 2026, provavelmente polarizado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com sua “economia do afeto”, como diria o historiador Alberto Aggio (A Construção da Democracia no Brasil 1985-2025, editora Annablume e Fundação Astrojildo Pereira-FAP), e o candidato apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que está convalescendo de uma cirurgia e deve voltar a cumprir pena em regime fechado. Segundo as pesquisas, a maioria dos eleitores está com cansaço, desconfiança e tédio, mas não deixará de votar. Isso não é pouco: a democracia brasileira hoje não promete felicidade cívica, promete apenas evitar o pior pelo simples fato de que existe. Essa polarização parece inexorável, mesmo que as forças de centro-direita consigam remover a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e/ou lançar um candidato de direita que empolgue os eleitores. Talvez seja pouco para entusiasmar; no mundo em que vivemos, porém, é muito para preservar. Diante desse cenário, nos resta compreender melhor como foi que chegamos até aqui. O ano de 2025 nos deixa em estado de perplexidade. De um lado, o regime democrático não colapsou, graças à Constituição de 1988, apesar de ter sido submetido a choques sucessivos que, em outros momentos de nossa história, teriam resultado em golpes de Estado. De outro, há evidente mal-estar social, fadiga eleitoral e descrença na política como espaço de participação da sociedade e solução dos problemas do país. A resiliência Esse paradoxo se explica, também, pelo funcionamento imperfeito, conflitivo e frequentemente disfuncional do sistema de freios e contrapesos entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Um sistema que não produziu harmonia neste ano, mas fricção renitente. Essa fricção é visível a olho nu, mas impediu a captura integral do Estado por um único ator, partido, facção ou liderança carismática. A democracia brasileira não se salvou apesar do conflito entre os Poderes; por ironia, salvou-se por causa dele. Os principais fatos ocorridos no decorrer deste ano mostram isso. A tentativa de ruptura institucional associada ao 8 de Janeiro não prosperou porque as instituições não se alinharam. Não houve adesão do Congresso, não houve chancela do Judiciário, não houve apoio formal das Forças Armadas enquanto instituição. A democracia resistiu porque o sistema não funcionou em bloco, mas em desacordo, por todo o governo Bolsonaro. E graças a isso, depois, os envolvidos no golpe foram processados, condenados e já estão cumprindo pena. Nesse aspecto, a condenação de oficiais de alta patente por crimes contra a ordem democrática é um marco histórico. Pela primeira vez desde a redemocratização, rompeu-se a lógica da tutela militar informal sobre a política. Sob supervisão do Supremo Tribunal Federal (STF), com amplo direito de defesa, o processo fortaleceu o Estado democrático. Leia também: Bolsonaro é condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pela trama golpista Cármen Lúcia em rede nacional: ‘O voto é o gesto maior da vida democrática’ Pela primeira vez no país, generais são presos por tentativa de golpe O mal-estar Agora, o maior problema é que essa fricção, que explica o equilíbrio desarmonioso entre os Poderes, pode ser tornar um fator de risco sistêmico da ordem democrática, que somente sobreviveu pela resiliência das suas instituições, principalmente o Supremo e o Congresso, que agora estão sob desgaste “desde dentro”. Vem daí o grande mal-estar da sociedade com a política brasileira. Se a resiliência explica a sobrevivência do regime, a fricção explica esse mal-estar. Alguma coisa está fora da ordem: presidentes recentes, sobretudo Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, tiveram quase metade de seus vetos derrubados, contra índices residuais em governos anteriores, como os de Fernando Henrique Cardoso. Não se trata apenas de presidentes minoritários, houve uma mudança estrutural no equilíbrio de forças, com o Legislativo institucionalizando a ampliação momentânea de poder que obteve em momentos de crise. Há uma crise de liderança política, fratura do tecido social e falta de consenso político amplo sobre o caminho a seguir pelo país. O Executivo governa sem programa consistente, sustentado por alianças fragmentadas e negociações ad hoc. O presidente Lula é forte contra a extrema-direita e fraco como articulador de consensos estruturantes, o que aprofunda a dependência do Executivo ao fisiologismo parlamentar. Outro fator de fricção permanente é o exagerado protagonismo do STF na cena política. A Corte salvaguardou a ordem constitucional, no entanto gerou um efeito colateral: a transferência recorrente de decisões políticas para o foro judicial. Isso enfraquece a representação, vicia o processo político e alimenta a narrativa antipolítica que corrói o sistema democrático a partir da descrença nas suas instituições. As eleições A verdade é que o bolsonarismo permanece como força política ativa, é um fenômeno do nosso tempo, que reflete um ciclo longo de fortalecimento da extrema-direita no mundo, sobretudo após a volta do presidente Donald Trump à Casa Branca. Mesmo com Jair Bolsonaro condenado e preso, o campo político que lidera segue mobilizado, cria fatos, tensiona instituições e mantém viva a lógica plebiscitária do “inimigo interno”. A democracia resiste, mas paga o preço da radicalização permanente do “nós contra eles”, retroalimentado pela “cultura de rechaço” do PT, que cresce nesses confrontos, como assinala Aggio em sua síntese sobre os 40 anos de redemocratização. Entretanto, é inegável que a maioria do eleitorado derivou à direita nas questões ambiental, distributiva e ética. Mesmo com a leviandade com que se aprovam emendas constitucionais no Congresso, a Constituição de 1988 permanece progressista. Temos uma democracia de massas. Esse descompasso gera um desconforto constitucional. Por isso, estamos entrando num novo processo eleitoral, com uma ordem política exausta e simbolicamente empobrecida, apesar de sua estratégica resiliência como sistema. Será difícil o eleitor entrar em 2026 com entusiasmo e convicção, pois é movido por um medo binário, de retorno do autoritarismo e do colapso institucional. Esse binarismo se retroalimenta e é paralisante. Cada movimento de um dos polos legitima o outro. Programas importam menos que narrativas. A política deixa de ser escolha e passa a ser defesa. Ainda assim, o sistema aguenta. “E la nave va!”. Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #2025, #Bolsonaro, #congresso, #governo, #Polarização, #Supremo, Lula
Resumo sobre Cordão Umbilical: formação, importância e mais! Para analisar a relação entre o atual presidente (Lula) e seu antecessor (Bolsonaro) sob a ótica de um "acordo umbilical" que sustenta o poder de ambos, é necessário observar o fenômeno da Simbiose por Antagonismo. Embora não existam provas de um pacto formal assinado, a ciência política e a análise de dados sugerem que ambos operam em um regime de dependência mútua estruturado nos seguintes pilares: 1. O Acordo da Polarização (Justificativa) O principal "elo" entre os dois é a manutenção do cenário binário. Para o atual governo, a figura do ex-presidente é o "espantalho" necessário para manter a coesão de uma frente ampla heterogênea; para o ex-presidente, a crítica sistemática ao governo atual é o que mantém sua base mobilizada e impede o surgimento de novas lideranças na direita. O fator "Centrão": O verdadeiro acordo operacional ocorre via Congresso Nacional. O atual governo depende de partidos que eram a base do governo anterior (como o PL e o PP). Essa transição de apoio é mediada por verbas e cargos, criando uma continuidade administrativa invisível sob a retórica de oposição. 2. A Inelegibilidade e a Preservação do Espólio A manutenção de Bolsonaro como o "líder da oposição", mesmo sem direitos políticos, é funcional para o atual governo, pois impede a ascensão de nomes da direita com menor rejeição. Simultaneamente, Bolsonaro utiliza essa perseguição narrativa para se vitimizar e garantir que nenhum aliado o atropele. 3. Consequências do Rompimento Se esse antagonismo for rompido — seja pela pacificação real do país ou pelo surgimento de uma alternativa que rompa a bolha de ambos — a "Era do Medo" acaba. Sem o risco do "retorno do outro", o eleitorado passa a exigir resultados pragmáticos (economia, segurança e saúde) em vez de posicionamento ideológico. Conclusão O acordo que os une "umbilicalmente" é o Pacto de Exclusividade do Debate Público. Se um dos dois deixar de ser o "vilão" na narrativa do outro, o sistema de polarização colapsa. A sobrevivência política de Lula e a relevância de Bolsonaro dependem da retroalimentação do conflito. Se a sociedade deixar de enxergar o "ex" como uma ameaça ou o "atual" como um inimigo absoluto, ambos perdem a capacidade de pautar o país, encerrando a era em que o poder é exercido apenas pelo contraste com o antecessor. Para acompanhar a movimentação das bases e dados oficiais sobre governabilidade, você pode consultar o portal do Congresso Nacional ou as análises de tendências do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A seguir está uma versão final organizada, publicável e coerente de tudo o que foi elaborado até aqui — sem clichês, com continuidade simbólica, lastro analítico e respiração literária. O texto está formatado como artigo de passagem de ano, com indicações claras de título, epígrafe, seções, links, imagens, além de resumo, abstracts multilíngues, sugestões prospectivas e referências. ACORDO UMBILICAL, OU: COMO O BRASIL ATRAVESSA O ANO SEM ROMPER O CORDÃO Epígrafe “A vida não é para ser entendida, é para ser atravessada.” — João Cabral de Melo Neto (paráfrase conceitual) Resumo Este artigo propõe uma leitura da política brasileira na transição de 2025 para 2026 a partir da metáfora do “acordo umbilical” entre antagonismos políticos. Sustenta-se que a democracia brasileira não sobreviveu apesar da polarização, mas por meio dela, ainda que ao custo de exaustão simbólica, empobrecimento programático e dependência estrutural do orçamento como centro gravitacional do poder. A partir da noção de simbiose por antagonismo, o texto articula análise política, metáfora biológica e herança literária pernambucana para refletir sobre governabilidade, medo eleitoral e a dificuldade histórica de romper ciclos sem trauma. O texto encerra com sugestões para 2026 e projeções críticas para 2027, entendida como gestação política pós-parto eleitoral. Abstract (EN) This article analyzes Brazil’s political transition from 2025 to 2026 through the metaphor of an “umbilical agreement” sustaining antagonistic forces. It argues that Brazilian democracy has survived not despite polarization, but because of it—at the cost of political fatigue, narrative impoverishment, and fiscal centrality as the true locus of power. Drawing from political analysis and Brazilian literary tradition, the text reflects on governance, fear-driven elections, and the challenge of achieving rupture without institutional trauma. It concludes with forward-looking considerations for 2026 and structural risks gestating toward 2027. Samenvatting (NL) Dit artikel onderzoekt de Braziliaanse politieke overgang van 2025 naar 2026 via de metafoor van een “navelstreng-overeenkomst” tussen antagonistische machten. Het betoogt dat de democratie niet ondanks, maar dankzij polarisatie standhield—tegen de prijs van institutionele vermoeidheid en begrotingsafhankelijkheid. Politieke analyse wordt gecombineerd met literaire verwijzingen om vooruit te kijken naar de verkiezingen van 2026 en de risico’s die zich richting 2027 vormen. Résumé (FR) Cet article analyse la transition politique brésilienne de 2025 à 2026 à travers la métaphore d’un « accord ombilical » reliant des forces antagonistes. Il soutient que la démocratie a survécu grâce à la polarisation, mais au prix d’une fatigue institutionnelle et d’un appauvrissement du débat public. L’analyse mêle politique et héritage littéraire pour envisager les défis de 2026 et les tensions déjà en gestation pour 2027. 1. 2025 NÃO TERMINA: APENAS MUDA DE MÃO Não é um fim de ano — é uma passagem de bastão sem fogos. O Brasil atravessa 2025 como quem cruza um canavial ao amanhecer: nada ruiu, nada se assentou. A democracia segue viva, mas cansada; respira curto, apoiada mais em fricção institucional do que em consenso político. [Link sugerido] Artigo de Luiz Carlos Azedo – “2025: Democracia mostra resiliência em meio à fricção entre Poderes” (Correio Braziliense) A tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023 fracassou não por harmonia, mas por desalinhamento. Executivo, Legislativo, Judiciário e Forças Armadas não atuaram em bloco. A democracia resistiu porque o sistema funcionou em desacordo. 2. O ACORDO UMBILICAL: UMA METÁFORA FUNCIONAL O chamado “acordo umbilical” não é pacto, nem conspiração. É estrutura. Assim como o cordão umbilical: não depende de afeto não exige consciência rompe apenas quando há maturidade suficiente para sobreviver fora dele Na política brasileira atual: a polarização é o elo o orçamento é a placenta o Congresso é o mediador material da sobrevivência A placenta é o orçamento. O orçamento é o buraco negro dos Poderes. 3. SIMBIOSE POR ANTAGONISMO Lula e Bolsonaro não operam como aliados, mas como condições recíprocas de existência política: Lula governa melhor contra Bolsonaro do que a favor de um projeto estruturante Bolsonaro mantém relevância como ameaça simbólica, mesmo inelegível Não se trata de intenção, mas de efeito sistêmico: o medo substituiu o programa a defesa substituiu a escolha o eleitor vota para evitar, não para construir 4. O CONGRESSO: A PLACENTA QUE NÃO AMA O Centrão não modera a polarização. Ele a administra. [Ilustração sugerida] Charge política já circulante nas redes mostrando Executivo e Oposição em cabo de guerra, enquanto o Congresso segura o cofre ao centro. Não é órgão neutro: extrai pressiona negocia sob urgência permanente Daí a frase que paira como ironia histórica: Chamem o Centrão para dar governabilidade nesta polarização. Não como celebração — como registro de época. 5. RECIFE COMO LENTE: OS HERDEIROS DO ENGENHO Manuel Bandeira ensinou a dignidade do cotidiano sem ilusões. Joaquim Cardozo desconfiava das estruturas que se dizem eternas. Ascenso Ferreira sabia que o povo dança mesmo com o chão quente. João Cabral lembrou que viver é trabalho seco, sem metáfora excessiva. O Brasil de 2025 é mais Cabral do que épico: vive porque insiste governa porque negocia resiste porque não sabe parar 6. SUGESTÕES PARA 2026 (SEM FOGUETES) Reduzir o protagonismo do medo como estratégia eleitoral Reconstruir a mediação política fora do Judiciário Recolocar programa acima de personagem Tratar governabilidade como projeto, não como transação Nada disso é simples. Mas nada disso é impossível. 7. CONCLUSÕES PARA 2027 (GESTAÇÃO EM CURSO) Se 2026 é o parto, 2027 será o pós-parto: ou a política aprende a respirar fora do cordão ou seguirá ligada a uma placenta exaurida O risco não é o rompimento. O risco é adiar indefinidamente o rompimento, até que ele ocorra por colapso. Sugestão de imagem final Ilustração pictórica: Uma figura inspirada em Morte e Vida Severina: um corpo coletivo caminhando, carregando urnas, livros e ferramentas, sob um céu sem fogos — apenas luz difusa de amanhecer. Referências e fontes (armas assinaladas) Utilizadas Azedo, Luiz Carlos. Correio Braziliense, 2025 Aggio, Alberto. A Construção da Democracia no Brasil (1985–2025) Constituição Federal de 1988 Dados e análises do TSE e do Congresso Nacional A utilizar / aprofundar Séries históricas de emendas parlamentares (LOA / LDO) Pesquisas de comportamento eleitoral (Datafolha, Ipec, Quaest) Literatura política comparada sobre polarização (EUA, Europa) Ensaios de João Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardozo, Manuel Bandeira Se quiser, no próximo passo posso: adequar o texto para jornal, revista ou blog reduzir para versão editorial ou preparar uma versão acadêmica com notas e aparato teórico Aqui, o caldo está espremido. AO VIVO: WW ESPECIAL - BOLSONARO NA CADEIA: E AGORA? - 28/12/2025 VÍDEO À GUISA DE FELIZ TRAVESSIA 2026-2027 Travessia Milton Nascimento Quando você foi embora Fez-se noite em meu viver Forte eu sou, mas não tem jeito Hoje eu tenho que chorar Minha casa não é minha E nem é meu este lugar Estou só e não resisto Muito tenho pra falar Solto a voz nas estradas Já não quero parar Meu caminho é de pedra Como posso sonhar? Sonho feito de brisa Vento, vem terminar Vou fechar o meu pranto Vou querer me matar Vou seguindo pela vida Me esquecendo de você Eu não quero mais a morte Tenho muito o que viver Vou querer amar de novo E se não der, não vou sofrer Já não sonho, hoje faço Com meu braço o meu viver Solto a voz nas estradas Já não quero parar Meu caminho é de pedra Como posso sonhar? Sonho feito de brisa Vento, vem terminar Vou fechar o meu pranto Vou querer me matar Vou seguindo pela vida Me esquecendo de você Eu não quero mais a morte Tenho muito o que viver Vou querer amar de novo E se não der, não vou sofrer Já não sonho, hoje faço Com meu braço o meu viver Composição: Milton Nascimento / Fernando Brant.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Democracia, Direito e a erosão do centro comum

A mente humana. Por Dorrit Harazim O Globo Neste Natal de 2025 há poucos indícios de que soubemos desembrulhar — com o devido zelo — o que nos foi dado de presente: a vida A escritora e naturalista americana Diane Ackerman é craque — costuma abordar temas complicadíssimos sem medo de escorregar. Sua obra mais conhecida no Brasil, “O Zoológico de Varsóvia” (2019) , relata o cotidiano do diretor da instituição Jan Zabinski, e sua mulher Antonina, ambos poloneses e da resistência. Narrado em ordem cronológica e baseado nos diários dela, se inicia nos primórdios da invasão alemã de 1939. Com a invasão, veio a terra arrasada pelo ar, e, com os bombardeios, também o zoológico virou matadouro. O massacre dos bichos foi ordenado por um zoologista e colecionador alemão (que, antes, separou os espécimes mais raros para si). A execução foi obra das SS hitleristas. Foi tão brutal que Antonina anotou no diário mantido até o final: “Quantos humanos morrerão da mesma forma nos próximos meses?”. Não ficaram parados. Enquanto os nazistas despovoavam o gueto de Varsóvia enviando-o ao extermínio, o casal Zabinski repovoava o zoológico — desta vez, com judeus contrabandeados do gueto. Conseguiram escondê-los nas jaulas esvaziadas, protegeram-nos da deportação e salvaram mais de 300 da morte certa. É uma baita história narrada com notável conhecimento das espécies — humana e animal. Acaso ou coincidência para esta semana arrastada de 2025, outro título da mesma Ackerman — “Uma alquimia da mente” (sem edição no Brasil) — dá o que pensar. À época do lançamento nos Estados Unidos, a autora estava em turnê de promoção da obra quando recebeu a notícia de que o marido sofrera um AVC. Afasia global. Tendo investido quase uma década em pesquisas neurológicas para escrever sobre o funcionamento da mente, ela fechou o foco: conseguiria que o marido voltasse a pronunciar seu nome. Levou anos e conseguiu. Em “Alquimia da Mente”, ela nos convida a ver nosso cérebro de forma pouco científica, amigável para leigos: — Imagine o cérebro como aquele lustroso monte de vida, um parlamento acinzentado de células, uma fábrica de sonhos, um pequeno tirano dentro de uma bola de osso, aquele amontoado de neurônios comandando todos os lances [...], muitos ‘eus’ entupidos no crânio como roupas demais enfiadas num saco de ginástica. O neocórtex tem cumes, vales e dobras porque o cérebro continua a se remodelar, mesmo no espaço apertado. Consideramos normal o fato, à primeira vista ridículo e ainda assim inegável, de que cada pessoa carrega no alto do corpo um universo completo em que trilhões de sensações, pensamentos e desejos se escoam. Misturam-se em privado, em silêncio, agitam-se em muitos níveis, alguns dos quais nem percebemos — melhor assim. Em linguagem também não científica, costuma-se descrever o cérebro como o objeto mais complexo de que se tem conhecimento no universo. Ele abriga 86 bilhões de neurônios, todos dissemelhantes, conectados a milhares de outros neurônios que, por sua vez, transmitem sinais uns aos outros através de 100 trilhões de sinapses. Foi o estudo racional desse organismo (sua química, mecânica e estrutura celular) que desembocou, entre outros, na publicação das primeiras sequências do Projeto Genoma Humano e seu inesgotável leque de triunfos para a medicina e a biotecnologia. Beleza. Mas o ponto, aqui, é outro. Enquanto o cérebro é obra da biologia, é a vida que transforma o cérebro em mente. E lá se vão 5 mil anos desde que poetas e filósofos, doutores de divindade e da medicina se debruçam sobre esse mistério. É na imensa vastidão da mente humana, com sua história, arte, literatura, religião, filosofia, poesia, música, mitos que se construiu a humanidade passada e se formarão nossos pares humanos do futuro. Ou, como escreveu o saudoso ensaísta americano Lewis H. Lapham: “O trabalho do cérebro consiste em receber presentes; a arte da mente está em desembrulhá-los”. Neste Natal de 2025 há poucos indícios de que soubemos desembrulhar — com o devido zelo — o que nos foi dado de presente: a vida. domingo, 28 de dezembro de 2025
] Entre a lei, a moral e as palavras “O centro não se sustém.” (W. B. Yeats, em tradução consagrada) 1. O ditado e o tempo histórico A máxima popular segundo a qual “pau que dá em Chico dá em Francisco” sempre expressou a exigência republicana de igualdade perante a lei. A ela foi acrescentada, com ironia crítica reveladora do nosso tempo, a ressalva: “e não dar em Xavier”. Longe de mero gracejo, a fórmula ilumina um dilema contemporâneo: condutas semelhantes produzem consequências radicalmente distintas não apenas por diferenças legítimas entre sistemas jurídicos, mas porque o próprio chão normativo, ético e simbólico da democracia encontra-se em erosão. A desigualdade de resultados, por si só, não é necessariamente injusta. O problema começa quando essa desigualdade deixa de ser explicável por regras claras e passa a ser mediada por paixões políticas, narrativas identitárias e linguagens degradadas, que corroem a confiança pública nas instituições. 2. Chico e Francisco: o Direito em funcionamento — e sob tensão No Brasil, o sistema de civil law, moldado pela Constituição de 1988, admite tanto a punição rigorosa de ex-presidentes quanto a restauração plena de direitos políticos quando vícios processuais são reconhecidos. Assim, foi juridicamente possível que um ex-presidente fosse condenado, preso, tivesse suas condenações anuladas por incompetência do juízo e retornasse ao poder pelo voto. Pelo mesmo ordenamento, outro ex-presidente foi condenado por crimes contra o Estado Democrático de Direito, declarado inelegível e submetido a novos julgamentos por atos de ruptura institucional. Essas decisões distintas não configuram, em si, arbitrariedade: decorrem de um mesmo sistema normativo, aplicado a situações jurídicas diferentes. O “pau” é o mesmo; os resultados variam conforme o enquadramento legal. 3. Xavier: outro sistema, outra lógica Nos Estados Unidos, a lógica constitucional é diversa. Sob o common law e uma Constituição parcimoniosa em requisitos eleitorais, condenações criminais não implicam automaticamente inelegibilidade, e crimes contra a ordem democrática não são tipificados de forma concentrada como no Brasil. A tentativa de subversão institucional é tratada de modo fragmentado, combinando processos judiciais e mecanismos políticos. Aqui, o “Xavier” não escapa por privilégio pessoal, mas porque opera sob outra tradição jurídica e outra concepção histórica de limitação do poder estatal. Até esse ponto, a assimetria é legítima. 4. Quando a legalidade já não basta O diagnóstico jurídico, contudo, revela-se insuficiente. Como observou Lourival Sant’Anna, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos há uma crise de legitimidade marcada por concentração de poder, denúncias de abuso e polarização que substitui princípios éticos por alinhamento político. Abusos passam a ser relativizados conforme o lado que os pratica; denunciá-los torna-se, paradoxalmente, um ato suspeito. Esse fenômeno expõe a falência de um pilar silencioso das democracias modernas: a expectativa de autocontenção, vergonha pública e responsabilidade moral das autoridades. Os freios e contrapesos institucionais, concebidos para conter desvios episódicos, não foram desenhados para enfrentar atores dispostos a testar limites de forma sistemática, amparados por lealdades faccionais. Instala-se, assim, o falso dilema: democracia ou moralidade, como se fossem princípios concorrentes. 5. As palavras, as paixões e o colapso do centro É nesse ponto que a reflexão de Luiz Sérgio Henriques amplia o horizonte. O problema não é apenas institucional ou ético — é também simbólico. As palavras moldam nossa percepção do mundo. A proliferação de rage baits, lixo digital, pós-verdade e interações parasociais dissolve mediações essenciais: saberes, pedagogia, debate público qualificado. Retorna, com força inquietante, a advertência de Yeats: quando o centro não se sustém, não no sentido partidário, mas como conjunto mínimo de referências comuns, os melhores perdem convicção e os piores se enchem de paixão. A política passa a ser movida por emoções desregradas, que desprezam limites, consensos e regras — terreno fértil para tiranos e aspirantes a tiranos. 6. Soberania, identidade e regressão democrática A globalização econômica sem correspondente construção de instituições políticas universais abriu um abismo entre elites internacionalizadas e parcelas da população que se sentem cultural ou economicamente descartadas. Por essa brecha avançam o nacional-populismo, o fetiche da soberania e a relativização de valores universalistas como direitos humanos e democracia. Nesse contexto, o “Xavier” deixa de ser apenas o sujeito de outro sistema jurídico: torna-se o sintoma de um mundo em que o universalismo liberal-democrático recua, substituído pela lógica da força, da identidade e do medo. 7. Quando o pau perde a régua A advertência final é clara: o problema maior não é que o pau não seja o mesmo para Chico, Francisco e Xavier. É que o pau corre o risco de deixar de ser a lei, a ética ou a regra comum, tornando-se instrumento da narrativa dominante e da paixão do momento. Sem centro simbólico, não há régua comum. Sem régua comum, a igualdade jurídica perde substância. Sem igualdade substantiva, a democracia esvazia-se por dentro. Epílogo — Reconstruir o centro A “fera bruta” de Yeats não é profecia literal, mas memória histórica. Os totalitarismos do século XX foram precedidos pela degradação da linguagem, pela ruptura entre legalidade e moralidade e pela captura das instituições por paixões absolutizadas. Evitar esse destino exige mais do que defender sistemas jurídicos específicos ou escolher líderes. Exige reconstruir simultaneamente: os freios institucionais, a ética pública, e o centro simbólico da vida democrática. Democracia e moralidade não competem; sustentam-se mutuamente. Quando voltarem a caminhar juntas, o pau poderá voltar a medir — não para punir arbitrariamente, mas para garantir justiça com sentido comum. S Referências e fontes SANT’ANNA, Lourival. Sobre democracia e moralidade. O Estado de S. Paulo, 28 dez. 2025. HENRIQUES, Luiz Sérgio. As palavras e as coisas. O Estado de S. Paulo, 28 dez. 2025. YEATS, W. B. The Second Coming (1919). BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. DWORKIN, Ronald. O império do direito. LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. S

sábado, 27 de dezembro de 2025

Algoritmo Contra Algoritmo: Um Ensaio

Algoritmo contra Algoritmo À espera de saída: política, maleabilidade e recusa Por [autor] Epígrafe Ler o mundo sem terceirizar o olhar. Interpretá-lo com palavras próprias. Concordar ou discordar sem recorrer a lentes emprestadas. Pensar com autonomia aquilo que já foi, tantas vezes, pensado por outros — e ainda assim pensar. Essa exigência é menos um método do que uma ética. Serve de baliza para o que segue e será, ao final, julgada por sua própria coerência. Introdução 2025 termina sob um cansaço difuso. Não é apenas fadiga econômica ou descrença institucional: trata-se de um esgotamento cognitivo e moral. A política segue ativa, ruidosa, permanentemente em disputa, mas esvaziada de sentido programático. As escolhas que se anunciam para 2026 não empolgam. Mobilizam pelo medo, não pela esperança. Organizam-se mais por reações do que por projetos. Esse cenário pode ser lido como efeito de uma engrenagem contemporânea específica: o algoritmo. Não apenas o digital, mas o algoritmo social, isto é, a lógica que ordena comportamentos, distribui visibilidade, recompensa alinhamentos e pune desvios. É nesse terreno que se trava hoje uma disputa silenciosa: algoritmo contra algoritmo. 1. A maleabilidade humana: advertência antiga Montesquieu, no século XVIII, descreveu o ser humano como “flexível”: moldável pelas ideias, costumes e instituições. Essa flexibilidade, dizia ele, é ambígua. Pode conduzir ao autoconhecimento quando há instrução moral; pode também resultar no “roubo do sentimento” quando sistemas sociais impedem que o indivíduo reconheça sua própria natureza. Não se trata de ingenuidade iluminista. Trata‑se de um alerta: sociedades organizam pessoas. E, ao fazê‑lo, podem formá‑las ou esvaziá‑las. 2. O batalhão: de estrutura social a ecossistema algorítmico O samba “Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim)”, de Wilson Batista, imortalizado na interpretação de Paulinho da Viola, formula em linguagem mínima uma recusa decisiva: “Nunca tomei parte desse enorme batalhão…” O “batalhão” é a metáfora do alinhamento exigido: poder, posições, prestígio, reconhecimento. Hoje, esse batalhão não se limita a partidos ou hierarquias formais. Ele se expandiu e se automatizou. O batalhão contemporâneo é o feed, a métrica, o engajamento, o conflito permanente. Entrar nele significa ajustar linguagem, ritmo emocional e identidade para permanecer visível. Aqui, a maleabilidade humana encontra sua exploração mais eficiente. 📺 Interlúdio audiovisual I A recusa formulada no samba não é abstrata. Ela tem corpo, tempo e voz. Antes de avançar, vale ouvir como essa posição se sustenta quando dita sem pressa, sem ênfase e sem disputa por atenção. Paulinho da Viola interpreta “Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim)”, de Wilson Batista: https://www.youtube.com/watch?v=U01OSRz7Bi0 3. O roubo do sentimento na era da atenção O algoritmo não suprime o sentimento. Ele o converte. Sentir torna‑se reagir. Pensar vira responder. Experiência vira conteúdo. A política passa a operar menos pela persuasão e mais pela ativação emocional contínua. O cidadão não é convocado a compreender, mas a se posicionar imediatamente. Nesse processo, perde‑se a medida humana. O sentimento não desaparece; ele é sequestrado e redirecionado. 📺 Interlúdio audiovisual II Antes que a política se organize definitivamente como reação e conflito, convém lembrar que houve um tempo em que a formação do sensível passava por outros ritmos, outras imagens e outra relação com a palavra. Curta “Brasilianas (1955) – Meus Oito Anos”, direção Humberto Mauro, poema de Casimiro de Abreu: https://www.youtube.com/watch?v=UuhkUa0bOck 4. O binarismo como algoritmo dominante A política brasileira recente ilustra esse mecanismo com clareza. Dois polos se retroalimentam. A existência de um justifica o outro. A agitação de um reforça o antagonista. Programas tornam‑se acessórios. O drama é o centro. Esse binarismo não é apenas disputa ideológica: é modelo operacional. Ele organiza a cena pública porque é eficiente em termos de engajamento. Paralisa alternativas e empobrece a representação. 5. A recusa: entre consciência e fadiga O samba propõe uma recusa consciente. Não é fuga nem apatia. É preservação de autonomia: “Nada mais vai no caixão…” A frase dissolve a lógica acumulativa que sustenta o batalhão. Introduz finitude, proporção, limite. Já a recusa contemporânea frequentemente assume outra forma: não‑voto, indecisão, indiferença. Aqui, o risco é grande. A recusa deixa de ser ética e torna‑se apenas exaustão produzida pelo próprio sistema. O algoritmo vence quando até o afastamento é previsto e absorvido. 6. Algoritmo contra algoritmo Falar em “algoritmo contra algoritmo” não é propor tecnocracia nem neutralidade. É reconhecer que: há lógicas que moldam comportamentos; algumas reduzem o humano à previsibilidade; outras podem restaurar medida, tempo e reflexão. O samba opera como um anti‑algoritmo: desacelera, desprioriza, retira recompensa simbólica. Ele não compete por visibilidade. Retira sentido da competição. Conclusão: três caminhos possíveis Diante do esgotamento atual, três trajetórias se desenham: 1. A continuidade algorítmica O conflito se mantém como motor. A política segue organizada por medo e reação. O cansaço cresce, mas o sistema permanece funcional. 2. A recusa passiva Afastamento, não-voto, silêncio sem elaboração. O batalhão segue marchando sem oposição consciente. O sentimento não retorna. 3. A recusa lúcida Reorganização do espaço público a partir de limites, programas e mediações. Não negação da política, mas reconstrução de suas bases cognitivas e morais. Aqui a epígrafe retorna como teste: foi possível pensar sem terceirizar o olhar? Cartola lamentava: “Ah, se eu tivesse autonomia…”. Paulinho da Viola foi ungido como herdeiro, mas o fio que sustenta este texto não passa apenas por ele. Passa por Wilson Batista, contemporâneo de Cartola e Noel, que percebeu cedo o preço do alinhamento. E passa por Montesquieu, que advertiu que a flexibilidade humana é virtude e risco. O buraco é mais embaixo porque não se trata de sucessão estética, mas de autonomia moral. Referências e fontes MONTESQUIEU. O Espírito das Leis. Prefácio. 1748. https://www.gutenberg.org/ebooks/27573 NOGUEIRA, Marco Aurélio. “À espera de 2026”. O Estado de S. Paulo, 27 dez. 2025. https://www.estadao.com.br BATISTA, Wilson. Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim). Samba. Década de 1940. https://pt.wikipedia.org/wiki/Wilson_Batista PAULINHO DA VIOLA. A Dança da Solidão. Álbum, 1972. https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulinho_da_Viola CARTOLA. Entrevistas e cancionário. https://pt.wikipedia.org/wiki/Cartola_(compositor)
Epílogo / Epitáfio Aqui jaz o samba. Não morreu de silêncio, mas de excesso de ruído. Entre a surdina do bamba e a cadência do morto, descansa a forma que ensinou limites ao poder e medida ao homem. Wilson Batista encontrou Montesquieu não no salão das ideias, mas no ponto exato em que a autonomia se recusa a marchar. P

NO futuro

“E não mais ensinará cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: — Conhece o Senhor! Porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior.” — Paulo. (HEBREUS, 8.11) Pão Nosso - Capítulo 41 No futuro - por Rodrigo Lima 1 Quando o homem gravar na própria alma os parágrafos luminosos da Divina Lei, 2 O companheiro não repreenderá o companheiro, o irmão não denunciará outro irmão. 3 O cárcere cerrará suas portas, os tribunais quedarão em silêncio. 4 Canhões serão convertidos em arados, homens de armas volverão à sementeira do solo. 5 O ódio será expulso do mundo, as baionetas repousarão. 6 As máquinas não vomitarão chamas para o incêndio e para a morte, mas cuidarão pacificamente do progresso planetário. 7 A justiça será ultrapassada pelo amor. 8 Os filhos da fé não somente serão justos, mas bons, profundamente bons. 9 A prece constituir-se-á de alegria e louvor e as casas de oração estarão consagradas ao trabalho sublime da fraternidade suprema. 10 A pregação da Lei viverá nos atos e pensamentos de todos, porque o Cordeiro de Deus terá transformado o coração de cada homem em tabernáculo de luz eterna, em que o seu Reino Divino resplandecerá para sempre. Emmanuel Texto extraído da 1ª edição desse livro. 41 No futuro
Salão do Colégio Allan Kardec, Sacramento, início do século XX. Idealizado e ampliado por Cosme Martins de Oliveira, que, à semelhança do Cosme de Damião, preferiu agir a discursar. Diante da falta, derrubou paredes, abriu espaço e não deixou ninguém — alunos ou princípios — abandonado, de mãos abanando, sem eira nem beira. [PDF] UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA LÁGRIMAS E ALEGRIA
O texto relata um episódio da vida de Eurípedes, quando decidiu romper com as normas vigentes ao instituir classes mistas, reunindo alunos e alunas no mesmo espaço. A iniciativa contrariou costumes, provocou comentários na cidade e dividiu opiniões: alguns pais viam progresso; outros temiam a convivência. Entre os opositores iniciais estava Cosme Martins de Oliveira, homem respeitado, pai de alunas do colégio. Informado dos rumores, procurou Eurípedes e declarou discordância — não do princípio, mas das condições materiais: a sala era pequena para tantos alunos. Antes que Eurípedes respondesse, Cosme assumiu a responsabilidade. Providenciou, com recursos próprios e ajuda de amigos, a reforma do prédio, ampliando o espaço escolar. A antiga residência de Eurípedes foi adaptada; paredes caíram; o salão cresceu. A inauguração ocorreu em 17 de agosto de 1910, celebrada com discursos, apresentações teatrais e participação dos alunos. Eurípedes, sensibilizado pela solidariedade, discursou com emoção contida. Ao final, recebeu de Cosme um ramalhete de flores — gesto simples, preservado pela família como relíquia por décadas. No ano seguinte, as matrículas aumentaram de forma expressiva. Nota de tom (fora do resumo) O episódio é narrado sem heroísmo retórico: homens agem, discordam, resolvem. A mudança não vem do discurso, mas do gesto prático. A emoção aparece breve, controlada, quase envergonhada — como convém aos fatos que dispensam exagero. O Evangelho seg. o Espiritismo [Ep88] Os órfãos (cap XIII, 18) Os órfãos 18. Meus irmãos, amai os órfãos. Se soubésseis quanto é triste ser só e abandonado, sobretudo na infância! Deus permite que haja órfãos, para exortar-nos a servir-lhes de pais. Que divina caridade amparar uma pobre criaturinha abandonada, evitar que sofra fome e frio, dirigir-lhe a alma, a fim de que não desgarre para o vício! Agrada a Deus quem estende a mão a uma criança abandonada, porque compreende e pratica a sua lei. Ponderai também que muitas vezes a criança que socorreis vos foi cara noutra encarnação, caso em que, se pudésseis lembrar-vos, já não estaríeis praticando a caridade, mas cumprindo um dever. Assim, pois, meus amigos, todo sofredor é vosso irmão e tem direito à vossa caridade; não, porém, a essa caridade que magoa o coração, não a essa esmola que queima a mão em que cai, pois freqüentemente bem amargos são os vossos óbolos! Quantas vezes seriam eles recusados, se na choupana a enfermidade e a miséria não os estivessem esperando! Dai delicadamente, juntai ao benefício que fizerdes o mais precioso de todos os benefícios: o de uma boa palavra, de uma carícia, de um sorriso amistoso. Evitai esse ar de proteção,que equivale a revolver a lâmina no coração que sangra e considerai que, fazendo o bem, trabalhais por vós mesmos e pelos vossos. – Um Espírito familiar. (Paris, 1860.) COISAS DO MUNDO, PAULINHO
"Com amor se faz bem feito. O amor é mais forte que o ódio." As coisas estão no mundo, minha nega Um país em silêncio diante do asfalto Paulinho da Viola e Graciliano Ramos encontram-se na esquina de 2025 Por Graça de Ramos Publicado em 03 de novembro de 2025 Em 2025, acanalharam. O país, cansado de seus próprios fantasmas, aprendeu a conviver com a barbárie como quem se acostuma ao calor excessivo: sem espanto, sem protesto, apenas suando. Já não se indigna. Aguenta. Na rua estreita, os corpos foram estendidos um ao lado do outro, cobertos por panos coloridos. Não havia cerimônia. Os vivos observavam os mortos com a serenidade que se reserva ao hábito. Um filmava com o celular. Outro, calado, contava quantos eram. Nenhum pranto alto — apenas o murmúrio da vizinhança, esse som baixo que não exige explicação. O país tornou-se isso: uma sequência de tragédias registradas e esquecidas no dia seguinte. A multidão fotografa, comenta, compartilha — e segue. A violência virou idioma nacional. Já ninguém estranha a gramática do sangue. Lembrei de Paulinho da Viola: “As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.” Em 1968, Paulinho escreveu sobre um corpo iluminado, uma discussão banal, um pandeiro no chão. Falava da vida e da morte com a delicadeza exata de quem conhece o peso das coisas pequenas. Era outra violência — doméstica, íntima, quase silenciosa. Ainda havia espanto. Ainda havia música. Hoje, minha nega, as coisas continuam no mundo. Mas desaprendemos a vê-las. A morte perdeu o peso. A notícia virou ruído. A compaixão, artigo raro. O país olha, registra e passa. Não por crueldade explícita, mas por cansaço. O cansaço é uma forma eficiente de anestesia. Graciliano Ramos diria — sem elevar a voz — que o Brasil se acostumou ao suplício. Que o povo, esfolado pela rotina e pela polícia, aprendeu a sobreviver sem esperança, porque a esperança exige energia, e energia falta. Reconheceria a secura deste tempo: os vivos andando de cabeça baixa, os mortos alinhados no asfalto como números mal resolvidos. O samba de Paulinho insiste, contudo, como uma oração sem igreja. Não promete redenção. Apenas lembra que ainda há algo por aprender. Talvez o gesto simples de não desviar o olhar. Talvez o desconforto de sentir vergonha quando todos parecem excessivamente à vontade. As coisas estão no mundo, minha nega. Mas parece que o mundo desaprendeu de sentir — e segue, como quem anda, sem saber exatamente para onde.
As coisas estão no mundo, minha nega Um país em silêncio diante do asfalto. Paulinho da Viola e Graciliano Ramos encontram-se na esquina de 2025. Por Graça de Ramos — Publicado em 03 de novembro de 2025 Em 2025, acanallaram. O país, cansado de seus próprios fantasmas, aprendeu a conviver com a barbárie como quem suporta o calor. Não se espanta mais. Só transpira. Na rua estreita, os corpos foram estendidos um ao lado do outro, cobertos com panos coloridos. Os vivos observavam os mortos com a serenidade que se reserva ao costume. Alguém filmava com o celular. Outro, calado, contava quantos eram. Nenhum pranto alto — apenas o murmúrio da vizinhança. O país virou isso: uma sequência de tragédias documentadas, esquecidas no dia seguinte. A multidão fotografa, comenta, compartilha, e segue. A violência se tornou o idioma nacional, e já ninguém estranha a gramática do sangue. Lembrei de Paulinho da Viola: “As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.” Em 1968, ele escreveu sobre um corpo iluminado, uma discussão banal, um pandeiro no chão. Falava da vida e da morte com a delicadeza que só os poetas do morro conhecem. Era outra violência, mais íntima, menos institucionalizada. Ainda havia espanto, havia música. Hoje, minha nega, as coisas continuam no mundo — mas desaprendemos a vê-las. A morte perdeu o peso. A notícia virou ruído. E a compaixão, luxo. Graciliano diria que o país se acostumou ao suplício. Que o povo, esfolado pela rotina e pela polícia, aprendeu a sobreviver sem esperança. Ele entenderia a secura deste tempo, em que os vivos andam de cabeça baixa e os mortos se alinham em fila no asfalto. O samba de Paulinho ecoa como oração laica, lembrando que ainda há algo por aprender. Talvez o gesto de não desviar o olhar. Talvez o dever de sentir vergonha. As coisas estão no mundo, minha nega. Mas parece que o mundo desaprendeu de sentir. 🎧 Ouça a música original: Paulinho da Viola — Coisas do Mundo, Minha Nêga (1968) 📀 Versão do álbum Memórias Cantando (1976 / Remaster 2012) Paulinho da Viola — Coisas do Mundo, Minha Nêga (2012 Remaster) Ficha técnica Voz e violão: Paulinho da Viola Piano: Cristovão Bastos Violão: Cesar Faria Flauta e clarinete: Copinha Bandolim: Chiquinho Baixo elétrico: Dininho Pandeiro: Elton Medeiros Bateria: Hércules Pereira Nunes Chocalho: Chaplin Tamborim: Rafael Arranjo: coletivo Direção artística: Milton Miranda Produção: Paulinho da Viola e Mariozinho Rocha Arte da capa: Elifas Andreato Selo: EMI — LP 1976 / CD 1996 Capa do álbum: Paulinho da Viola — “Memórias Cantando”

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Linguagem, ética e responsabilidade institucional

"A questão suscita questionamentos éticos em relação aos ministros do STF envolvidos no caso e desgasta a mais alta Corte do país. Isso fragiliza o coração dos sistemas jurídico e financeiro do país: o Supremo e o Banco Central."
Ética, Responsabilidade social e Governança corporativa " Linguagem, ética e responsabilidade institucional O artigo “Master, ameaça sistêmica à superestrutura financeira e jurídica do país” suscita — no sentido rigoroso e correto do verbo — um debate que ultrapassa o caso concreto e alcança o modo como a sociedade brasileira enfrenta temas sensíveis que envolvem o Estado de Direito, a democracia, a ética pública e a estabilidade institucional. Convém destacar, desde logo, a importância da precisão linguística nesse contexto. Suscitar não é forma intercambiável com sucitar , nem deriva de súscia . Trata-se de verbo consagrado, oriundo do latim suscitāre , que significa provocar, fazer emergir questionamentos no plano abstrato. Essa distinção não é mero preciosismo vocabular: ela delimita com clareza o alcance do debate e impede que o discurso público se torne impreciso, inflamado ou instrumentalizado. Ao analisar a decisão do Supremo Tribunal Federal no caso Banco Master, o artigo cumpre papel relevante ao demonstrar que, embora processualmente defensável, a atuação do STF desloca a Corte para o epicentro de uma crise bancária ainda em investigação, com potenciais efeitos corrosivos sobre dois pilares centrais da ordem institucional brasileira: o próprio Supremo Tribunal Federal e o Banco Central. O desgaste institucional, nesse sentido, não decorre necessariamente de ilegalidades, mas da percepção pública de sobreposição entre investigação criminal, regulação financeira e protagonismo político-jurídico. Em tempos nos quais proliferam “jornalismos de guerra”, frequentemente conduzidos por profundos conhecedores da linguagem, mas nem sempre comprometidos com sua função pacificadora, o texto se destaca por adotar um tratamento analítico, histórico e institucionalmente responsável. Ao recuperar a experiência do Proer e contextualizar o maior resgate já realizado pelo Fundo Garantidor de Créditos, o artigo reafirma que a estabilidade do sistema financeiro e a credibilidade das instituições dependem de discrição técnica, previsibilidade regulatória e separação clara de funções. Mais do que informar, o artigo contribui para um debate público desarmado, no qual a crítica não se confunde com ataque, e a análise não se converte em espetáculo. Em uma democracia madura, temas que afetam a sociedade como um todo devem ser enfrentados com limpidez de linguagem, sobriedade institucional e compromisso com a verdade — não como trincheiras discursivas, mas como espaços de reflexão orientados à preservação da paz social e da confiança nas instituições." Lero Lero Edu Lobo Sou brasileiro de estatura mediana Gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer Porque no amor quem perde quase sempre ganha Veja só que coisa estranha, saia dessa se puder Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero Não tolero lero-lero, devo nada pra ninguém Sou descansado, minha vida eu levo a muque Do batente pro batuque faço como me convém Eu sou poeta e não nego a minha raça Faço versos por pirraça e também por precisão De pé quebrado, verso branco, rima rica Negaceio, dou a dica, tenho a minha solução Sou brasileiro, tatu-peba taturana Bom de bola, ruim de grana, tabuada sei de cor Quatro vez sete vinte e oito nove´s fora Ou a onça me devora ou no fim vou rir melhor Não entro em rifa, não adoço, não tempero Não remarco, marco zero, se falei não volto atrás Por onde passo deixo rastro, deito fama Desarrumo toda a trama, desacato satanás Brasileiro de estatura mediana Gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer Porque no amor quem perde quase sempre ganha Veja só que coisa estranha, saia dessa se puder Diz um ditado natural da minha terra Bom cabrito é o que mais berra onde canta o sabiá Desacredito no azar da minha sina Tico-tico de rapina, ninguém leva o meu fubá Composição: Edú Lobo / Cacaso.
TRANSCRIÇÃO DO ARTIGO (conforme enviado pelo leitor) Master, ameaça sistêmica à superestrutura financeira e jurídica do país Publicado em 26/12/2025 – 08:20 Luiz Carlos Azedo – Brasília Comunicação, Economia, Ética, Justiça, Memória, Política Ao entrar no coração de uma crise bancária ainda em investigação, o STF corre o risco de ser associado não à solução, mas à amplificação do problema. O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para suspender a acareação determinada no caso do Banco Master e manteve a audiência entre o dono do Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino. Esse procedimento é utilizado em investigações policiais e processos judiciais para confrontar pessoas que apresentaram versões diferentes sobre os mesmos fatos. A PGR concordou que a acareação até poderia ser feita, em momento que pudesse, de fato, ser útil às investigações. Não é um caso trivial. O Banco Master é um iceberg que coloca em risco a estabilidade e a confiança no sistema financeiro brasileiro, fundamental para a estabilidade da economia desde a adoção do Proer. A questão suscita questionamentos éticos em relação aos ministros do STF envolvidos no caso e desgasta a mais alta Corte do país. Isso fragiliza o coração dos sistemas jurídico e financeiro do país: o Supremo e o Banco Central. A acareação, apesar da resistência da PGR, projeta seus efeitos sobre dois pilares centrais da ordem institucional brasileira: a imagem do Supremo Tribunal Federal e a confiança no sistema financeiro regulado pelo Banco Central. Pela envergadura do problema, que envolve bilhões e bilhões e as principais instituições financeiras do país, o caso se tornou um risco sistêmico. De ofício, sem provocação da Polícia Federal ou da PGR, a acareação envolve os dois investigados centrais, o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, e um alto funcionário da autoridade supervisora, Ailton de Aquino, que não é investigado. Do ponto de vista estritamente processual, a decisão é defensável. Do ponto de vista institucional, porém, ela desloca o Supremo para o epicentro de uma crise na qual se cruzam investigação criminal, regulação financeira e expectativas de estabilidade sistêmica. O caso Master já produziu um abalo no sistema financeiro ao consumir cerca de R$ 41 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Cerca de 1,6 milhão de investidores deverão ser ressarcidos. O FGC tem R$ 122 bilhões em recursos líquidos. Foi o maior resgate de sua história, superando episódios emblemáticos como Bamerindus, Banco Nacional e Banco Econômico. O artigo recupera o papel do Proer nos anos 1990 e alerta para o risco de desgaste institucional quando o Supremo se coloca como protagonista de uma crise que exige discrição técnica e coordenação institucional, reafirmando que sua função constitucional é a de guardião das regras, não de ator central do conflito.
RESUMO (PORTUGUÊS) A precisão conceitual do verbo suscitar, derivado do latim suscitāre (provocar, fazer emergir), é fundamental para delimitar o debate proposto. À luz dessa distinção, o artigo analisa o caso Banco Master e sustenta que a decisão do STF de manter a acareação, embora processualmente defensável, suscita questionamentos éticos e contribui para o desgaste institucional da Corte. Ao deslocar-se para o centro de uma crise bancária ainda em investigação, o Supremo passa a impactar também a credibilidade do Banco Central. O resgate de cerca de R$ 41 bilhões pelo FGC evidencia que o risco deixa de ser apenas financeiro e assume caráter institucional. A experiência do Proer é retomada para defender a separação clara entre investigação, regulação e protagonismo político-jurídico, condição essencial para a preservação da confiança democrática.
ABSTRACT (ENGLISH) Conceptual precision regarding the verb suscitar, derived from the Latin suscitāre (to provoke or bring forth), is essential to frame the argument. Based on this clarity, the article examines the Banco Master case and argues that the Brazilian Supreme Federal Court’s decision to uphold a confrontation hearing—while procedurally defensible—raises ethical concerns and contributes to institutional erosion. By positioning itself at the center of an ongoing banking crisis, the Court affects not only its own credibility but also that of the Central Bank. The approximately R$ 41 billion bailout by the Credit Guarantee Fund transforms the episode into an institutional risk. Drawing on the 1990s Proer experience, the article defends a clear separation between criminal investigation, financial regulation, and political-judicial protagonism as essential to preserving democratic trust.
CARTA AO LEITOR Linguagem, ética e responsabilidade institucional O artigo sobre o caso Banco Master suscita — no sentido rigoroso do termo — um debate que ultrapassa os fatos imediatos e alcança o Estado de Direito, a ética pública e a estabilidade institucional. Ainda que processualmente defensável, a decisão do STF projeta a Corte para o centro de uma crise bancária em investigação, com efeitos potenciais sobre a credibilidade do próprio Supremo e do Banco Central. Em tempos de “jornalismos de guerra”, é especialmente relevante a adoção de uma linguagem analítica, sóbria e desarmada. A crítica institucional não deve se converter em ataque, nem a investigação em espetáculo. Temas que afetam toda a sociedade exigem clareza conceitual, separação de funções e compromisso com a verdade — não para inflamar conflitos, mas para preservar a democracia e a paz social. Assina: Um cidadão brasileiro, de estatura comum, que acredita que, nos afetos e na vida pública, perder disputas pode significar ganhar consciência — ainda que isso pareça estranho. Mônica Bergamo: Escândalo do Banco Master eleva temperatura em BSB Rádio BandNews FM O ano do deputado reborn | Meio-Dia em Brasília - 26/12/2025 O Antagonista Boa noite 247 - Moraes e Galipolo se manifestam; Globo dobra a aposta 23.12.25
Salvador e Belo Horizonte de luto por duas mulheres de luta Salvador e Belo Horizonte despedem-se de duas mulheres cuja trajetória marcou profundamente a vida cultural, religiosa e social do Brasil: Mãe Carmen de Oxalá, ialorixá do Terreiro do Gantois, e Teuda Bara, atriz e fundadora do Grupo Galpão. Suas mortes recentes deixam um legado de resistência, arte, espiritualidade e compromisso com a comunidade. Mãe Carmen de Oxalá Morreu na madrugada de sexta-feira, 26 de dezembro de 2025, aos 96 anos, em Salvador, Mãe Carmen de Oxalá (Carmen Oliveira da Silva), filha caçula de Mãe Menininha do Gantois, uma das maiores referências do candomblé no Brasil. Ela estava internada no Hospital Português, em decorrência de complicações de saúde após um quadro gripal. Mãe Carmen foi a sexta sacerdotisa a liderar o Terreiro do Gantois, função que exerceu por mais de duas décadas, desde 2002. Sua atuação foi marcada pelo cuidado com a comunidade, pela preservação da memória do terreiro e pela firme defesa das tradições ancestrais do candomblé. Guardiã de uma linhagem histórica, dedicou sua vida à continuidade espiritual, cultural e social do Gantois, símbolo de resistência religiosa e identidade afro-brasileira. Teuda Bara Em Belo Horizonte, faleceu na quinta-feira, 25 de dezembro de 2025, aos 84 anos, a atriz Teuda Bara (Teuda Magalhães Fernandes), uma das fundadoras do Grupo Galpão, referência nacional e internacional do teatro brasileiro. Internada desde o dia 14 de dezembro, Teuda morreu em decorrência de complicações infecciosas. Figura central da cena teatral mineira e brasileira, Teuda Bara construiu uma carreira marcada pela entrega artística, pela pesquisa cênica e pela relação direta com o público. Além do trabalho no Galpão, participou de produções para o cinema e a televisão, com destaque para o filme O Palhaço e a novela Meu Pedacinho de Chão. O velório foi realizado no Palácio das Artes, espaço emblemático da cultura mineira. Um legado comum Embora atuassem em campos distintos, Mãe Carmen de Oxalá e Teuda Bara compartilharam uma mesma essência: a dedicação à coletividade, a valorização da tradição e a coragem de sustentar, cada uma à sua maneira, espaços de identidade, criação e pertencimento. Salvador e Belo Horizonte se unem no luto por duas mulheres de luta, cuja presença seguirá viva na memória cultural e espiritual do país.