terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Mora — Samba, Filosofia e Ética em Movimento

Monsueto - Mora na Filosofia dos Sambas de Monsueto 1962 Mora na filosofia Marlene - Tema Mestres da MPB ℗ 1976 WEA International Inc. Producer: marlene Composer: Arnaldo Passos and Monsueto Mora na Filosofia Composição: Arnaldo Passos, Mangione Filhos e Monsueto Campos Menezes Participações: Júlio Estrela, Amanda Aniballe, Gabriel Loddo e Borracha Trecho da Live Allana Pelas Redes com apoio da Secretaria da Cultura do RJ e Tapa na Pomba 6 de out. de 2020 Transcrição Caetano Veloso - Mora na Filosofia Rodrigo Lima 1 de jan. de 2013 Disco Transa (1972) Faixa 05 01 - You don't know Me: • Caetano Veloso - You don't know Me 02 - Nine out of Ten: • Caetano Veloso - Nine out of Ten 03 - Triste Bahia: • Caetano Veloso - Triste Bahia 04 - It's a long Way: • Caetano Veloso - It's a long Way 05 - Mora na Filosofia: • Caetano Veloso - Mora na Filosofia 06 - Neolithic Man: • Caetano Veloso - Neolithic Man 07 - Nostalgia: • Caetano Veloso - Nostalgia Disco Um Abraçaço (2012): • Caetano Veloso - A Bossa Nova É Foda Música
Nas entrelinhas: Mora — da filosofia do samba ao caçador de jabutis Ética, tempo e poder entre 1955 e 2025 Por L.C. da Costa Paris, dezembro de 2025 “Mora na filosofia” não é apenas um verso célebre do samba de Monsueto Menezes e Arnaldo Passos, consagrado no Carnaval de 1955. É uma chave de leitura do Brasil. Mora, ali, não significa atraso. Significa entendimento. Percepção. Tempo necessário para que as coisas façam sentido. O Carnaval de 1955 deveria ser triste. Um ano antes, Getúlio Vargas havia se suicidado, deixando o país em estado de choque. O que ocorreu foi o oposto: o povo foi às ruas, a festa incendiou a cidade e o samba ensinou, mais uma vez, que a vida não cabe apenas na lógica do cálculo. Como diria depois Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não não basta. Não é irrelevante lembrar quem era Monsueto naquele momento. Antes de se consagrar como compositor, Monsueto Campos Menezes atuou como baterista em conjuntos musicais que se apresentavam no Copacabana Palace Hotel, no Rio de Janeiro, durante a década de 1940. Tocou em diversas formações, com destaque para a Orquestra de Copinha, uma das mais prestigiadas do circuito noturno carioca. Essa vivência profissional refinou seu domínio do ritmo, do tempo e da cadência — elementos que mais tarde se transformariam em filosofia popular cantada. O samba de Monsueto nasce do pulso, da experiência concreta, do tempo vivido. Décadas depois, Mora na filosofia atravessaria o tempo. Nos anos 1970, Caetano Veloso o regravou em Transa, com arranjo de Jards Macalé, transformando-o em manifesto estético. Não era nostalgia: era atualização. Filosofia popular em estado puro, atravessando um período em que pensar exigia cuidado. Em 1971, Candeia escreveu Filosofia do Samba. Não como metáfora, mas como programa ético. O samba, para ele, não era entretenimento: era forma de estar no mundo. Paulinho da Viola, ao interpretá-lo, deu a primeira marcha nesse trem lento que leva ao coração do Brasil profundo. “Mora na filosofia / Morou, Maria.” Quem entende, permanece. Quem permanece, sustenta. Ali já estava tudo: a ideia de que o tempo não é inimigo, de que ética não se improvisa, de que cultura é estrutura — não ornamento. Edgar Morin diria, quase na mesma época, que sociedades complexas exigem pensamento complexo. O conhecimento não se limita à ciência. Mora também na arte, na música, na poesia. Paulo Vanzolini foi a prova viva disso. Zoólogo de renome, cientista rigoroso, e autor de sambas definitivos como Ronda. Ciência e samba não competiam nele. Se completavam. A filosofia morava nos dois lugares. Avancemos no tempo. Em dezembro de 2025, o debate já não é sobre o lugar das Humanidades nas universidades, como foi em 2019, quando foi escrito Mora na filosofia. O palco agora é outro: o Orçamento da União. Mas a pergunta continua a mesma — onde está a ética? O ministro Flávio Dino, ao suspender o dispositivo legal que permitia a “revalidação” de restos a pagar de emendas parlamentares desde 2019, assumiu um papel raro na política brasileira contemporânea: o de caçador de jabutis. O artigo inserido de última hora em um projeto de lei que tratava de outro tema tentava ressuscitar, por vias indiretas, o orçamento secreto já declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Um jabuti em cima da árvore. A metáfora é antiga em Brasília, mas o gesto foi claro. Dino não caçou pessoas. Caçou métodos. Não fez retórica. Aplicou processo. Ao afirmar que a revalidação equivaleria à criação de nova despesa sem respaldo legal, recolocou no centro do debate princípios esquecidos: transparência, responsabilidade fiscal, devido processo orçamentário, separação de Poderes. “Mora”, aqui, ganha outro sentido. Mora é atraso no pagamento. É dívida vencida. É o empurrar com a barriga que tenta driblar o tempo e a lei. Ao interromper esse movimento, o ministro lembrou que ética também mora no Orçamento. Não é casual que tenha se tornado alvo. Quem controla o Orçamento controla poder. Ao exigir luz onde havia penumbra, Dino mexeu na engrenagem mais sensível do sistema político. E, sem proclamá-la em discurso, acabou empunhando uma bandeira rara: a da ética praticada. Entre o samba de 1955 e o Supremo de 2025, entre o pensamento de Candeia e a decisão de Dino, há um fio contínuo. A filosofia que o samba ensinou — a de que não se pesa tudo na balança da pressa — reaparece agora como filosofia da caça: identificar o que não deveria estar ali, perguntar quem colocou, retirar à vista de todos. Escrever estas linhas desde Paris não é acaso. Foi aqui que Hipólito José da Costa fundou o Correio Braziliense, em 1808, acreditando que jornalismo é vigilância do poder e serviço público. As máquinas hoje rodam quase instantaneamente pelo Brasil e pelo mundo, mas o desafio permanece o mesmo. Sem filosofia, a política vira técnica sem alma. Sem ética, o Orçamento vira presa. Entre o samba e a lei, a lição continua atual: mora na filosofia — inclusive quando é preciso caçar jabutis. S Notas de Moraes e do Banco Central não esclarecem relação com Banco Master, diz Malu Gaspar Rádio CBN 23 de dez. de 2025 Malu Gaspar - Conversa de Bastidor Colunista afirma que comunicações evitam negar pontos centrais revelados nas reportagens

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