AO SEU ALVEDRIO
Um Esquete de Debate Farsesco
PERSONAGENS:
• FLÁVIO: Magistral, expansivo, usa uma toga ou terno impecável. Utiliza a erudição jurídica e citações clássicas como um escudo de otimismo institucional. (O "Branco"/Sério).
• PONDÉ: Sarcástico, veste um paletó desalinhado, toma um café expressivo e observa o mundo com um tédio filosófico e realista. (O "Augusto"/Subversivo).
CENÁRIO: Uma mesa de debate dividida simetricamente. Do lado de Flávio, pilhas de livros de direito constitucional e uma balança da justiça. Do lado de Pondé, uma xícara de café, livros de Schopenhauer e um cinzeiro vazio.
[CENA 1]
(O debate está no ápice. FLÁVIO gesticula com as mãos, projetando a voz como se estivesse no plenário.)
FLÁVIO
(Imponente)
...Porque a higidez do tecido democrático, meu caro colega, não suporta o império das vontades miúdas! Como bem vaticinou Rui Barbosa em réplica histórica: "A pior democracia é preferível à melhor das ditaduras". Não podemos deixar o destino da pólis ao sabor do capricho hermenêutico de quem não compreende a liturgia do cargo! Portanto, a decisão final deve ser devolvida à sacralidade do rito, e não... ao seu alvedrio!
(FLÁVIO bate com a mão na mesa, triunfante, e ajeita os óculos, esperando o peso da erudição esmagar o oponente.)
PONDÉ
(Não se move. Dá um gole lento no café, suspira com um tédio quase existencial e olha diretamente para Flávio)
Flávio, a sua profissão de fé na burocracia iluminada seria quase tocante, se não fosse perigosamente ingênua. Você cita Rui Barbosa como se o mercado da vaidade humana se importasse com a gramática constitucional. O homem público não quer a pólis; ele quer o privilégio. Como dizia o velho Thomas Hobbes no Leviatã, o homem é o lobo do homem e o desejo de poder só cessa na morte. Portanto... A República está à venda, independentemente de qual filósofo seja citado.
FLÁVIO
(Escandalizado, põe a mão no peito)
Ora, Pondé! Isso não é realismo, é niilismo de galocha! Hobbes estava superado no momento em que Montesquieu calibrou os freios e contrapesos! Se a República estivesse à venda, o balcão de negócios já teria falido por excesso de regulação! A moldura normativa existe justamente para conter o lobo!
PONDÉ
(Sorri de canto, irônico)
Montesquieu desenhou os freios, mas esqueceu que quem dirige o carro adora uma propina institucional. O que você chama de "moldura normativa", o brasileiro médio chama de "despesa de cartório". O otimismo jurídico é o ópio dos intelectuais que têm motorista particular.
FLÁVIO
(Avançando o corpo na mesa, professoral)
O direito não é ópio, é o amparo dos desvalidos! Prefiro errar com a esperança de San Tiago Dantas ao cinismo de quem assiste ao colapso social saboreando um ristretto! A história é um processo de emancipação!
PONDÉ
(Coloca a xícara na mesa com um clique seco)
A história, meu caro, é apenas um ensaio geral para o próximo desastre. Schopenhauer já matou essa charada: o mundo é vontade e representação. Você representa muito bem a dignidade do Estado, mas a vontade lá fora continua sendo a de sempre: levar vantagem em tudo. A República não é um templo, Flávio. É um feirão de usados de terno e gravata.
(FLÁVIO abre a boca para citar a Constituição de 1988, mas PONDÉ apenas levanta a xícara em um brinde silencioso. A luz foca nos dois em posições congeladas: a esperança da toga contra o ceticismo do café.)
[FIM DO ESQUETE]


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