sexta-feira, 11 de setembro de 2026

("Fake news é o escambau!")

radiobandnewsfm 6 h 11 DE SETEMBRO • O apresentador da BandNewsFM Luiz Megale relembra a experiência de cobertura do atentado terrorista do 11 de setembro. Nesta sexta-feira (11), completam 25 anos do ataque às Torres Gêmeas em Nova York, nos Estados Unidos. Megale comenta que a tragédia foi consequência de um ressentimento que estava nascendo em uma parte do planeta, depois das interferências americanas em acontecimentos ao redor do globo. Segundo ele, o episódio desencadeou o ressurgimento da extrema-direita no mundo. “Vinte e cinco anos se passaram e tudo que a gente tá vendo agora tem um pouquinho da sua origem, a sua gênese, também naquela manhã de sol bonita e fria de terça-feira em Nova York.”, afirma.
HISTÓRIA · AMÉRICA LATINA · MEMÓRIA POLÍTICA

O Pêndulo de Monroe: O 11 de Setembro e as Ruínas da Intervenção nas Américas

Chile, Brasil e Estados Unidos entre intervenção, autoritarismo, memória e as consequências políticas de 11 de setembro.

A aproximação histórica entre o 11 de setembro de 1973, em Santiago, e o 11 de setembro de 2001, em Nova York, permite examinar as fraturas e contradições da tradição intervencionista associada à Doutrina Monroe. Formulada no século XIX em oposição à expansão de potências europeias no hemisfério, a doutrina acabou sendo reinterpretada, em diferentes momentos, como fundamento de uma política de predominância dos Estados Unidos no continente.

O caso chileno oferece um dos exemplos mais documentados dessa lógica. Documentos desclassificados mostram que a administração Richard Nixon autorizou a CIA a tentar impedir a chegada de Salvador Allende ao poder e, depois, a promover sua derrubada. Ao mesmo tempo, a história do Cone Sul exige distinguir entre intervenção direta, apoio político, cooperação de inteligência e responsabilidade dos próprios regimes autoritários da região.


                    INTERVENÇÃO E MEMÓRIA NO HEMISFÉRIO
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      11 DE SETEMBRO DE 1973            11 DE SETEMBRO DE 2001
      Santiago, Chile                   Nova York, EUA
      Palácio de La Moneda              World Trade Center
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      Golpe contra Allende              Ataques da Al-Qaeda
      e instalação da ditadura          contra alvos nos EUA
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                    DEBATE SOBRE PODER,
                    SOBERANIA E MEMÓRIA

    

1. O Palácio de La Moneda (1973) e a intervenção dos Estados Unidos

O bombardeio ao Palácio de La Moneda, em 11 de setembro de 1973, marcou o golpe que derrubou o presidente Salvador Allende e abriu caminho para a ditadura de Augusto Pinochet. A documentação oficial norte-americana hoje disponível é particularmente importante para compreender o papel de Washington no período.

Em setembro de 1970, um documento da CIA registra que o presidente Richard Nixon considerava um governo Allende inaceitável e havia autorizado a Agência a trabalhar para impedir sua chegada ao poder ou promover sua retirada. O documento, conhecido como Genesis of Project FUBELT, registra inclusive a autorização de recursos para a operação clandestina.

Palácio de La Moneda sob bombardeio durante o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 no Chile
La Moneda sob bombardeio, Santiago, 11 de setembro de 1973. Registro da Biblioteca do Congresso Nacional do Chile, disponibilizado no Wikimedia Commons.
NOTA HISTÓRICA

A existência de apoio e operações clandestinas norte-americanas contra o governo Allende é documentada. Isso não significa, porém, que cada ato cometido durante o golpe ou posteriormente possa ser atribuído operacionalmente à CIA. O golpe foi executado pelas Forças Armadas chilenas, sob comando de atores políticos e militares chilenos.

DOCUMENTO DESCLASSIFICADO

Genesis of Project FUBELT — U.S. Department of State, Office of the Historian.

CONSULTAR DOCUMENTO OFICIAL →

2. O Palácio Monroe (1976) e a memória política no Brasil

O Palácio Monroe, localizado na Cinelândia, no Rio de Janeiro, teve trajetória distinta daquela do palácio chileno. Construído originalmente como Pavilhão do Brasil para a Exposição Universal de Saint Louis, em 1904, foi remontado no Rio e tornou-se sede do Senado Federal entre 1925 e 1960.

Depois da transferência da capital para Brasília, o edifício passou a ser visto por setores da arquitetura e da imprensa como obstáculo à modernização urbana. O processo de demolição ocorreu entre janeiro e junho de 1976, durante o governo do general Ernesto Geisel. O Senado registra que o último trecho do edifício caiu em junho daquele ano.

Demolição do Palácio Monroe na Cinelândia, Rio de Janeiro, em 1976
Demolição do Palácio Monroe, Rio de Janeiro. O edifício havia sido sede do Senado Federal entre 1925 e 1960.
Fonte da imagem: Wikimedia Commons .

A coincidência cronológica entre a demolição do Monroe e a violência política das ditaduras sul-americanas não deve ser confundida com uma relação causal direta. O vínculo histórico mais sólido está no contexto regional da época: Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia participaram de diferentes formas da repressão transnacional que ficou conhecida como Operação Condor.

Documentos do Departamento de Estado dos EUA descrevem a Operação Condor como uma cooperação entre serviços de segurança dos países do Cone Sul para troca de informações e, posteriormente, planejamento de operações clandestinas e assassinatos no exterior. A documentação norte-americana também demonstra que Washington acompanhava a atividade da Condor e discutia seus desdobramentos.

DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA

U.S. Department of State — Office of the Historian. Documentação sobre a Operação Condor e a cooperação repressiva no Cone Sul.

DOCUMENTO CONDOR → CONTRATERRORISMO NO CONE SUL →

3. As Torres Gêmeas (2001) e o retorno do pêndulo

Em 11 de setembro de 2001, integrantes da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais. Dois atingiram as torres do World Trade Center, em Nova York; outro atingiu o Pentágono; e o quarto caiu na Pensilvânia. Quase 3.000 pessoas morreram nos ataques.

A imagem abaixo registra o momento em que o United Airlines Flight 175 atingiu a Torre Sul.

United Airlines Flight 175 atingindo a Torre Sul do World Trade Center em 11 de setembro de 2001
Impacto do voo United Airlines 175 na Torre Sul do World Trade Center. Nova York, 11 de setembro de 2001.
Fotografia: Robert J. Fisch · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0.

No mesmo dia, Donald Trump concedeu uma entrevista telefônica à WWOR-TV. Ao falar sobre o impacto dos ataques no mercado imobiliário de Lower Manhattan, afirmou que o seu edifício, 40 Wall Street, havia passado a ser o prédio mais alto da região depois da destruição do World Trade Center.

“O 40 Wall Street era, na verdade, o segundo prédio mais alto no sul de Manhattan e, antes do World Trade Center, era o mais alto. E então, quando construíram o World Trade Center, ele passou a ser conhecido como o segundo mais alto. E agora ele é o mais alto.”

— Donald Trump, entrevista à WWOR-TV, 11 de setembro de 2001.

A transcrição contemporânea da entrevista está disponível no Factbase/Roll Call. A afirmação sobre a altura, contudo, é historicamente problemática: outros edifícios de Lower Manhattan, como o 70 Pine Street, eram mais altos que o 40 Wall Street.

FONTE DA ENTREVISTA

Transcrição da entrevista de Donald Trump à WWOR-TV em 11 de setembro de 2001.

CONSULTAR TRANSCRIÇÃO →

A comparação entre 1973 e 2001 não significa estabelecer uma equivalência moral entre o golpe chileno e os atentados terroristas. São acontecimentos de natureza distinta. A aproximação pode ser produtiva, entretanto, para discutir como diferentes formas de violência política, poder estatal, intervenção internacional e vulnerabilidade atravessaram a história das Américas.

Referências documentais e históricas

  1. U.S. Department of State — Office of the Historian. “Genesis of Project FUBELT”, documento de 16 de setembro de 1970.
    Consultar documento oficial desclassificado
  2. U.S. Department of State — Office of the Historian. Documentação sobre a Operação Condor e a cooperação dos serviços de segurança do Cone Sul.
    Consultar documentação sobre a Operação Condor
  3. U.S. Department of State — Office of the Historian. “Counterterrorism in the Southern Cone”, 9 de maio de 1977.
    Consultar documento
  4. Senado Federal — Museu do Senado. História e demolição do Palácio Monroe.
    Consultar página do Senado Federal
  5. Senado Notícias. “Que fim levou o Palácio Monroe?”
    Consultar reportagem histórica
  6. Roll Call / Factbase. Transcrição da entrevista de Donald Trump à WWOR-TV em 11 de setembro de 2001.
    Consultar transcrição
  7. Wikimedia Commons. Registro fotográfico do bombardeio de La Moneda, 11 de setembro de 1973.
    Ver imagem e licença
  8. Wikimedia Commons. Registro fotográfico da demolição do Palácio Monroe.
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  9. Wikimedia Commons. Fotografia do impacto do voo 175 na Torre Sul do World Trade Center.
    Ver imagem e licença

A Doutrina Monroe nasceu como uma declaração de oposição à recolonização europeia das Américas, mas sua posterior história esteve associada a diferentes formas de predominância norte-americana no hemisfério. Do golpe de 1973 no Chile à repressão transnacional do Cone Sul e à ruptura produzida pelos atentados de 2001, a memória continental permanece atravessada por uma pergunta incômoda: quem define os limites da soberania, e quem paga o preço quando esses limites são rompidos?

Ensaio histórico · Referências documentais indicadas no texto

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