O Pêndulo de Monroe: O 11 de Setembro e as Ruínas da Intervenção nas Américas
Chile, Brasil e Estados Unidos entre intervenção, autoritarismo, memória e as consequências políticas de 11 de setembro.
A aproximação histórica entre o 11 de setembro de 1973, em Santiago, e o 11 de setembro de 2001, em Nova York, permite examinar as fraturas e contradições da tradição intervencionista associada à Doutrina Monroe. Formulada no século XIX em oposição à expansão de potências europeias no hemisfério, a doutrina acabou sendo reinterpretada, em diferentes momentos, como fundamento de uma política de predominância dos Estados Unidos no continente.
O caso chileno oferece um dos exemplos mais documentados dessa lógica. Documentos desclassificados mostram que a administração Richard Nixon autorizou a CIA a tentar impedir a chegada de Salvador Allende ao poder e, depois, a promover sua derrubada. Ao mesmo tempo, a história do Cone Sul exige distinguir entre intervenção direta, apoio político, cooperação de inteligência e responsabilidade dos próprios regimes autoritários da região.
INTERVENÇÃO E MEMÓRIA NO HEMISFÉRIO
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11 DE SETEMBRO DE 1973 11 DE SETEMBRO DE 2001
Santiago, Chile Nova York, EUA
Palácio de La Moneda World Trade Center
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Golpe contra Allende Ataques da Al-Qaeda
e instalação da ditadura contra alvos nos EUA
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DEBATE SOBRE PODER,
SOBERANIA E MEMÓRIA
1. O Palácio de La Moneda (1973) e a intervenção dos Estados Unidos
O bombardeio ao Palácio de La Moneda, em 11 de setembro de 1973, marcou o golpe que derrubou o presidente Salvador Allende e abriu caminho para a ditadura de Augusto Pinochet. A documentação oficial norte-americana hoje disponível é particularmente importante para compreender o papel de Washington no período.
Em setembro de 1970, um documento da CIA registra que o presidente Richard Nixon considerava um governo Allende inaceitável e havia autorizado a Agência a trabalhar para impedir sua chegada ao poder ou promover sua retirada. O documento, conhecido como Genesis of Project FUBELT, registra inclusive a autorização de recursos para a operação clandestina.
A existência de apoio e operações clandestinas norte-americanas contra o governo Allende é documentada. Isso não significa, porém, que cada ato cometido durante o golpe ou posteriormente possa ser atribuído operacionalmente à CIA. O golpe foi executado pelas Forças Armadas chilenas, sob comando de atores políticos e militares chilenos.
Genesis of Project FUBELT — U.S. Department of State, Office of the Historian.
CONSULTAR DOCUMENTO OFICIAL →2. O Palácio Monroe (1976) e a memória política no Brasil
O Palácio Monroe, localizado na Cinelândia, no Rio de Janeiro, teve trajetória distinta daquela do palácio chileno. Construído originalmente como Pavilhão do Brasil para a Exposição Universal de Saint Louis, em 1904, foi remontado no Rio e tornou-se sede do Senado Federal entre 1925 e 1960.
Depois da transferência da capital para Brasília, o edifício passou a ser visto por setores da arquitetura e da imprensa como obstáculo à modernização urbana. O processo de demolição ocorreu entre janeiro e junho de 1976, durante o governo do general Ernesto Geisel. O Senado registra que o último trecho do edifício caiu em junho daquele ano.
A coincidência cronológica entre a demolição do Monroe e a violência política das ditaduras sul-americanas não deve ser confundida com uma relação causal direta. O vínculo histórico mais sólido está no contexto regional da época: Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia participaram de diferentes formas da repressão transnacional que ficou conhecida como Operação Condor.
Documentos do Departamento de Estado dos EUA descrevem a Operação Condor como uma cooperação entre serviços de segurança dos países do Cone Sul para troca de informações e, posteriormente, planejamento de operações clandestinas e assassinatos no exterior. A documentação norte-americana também demonstra que Washington acompanhava a atividade da Condor e discutia seus desdobramentos.
U.S. Department of State — Office of the Historian. Documentação sobre a Operação Condor e a cooperação repressiva no Cone Sul.
DOCUMENTO CONDOR → CONTRATERRORISMO NO CONE SUL →3. As Torres Gêmeas (2001) e o retorno do pêndulo
Em 11 de setembro de 2001, integrantes da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais. Dois atingiram as torres do World Trade Center, em Nova York; outro atingiu o Pentágono; e o quarto caiu na Pensilvânia. Quase 3.000 pessoas morreram nos ataques.
A imagem abaixo registra o momento em que o United Airlines Flight 175 atingiu a Torre Sul.
No mesmo dia, Donald Trump concedeu uma entrevista telefônica à WWOR-TV. Ao falar sobre o impacto dos ataques no mercado imobiliário de Lower Manhattan, afirmou que o seu edifício, 40 Wall Street, havia passado a ser o prédio mais alto da região depois da destruição do World Trade Center.
“O 40 Wall Street era, na verdade, o segundo prédio mais alto no sul de Manhattan e, antes do World Trade Center, era o mais alto. E então, quando construíram o World Trade Center, ele passou a ser conhecido como o segundo mais alto. E agora ele é o mais alto.”
— Donald Trump, entrevista à WWOR-TV, 11 de setembro de 2001.
A transcrição contemporânea da entrevista está disponível no Factbase/Roll Call. A afirmação sobre a altura, contudo, é historicamente problemática: outros edifícios de Lower Manhattan, como o 70 Pine Street, eram mais altos que o 40 Wall Street.
Transcrição da entrevista de Donald Trump à WWOR-TV em 11 de setembro de 2001.
CONSULTAR TRANSCRIÇÃO →A comparação entre 1973 e 2001 não significa estabelecer uma equivalência moral entre o golpe chileno e os atentados terroristas. São acontecimentos de natureza distinta. A aproximação pode ser produtiva, entretanto, para discutir como diferentes formas de violência política, poder estatal, intervenção internacional e vulnerabilidade atravessaram a história das Américas.
Referências documentais e históricas
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U.S. Department of State — Office of the Historian.
“Genesis of Project FUBELT”, documento de 16 de setembro de 1970.
Consultar documento oficial desclassificado -
U.S. Department of State — Office of the Historian.
Documentação sobre a Operação Condor e a cooperação dos serviços de segurança
do Cone Sul.
Consultar documentação sobre a Operação Condor -
U.S. Department of State — Office of the Historian.
“Counterterrorism in the Southern Cone”, 9 de maio de 1977.
Consultar documento -
Senado Federal — Museu do Senado.
História e demolição do Palácio Monroe.
Consultar página do Senado Federal -
Senado Notícias.
“Que fim levou o Palácio Monroe?”
Consultar reportagem histórica -
Roll Call / Factbase.
Transcrição da entrevista de Donald Trump à WWOR-TV em 11 de setembro de 2001.
Consultar transcrição -
Wikimedia Commons.
Registro fotográfico do bombardeio de La Moneda, 11 de setembro de 1973.
Ver imagem e licença -
Wikimedia Commons.
Registro fotográfico da demolição do Palácio Monroe.
Ver imagem e licença -
Wikimedia Commons.
Fotografia do impacto do voo 175 na Torre Sul do World Trade Center.
Ver imagem e licença
A Doutrina Monroe nasceu como uma declaração de oposição à recolonização europeia das Américas, mas sua posterior história esteve associada a diferentes formas de predominância norte-americana no hemisfério. Do golpe de 1973 no Chile à repressão transnacional do Cone Sul e à ruptura produzida pelos atentados de 2001, a memória continental permanece atravessada por uma pergunta incômoda: quem define os limites da soberania, e quem paga o preço quando esses limites são rompidos?
Ensaio histórico · Referências documentais indicadas no texto
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