domingo, 21 de dezembro de 2025

“Imagine”, esfera pública e a política da projeção

“Imagine”, esfera pública e a política da projeção
Ensaio acadêmico-jornalístico “Quando a forma — o som, o signo, a encenação — passa a ditar o conteúdo, a verdade torna-se acessório. Em 2025, a incerteza é real; o problema está nas palavras e imagens usadas para descrevê-la, muitas vezes simples artifícios retóricos, colocados ali para nos fazer olhar para cima enquanto o chão da factualidade nos é discretamente retirado.” “A esfera pública se degrada quando a comunicação deixa de se orientar pela busca da verdade e passa a ser guiada exclusivamente por estratégias de influência.” — Jürgen Habermas 1. O acontecimento e sua factualidade Em novembro de 2025, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, participou de um comício no estado de Miranda, no qual fez referência e cantou trechos da canção Imagine, de John Lennon e Yoko Ono. O episódio ocorreu em um contexto de recrudescimento das tensões diplomáticas entre Caracas e Washington, marcado pelo aumento da presença militar dos Estados Unidos no Caribe e por acusações mútuas de desestabilização política. O registro do evento é inequívoco. Há material audiovisual suficiente para confirmar que a música foi evocada, reproduzida em alto-falantes e acompanhada de forma improvisada pelo presidente venezuelano. Trata-se, portanto, de um fato empírico delimitado, cuja existência não depende de interpretação, mas apenas de verificação. 2. Do fato ao símbolo: a mutação do acontecimento A clareza factual, contudo, não impediu que o episódio fosse rapidamente deslocado do plano do acontecimento para o da construção simbólica. Imagine, desde seu lançamento em 1971, deixou de operar apenas como obra musical para se consolidar como um artefato normativo difuso, associado a ideais de paz, fraternidade e superação de conflitos. Essa plasticidade simbólica explica tanto sua permanência quanto sua vulnerabilidade à apropriação política. Nesse sentido, o gesto de Maduro não é excepcional. Líderes, governos e movimentos de diferentes orientações ideológicas já recorreram à canção em contextos diversos. O que singulariza o episódio de 2025 não é a apropriação em si, mas a rapidez com que o símbolo passou a ser reconfigurado discursivamente, dando origem a narrativas que extrapolam — e, em alguns casos, contradizem — os fatos observáveis. 3. Desinformação, projeção e crise da mediação Circularam, nas horas e dias seguintes, alegações de que Maduro teria entoado fielmente a letra original em inglês ou de que forças externas teriam atuado para vetar ou censurar a divulgação das imagens. Nenhuma dessas afirmações encontra respaldo empírico. Os registros disponíveis mostram fragmentação e improviso, não execução integral. Tampouco há evidência de mecanismos institucionais que sustentem a hipótese de vetos ou interferências diplomáticas. Esse deslocamento do debate não é acidental. Ele revela uma característica estrutural do espaço público contemporâneo: a erosão das mediações entre fato, interpretação e juízo normativo. Como alertou Habermas, quando a comunicação deixa de se orientar pela pretensão de validade — isto é, pela distinção entre verdadeiro e falso — e passa a operar prioritariamente como instrumento de influência, a esfera pública perde sua função deliberativa. Nesse ambiente, a incerteza, que deveria estimular investigação e prudência, transforma-se em terreno fértil para projeções ideológicas. A ausência de informação sólida não gera silêncio reflexivo, mas excesso narrativo. O símbolo passa a valer mais do que o acontecimento que o originou. 4. Ceticismo legítimo e seus limites É intelectualmente legítimo questionar o uso de um ícone pacifista por um governante frequentemente acusado de práticas autoritárias. A crítica política não apenas é permitida, como constitui elemento essencial do debate democrático. O problema surge quando o ceticismo abandona o compromisso com a factualidade e passa a operar por inferência especulativa. Quando isso ocorre, a crítica deixa de cumprir sua função emancipatória e passa a reproduzir a mesma lógica que denuncia: a subordinação da verdade à conveniência narrativa. A fronteira entre análise e fabulação torna-se indistinta, e o espaço público converte-se em um campo de ruído simbólico. 5. Considerações finais: verdade, forma e responsabilidade pública O episódio envolvendo Imagine diz menos sobre a intenção subjetiva de Nicolás Maduro e mais sobre a condição objetiva do debate público em 2025. Trata-se de um contexto no qual a forma — o som, o enquadramento, o recorte — tende a se sobrepor ao conteúdo, e no qual a verdade corre o risco de tornar-se um acessório descartável. Em um ambiente marcado pela circulação acelerada de imagens e pela fragilidade das mediações institucionais, a defesa da democracia não depende apenas de posições normativas, mas de um compromisso metodológico elementar: resistir à tentação de preencher incertezas com ideologia e reafirmar que, sem factualidade compartilhada, não há deliberação pública — apenas encenação. S "imagine there's no people" versão madura para para "Imagine all the people Livin' life in peace" do imaturo inglês da classe operária de Liverpool. Não é fato a versão captada em vídeo de possível opositor do governo maduro no mundo seja de fato a versão que de fato Mauro tenha dito no palanque. Também não é fato que Milley tenha usado o poder de veto da Argentina para vetar a exceução do vídeo do comíncio na Venezuela como supostamente teria proposto o presidente do Mercosul em sua última sessão sob presidência brasileña. Imagine John Lennon Imagine there's no heaven It's easy if you try No hell below us Above us only sky Imagine all the people Living for today Imagine there's no countries It isn't hard to do Nothing to kill or die for And no religion too Imagine all the people Living life in peace You may say I'm a dreamer But I'm not the only one I hope someday you'll join us And the world will be as one Imagine no possessions I wonder if you can No need for greed or hunger A brotherhood of man Imagine all the people Sharing all the world You may say I'm a dreamer But I'm not the only one I hope someday you'll join us And the world will live as one Composição: Yoko Ono / John Lennon. Vídeo: Maduro canta "Imagine", de John Lennon, em apelo de paz aos EUA A canção pacifista de John Lennon, que fundou os Beatles, e Yoko Ono ficou famosa da década de 70 Da CNN Brasil* 15/11/25 às 23:11 | Atualizado 16/11/25 às 08:49 ouvir notícia O líder da Venezuela, Nicolás Maduro, fez um novo apelo de paz aos EUA neste sábado (15), ao cantar a música Imagine, de John Lennon, em frente a um comício na Venezuela. CNN Brasil Siga a CNN Brasil no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo Seguir no Google Durante um evento com seus apoiadores em Miranda, onde empossou os comitês de base bolivarianos, o líder chavista diz: Play Video "Paz, paz, paz. Façam tudo pela paz. Como John Lennon costumava dizer. Alfred Nazareth (Ministro da Comunicação da Venezuela), como era a música do John Lennon? Imaginem todas as pessoas". Enquanto a música Imagine era tocada nos alto-falantes, o líder venezuelano cantava e aplaudia junto com seus apoiadores, enquanto autoridades governamentais no palco faziam o sinal de paz com as mãos. A canção de John Lennon, que fundou os Beatles, e Yoko Ono que pede por paz no mundo ficou famosa da década de 70 e já ganhou diversas interpretações por artistas de todo o mundo. A música idealiza um cenário pacifista capaz de estabelecer paz entre os povos. "Imagine que não existem países. Não é difícil imaginar nada pelo que matar ou morrer", diz um trecho. "Imagine que não existe paraíso. É fácil se você tentar. Imagine não ter posses, será que você consegue? Sem necessidade de ganância ou fome, uma irmandade entre os homens. Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo inteiro". O novo apelo surge em meio a tensão entre a Caracas e Washington devido ao aumento da presença militar dos Estados Unidos no Caribe. No mesmo evento, Maduro voltou a criticar a mobilização americana, especialmente após Trinidad e Tobago, país vizinho, anunciar exercícios militares em conjunto com os EUA a partir deste domingo (16). Enquanto o governo Trump afirma que as operações visam atacar narcotraficantes na região, Maduro sustenta que elas representam uma tentativa secreta de derrubar seu regime. (Com informações da Reuters) Tópicos EUA Maduro Nicolás Maduro Venezuela

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