quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

TRIÂNGULO DOS PODERES NO ENTORNO DO PARQUE

Bom Natal, feliz 2026!
PRESÉPIO AO CENTRO IMPERIAL
Entre a Ceia e o Poder Cristianismo, política e a difícil arte de conviver entre diferentes Na mesa de fim de ano, o peru costuma esfriar mais rápido do que os ânimos. Não é raro que a ceia natalina brasileira se transforme em um microcosmo da República: de um lado, defensores incondicionais de Lula; do outro, fiéis a Bolsonaro. Ambos, curiosamente, se dizem cristãos. Ambos falam em nome do bem, da justiça, do povo — ou de Deus. E ambos, com frequência, parecem dispostos a romper a comunhão familiar em nome de uma verdade que já não admite conversa. Talvez o problema não seja apenas político. Talvez seja mais profundo. Jesus de Nazaré — figura central para todos os que se afirmam cristãos — jamais deixou instruções sobre como vencer eleições, formar maiorias parlamentares ou derrotar adversários. Ao contrário: recusou ser feito rei, rejeitou o uso da força e distinguiu com clareza desconcertante o poder terreno do Reino de Deus. “Meu Reino não é deste mundo”, disse a um governador romano quando tudo indicava que um gesto populista poderia poupá-lo da cruz. Essa recusa não é detalhe teológico. É chave política. Jesus não organiza massas, não constrói propaganda, não exige lealdade pessoal. Fala a consciências individuais. Quem o segue o faz livremente — e pode ir embora quando quiser. Nesse sentido forte, Jesus é o oposto do líder carismático moderno. É aqui que Hannah Arendt se torna indispensável. Em Origens do Totalitarismo, ela observa que regimes totalitários não surgem prontos. Antes do terror, vem a propaganda. Antes da violência aberta, a substituição da verdade factual por narrativas plausíveis. As massas não são convencidas pela razão, mas conquistadas emocionalmente — enquanto elites aprendem a instrumentalizar ressentimentos e identidades. O totalitarismo começa, alerta Arendt, quando pensar se torna desnecessário. Não é preciso — nem intelectualmente honesto — afirmar que Lula ou Bolsonaro governem regimes totalitários. Mas é impossível ignorar que ambos se tornaram polos de lealdade personalista. Lula encarna uma biografia que, para muitos seguidores, se confunde com o próprio projeto político. Bolsonaro, elevado por parte de seus apoiadores a figura messiânica, funde política, moral e religião numa identidade fechada. Em ambos os casos, a crítica tende a ser percebida não como discordância legítima, mas como ataque moral — quando não como traição. Quando cristãos passam a defender líderes com mais fervor do que defendem a verdade, já não estão fazendo política — estão praticando idolatria. Aqui está o afastamento decisivo em relação a Jesus. Jesus aponta para a verdade; líderes carismáticos pedem fidelidade. Jesus aceita limites; líderes personalistas os relativizam. Jesus separa Deus e poder; a política contemporânea frequentemente os confunde. Pedro Doria, em recente crônica, chama atenção para outro fator menos visível, mas igualmente decisivo: o sistema eleitoral brasileiro empurra partidos e eleitores para essa polarização exaustiva. As regras incentivam a repetição dos mesmos nomes, mesmo quando a maioria da sociedade manifesta rejeição a eles. O resultado é um país aprisionado em disputas simbólicas, enquanto o debate público se reduz a torcidas organizadas. É nesse cenário que a ceia de Natal se torna campo minado. Talvez, porém, haja saída — não pela conversão do outro, mas pelo deslocamento da conversa. Em vez de perguntar “em quem você vota?”, seria mais fecundo perguntar: Jesus pediu que seus seguidores defendessem líderes terrenos a qualquer custo? Se meu político favorito mentisse de forma comprovada, eu mudaria de posição? Consigo reconhecer boa-fé em quem vota diferente de mim? Aceito limites institucionais ao governante que apoio? Essas perguntas não separam esquerda e direita. Separam idolatria e consciência. O cristianismo, em sua forma mais elementar, não exige unanimidade política. Exige algo mais difícil: amor ao outro, compromisso com a verdade e recusa em transformar o poder em objeto de fé. Quando cristãos relativizam fatos, justificam mentiras ou demonizam adversários em nome de um líder, não estão apenas fazendo má política — estão praticando uma forma de anti-evangelho. Talvez a maior contribuição política que um cristão possa oferecer hoje não seja eleger seu candidato, mas recusar a sacralização da política. Defender instituições. Preservar a pluralidade. Manter viva a capacidade de pensar — e de ouvir. Se a ceia terminar sem consenso eleitoral, tudo bem. O que não pode faltar é aquilo que Jesus nunca dispensou e Hannah Arendt tanto temeu perder: a liberdade interior. Sem ela, não há fé que resista — nem democracia que sobreviva. Referências Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo. Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro. Max Weber, Economia e Sociedade. Pedro Doria, O Globo, dezembro de 2025. Bíblia — Evangelhos (Jo 6:15; Jo 18:36; Mt 20:26). Steven Levitsky & Daniel Ziblatt, Como as Democracias Morrem. Epitáfio de fim de ceia Aqui jaz a briga da ceia. Morreu de cansaço. Sobreviveu o amor ao próximo — que não vota, não grita, mas insiste em sentar à mesa. ✅ P
“A política trata da convivência entre diferentes. Onde a pluralidade é destruída, começa a barbárie.” Hannah Arendt
POVO FOTOGRAFANDO BESTIFICADO DE UM DOS BANCOS AO LADO DO REGAÇO DA PRAÇA
Balanço do ajuste de contas com a tentativa de golpe de 8 de janeiro Publicado em 24/12/2025 - 07:08 Luiz Carlos Azedo Brasília, Comunicação, Congresso, Eleições, Governo, Justiça, Memória, Militares, Paraguai, Política, Política, Rio Grande do Sul, Violência Comorbidades e nova dosimetria podem permitir que Bolsonaro volte mais cedo à prisão domiciliar, mas antes das eleições isso só ocorrerá se realmente estiver muito doente Para usar uma expressão do general Golbery do Couto e Silva, estrategista do regime militar, talvez uma “diástole” em relação ao presidente Jair Bolsonaro e aos generais condenados pelo 8 de Janeiro tenha começado mais cedo do que se imaginava, na velha tradição republicana de perdoar os revoltosos. A origem dessa tradição é a Guerra dos Farrapos, um movimento republicano e separatista que sacudiu o Rio Grande do Sul e Santa Catarina de 1835 a 1845, cujos generais foram anistiados e incorporados ao Exército Brasileiro com suas patentes originais, pelo Tratado de Poncho Verde e, depois, canonizados pela República. Bento Gonçalves renunciou à Presidência da República Rio-Grandense em 1844 depois de um duelo contra Onofre Pires. Após o acordo, manteve a patente, retirou-se para sua estância em Camaquã e faleceu em 1847, dois anos após o fim da guerra, vítima de pleurisia. David Canabarro foi o principal negociador do acordo e, anos depois, liderou tropas brasileiras na Guerra do Paraguai (1864-1870), vindo a falecer em 1867. Bento Manoel Ribeiro, que trocou de lado várias vezes, manteve grande influência política e militar na província até sua morte, em 1855. Antônio de Sousa Neto, proclamador da República Rio-Grandense, mudou-se para o Uruguai e, depois, retornou ao Brasil para lutar na Guerra do Paraguai, onde foi ferido em combate e faleceu em Corrientes, na Argentina, em 1866. Giuseppe Garibaldi deixou a revolução em 1841, foi para o Uruguai com Anita Garibaldi, para retornar à Itália e liderar sua unificação. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 confrontou essa tradição, com a centralidade do Poder Judiciário como protagonista institucional da resposta à tentativa de golpe. Ao contrário de 1937 ou de 1964, não foi o sistema político que arbitrou o desfecho, mas o Supremo Tribunal Federal (STF), que assumiu integralmente a investigação, o julgamento e a dosimetria das penas. O balanço apresentado pela Primeira Turma ao fim de 2025 é histórico e sem precedentes na democracia brasileira, ainda que o Congresso tente recuperar parte desse protagonismo com a redução da dosimetria das penas. Leia também: Por que o indulto de Natal deixou de fora os condenados pelo 8 de janeiro? Desde janeiro de 2023, foram autuadas 1.734 ações penais relacionadas aos atos antidemocráticos. Desse total, 619 envolveram crimes mais graves — organização criminosa, tentativa de golpe de Estado e atentado contra o Estado Democrático de Direito — enquanto 1.115 trataram de delitos de menor gravidade, como incitação e associação criminosa. Até o encerramento do ano judiciário, a Primeira Turma condenou 810 pessoas, sendo 395 por crimes graves e 415 por crimes menos severos, além de 14 absolvições. Punições severas Foram homologados 564 acordos de não persecução penal, cerca de 45% das ações, que envolveram autores de menor potencial ofensivo, com medidas alternativas, como prestação de serviços comunitários e cursos sobre democracia, além do ressarcimento de mais de R$ 3 milhões aos cofres públicos. Do restante, 31% das condenações resultaram em penas leves, de até dois anos e meio, e apenas 24% corresponderam a condenações mais severas. Dentro desse grupo, cerca de 5% receberam penas superiores a 12 anos, reservadas às condutas de maior gravidade. Esses números desmontam a narrativa de punição indiscriminada. Houve individualização da pena e concentração do peso do sistema penal nos núcleos dirigentes, financiadores e articuladores da ruptura institucional, ao mesmo tempo em que se descomprime o sistema em relação à massa mobilizada politicamente. É nesse contexto que se inserem as medidas de flexibilização de penas decorrentes da análise sobre saúde, comorbidades e prisão domiciliar humanitária. Dos 38 condenados que pediram o benefício, 21 obtiveram concessão e 17 tiveram o pedido negado. Entre os beneficiados, 15 são idosos, todos com alegações de doenças graves ou incapacitantes. O caso do general Augusto Heleno, de 78 anos, condenado a longa pena e portador de Alzheimer, simboliza essa inflexão, de caráter humanitário. Já o ex-presidente Jair Bolsonaro, embora alegue problemas de saúde, permanece reconhecidamente fora desse padrão jurisprudencial. A negativa reiterada de prisão domiciliar, mesmo diante da autorização para cirurgia eletiva, indica que o STF fixou uma linha clara: apenas quadros graves, permanentes e incompatíveis com o regime fechado justificam a exceção. Antes das eleições de 2026, qualquer flexibilização mais ampla do regime fechado de Bolsonaro dependerá de um agravamento médico efetivo e comprovado, sob pena de a Corte ser acusada de interferência direta no processo político. Depois da eleição, será outra história. Leia mais: Bolsonaro sai da prisão para ser operado A “diástole” não é anistia nem absolvição disfarçada. É controlada e seletiva. O encerramento formal dos processos no STF, agora, desloca o conflito para uma nova instância: o Superior Tribunal Militar, que deverá julgar a perda de patente e graduação dos militares condenados. Caso o STM confirme a cassação das patentes, o Brasil consolidará um precedente inédito: a responsabilização plena de oficiais-generais por crimes contra a ordem democrática, com sanção penal e sanção corporativa. Se, ao contrário, prevalecer uma leitura corporativa mitigadora, a “diástole” poderá se converter em recomposição simbólica do estamento militar, relativizando o alcance do ajuste de contas promovido pelo STF. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Bolsonaro, #Dosimetria, #Heleno, #Prisão, #STM, #Supremo
Cabritada mal sucedida - Geraldo Pereira: “O patrão da Sebastiana é que foi ao Distrito e mandou me soltar🎼” "Que história, que narração." "Puseram a gente sem culpa no carrro da rádio-patrulha e levaram." "Puseram a raça sem culpa no carro da rádio-patrulha e levaram." "Assis Valente compôs a verdadeira canção de Natal? Acho que sim. Dá o que pensar, traz a imagem da felicidade como algo a ser conquistado. Com certeza, não é um brinquedo de papel. Bom Natal, feliz 2026!" 👇 Caetano Veloso - Boas Festas #LivedoCaetanodeNatal Caetano Veloso Estreou em 23 de dez. de 2020 #LivedoCaetanodeNatal #CaetanoVeloso #BoasFestas Caetano Veloso - Boas Festas Anoiteceu O sino gemeu A gente ficou Feliz a rezar Papai Noel Vê se você tem A felicidade Pra você me dar Eu pensei que todo mundo Fosse filho de Papai Noel Bem assim, felicidade Eu pensei que fosse uma brincadeira de papel Já faz tempo que pedi Mas o meu Papai Noel não vem Com certeza já morreu Ou, então, felicidade É brinquedo que não tem (Assis Valente) 2020 Uns Produções Transcrição "Benguelê Parceria com Gastão Vianna. Cópia do manuscrito do próprio Pixinguinha desta música – classificada por ele mesmo como “lundu africano” – encontra-se no acervo da Casa do Choro. O arranjo desta música – um dos pontos altos da carreira do compositor, pela verve e riqueza dos contrapontos – foi editado em 1946 pela Mangione. No mesmo ano “Benguelê” receberia sua primeira gravação, com o grupo Anjos do Inferno (disco Victor 800408). Benguelê - Pixinguinha piccinini02 1 de abr. de 2010 "Benguelê", composed by Pixinguinha and Gastão Vianna, here played by Orquestra Pixinguinha ( Orquestra Brasilia) Track list "Um Gênio Brasileiro - Cem anos de Pixinguinha": 01- Cheguei 02- Carinhoso 03- Um a Zero 04- Lamentos 05- Proezas do Solon 06- Benguelê 07- Rosa 08- Vou Vivendo 09- Ingênuo 10- Naquele Tempo 11- O Gato e o Canário 12- Os Oito Batutas Tracks 1,5,6,8,10 and 11 have the original arrangements by Pixinguinha. Transcrição

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Mora — Samba, Filosofia e Ética em Movimento

Monsueto - Mora na Filosofia dos Sambas de Monsueto 1962 Mora na filosofia Marlene - Tema Mestres da MPB ℗ 1976 WEA International Inc. Producer: marlene Composer: Arnaldo Passos and Monsueto Mora na Filosofia Composição: Arnaldo Passos, Mangione Filhos e Monsueto Campos Menezes Participações: Júlio Estrela, Amanda Aniballe, Gabriel Loddo e Borracha Trecho da Live Allana Pelas Redes com apoio da Secretaria da Cultura do RJ e Tapa na Pomba 6 de out. de 2020 Transcrição Caetano Veloso - Mora na Filosofia Rodrigo Lima 1 de jan. de 2013 Disco Transa (1972) Faixa 05 01 - You don't know Me: • Caetano Veloso - You don't know Me 02 - Nine out of Ten: • Caetano Veloso - Nine out of Ten 03 - Triste Bahia: • Caetano Veloso - Triste Bahia 04 - It's a long Way: • Caetano Veloso - It's a long Way 05 - Mora na Filosofia: • Caetano Veloso - Mora na Filosofia 06 - Neolithic Man: • Caetano Veloso - Neolithic Man 07 - Nostalgia: • Caetano Veloso - Nostalgia Disco Um Abraçaço (2012): • Caetano Veloso - A Bossa Nova É Foda Música
Nas entrelinhas: Mora — da filosofia do samba ao caçador de jabutis Ética, tempo e poder entre 1955 e 2025 Por L.C. da Costa Paris, dezembro de 2025 “Mora na filosofia” não é apenas um verso célebre do samba de Monsueto Menezes e Arnaldo Passos, consagrado no Carnaval de 1955. É uma chave de leitura do Brasil. Mora, ali, não significa atraso. Significa entendimento. Percepção. Tempo necessário para que as coisas façam sentido. O Carnaval de 1955 deveria ser triste. Um ano antes, Getúlio Vargas havia se suicidado, deixando o país em estado de choque. O que ocorreu foi o oposto: o povo foi às ruas, a festa incendiou a cidade e o samba ensinou, mais uma vez, que a vida não cabe apenas na lógica do cálculo. Como diria depois Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não não basta. Não é irrelevante lembrar quem era Monsueto naquele momento. Antes de se consagrar como compositor, Monsueto Campos Menezes atuou como baterista em conjuntos musicais que se apresentavam no Copacabana Palace Hotel, no Rio de Janeiro, durante a década de 1940. Tocou em diversas formações, com destaque para a Orquestra de Copinha, uma das mais prestigiadas do circuito noturno carioca. Essa vivência profissional refinou seu domínio do ritmo, do tempo e da cadência — elementos que mais tarde se transformariam em filosofia popular cantada. O samba de Monsueto nasce do pulso, da experiência concreta, do tempo vivido. Décadas depois, Mora na filosofia atravessaria o tempo. Nos anos 1970, Caetano Veloso o regravou em Transa, com arranjo de Jards Macalé, transformando-o em manifesto estético. Não era nostalgia: era atualização. Filosofia popular em estado puro, atravessando um período em que pensar exigia cuidado. Em 1971, Candeia escreveu Filosofia do Samba. Não como metáfora, mas como programa ético. O samba, para ele, não era entretenimento: era forma de estar no mundo. Paulinho da Viola, ao interpretá-lo, deu a primeira marcha nesse trem lento que leva ao coração do Brasil profundo. “Mora na filosofia / Morou, Maria.” Quem entende, permanece. Quem permanece, sustenta. Ali já estava tudo: a ideia de que o tempo não é inimigo, de que ética não se improvisa, de que cultura é estrutura — não ornamento. Edgar Morin diria, quase na mesma época, que sociedades complexas exigem pensamento complexo. O conhecimento não se limita à ciência. Mora também na arte, na música, na poesia. Paulo Vanzolini foi a prova viva disso. Zoólogo de renome, cientista rigoroso, e autor de sambas definitivos como Ronda. Ciência e samba não competiam nele. Se completavam. A filosofia morava nos dois lugares. Avancemos no tempo. Em dezembro de 2025, o debate já não é sobre o lugar das Humanidades nas universidades, como foi em 2019, quando foi escrito Mora na filosofia. O palco agora é outro: o Orçamento da União. Mas a pergunta continua a mesma — onde está a ética? O ministro Flávio Dino, ao suspender o dispositivo legal que permitia a “revalidação” de restos a pagar de emendas parlamentares desde 2019, assumiu um papel raro na política brasileira contemporânea: o de caçador de jabutis. O artigo inserido de última hora em um projeto de lei que tratava de outro tema tentava ressuscitar, por vias indiretas, o orçamento secreto já declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Um jabuti em cima da árvore. A metáfora é antiga em Brasília, mas o gesto foi claro. Dino não caçou pessoas. Caçou métodos. Não fez retórica. Aplicou processo. Ao afirmar que a revalidação equivaleria à criação de nova despesa sem respaldo legal, recolocou no centro do debate princípios esquecidos: transparência, responsabilidade fiscal, devido processo orçamentário, separação de Poderes. “Mora”, aqui, ganha outro sentido. Mora é atraso no pagamento. É dívida vencida. É o empurrar com a barriga que tenta driblar o tempo e a lei. Ao interromper esse movimento, o ministro lembrou que ética também mora no Orçamento. Não é casual que tenha se tornado alvo. Quem controla o Orçamento controla poder. Ao exigir luz onde havia penumbra, Dino mexeu na engrenagem mais sensível do sistema político. E, sem proclamá-la em discurso, acabou empunhando uma bandeira rara: a da ética praticada. Entre o samba de 1955 e o Supremo de 2025, entre o pensamento de Candeia e a decisão de Dino, há um fio contínuo. A filosofia que o samba ensinou — a de que não se pesa tudo na balança da pressa — reaparece agora como filosofia da caça: identificar o que não deveria estar ali, perguntar quem colocou, retirar à vista de todos. Escrever estas linhas desde Paris não é acaso. Foi aqui que Hipólito José da Costa fundou o Correio Braziliense, em 1808, acreditando que jornalismo é vigilância do poder e serviço público. As máquinas hoje rodam quase instantaneamente pelo Brasil e pelo mundo, mas o desafio permanece o mesmo. Sem filosofia, a política vira técnica sem alma. Sem ética, o Orçamento vira presa. Entre o samba e a lei, a lição continua atual: mora na filosofia — inclusive quando é preciso caçar jabutis. S Notas de Moraes e do Banco Central não esclarecem relação com Banco Master, diz Malu Gaspar Rádio CBN 23 de dez. de 2025 Malu Gaspar - Conversa de Bastidor Colunista afirma que comunicações evitam negar pontos centrais revelados nas reportagens

domingo, 21 de dezembro de 2025

“Imagine”, esfera pública e a política da projeção

“Imagine”, esfera pública e a política da projeção
Ensaio acadêmico-jornalístico “Quando a forma — o som, o signo, a encenação — passa a ditar o conteúdo, a verdade torna-se acessório. Em 2025, a incerteza é real; o problema está nas palavras e imagens usadas para descrevê-la, muitas vezes simples artifícios retóricos, colocados ali para nos fazer olhar para cima enquanto o chão da factualidade nos é discretamente retirado.” “A esfera pública se degrada quando a comunicação deixa de se orientar pela busca da verdade e passa a ser guiada exclusivamente por estratégias de influência.” — Jürgen Habermas 1. O acontecimento e sua factualidade Em novembro de 2025, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, participou de um comício no estado de Miranda, no qual fez referência e cantou trechos da canção Imagine, de John Lennon e Yoko Ono. O episódio ocorreu em um contexto de recrudescimento das tensões diplomáticas entre Caracas e Washington, marcado pelo aumento da presença militar dos Estados Unidos no Caribe e por acusações mútuas de desestabilização política. O registro do evento é inequívoco. Há material audiovisual suficiente para confirmar que a música foi evocada, reproduzida em alto-falantes e acompanhada de forma improvisada pelo presidente venezuelano. Trata-se, portanto, de um fato empírico delimitado, cuja existência não depende de interpretação, mas apenas de verificação. 2. Do fato ao símbolo: a mutação do acontecimento A clareza factual, contudo, não impediu que o episódio fosse rapidamente deslocado do plano do acontecimento para o da construção simbólica. Imagine, desde seu lançamento em 1971, deixou de operar apenas como obra musical para se consolidar como um artefato normativo difuso, associado a ideais de paz, fraternidade e superação de conflitos. Essa plasticidade simbólica explica tanto sua permanência quanto sua vulnerabilidade à apropriação política. Nesse sentido, o gesto de Maduro não é excepcional. Líderes, governos e movimentos de diferentes orientações ideológicas já recorreram à canção em contextos diversos. O que singulariza o episódio de 2025 não é a apropriação em si, mas a rapidez com que o símbolo passou a ser reconfigurado discursivamente, dando origem a narrativas que extrapolam — e, em alguns casos, contradizem — os fatos observáveis. 3. Desinformação, projeção e crise da mediação Circularam, nas horas e dias seguintes, alegações de que Maduro teria entoado fielmente a letra original em inglês ou de que forças externas teriam atuado para vetar ou censurar a divulgação das imagens. Nenhuma dessas afirmações encontra respaldo empírico. Os registros disponíveis mostram fragmentação e improviso, não execução integral. Tampouco há evidência de mecanismos institucionais que sustentem a hipótese de vetos ou interferências diplomáticas. Esse deslocamento do debate não é acidental. Ele revela uma característica estrutural do espaço público contemporâneo: a erosão das mediações entre fato, interpretação e juízo normativo. Como alertou Habermas, quando a comunicação deixa de se orientar pela pretensão de validade — isto é, pela distinção entre verdadeiro e falso — e passa a operar prioritariamente como instrumento de influência, a esfera pública perde sua função deliberativa. Nesse ambiente, a incerteza, que deveria estimular investigação e prudência, transforma-se em terreno fértil para projeções ideológicas. A ausência de informação sólida não gera silêncio reflexivo, mas excesso narrativo. O símbolo passa a valer mais do que o acontecimento que o originou. 4. Ceticismo legítimo e seus limites É intelectualmente legítimo questionar o uso de um ícone pacifista por um governante frequentemente acusado de práticas autoritárias. A crítica política não apenas é permitida, como constitui elemento essencial do debate democrático. O problema surge quando o ceticismo abandona o compromisso com a factualidade e passa a operar por inferência especulativa. Quando isso ocorre, a crítica deixa de cumprir sua função emancipatória e passa a reproduzir a mesma lógica que denuncia: a subordinação da verdade à conveniência narrativa. A fronteira entre análise e fabulação torna-se indistinta, e o espaço público converte-se em um campo de ruído simbólico. 5. Considerações finais: verdade, forma e responsabilidade pública O episódio envolvendo Imagine diz menos sobre a intenção subjetiva de Nicolás Maduro e mais sobre a condição objetiva do debate público em 2025. Trata-se de um contexto no qual a forma — o som, o enquadramento, o recorte — tende a se sobrepor ao conteúdo, e no qual a verdade corre o risco de tornar-se um acessório descartável. Em um ambiente marcado pela circulação acelerada de imagens e pela fragilidade das mediações institucionais, a defesa da democracia não depende apenas de posições normativas, mas de um compromisso metodológico elementar: resistir à tentação de preencher incertezas com ideologia e reafirmar que, sem factualidade compartilhada, não há deliberação pública — apenas encenação. S "imagine there's no people" versão madura para para "Imagine all the people Livin' life in peace" do imaturo inglês da classe operária de Liverpool. Não é fato a versão captada em vídeo de possível opositor do governo maduro no mundo seja de fato a versão que de fato Mauro tenha dito no palanque. Também não é fato que Milley tenha usado o poder de veto da Argentina para vetar a exceução do vídeo do comíncio na Venezuela como supostamente teria proposto o presidente do Mercosul em sua última sessão sob presidência brasileña. Imagine John Lennon Imagine there's no heaven It's easy if you try No hell below us Above us only sky Imagine all the people Living for today Imagine there's no countries It isn't hard to do Nothing to kill or die for And no religion too Imagine all the people Living life in peace You may say I'm a dreamer But I'm not the only one I hope someday you'll join us And the world will be as one Imagine no possessions I wonder if you can No need for greed or hunger A brotherhood of man Imagine all the people Sharing all the world You may say I'm a dreamer But I'm not the only one I hope someday you'll join us And the world will live as one Composição: Yoko Ono / John Lennon. Vídeo: Maduro canta "Imagine", de John Lennon, em apelo de paz aos EUA A canção pacifista de John Lennon, que fundou os Beatles, e Yoko Ono ficou famosa da década de 70 Da CNN Brasil* 15/11/25 às 23:11 | Atualizado 16/11/25 às 08:49 ouvir notícia O líder da Venezuela, Nicolás Maduro, fez um novo apelo de paz aos EUA neste sábado (15), ao cantar a música Imagine, de John Lennon, em frente a um comício na Venezuela. CNN Brasil Siga a CNN Brasil no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo Seguir no Google Durante um evento com seus apoiadores em Miranda, onde empossou os comitês de base bolivarianos, o líder chavista diz: Play Video "Paz, paz, paz. Façam tudo pela paz. Como John Lennon costumava dizer. Alfred Nazareth (Ministro da Comunicação da Venezuela), como era a música do John Lennon? Imaginem todas as pessoas". Enquanto a música Imagine era tocada nos alto-falantes, o líder venezuelano cantava e aplaudia junto com seus apoiadores, enquanto autoridades governamentais no palco faziam o sinal de paz com as mãos. A canção de John Lennon, que fundou os Beatles, e Yoko Ono que pede por paz no mundo ficou famosa da década de 70 e já ganhou diversas interpretações por artistas de todo o mundo. A música idealiza um cenário pacifista capaz de estabelecer paz entre os povos. "Imagine que não existem países. Não é difícil imaginar nada pelo que matar ou morrer", diz um trecho. "Imagine que não existe paraíso. É fácil se você tentar. Imagine não ter posses, será que você consegue? Sem necessidade de ganância ou fome, uma irmandade entre os homens. Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo inteiro". O novo apelo surge em meio a tensão entre a Caracas e Washington devido ao aumento da presença militar dos Estados Unidos no Caribe. No mesmo evento, Maduro voltou a criticar a mobilização americana, especialmente após Trinidad e Tobago, país vizinho, anunciar exercícios militares em conjunto com os EUA a partir deste domingo (16). Enquanto o governo Trump afirma que as operações visam atacar narcotraficantes na região, Maduro sustenta que elas representam uma tentativa secreta de derrubar seu regime. (Com informações da Reuters) Tópicos EUA Maduro Nicolás Maduro Venezuela

sábado, 20 de dezembro de 2025

Triângulo de soma zero: três pontos coincidentes ou três segmentos contíguos e contínuos?

Música Isso É Fundo De Quintal Leci Brandão - Tema Isso É Fundo De Quintal Leci Brandão Nova Bis - Samba
Um trisal é uma relação afetiva, amorosa e consensual entre três pessoas, baseada no poliamor, na qual todos os envolvidos têm ciência e concordam com a dinâmica, diferentemente do triângulo amoroso, marcado pela exclusão e pela escolha entre pares. Pode assumir configurações variadas (como V, T ou H), ser fechado ou aberto, e depende de comunicação, respeito e consentimento mútuo para funcionar, podendo envolver intimidade entre todos ou apenas em duplas, e até constituir uma família com filhos.
Acordão do Congresso, governo e STF vai beneficiar Bolsonaro José Casado Por José Casado Acabou em “pizza”. Sem anistia, Senado aprovou redução das penas para os condenados no 8 de Janeiro que, também, vai beneficiar Jair Bolsonaro Transportada para a política brasileira recente, essa distinção entre trisal e triângulo amoroso ajuda a iluminar o funcionamento do chamado “acordão” descrito por Carlos Andreazza no Senado em dezembro de 2025. Não se trata ali de uma disputa em que um vence e outro perde, mas de um arranjo relacional no qual governo, Congresso e bolsonarismo permanecem ligados por segmentos contíguos e contínuos, ainda que finjam, no discurso público, ocupar vértices opostos. Como no trisal, a estabilidade do sistema depende menos de afinidade ideológica do que da aceitação tácita das regras do convívio: cada parte preserva sua identidade, cede o suficiente para manter a forma e evita esticar a corda a ponto de romper o desenho. O resultado não é consenso, mas coexistência funcional — um triângulo de soma zero apenas na retórica, já que o custo real da manutenção da figura recai fora dela, sobre a área comum chamada sociedade.
sábado, 20 de dezembro de 2025 O PT aderiu ao acordão. Por Carlos Andreazza O Estado de S. Paulo Davi Alcolumbre entregou a sua parte no trato. Não fez favor, como se verá. Faltava o governo Lula no acordão, que costurou bolsonarismo, Centrão, os comandos do Congresso e aquela porção do Supremo composta por senadores-consultores togados. Não falta mais. O governo aderiu. Aos 45 do segundo tempo, no Senado. Não sem cálculo. Certamente sem favor, como se verá. Aderiu ao acordo pela aprovação do projeto de redução de penas, chamado de PL da Dosimetria. Projeto que tem Jair Bolsonaro como objeto beneficiado. O líder do governo, Jaques Wagner, admitiu. Argumentou que o trem seria aprovado de qualquer maneira, cedo ou tarde. Subentendido que via vantagem em acelerá-lo, em troca da aprovação de pauta fiscal decisiva para o Planalto. Subentendido no subentendimento de que Lula vetaria o texto adiante... Há um teatro. Lula o vetará. O Congresso derrubará o veto e ficará com o ônus, explorado pelos governistas, de “defensor de golpista”. O presidente da República disse que não sabia do acordo. Não é raro que não saiba de cousas havidas em sua gestão, geralmente as incômodas. Faz escola, aliás. Fernando Haddad, ministro da Fazenda desde janeiro de 2023, só saberia que os Correios estavam falidos em setembro de 2025 – talvez porque a empresa estivesse privatizada no curso de quase três anos, só agora retomada pela administração petista... O senador Wagner pode matar a responsabilidade no peito sozinho. Dizer que negociou o arranjo por conta própria. Não estava sozinho. Não conseguiria relaxar a tramitação do bicho sem ajuda. Porque o PT, afora discursos indignados em rede social, deixou rolar. Os outros senadores petistas – Randolfe Rodrigues e Rogério Carvalho desapareceram – permitiriam que o troço corresse. O partido não trabalhou regimentalmente – como poderia e sabe proceder – para travar-adiar a prosperidade do texto na CCJ. E o projeto então avançou, com pedido de vista de apenas quatro horas, admitida também a controversa leitura de que a emenda de Sergio Moro ao relatório de Esperidião Amin seria de redação – e não de mérito. Solução-puxadinho tão garantidora de que o projeto não voltará à Câmara quanto de que provocará um mandado de segurança ao STF. Pouco depois, o plenário do Senado o aprovou. Pouquíssimo depois, passaria a votar o projeto – o de sustentação da fantasia cumpridora de metas de Haddad – que corta isenções fiscais e aumenta impostos, conta de mais de R$ 20 bilhões; projeto fundamental para que se pudesse fechar, por mentira crível, a lei orçamentária de 2026, aquela em que se formalizou um calendário para pagamento de emendas (fundo eleitoral paralelo) antes das eleições, sonho antigo dos senhores do orçamento secreto; projeto em que se embutiu a alcolúmbrica reabilitação de emendas parlamentares canceladas, restos a pagar do período entre 2019 e 2023, requentados R$ 3 bilhões que poderão ser disparados até dezembro do ano eleitoral. Projeto aprovado.
O TRIÂNGULO FECHA NO SAMBA Geometria política, trisal institucional e partido-alto no fundo do Brasil Há coisas que só o Brasil explica. E há coisas que o Brasil explica melhor no samba. Este texto nasce de uma pergunta aparentemente técnica — que forma tem um triângulo de soma zero? — e termina inevitavelmente na mesa de bar, onde a geometria perde o rigor, mas ganha verdade. 1. O triângulo que não está nos livros “Triângulo de soma zero” não é conceito da geometria clássica. É metáfora. Dessas que funcionam melhor na política, na psicologia das relações e na vida real. Na teoria, um triângulo só existe se houver três pontos distintos, ligados por segmentos contíguos e contínuos. Há tensão, distância, ajuste. Se um lado cresce, os outros se rearranjam. Existe área. Existe forma. Quando os três pontos se sobrepõem, o triângulo colapsa. Resta um ponto só. Uma figura degenerada. Na matemática, isso é falha estrutural. Na política brasileira, é método. 2. Dezembro de 2025: quando a figura aparece No sábado, 20 de dezembro de 2025, o colunista Carlos Andreazza descreveu no Estadão a materialização desse triângulo em pleno Senado Federal. O chamado “acordão” envolveu três vértices que, no discurso, se odeiam — mas, na prática, se reconhecem: o governo Lula (PT), o Centrão e a cúpula do Congresso, o bolsonarismo. Não foi disputa. Foi arranjo. Não foi traição. Foi convivência. O governo aderiu à tramitação do PL da Dosimetria, que beneficia Bolsonaro. Em troca, o Congresso aprovou a pauta fiscal essencial para sustentar a ficção orçamentária. O Centrão manteve o controle das emendas. O bolsonarismo saiu aliviado. Cada um disse que perdeu alguma coisa. Nenhum saiu de mãos vazias. 3. O trisal institucional Aqui entra a metáfora relacional: não é triângulo amoroso, é trisal funcional. No trisal, não há exclusividade. Há contrato tácito. Não há paixão. Há cálculo. O afeto é substituído pelo interesse — e a fidelidade, pela conveniência. O triângulo político brasileiro de 2025 funciona assim: os segmentos são contíguos (ninguém rompe), são contínuos (a negociação não para), e a área interna é ocupada por quem não foi convidado: o público. 4. A soma zero que mente Chama-se soma zero porque alguém sempre paga. Mas não são os vértices. A conta fica dentro da figura: aumento de impostos, orçamento maquiado, emendas ressuscitadas, cinismo institucionalizado. É um sistema fechado que só se mantém porque ninguém estica demais a corda. Se um lado resolve ser “coerente”, o triângulo racha. E ninguém quer cair sozinho. Por isso, todo mundo dança. 5. Quando a política vira samba E é aqui que a geometria pede licença ao pandeiro. No samba — especialmente no partido-alto do Fundo de Quintal dos anos 80 — existe uma sabedoria estrutural: quem canta sozinho perde o tempo; quem entra no coro se mantém. O refrão explica melhor que qualquer editorial: É no mesmo balcão É tudo irmão Briga é só de falação No fundo é tudo a mesma mão O samba revela o que o discurso esconde: a política brasileira não se organiza em polos, mas em rodas. Quem bate palma hoje, puxa o coro amanhã. 6. A caricatura como síntese Na imagem que acompanha este texto, três figuras brindam juntas. Sorriem. Tocam. Cantam. Não importa quem são — importa o que representam. A caricatura sambista faz o que a análise técnica não consegue: mostra que, quando os interesses se sobrepõem demais, o poder não desaparece. Ele se concentra. É a singularidade brasileira: quanto mais diferentes dizem ser, mais parecidos agem. 7. Conclusão: o Brasil explicado em três acordes O Brasil de 2025 não vive uma guerra política. Vive uma forma. Não é ponto único — ainda há tensão. Não é conflito aberto — isso dá trabalho. É um triângulo estável, mantido por negociação constante e crítica neutralizada pelo hábito. A geometria da sobrevivência funciona assim: ninguém cai, ninguém rompe, e todo mundo segue cantando. No fim, a política brasileira se entende melhor como samba de mesa do que como debate de plenário. Porque no samba, como na política, quem paga a saideira raramente segura o microfone. S

Em espírito

O presente perfeito. Fácil de embrulhar, não quebra, não tem problema de ficar curto ou apertado, não estraga fora da geladeira e, ainda por cima, vem numa faixa enorme de preços, que cabe em todos os bolsos: livro! Vamos à nossa lista. Martha Batalha: Carta ao Papai Noel Joaquim Ferreira dos Santos: Aqui ninguém vai falar mal do Rio, mas... O mais inesperado: Em maio, recomendei “Orbital” (DBA, tradução de Antonio Scandolara), de Samantha Harvey, para o Dia das Mães. Fiquei em dúvida se recomendava de novo agora, mas pais, primos, irmãos, amigos e todo mundo que não é mãe também merece a chance de ler essa extraordinária meditação sobre a fragilidade humana e a beleza do mundo. O mais terno: Uma família de imigrantes italianos se instala em Mar del Plata na virada do século passado e ali inventa um tipo de massa que faz o sucesso da sua trattoria. Romance da argentina Virginia Higa (Autêntica Contemporânea, tradução de Sílvia Ornelas), “Os Sorrentino” é enxuto, delicado e surpreendentemente afetuoso, uma daquelas leituras que ficam na memória (e no coração) durante muito, muito tempo. O mais intenso: Num intervalo de oito meses, Diogo Mainardi perdeu pai, mãe e irmão — e transformou o luto numa fotonovela, “Meus mortos” (Record). As imagens o acompanham por Veneza em passeios com o cão e dialogam com reflexões sobre arte, vida e morte. Polêmico quando escreve sobre política, Mainardi é um dos autores brasileiros mais originais e desassombrados ao observar a própria vida. Ele merece ser lido por gente de todos os quadrantes ideológicos. José Eduardo Agualusa: Manual de desorientação O mais comovente: Edmund de Waal escreveu “Cartas para Camondo” (Intrínseca, tradução de Alessandra Esteche) como um conjunto imaginário de cartas ao barão Moise de Camondo, um dos grandes colecionadores da Belle Époque. O projeto não tem a ambição de “A lebre com olhos de âmbar”, mas é igualmente tocante. Mais uma vez o autor parte de objetos para reconstituir o esplendor e a fragilidade das grandes famílias judaicas europeias, e o seu sonho frustrado de assimilação pela arte e pela filantropia. O tom sereno do início engana — sob a elegância da memória preservada emerge a longa e persistente história do antissemitismo francês. O mais engraçado: Não sei se “A patroa”, de Hannelore Gayre (Dublinense, tradução de Diego Grando), é noir ou fábula moral ao contrário; seja o que for, é um policial deliciosamente fora do padrão. Patience Portefeux traduz escutas em árabe para a Justiça francesa, paga as contas das filhas adultas e sustenta a mãe num asilo caro — até o dia em que descobre, antes de todo mundo, o caminho de uma carga de haxixe. Ela não pensa duas vezes e vira uma mulher de negócios. O mais lindo: Ler mangás não é do gosto de todo mundo, a começar pelo fato de que se abre o livro ao contrário; este, porém, é um detalhe menor diante do encanto de “Gatos do Louvre”, de Taiyo Matsumoto (JCB, tradução de Naguisa Kushihara), que acompanha um grupo de felinos mágicos pelos corredores do museu. A narrativa é contida, a arte espetacular. O mais cosmopolita: “Geografia do tempo”, de Ary Quintella (Andrea Jakobsson Estúdio), é um livro sobre leitura, viagem e curiosidade como modo de estar no mundo. Diplomata e leitor voraz, ele escreve a partir de uma biblioteca muito pessoal, em que os livros se relacionam uns com os outros — e com cidades, museus, teatros e cemitérios. Com erudição e sem exibicionismo, Quintella transforma a alta cultura em conversa contínua, guiada pelo prazer de ler, olhar e seguir adiante. Mais livros na semana que vem. Cora Rónai Livros para o Natal Aqui vão algumas sugestões de presentes que são fáceis de embrulhar, não quebram e não estragam quando ficam fora da geladeira Livros para o Natal Há 3 diasCora Rónai
“Eu prefiro esse daqui, que ninguém conhece.” Robertinho Silva — percussionista internacional brasileiro, no Retiro dos Artistas. “A piedade é a irmã mais velha que sensibiliza, educando sua irmã mais nova: a caridade.” De imperador e imperatriz. Aprenda tocar pandeiro com Robertinho Silva - www.batuke.com.br Roberto de Moura 1 de abr. de 2013 O músico Robertinho Silva demonstra toda sua técnica de tocar pandeiro em seu site dedicado a percussão brasileira. Junto com a vídeo aula mais de 5 videos complementares com exercícios para o desenvolvimento de uma forma singular de tocar. Transcrição
“Mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis.” — Paulo. (ROMANOS, 8.13) 1 Quem vive, segundo as leis sublimes do Espírito, respira em Esfera diferente do próprio campo material em que ainda pousa os pés. 2 Avançada compreensão assinala-lhe a posição íntima. 3 Vale-se do dia qual aprendiz aplicado que estima na permanência sobre a Terra valioso tempo de aprendizado que não deve menosprezar. 4 Encontra, no trabalho, a dádiva abençoada de elevação e aprimoramento. 5 Na ignorância alheia, descobre preciosas possibilidades de serviço. 6 Nas dificuldades e aflições da estrada, recolhe recursos à própria iluminação e engrandecimento. 7 Vê passar obstáculos, como vê correr nuvens. 8 Ama a responsabilidade, mas não se prende à posse. 9 Dirige com devotamento, contudo, foge ao domínio. 10 Ampara sem inclinações doentias. 11 Serve sem escravizar-se. 12 Permanece atento para com as obrigações da sementeira, todavia, não se inquieta pela colheita, porque sabe que o campo e a planta, o sol e a chuva, a água e o vento pertencem ao Eterno Doador. 13 Usufrutuário dos bens divinos, onde quer que se encontre, carrega consigo mesmo, na consciência e no coração, os próprios tesouros. 14 Bem-aventurado o homem que segue vida a fora em Espírito! Para ele, a morte aflitiva não é mais que alvorada de novo dia, sublime transformação e alegre despertar! Emmanuel Texto extraído da 1ª edição desse livro. Pão Nosso #082 - Em espírito NEPE Paulo de Tarso | Evangelho e Espiritismo Transmitido ao vivo em 14 de fev. de 2023 Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Pão Nosso", de Emmanuel/Chico Xavier. Transcrição 82 Em espírito
A Proposição Imperativa como Educação do Bem Linguagem, ética e formação humana inspiradas em Pestalozzi e Eurípedes Barsanulfo No campo da educação, há momentos em que a gramática ultrapassa o domínio técnico da língua e se transforma em instrumento de formação moral. É nesse horizonte que se insere a aula sobre a proposição imperativa, trabalhada não apenas como conteúdo linguístico, mas como prática viva de valores, especialmente na íntima relação entre piedade e caridade, compreendidas como espécies elevadas do bem. O imperativo, enquanto gênero de proposição, é aquele que orienta a ação. Tradicionalmente associado à ideia de comando, ele revela, quando observado com maior profundidade, uma diversidade de espécies funcionais: ordenar, invocar, postular e convidar. Cada uma delas corresponde a uma forma distinta de chamar o outro à ação, variando em intensidade, intenção e abertura ao diálogo. Quando aplicado à educação ética, o imperativo deixa de ser imposição e passa a ser convite à consciência. Assim, a aula propõe compreender a piedade como a capacidade de perceber o sofrimento alheio, acolhendo a fragilidade humana com sensibilidade e respeito, e a caridade como a ação concreta que transforma essa percepção em gesto solidário. Piedade vê; caridade age. Uma prepara o caminho da outra. Nesse contexto, as espécies do imperativo ganham sentido formativo: Ordenar, quando necessário, orienta para o bem comum com responsabilidade ética: Respeite quem sofre. Proteja os mais vulneráveis. Invocar apela à consciência e desperta empatia: Olhe com atenção para quem precisa. Postular propõe ações de forma reflexiva e respeitosa: Considere ajudar. Avalie como pode colaborar. Convidar engaja livremente o sujeito na prática do bem: Participe. Venha cuidar. A proposta pedagógica culmina em atividade prática, na qual estudantes identificam situações reais de necessidade em seu meio e formulam imperativos adequados a cada contexto. Desse modo, a linguagem deixa de ser abstrata e se torna experiência ética aplicada, unindo reflexão, sentimento e ação. Avaliada à luz de uma pedagogia humanista e espiritualizada — como a que marcou a trajetória de Eurípedes Barsanulfo, no Colégio Allan Kardec, inspirada nos ensinamentos de Pestalozzi — a aula revela méritos significativos. O método parte da vida concreta para alcançar o conceito, educando simultaneamente a inteligência, o coração e a vontade. Respeita-se a diversidade das almas, reconhecendo que nem todos respondem ao mesmo tom de imperativo, e que educar é discernir a palavra justa para cada momento. Destaca-se, ainda, o clima dialógico e fraterno que a proposta favorece. O estudante não é constrangido, mas chamado à reflexão e à escolha consciente do bem. A palavra que convida educa mais profundamente do que a que apenas ordena, embora a ordem justa também tenha seu lugar quando inspirada pelo amor e pela responsabilidade coletiva. Como síntese, pode-se afirmar que a proposição imperativa, assim trabalhada, deixa de ser apenas um tópico gramatical e se converte em instrumento de formação humana. Ensina-se, ao mesmo tempo, a estrutura da língua e o imperativo maior da vida moral: perceber o outro com piedade e agir com caridade. Educar, nesse sentido, é ajudar cada consciência a reconhecer que o verdadeiro imperativo não se impõe de fora, mas nasce de dentro, quando a linguagem se alia ao bem e a palavra se transforma em ação solidária. Ao final, compreende-se que o imperativo mais formador nem sempre se anuncia em voz alta. Muitas vezes, ele se revela em gestos simples e escolhas discretas, como na fala do percussionista brasileiro Robertinho Silva, no Retiro dos Artistas: “Eu prefiro esse daqui, que ninguém conhece.” Sem ordenar, a frase convida. Sem impor, educa. Há nela um imperativo implícito que valoriza o que é pequeno, esquecido ou silencioso, despertando a sensibilidade antes da ação. É nesse mesmo movimento que se inscreve a afirmação: “A piedade é a irmã mais velha que sensibiliza, educando sua irmã mais nova: a caridade.” A piedade reconhece; a caridade realiza. Entre ambas, a linguagem cumpre sua função mais alta: transformar percepção em gesto, palavra em prática do bem. De imperador e imperatriz — metáfora que encerra este percurso — nasce o imperativo entendido não como domínio, mas como responsabilidade moral. Assim, a educação revela seu sentido mais profundo: formar consciências capazes de ouvir o chamado do bem e responder a ele com liberdade, lucidez e cuidado. MPB Compositores CD30 Geraldo Pereira Acervo da Música Brasileira 26 de ago. de 2020 Nenhuma descrição foi adicionada ao vídeo. Música Ao fim, o imperativo que verdadeiramente educa não grita: convida. Ele se manifesta em escolhas discretas, como na afirmação do percussionista brasileiro Robertinho Silva, hoje residente no Retiro dos Artistas, ao preferir “esse daqui, que ninguém conhece”. Sem ordenar, a frase orienta; sem impor, forma. Há nela um imperativo implícito que valoriza o invisível e desperta a consciência para o bem silencioso, confirmando que a piedade reconhece e a caridade realiza. Assim, de imperador e imperatriz nasce um imperativo ético que não domina, mas responsabiliza, transformando linguagem em gesto humano e educação em prática solidária. Fonte e contexto: Retiro dos Artistas — instituição dedicada ao cuidado de profissionais da cultura — e depoimento público de Robertinho Silva, referência internacional da percussão brasileira (retirodosartistas.org.br; robertinhosilvaoficial). Vídeo disponível para busca e acesso em: https://www.instagram.com/reel/C71d-Gdg6ji/
A piedade 17. A piedade é a virtude que mais vos aproxima dos anjos; é a irmã da caridade, que vos conduz a Deus. Ah! deixai que o vosso coração se enterneça ante o espetáculo das misérias e dos sofrimentos dos vossos semelhantes. Vossas lágrimas são um bálsamo que lhes derramais nas feridas e, quando, por bondosa simpatia, chegais a lhes proporcionar a esperança e a resignação, que encanto não experimentais! Tem um certo amargor, é certo, esse encanto, porque nasce ao lado da desgraça; mas, não tendo o sabor acre dos gozos mundanos, também não traz as pungentes decepções do vazio que estes últimos deixam após si. Envolve-o penetrante suavidade que enche de júbilo a alma. A piedade, a piedade bem sentida é amor; amor é devotamento; devotamento é o olvido de si mesmo e esse olvido, essa abnegação em favor dos desgraçados, é a virtude por excelência, a que em toda a sua vida praticou o divino Messias e ensinou na sua doutrina tão santa e tão sublime. Quando esta doutrina for restabelecida na sua pureza primitiva, quando todos os povos se lhe submeterem, ela tornará feliz a Terra, fazendo que reinem aí a concórdia, a paz e o amor. O sentimento mais apropriado a fazer que progridais, domando em vós o egoísmo e o orgulho, aquele que dispõe vossa alma à humildade, à beneficência e ao amor do próximo, é a piedade! piedade que vos comove até às entranhas à vista dos sofrimentos de vossos irmãos, que vos impele a lhes estender a mão para socorrê-los e vos arranca lágrimas de simpatia. Nunca, portanto, abafeis nos vossos corações essas emoções celestes; não procedais como esses egoístas endurecidos que se afastam dos aflitos, porque o espetáculo de suas misérias lhes perturbaria por instantes a existência álacre. Temei conservar-vos indiferentes, quando puderdes ser úteis. A tranqüilidade comprada à custa de uma indiferença culposa é a tranqüilidade do mar Morto, no fundo de cujas águas se escondem a vasa fétida e a corrupção. Quão longe, no entanto, se acha a piedade de causar o distúrbio e o aborrecimento de que se arreceia o egoísta! Sem dúvida, ao contacto da desgraça de outrem, a alma, voltando-se para si mesma, experimenta um confrangimento natural e profundo, que põe em vibração todo o ser e o abala penosamente. Grande, porém, é a compensação, quando chegais a dar coragem e esperança a um irmão infeliz que se enternece ao aperto de uma mão amiga e cujo olhar, úmido, por vezes, de emoção e de reconhecimento, para vós se dirige docemente, antes de se fixar no Céu em agradecimento por lhe ter enviado um consolador, um amparo. A piedade é o melancólico, mas celeste precursor da caridade, primeira das virtudes que a tem por irmã e cujos benefícios ela prepara e enobrece. – Miguel. (Bordéus, 1862.)
A Piedade na visão de Jean-Jacques Rousseau A piedade é um sentimento natural, que, moderando em cada indivíduo a atividade do amor de si próprio, concorre para a conservação mútua de toda a espécie. É ela que nos leva sem reflexão em socorro daqueles que vemos sofrer; é ela que, no estado de natureza, faz as vezes de lei, de costume e de virtude, com a vantagem de que ninguém é tentado a desobedecer à sua doce voz; é ela que impede todo o selvagem robusto de arrebatar a uma criança fraca ou a um velho enfermo a sua subsistência adquirida com sacrifício, se ele mesmo espera poder encontrar a sua alhures; é ela que, em vez desta máxima sublime de justiça raciocinada, faz a outrem o que queres que te façam, inspira a todos os homens esta outra máxima de bondade natural, bem menos perfeita, porém mais útil, talvez, do que a precedente: faz o teu bem com o menor mal possível a outrem. Em uma palavra, é nesse sentimento natural, mais do que em argumentos sutis, que é preciso buscar a causa da repugnância que todo o homem experimentaria em fazer mal, mesmo independentemente das máximas da educação. Embora possa competir a Sócrates e aos espíritos da sua têmpera adquirir a virtude pela razão, há muito tempo que o gênero humano não mais existiria se a sua conservação tivesse dependido exclusivamente dos raciocínios dos que o compõem. (Jean-Jacques Rousseau - Fonte: http://www.citador.pt/textos/a-piedade-jean-jacques-rousseau) . Postado por Berenice Ribeiro às 19:01 Marcadores: Comportamento, Opinião sexta-feira, 23 de setembro de 2011 A piedade - O Evangelho segundo o Espiritismo - Cap. XIII - Item 17 - ENL 26/06/2023 Canal CEIC Transmitido ao vivo em 26 de jun. de 2023 Evangelho no Lar Online "Um momento de reflexão e oração para harmonizar nosso lar."" Esse é o EVANGELHO NO LAR ONLINE do Centro Espírita Ildefonso Correia! 🙌🏡🙏 Esperamos você e sua família para nos unirmos em pensamento. Todo dia às 21:50h no CanalCEIC no YouTube e Facebook." Capítulos
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O TEMPO DO TEXTO: MODERNIDADE TARDIA E CONSCIÊNCIA HISTÓRICA

Legenda descritiva: Charge de J. Caesar, publicada em 18 de dezembro, que retrata três personagens vestidos como presos, cada um se justificando por seus atos com motivações diferentes — “salvar o mundo do comunismo”, “melar a eleição” e “sair ameaçando os outros com uma pistola”. Com humor crítico e ironia, a ilustração evidencia como discursos políticos e pessoais são usados para minimizar ou racionalizar ações graves, sugerindo a responsabilização comum por comportamentos antidemocráticos. Por José Casado.
Um homem envelhecido, sentado à beira de um palco em ruínas, segura um crânio à maneira hamletiana. Ao fundo, envolto em luz difusa, a silhueta de um homem jovem observa. Cortinas gastas, cadeiras vazias e a penumbra teatral compõem a cena. A imagem traduz a modernidade tardia: a consciência histórica que já não acredita na pureza da ação nem na inocência da representação. Entre a cena e a vida: o novo, o velho e a repetição brasileira Há memórias que persistem não pelo fato em si, mas pela pergunta que deixam em aberto. Uma das mais antigas remete à juventude e à crítica dirigida ao teatro praticado na cidade do mais velho. A observação era simples e incômoda: ao invés de levar a vida para o teatro, ele — o Velho, bem entendido — parecia sempre querer trazer o teatro 🎭 para a vida. O que soava, então, como censura estética revelou-se, com o tempo, um dilema histórico mais amplo. A dúvida que daí nasce é declaradamente hamletiana: seria possível afirmar que o velho e o novo, juntos ou separados, não estariam ambos com razão? A questão não se resolve. Consome. Mas o faz, como diz o aforismo, sempre em benefício da prudência. O teatro como mediação histórica Desde a modernidade, o teatro foi pensado como espaço de distanciamento crítico. Levar a vida ao palco significava arrancá-la da opacidade do cotidiano, expor conflitos, tornar visíveis contradições sociais. Foi essa aposta que orientou grande parte do teatro moderno e político do século 20: a crença de que a representação podia produzir consciência. A posição do jovem nasce desse horizonte. Há desconfiança diante da máscara, rejeição à encenação fora do espaço delimitado da arte. Viver deveria ser viver; representar, apenas no palco. Qualquer transbordamento da teatralidade para a vida parecia artificial, quando não desonesto. O velho, porém, conhece outro tempo. Sua inclinação a trazer o teatro para a vida não é capricho, mas resultado de experiência histórica acumulada. Ele sabe que a vida social é feita de papéis, que a franqueza absoluta cobra preço alto e que a máscara, muitas vezes, funciona como defesa mínima diante de estruturas rígidas e relações de poder assimétricas. Modernidade tardia e consciência da repetição É nesse ponto que o texto se inscreve no que se pode chamar de modernidade tardia. Já não se acredita ingenuamente na transparência da verdade nem na eficácia redentora da arte. Tampouco se aceita, sem resistência, o cinismo que naturaliza a encenação permanente. A política, a vida pública e até a intimidade tornaram-se profundamente teatralizadas. Hamlet reaparece não como ornamento erudito, mas como chave interpretativa. Sua dúvida não é indecisão vulgar: é excesso de consciência. É o estado de quem compreende demais para agir com pureza e age pouco porque sabe que toda ação nasce comprometida pelo tempo histórico. Interlúdio cultural: quando a canção antecipa a crítica Talvez a cultura popular tenha formulado com mais clareza — e ironia — aquilo que a análise histórica demora a admitir. Em 2012, enquanto o país parecia avançar, Rita Lee lançava Rapaz. À época, a canção soava leve, libertária, quase descompromissada. Treze anos depois, revela-se menos ingênua do que parecia.
Em Rapaz, o desejo não organiza projeto histórico algum. Ele foge, ironiza, zomba. “Fugimos pro Tibet” não é geografia: é recusa simbólica da repetição. O “rapaz” não representa o novo como promessa política, mas como gesto momentâneo de deslocamento — um modo de escapar, ainda que provisoriamente, da petrificação moral. Nesse sentido, a canção dialoga, com deboche, com a sensação contemporânea da “volta dos que não foram”. O novo reaparece velho, o velho se reapresenta como novidade, e a história gira em falso. Rita Lee não propõe saída: ri antes que o riso seja interditado. O contraponto trágico: da flor ao espinho Se Rapaz é o gesto irreverente, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito são o saldo. Em canções como A Flor e o Espinho ou Deus me fez assim, não há fuga possível. O tempo passa, cobra, endurece. A flor vira espinho. Não por maldade, mas por desgaste. É o mesmo país, visto por ângulos distintos. Onde Rita Lee antecipa com ironia, Nelson Cavaquinho constata sem ilusão. Ambos falam da mesma realidade histórica: a dificuldade brasileira de transformar experiência em aprendizado coletivo. Prudência como lucidez possível Falar em prudência, aqui, não é defender acomodação. Trata-se de uma prudência ativa, que desconfia tanto da pureza quanto do artifício. Entre o jovem que exige verdade inteira e o velho que administra máscaras, resta a consciência incômoda de que ambos carregam uma parte da razão. Sustentar essa tensão, sem resolvê-la apressadamente, talvez seja uma das poucas formas de lucidez ainda possíveis num tempo em que a cena se confunde com a vida — e a vida, cada vez mais, insiste em se apresentar como repetição mal disfarçada. 📌 Nota editorial Texto no formato ensaio cultural para publicação digital. O vídeo funciona como interlúdio crítico, não como ilustração musical. S
Supostos negócios de Lulinha com Careca do INSS são dor de cabeça para Lula Publicado em 19/12/2025 - 05:54 Luiz Carlos Azedo Brasília, Comunicação, Congresso, Ética, Governo, Justiça, Memória, Política, Política, Sindicatos Estava tudo sob controle na CPMI, até aparecerem indícios de que Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, teria negócios que envolveriam o filho do presidente da República “Filhos, porque qui-los”, diria Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o humorista Barão de Itararé, parafraseando o ex-presidente Jânio Quadros. A frase ilustra o dilema político e moral dos presidentes que, no exercício do cargo, veem familiares cruzarem a linha tênue entre o público e o privado. No caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Operação Sem Desconto e seus desdobramentos na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS criam um novo cenário para a atuação do colegiado, corrosivo para a imagem do governo e de grande risco eleitoral, por causa do suposto envolvimento de seu filho Fábio Luís Lula da Silva com o operador central do esquema de desvio de recursos de aposentados e pensionistas, Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. A CPMI do INSS vinha sendo administrada com relativa tranquilidade pelo governo. A base aliada conseguiu impor maioria, controlar a pauta e barrar convocações consideradas sensíveis, como as do próprio Fábio Luís Lula da Silva e do irmão do presidente, Frei Chico, vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, que entrou de gaiato no navio, ao assumir o cargo após o escândalo. A blindagem institucional pode não eliminar o desgaste eleitoral e político: quanto mais o governo atuar para conter o avanço da CPMI, maior será a impressão de que há algo a esconder, percepção que alimenta a narrativa da oposição e amplia o custo político do controle da comissão. Leia também: Empresária ligada a Lulinha é alvo da Operação Sem Desconto da PF Criado em 27 de junho de 1990, o INSS é a fusão do Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social (Iapas) com o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Inicialmente, ele era uma autarquia vinculada ao então Ministério da Previdência e Assistência Social. Desde então, as fraudes se sucedem. Esse escândalo do INSS deixa no chinelo o caso mais famoso. Jorgina de Freitas era procuradora previdenciária desde 1988. Em 1991, foi descoberto um grande esquema de fraude que desviou bilhões do INSS, no qual ela estava envolvida: um grupo de 20 pessoas forjava processos de indenização milionários. Jorgina fugiu em 1992, após ser condenada, e só foi capturada em 1998, na Costa Rica. Ela ficou presa por 12 anos, perdeu o registro da OAB e ainda foi obrigada a devolver R$ 200 milhões aos cofres públicos. Solta em 2010, ela morreu em julho de 2022. Agora, as investigações da Polícia Federal indicam um esquema nacional de descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS, praticados entre 2019 e 2024, com prejuízo estimado em até R$ 6,3 bilhões. Trata-se de um crime que atinge diretamente aposentados e pensionistas, público historicamente associado à base eleitoral de Lula e do PT. Isso torna o episódio duplamente perigoso: pelo volume financeiro envolvido e pelo simbolismo político da vítima. O governo tomou medidas efetivas para reembolsar os lesados, e a Polícia Federal investiga os envolvidos. Filho de César Estava tudo sob controle na CPMI, até aparecerem indícios de que Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, teria negócios que envolveriam Lulinha, inclusive com transferências financeiras vultosas, empresas no exterior e projetos comerciais sensíveis. Ainda que tais acusações não tenham sido comprovadas, a suspeita favorece a narrativa da oposição e produz efeitos midiáticos relevantes. É aquela história famosa da mulher de César, o grande imperador romano; não basta ser honesta, precisa parecer honesta. O presidente Lula foi obrigado a vir a público dizer que “ninguém ficará livre”. Adotou uma postura institucionalmente correta, porém muito constrangedora: “Se tiver filho meu envolvido nisso, ele será investigado”, declarou. O que Lula pode fazer é separar o chefe de Estado do pai, reafirmar a autonomia da Polícia Federal e do Judiciário e demonstrar compromisso com a legalidade. É a única postura possível para quem tem o discurso da justiça social e do combate às desigualdades. Entretanto, não será fácil impedir convocação, quebras de sigilo e aprofundamento de investigações na CPMI que mirem Lulinha. Leia mais: “Se tiver filho meu metido nisso, vai ser investigado” Essa é a grande dor de cabeça do governo. CPMIs não são apenas um instrumento de apuração factual; são arenas políticas, nas quais se digladiam governo e oposição, por meio de vazamentos seletivos e disputas simbólicas. A oposição encontrou uma oportunidade de associar a corrupção bilionária e os prejuízos a aposentados ao suposto favorecimento a familiares do presidente, narrativa de fácil comunicação com a opinião pública. Além disso, o envolvimento do senador Weverton Rocha, alvo de busca e apreensão, mostra que o caso não envolve apena ex-gestores do INSS e entidades sindicais. Com parlamentares, a CPMI recupera densidade política. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Aposentados, #CPMI, #INSS, #Lulinha, #Sindicatos, #Weverton, Lula
Genial/Quaest: Avaliação negativa do governo Lula é a maior entre os Poderes O governo Lula tem avaliação negativa de 38% dos eleitores, percentual maior do que o do Legislativo e o do Judiciário, segundo pesquisa Genial/Quaest Publicado em: 19/12/2025 9:09 Rosana Hessel A avaliação negativa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é maior entre os Poderes da República, de acordo com dados da pesquisa Genial/Quaest que o Blog teve acesso com exclusividade. Conforme dados do levantamento, 38% dos entrevistados avaliam o governo Lula como negativo, maior percentual do que os do Legislativo e do Judiciário. Os desempenhos do Supremo Tribunal Federal (STF) e a da Câmara dos Deputados são considerados negativos para 36% dos eleitores, empatados no segundo lugar. E, em terceiro lugar, o Senado Federal, recebeu 33% das avaliações negativas. A pesquisa mostra ainda que a avaliação negativa do Supremo aumentou quatro pontos percentuais em relação ao levantamento anterior da Quaest, de julho, quando o percentual negativo era de 32%. Para 33% dos entrevistados, o desempenho do STF é positivo e, para 24%, regular. Sete por cento não responderam ou não avaliaram. No Legislativo, a avaliação negativa do Senado oscilou um ponto percentual em relação à pesquisa anterior, de outubro, passando de 34% para 33%. A avaliação positiva avançou de 18% para 22%, no mesmo intervalo de comparação. Enquanto isso, a avaliação negativa da Câmara recuou de 39% para 36%, entre outubro e dezembro, e a positiva subiu de 15% para 20%, no mesmo período. O levantamento faz parte da 20ª rodada da Pesquisa Genial/Quaest de avaliação do governo Lula. Foram entrevistados 2.004 eleitores com idade superior a 16 anos entre os dias 11 e 14 de dezembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais e o índice de confiança é de 95%. Indicação de Messias Em outro levantamento da Quaest, divulgado nesta sexta-feira (19/12), sobre a indicação de Lula do nome do ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para uma vaga no STF, 45% dos entrevistados afirmaram que desaprovam a decisão do presidente, enquanto 30% aprovam. O percentual negativo, contudo, é inferior aos 60% de desaprovação, em abril de 2023, quando Lula indicou o ministro Cristiano Zanin para o Supremo. Naquela época, apenas 23% dos eleitores aprovaram a indicação do atual ministro. Veja um destaque da pesquisa:
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quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Matinée, Soirée E Dosimetria — Dossiê Para Publicação

"Você me pediu cem mil réis, Pra comprar um soirée, E um tamborim, O organdi anda barato pra cachorro, E um gato lá no morro, Não é tão caro assim." Noel Rosa - Cem Mil Réis (Marília Batista) Eu faço um agradecimento a quem de direito, Ao samba que bate tão forte dentro do meu peito. Agradecimento Roger Resende
Acordo entre governo e oposição garante aprovação do PL da Dosimetria Publicado em 18/12/2025 - 06:42 Luiz Carlos Azedo Brasília, Congresso, Eleições, Ética, Governo, Justiça, Memória, Partidos, Política, Política O projeto altera a Lei de Execução Penal, redefine percentuais mínimos para progressão de regime e amplia hipóteses de prisão domiciliar, favorecendo o ex-presidente Jair Bolsonaro “A Necessidade” é um clássico do samba que explora a condição humana com ironia e crítica social, marcas registradas de Bezerra da Silva. Diz a letra: “A necessidade obrigou / você me procurar / você era orgulhosa / mas a necessidade acabou com a sua prosa”. Foi mais ou menos isso que se viu no Senado nesta quarta-feira, na aprovação do PL da Dosimetria pelo plenário, por 48 votos a favor e 25 contra, com uma abstenção. O projeto altera critérios de cálculo e execução de penas e, na prática, reduz condenações impostas aos envolvidos na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro. A aprovação do texto na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) não decorreu de consenso jurídico, mas de um acordo político de bastidores entre governo e oposição para limpar a pauta do Senado e destravar votações de interesse do Planalto. A articulação envolveu o líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), e o líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN), e acabou por expor fissuras internas na base governista, que optou por votar contra o projeto sem, contudo, obstruir sua tramitação. Enquanto o senador Flávio Bolsonaro comemorou abertamente o resultado, Renan Calheiros (MDB-AL) protagonizou um dos discursos mais duros e politicamente reveladores da essência da questão. Comparou o projeto a um “peru de Natal entregue pelo governo a Jair Bolsonaro” e acusou o Senado de participar de uma encenação para atender a conveniências momentâneas. “Eu não vou participar de farsa nenhuma”, afirmou, ao criticar a tentativa de votar uma matéria de profundo impacto institucional “a toque de caixa”, em menos de 24 horas. Renan revelou ainda que fora procurado pelo próprio Jaques Wagner, que lhe teria confidenciado o interesse do governo em “limpar a pauta” do Senado para viabilizar a votação de matérias econômicas consideradas estratégicas, como a taxação das apostas esportivas, estimada em gerar mais de R$ 20 bilhões em receitas para o Tesouro Nacional. Para Renan, a negociação expôs uma contradição grave: sacrificar o debate institucional sobre crimes contra a democracia em nome de conveniência fiscal e aritmética legislativa. Graças ao acordo, a CCJ aprovou parecer do relator Esperidião Amin (PP-SC) por 17 votos a 7, acolhendo emenda do senador Sergio Moro (União-PR) que tenta restringir os efeitos da redução de pena aos crimes contra o Estado Democrático de Direito. Amin sustentou que o projeto não configura anistia, mas corrige excessos cometidos na aplicação das penas. “Há um consenso de que a mão foi pesada, muito pesada”, declarou. Ainda assim, o próprio relator admitiu que o texto pode beneficiar outros condenados por crimes contra a democracia, inclusive réus da chamada trama golpista julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Leia mais: Relator restringe PL da Dosimetria aos atos do 8 de janeiro O ponto mais controverso do processo foi a classificação da emenda de Moro como “redacional”. Para Renan Calheiros, para o presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA), e para outros senadores, trata-se claramente de uma emenda de mérito, que altera o alcance do projeto e exigiria o retorno do texto à Câmara dos Deputados. Renan alertou que forçar a classificação como ajuste formal era uma manobra para acelerar a tramitação e evitar novo debate. “Ninguém pode obrigar o Senado a votar uma matéria dessa complexidade em 24 horas”, disse. Jogo combinado Ao aprofundar sua crítica, Renan alertou para os efeitos institucionais do projeto. Segundo ele, o PL da Dosimetria desestimula militares legalistas, que se recusaram a aderir à tentativa de golpe, e fragiliza o trabalho da Polícia Federal, que reuniu provas robustas contra os articuladores e executores dos atos golpistas. “Nós vamos frustrar a investigação da Polícia Federal. Nós não podemos permitir que isso aconteça”, afirmou, associando o projeto a um recado político perigoso de leniência com crimes contra a ordem constitucional. Nada adiantou. Do ponto de vista normativo, o projeto altera a Lei de Execução Penal, redefine percentuais mínimos para progressão de regime e amplia hipóteses de remição de pena, inclusive em prisão domiciliar. Ao substituir a soma de penas pelo concurso formal quando os crimes forem praticados no mesmo contexto, o efeito prático é a redução significativa do tempo total de encarceramento. Mesmo nos casos de liderança de organização criminosa voltada à prática de crime hediondo – hipótese que pode alcançar Jair Bolsonaro – o cumprimento mínimo de 50% da pena representa, na prática, um abrandamento frente ao modelo cumulativo hoje aplicado. Nos bastidores do Planalto, a decisão de não criar obstáculos reais à aprovação do projeto atendeu a dois cálculos políticos. O primeiro, garantir o avanço da pauta econômica no Senado, já aprovada pela Câmara; segundo, preservar para o presidente Lula o protagonismo de vetar o projeto em 2026, ano eleitoral. Vetos presidenciais, mesmo quando derrubados, ajudam a dissociar a imagem do presidente da do Congresso e reforçam um discurso de defesa da democracia diante da opinião pública. Leia também: Projeto a favor de golpistas deve ser vetado por Lula O PL da Dosimetria nasce, assim, como resposta mal formulada a um problema real: penas desproporcionais aplicadas a figurantes dos atos de 8 de janeiro. O Supremo aplicou penas severas sabendo que seriam mitigadas; o Congresso legislou ciente do custo político e institucional; e o governo aceitou o acordo para ganhar tempo, pauta e narrativa, com o veto presidencial. Nos bastidores, ministros do Supremo também trabalharam pela aprovação. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Amim, #Bolsonaro, #Dosimetria, #Renan, #Senado, #Wagner, Lula "A Necessidade obrigou (É isso aí malandragem vamo agora arrepiar o pagode) Você me procurar (Devidamente apresentados, ela cheia de marra) Você era, orgulhosa Mas a necessidade acabou com a sua prosa (diz de novo) Você era, orgulhosa (sim) Mas a necessidade acabou com a sua prosa" A Necessidade Bezerra da Silva Matinée, Soirée e Dosimetria Futebol, mídia, samba e política em disputa Apresentação editorial Este dossiê reúne textos, referências culturais e análise crítica que articulam esporte, mídia, política institucional e cultura popular, propondo uma leitura ensaística do Brasil contemporâneo. Os materiais estão organizados para publicação direta em revista cultural ou portal independente, com fluidez editorial e autonomia entre seções. I. Matinée & Soirée Entre o espetáculo esportivo e a liturgia do poder 🎥 Destaque audiovisual PSG 1 (2) x (1) 1 Flamengo Final do Mundial de Clubes — Melhores Momentos 📺 ge tv 🗓 17 de dezembro de 2025 Não deu. O Flamengo lutou, batalhou, levou a decisão da Copa Intercontinental para os pênaltis, mas não conseguiu o bicampeonato mundial. ▶️ Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=o6ha_eXpLzA Ensaio (approach tentative) Entre a Matinée e a Soirée: notas tentativas sobre futebol, mídia e política Talvez a final do Mundial de Clubes entre PSG e Flamengo, decidida nos pênaltis em dezembro de 2025, possa ser lida para além do resultado esportivo. Não como exceção, mas como sintoma. Um evento que, ao ser transmitido como espetáculo global, ajuda a revelar certas formas recorrentes de organização do sensível no Brasil contemporâneo. A televisão parece operar em dois registros simultâneos. De um lado, a matinée esportiva, conduzida pela TV Globo, com sua dramaturgia conhecida: esforço, empate, tensão, derrota honrosa. De outro, uma espécie de soirée institucional, mais discreta, marcada pela linguagem técnica e pela previsibilidade ritual da política formal. Duas telas ligadas, dois modos distintos de narrar o país — talvez menos separados do que parecem. O futebol, já bastante distante da ideia de simples jogo, funciona hoje como plataforma econômica, diplomática e midiática. Disputado em Doha, o Mundial de Clubes parece confirmar essa condição híbrida: território neutro, marcas globais, identidades nacionais mobilizadas de maneira desigual. Nesse contexto, a presença do Flamengo poderia ser entendida não apenas como representação esportiva, mas como projeção simbólica de expectativas que extrapolam o campo. A derrota nos pênaltis talvez cumpra uma função pedagógica. A mídia esportiva oferece sentido ao revés, enquadrando-o como processo, como etapa, como quase-vitória. Não se trata de questionar a legitimidade do jogo, mas de observar como a narrativa ajuda a naturalizar assimetrias mais amplas, transformando frustração em aprendizado emocional. No campo político, o movimento parece outro — ou talvez complementar. A derrota raramente encerra o jogo. Negocia-se, recorre-se, reinterpreta-se. As palavras que circulam — acordo, acordão, acórdão — soam próximas não apenas foneticamente, mas conceitualmente. Todas apontam para mecanismos de mediação que deslocam a decisão para espaços menos visíveis. “Acorda, amor”, cantava Chico Buarque em outro tempo. Hoje, o imperativo parece difuso: acorda-se para assistir, entender, aceitar. Talvez menos para intervir. A simultaneidade entre espetáculo esportivo e rotina institucional pode não ser casual. Emoção de um lado, protocolo do outro. Em ambos, o público ocupa sobretudo o lugar de espectador. Talvez a questão mais incômoda não seja quem perdeu a final, mas em qual dessas telas aprendemos a aceitar o resultado — e em qual ainda seria possível disputar o jogo. II. Acordo, necessidade e dosimetria Notas cautelosas sobre um jogo combinado Contexto jornalístico Acordo entre governo e oposição garante aprovação do PL da Dosimetria Publicado em 18/12/2025 — Brasília O Senado aprovou o PL da Dosimetria por 48 votos a favor, 25 contra e uma abstenção. O projeto altera a Lei de Execução Penal, redefine percentuais mínimos para progressão de regime e amplia hipóteses de prisão domiciliar e remição de pena. Na prática, pode reduzir condenações impostas aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, com possíveis efeitos sobre figuras centrais do bolsonarismo. Ensaio (approach tentative) Talvez a aprovação do PL da Dosimetria não possa ser compreendida apenas como mais um episódio da rotina legislativa. O placar sugere maioria, mas o processo indica um arranjo político em que urgência, conveniência e cálculo estratégico se sobrepuseram ao debate institucional aprofundado. A letra de “A Necessidade”, de Bezerra da Silva, ajuda a iluminar o momento: “A necessidade obrigou você me procurar”. No Senado, a necessidade parece ter sido destravar a pauta econômica. O preço pode ter sido a tramitação acelerada de um projeto com impactos diretos sobre crimes contra o Estado Democrático de Direito. Tudo indica que a aprovação na CCJ decorreu de acordo de bastidores entre governo e oposição. A base governista, embora crítica ao mérito, optou por não obstruir o processo. No plenário, o contraste foi evidente: comemoração explícita da família Bolsonaro e críticas duras de Renan Calheiros, que denunciou o ritmo imposto à deliberação e a tentativa de reduzir o debate. A emenda apresentada como “redacional” reacendeu controvérsias sobre método legislativo. Para críticos, tratou-se de alteração de mérito destinada a evitar o retorno do texto à Câmara. A insistência na aceleração foi lida como tentativa de neutralizar o debate público. Do ponto de vista institucional, surgiram alertas sobre os sinais enviados a investigadores, militares legalistas e ao próprio Supremo. Flexibilizar penas pode resolver distorções, mas também pode transmitir mensagens ambíguas sobre crimes contra a ordem constitucional. Talvez o ponto mais revelador não esteja no texto final, mas no método: todos parecem cientes dos custos, apostando que vetos, revisões ou decisões judiciais futuras absorverão o impacto. A necessidade falou mais alto. Resta saber quem paga quando o acordo vira acórdão. III. Interlúdio cultural Samba, memória e linhagem Agradecimento Roger Resende Faço um agradecimento a quem de direito, ao samba que bate tão forte dentro do meu peito. Prometo-te fidelidade: ó samba, serei sempre teu até o final dos meus dias. Graças a Deus. À grande família do samba, rendemos nossa admiração. Sambistas, poetas, cantores, compositores falando de emoção. Tem Zeca, Cartola, Mamão, Carioca, Paulinho da Viola e Noel; Nei Lopes, Cachaça e Sargento, Monarca e Martinho, de Vila Isabel; tem Clara Guerreira, Zé Keti, Dona Ivone Lara, Geraldo Pereira e muita batucada. A todos do samba, o meu muito obrigado. Indexadores editoriais #Matinée #Soirée #Futebol #Mídia #Política #Dosimetria #8deJaneiro #Acordo #Acordão #Acórdão #Samba #CulturaPopular #Memória Matinée e Soirée ESQUENTA PRELIMINAR NA TV GLOBO DO QUENTÃO OFICIAL NA TV SENADO PSG 1 (2) X (1) 1 FLAMENGO | MELHORES MOMENTOS | FINAL DO MUNDIAL DE CLUBES | ge tv ge tv 17 de dez. de 2025 #PSG #FLAMENGO #INTERCONTINENTAL Não deu. O Flamengo lutou, batalhou, chegou a levar a decisão da Copa Intercontinental para os pênaltis, mas não conseguiu ser campeão mundial pela segunda vez. 🌟 Confira todos os melhores momentos com mais replays em ge.globo: https://ge.globo.com/futebol/futebol-... #PSG #FLAMENGO #INTERCONTINENTAL https://www.youtube.com/watch?v=o6ha_eXpLzA ESQUENTA DO QUENTÃO ACORDA AMOR FOI ASSIM ACORDA ACORDO ACORDAM ACORDÃO ACÓRDÃO ACORDÃO FOI ACORDO EU COMECEI A COMETER ACÓRDÃO PERDEU MANÉ - DÉBORA RODRIGUES PERDEU, MANÉ - S.A., RODRIGUES #MATINÉE #SOIRÉE #ESQUENTA #QUENTÃO #DOHA #BRASÍLIA #TV GLOBO #TV SENADO #FINAL MUNDIAL CLUBES #PL #DOSIMETRIA #FLAMENGO #PSG #SELEÇÕES #FINAL #ACORDA #ACORDAM #ACORDO #ACÓRDÃO #ACORDÃO #ACORDA AMOR # FOI ASSIM #FOI #CHICO BUARQUE #LUPICÍNIO RODRIGUES #NOEL ROSA #ARACY DE ALMEIDA