Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
A ORIGEM DA DESIGUALDADE ENTRE OS HOMENS
"Como as viagens são incômodas para as mulheres! Os homens só estão expostos aos perigos que ameaçam sua vida, mas nós estamos, a cada instante, temendo perder nossa vida ou nossa virtude. Adeus, meu caro Usbek. Sempre te adorarei."
Influências francesas no Modernismo brasileiro
Alexei Bueno
A partir da Independência, a influência da França sobre a literatura brasileira foi uma constante, ainda que de início contrabalançada por uma presença portuguesa– de ex-Metrópole, portanto– bastante visível, mas que diminuiria com o passar das décadas. Se nas artes plásticas e na arquitetura, depois da assim chamada Missão Francesa de 1816, essa presença era absoluta, se na música se mantinha partilhada sobretudo entre influências italianas e autóctones, já solidamente formadas durante o período colonial, na nossa literatura romântica, na poesia especialmente, o influxo francês se mostrava avassalador. Em Gonçalves Dias, poliglota e homem de altacultura,este era dividido com a também importante influência inglesa e sobretudo com a alemã. Após ele, no entanto, embora a presença de Byron se tenha mantido intocada, são os poetas franceses que darão a tônica, especialmente Victor Hugo, o gigante absoluto, Musset e Lamartine, além de muitos e muitos nomes menores.
Poeta, tradutor, organizador da obra completa de autores brasileiros e portugueses. Publicou, entre outros livros, As escadas da torre (1984), Poemas gregos (1985), Livro de haicais (1989), A decomposição de Johann Sebastian Bach (1989), Lucermário (1993), A via estreita (1995), A juventude dos deuses (1996), Entusiasmo (1997), Poemas reunidos (1998), Em sonho (1999) e Os resistentes (2001).
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quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Alegoria glauberiana do Cinema Novo descreve STF em transe, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
O Supremo é um arquipélago, cada ministro é uma ilha fortificada, com artilharia e munição pesadas. Fachin não tem autoridade hierárquica sobre os ministros no exercício da jurisdição
Em Terra em Transe, obra-prima de Glauber Rocha lançada em 1967, a fictícia República de Eldorado mergulha numa crise política que dissolve as fronteiras entre democracia, populismo, autoritarismo e ambição pessoal. O poeta e jornalista Paulo Martins, interpretado por Jardel Filho, procura interferir nos destinos do país, mas oscila entre dois projetos de poder: o conservador Porfírio Diaz, vivido por Paulo Autran, e o líder populista Felipe Vieira, representado por José Lewgoy. Paulo rompe com Diaz e se aproxima de Vieira, na esperança de construir uma alternativa democrática.
Aos poucos, porém, percebe que os dois campos se alimentam das mesmas práticas: a manipulação das massas, os acordos de cúpula, a retórica vazia e a transformação da política num grande espetáculo. Dividido entre o idealismo e o desencanto, acaba tragado pelo sistema que pretendia modificar. Ao lado de Jardel Filho, Paulo Autran e José Lewgoy, participam do filme Glauce Rocha, no papel de Sara; Danuza Leão, como Sílvia; Paulo Gracindo, como Júlio Fuentes; além de Hugo Carvana, Francisco Milani, Jofre Soares e Flávio Migliaccio. A música é de Sérgio Ricardo; a fotografia, de Luiz Carlos Barreto; e a montagem, de Eduardo Escorel.
Marco do Cinema Novo, Terra em Transe transformou o impasse brasileiro posterior ao golpe de 1964 numa alegoria sobre as estruturas de poder da América Latina. Com sua narrativa convulsiva, seus discursos teatrais e sua montagem fragmentada, Glauber não pretendia reproduzir os acontecimentos de forma documental. Procurava revelar o delírio de uma sociedade cujas instituições continuavam formalmente de pé, mas já não conseguiam ordenar os conflitos políticos. O filme disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, onde recebeu os prêmios da crítica internacional e de Luis Buñuel.
Seis décadas depois, a alegoria glauberiana de Eldorado aparece na crise instalada no Supremo Tribunal Federal. A Corte vive um momento no qual polêmicas decisões individuais, disputas de competência e suspeitas recíprocas ameaçam produzir um Estado de transe institucional. O caso do Banco Master ultrapassou os limites de uma investigação financeira. As recentes decisões de Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino colocam em xeque a autoridade do STF, alcançam a Procuradoria-Geral da República e envolvem a cúpula da Polícia Federal. Quando um ministro desautoriza o outro, processos diferentes se cruzam e instituições encarregadas de investigar passam a integrar a própria controvérsia, o problema torna-se uma crise de Estado.
Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da instituição, Leandro Almada. Dino decidiu reintegrá-los. Moraes, por sua vez, encaminhou à Presidência do Supremo documentos da PF para sustentar um pedido de investigação sobre a atuação de Mendonça. A disputa virou um labirinto jurídico, formado por mensagens apreendidas, relatórios policiais e vazamentos seletivos. Estão perdidos todos os envolvidos, inclusive o procurador-geral da República, Paulo Gonet. O presidente do STF, Edson Fachin, ainda não encontrou o fio de Ariadne para sair dele. Quem é o Minotauro nessa história? Moraes ou Mendonça?
E quem paga a conta?
Fachin resolveu assumir a condução institucional do conflito. Suspendeu as decisões de Mendonça e Dino sobre a direção da PF, manteve Andrei no cargo, retirou de Moraes o controle do pedido de investigação relacionado à controvérsia e estabeleceu que novas medidas contra integrantes da Corte dependerão de sua autorização. Também decidiu levar o conjunto das questões ao Plenário.
O presidente do STF tenta interromper o transe e devolver à instituição a unidade de comando, colegialidade e previsibilidade. Não lhe cabe proteger ministros nem antecipar julgamentos. Sua responsabilidade é garantir o devido processo legal, preservar a competência do Plenário e impedir que o Supremo se transforme simultaneamente em investigador, parte interessada e juiz de seus próprios conflitos. Parece fácil, mas não é, porque a Corte está muito dividida e a disputa entre seus integrantes virou uma briga de rua, ou seja, não tem regra.
O Supremo é um arquipélago, cada ministro é uma ilha fortificada, com artilharia e munição pesadas. Fachin não tem autoridade hierárquica sobre os ministros no exercício da jurisdição, mas responde pela preservação institucional da Corte. Diante de decisões contraditórias, cabe-lhe organizar os processos, definir os caminhos regimentais e convocar o colegiado. Quando o Plenário se reúne, porém, a autoridade não pertence aos gabinetes isolados nem à capacidade de cada ministro de impor sua interpretação por meio de uma liminar. A maioria dos ministros decide pelo voto.
É aí que mora o perigo. Um armistício entre os integrantes da Corte não é suficiente. A saída depende da apuração transparente dos fatos, da preservação das provas, da definição das competências e da submissão de todos às mesmas regras. Qualquer solução destinada somente a salvar as aparências ampliará a desconfiança da sociedade e projetará a crise sobre as eleições. Não à toa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a quebra integral do sigilo do caso Master, “doa a quem doer”. Foi arrastado para a crise pelas conexões e pelos vazamentos que alcançam personagens ligados ao governo.
Postado por Gilvan Cavalcanti de Melo às 08:58:00
Um comentário:
Anônimo disse...
100%. Nota 1.000 pela excelência do artigo, parabéns com louvor.
10/9/26 12:02
Aqui está a transcrição completa do texto contido na imagem:
Montesquieu - Cartas Persas I
CARTA 47
ZAKI A USBEK
Em Paris
Tenho uma grande novidade para te contar: eu me reconciliei com Zéfis. O serralho, dividido entre nós, está novamente unido. Só faltas tu nesses lugares onde reina a paz; vem, meu caro Usbek, vem para cá para fazer triunfar o amor.
Dei um grande festim para Zéfis, para o qual foram convidadas tua mãe, tuas mulheres e tuas concubinas; tuas tias e várias de tuas primas também compareceram; tinham vindo a cavalo, cobertas pela nuvem escura de seus véus e de seus trajes. No dia seguinte partimos para o campo, onde esperávamos estar mais livres; montamos em nossos camelos e nos ajeitamos, quatro em cada sela.
Como a partida havia sido feita de modo repentino, não tivemos tempo de enviar a ronda para anunciar o curuc¹; mas o primeiro eunuco, sempre engenhoso, tomou outra precaução, juntando à tela que impedia de sermos vistas uma cortina tão espessa que não podíamos ver absolutamente ninguém. Quando chegamos ao rio que é preciso atravessar, cada uma de nós se pôs, segundo o costume, numa caixa e foi transportada para o barco; disseram-nos que o rio estava cheio de gente.
Um curioso que se aproximou demais do local em que estávamos encerradas recebeu um golpe mortal que lhe tirou para sempre a luz do dia;
...........................................................................................................(1) Palavra turca que significa proibição, abstinência; neste contexto quer dizer que todos se afastam, que ninguém se aproxima.
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Aqui está a transcrição da segunda página para completar o capítulo:
Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal
outro, que estava se banhando completamente nu à margem do rio, teve a mesma sorte e teus fiéis eunucos sacrificaram em tua honra e na nossa esses dois desafortunados.
Mas vou te contar o resto de nossas aventuras. Quando estávamos no meio do rio, levantou-se um vento tão impetuoso e uma nuvem tão aterradora cobriu os ares, que nossos marujos começaram a entrar em desespero. Assustadas com o perigo iminente, quase todas desmaiamos. Lembro-me de ter ouvido a voz e a discussão de nossos eunucos; uns diziam que era preciso nos advertir do perigo e nos tirar de nossa prisão, mas seu chefe sustentou sempre que haveria de morrer antes de permitir que seu senhor fosse deshonrado dessa forma e que enfiaria um punhal no peito daquele que continuasse a fazer propostas tão ousadas. Uma de minhas escravas, totalmente fora de si, correu despida em minha direção para me socorrer, mas um eunuco negro a agarrou brutalmente e a mandou entrar novamente no lugar de onde tinha saído. Desmaiei de novo e só recobrei os sentidos depois que o perigo passou.
Como as viagens são incômodas para as mulheres! Os homens só estão expostos aos perigos que ameaçam sua vida, mas nós estamos, a cada instante, temendo perder nossa vida ou nossa virtude. Adeus, meu caro Usbek. Sempre te adorarei.
Do serralho de Fátima, 2 da lua de Ramazan, 1713.
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Lettres persanes #47 par Linda Laplante
La Colline - théâtre national
Brian Winter
@BrazilBrian
I have met several members of Brazil's Supreme Court (STF) over the years, and known some of them well. In my opinion, the court's current problems go deeper than any one figure or the lack of a code of ethics, for example. In practice, the STF acts not just as a judicial body, but as the defense of last resort for the interests of the Brazilian elite. It provides insurance against the whims of unenlightened elected leaders, a "moderating" role that the Brazilian military used to exercise but has effectively been taken by the STF under democracy. That's why the STF has powers that arguably exceed that of any other country's Supreme Court. It is the only body that can try congressmen or other protected classes ("foro privilegiado"), and individual judges often seem more powerful than the president of the nation. Some judges told me directly in recent years that they were forced to occupy an expanded role because of the dysfunction of the executive and legislative, especially in the years following Dilma's impeachment. Sometimes I have detected a noble, statesman-like impulse (yes, truly), and I do agree that the STF helped protect or even save Brazilian democracy at various junctures in recent years. But in practice such power also corrupts and that, plus the natural public anger at unelected, unaccountable leaders making epochal decisions, has led the STF to its current juncture. I am not a jurist, so I cannot speculate as to the best path forward, and I recognize for the record that the U.S. court is also under unprecedented scrutiny. But some of this is very sui generis Brazil, rooted in decades or centuries of how power is exercised and concentrated in a few hands, and thus feel it will be difficult to truly resolve.
8:25 · 9 de set. de 2026
In-Edit Brasil 2023 - Villa-Lobos em Paris
VILLA-LOBOS EM PARIS
Ano
2023
Formato original
digital
Idioma
Cromia
P&B
País
Brasil
Duração
60 min
Classificação Indicativa
Não classificado
Direção
Alexandre Guerra & Marcelo Machado
Elenco
Heitor Villa-Lobos.
Ficha técnica completa
Sinopse
Único representante da música na Semana de Arte Moderna de 1922, o compositor Villa-Lobos foi objeto das maiores vaias naquele evento. Depois disso, ele decide passar uma temporada em Paris, onde se encontrou com personagens como Jean Cocteau, Andres Segovia, Arthur Rubinstein, entre outros. É a partir daí que Villa-Lobos se confronta com sua identidade, passando a buscar em suas raízes novos rumos para sua obra. O filme, dirigido por Alexandre Guerra e Marcelo Machado, percorre os lugares por onde o músico passou na capital francesa, investigando as causas e efeitos desses encontros e da cidade em seu trabalho.
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