Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sábado, 20 de dezembro de 2025
Triângulo de soma zero: três pontos coincidentes ou três segmentos contíguos e contínuos?
Música
Isso É Fundo De Quintal
Leci Brandão - Tema
Isso É Fundo De Quintal
Leci Brandão
Nova Bis - Samba
Um trisal é uma relação afetiva, amorosa e consensual entre três pessoas, baseada no poliamor, na qual todos os envolvidos têm ciência e concordam com a dinâmica, diferentemente do triângulo amoroso, marcado pela exclusão e pela escolha entre pares. Pode assumir configurações variadas (como V, T ou H), ser fechado ou aberto, e depende de comunicação, respeito e consentimento mútuo para funcionar, podendo envolver intimidade entre todos ou apenas em duplas, e até constituir uma família com filhos.
Acordão do Congresso, governo e STF vai beneficiar Bolsonaro
José Casado
Por
José Casado
Acabou em “pizza”. Sem anistia, Senado aprovou redução das penas para os condenados no 8 de Janeiro que, também, vai beneficiar Jair Bolsonaro
Transportada para a política brasileira recente, essa distinção entre trisal e triângulo amoroso ajuda a iluminar o funcionamento do chamado “acordão” descrito por Carlos Andreazza no Senado em dezembro de 2025. Não se trata ali de uma disputa em que um vence e outro perde, mas de um arranjo relacional no qual governo, Congresso e bolsonarismo permanecem ligados por segmentos contíguos e contínuos, ainda que finjam, no discurso público, ocupar vértices opostos. Como no trisal, a estabilidade do sistema depende menos de afinidade ideológica do que da aceitação tácita das regras do convívio: cada parte preserva sua identidade, cede o suficiente para manter a forma e evita esticar a corda a ponto de romper o desenho. O resultado não é consenso, mas coexistência funcional — um triângulo de soma zero apenas na retórica, já que o custo real da manutenção da figura recai fora dela, sobre a área comum chamada sociedade.
sábado, 20 de dezembro de 2025
O PT aderiu ao acordão. Por Carlos Andreazza
O Estado de S. Paulo
Davi Alcolumbre entregou a sua parte no trato. Não fez favor, como se verá. Faltava o governo Lula no acordão, que costurou bolsonarismo, Centrão, os comandos do Congresso e aquela porção do Supremo composta por senadores-consultores togados. Não falta mais. O governo aderiu. Aos 45 do segundo tempo, no Senado. Não sem cálculo. Certamente sem favor, como se verá.
Aderiu ao acordo pela aprovação do projeto de redução de penas, chamado de PL da Dosimetria. Projeto que tem Jair Bolsonaro como objeto beneficiado. O líder do governo, Jaques Wagner, admitiu. Argumentou que o trem seria aprovado de qualquer maneira, cedo ou tarde. Subentendido que via vantagem em acelerá-lo, em troca da aprovação de pauta fiscal decisiva para o Planalto. Subentendido no subentendimento de que Lula vetaria o texto adiante... Há um teatro. Lula o vetará. O Congresso derrubará o veto e ficará com o ônus, explorado pelos governistas, de “defensor de golpista”.
O presidente da República disse que não sabia do acordo. Não é raro que não saiba de cousas havidas em sua gestão, geralmente as incômodas. Faz escola, aliás. Fernando Haddad, ministro da Fazenda desde janeiro de 2023, só saberia que os Correios estavam falidos em setembro de 2025 – talvez porque a empresa estivesse privatizada no curso de quase três anos, só agora retomada pela administração petista...
O senador Wagner pode matar a responsabilidade no peito sozinho. Dizer que negociou o arranjo por conta própria. Não estava sozinho. Não conseguiria relaxar a tramitação do bicho sem ajuda. Porque o PT, afora discursos indignados em rede social, deixou rolar. Os outros senadores petistas – Randolfe Rodrigues e Rogério Carvalho desapareceram – permitiriam que o troço corresse. O partido não trabalhou regimentalmente – como poderia e sabe proceder – para travar-adiar a prosperidade do texto na CCJ.
E o projeto então avançou, com pedido de vista de apenas quatro horas, admitida também a controversa leitura de que a emenda de Sergio Moro ao relatório de Esperidião Amin seria de redação – e não de mérito. Solução-puxadinho tão garantidora de que o projeto não voltará à Câmara quanto de que provocará um mandado de segurança ao STF.
Pouco depois, o plenário do Senado o aprovou. Pouquíssimo depois, passaria a votar o projeto – o de sustentação da fantasia cumpridora de metas de Haddad – que corta isenções fiscais e aumenta impostos, conta de mais de R$ 20 bilhões; projeto fundamental para que se pudesse fechar, por mentira crível, a lei orçamentária de 2026, aquela em que se formalizou um calendário para pagamento de emendas (fundo eleitoral paralelo) antes das eleições, sonho antigo dos senhores do orçamento secreto; projeto em que se embutiu a alcolúmbrica reabilitação de emendas parlamentares canceladas, restos a pagar do período entre 2019 e 2023, requentados R$ 3 bilhões que poderão ser disparados até dezembro do ano eleitoral. Projeto aprovado.
O TRIÂNGULO FECHA NO SAMBA
Geometria política, trisal institucional e partido-alto no fundo do Brasil
Há coisas que só o Brasil explica.
E há coisas que o Brasil explica melhor no samba.
Este texto nasce de uma pergunta aparentemente técnica — que forma tem um triângulo de soma zero? — e termina inevitavelmente na mesa de bar, onde a geometria perde o rigor, mas ganha verdade.
1. O triângulo que não está nos livros
“Triângulo de soma zero” não é conceito da geometria clássica. É metáfora. Dessas que funcionam melhor na política, na psicologia das relações e na vida real.
Na teoria, um triângulo só existe se houver três pontos distintos, ligados por segmentos contíguos e contínuos. Há tensão, distância, ajuste. Se um lado cresce, os outros se rearranjam. Existe área. Existe forma.
Quando os três pontos se sobrepõem, o triângulo colapsa. Resta um ponto só. Uma figura degenerada.
Na matemática, isso é falha estrutural.
Na política brasileira, é método.
2. Dezembro de 2025: quando a figura aparece
No sábado, 20 de dezembro de 2025, o colunista Carlos Andreazza descreveu no Estadão a materialização desse triângulo em pleno Senado Federal.
O chamado “acordão” envolveu três vértices que, no discurso, se odeiam — mas, na prática, se reconhecem:
o governo Lula (PT),
o Centrão e a cúpula do Congresso,
o bolsonarismo.
Não foi disputa. Foi arranjo.
Não foi traição. Foi convivência.
O governo aderiu à tramitação do PL da Dosimetria, que beneficia Bolsonaro.
Em troca, o Congresso aprovou a pauta fiscal essencial para sustentar a ficção orçamentária.
O Centrão manteve o controle das emendas.
O bolsonarismo saiu aliviado.
Cada um disse que perdeu alguma coisa.
Nenhum saiu de mãos vazias.
3. O trisal institucional
Aqui entra a metáfora relacional: não é triângulo amoroso, é trisal funcional.
No trisal, não há exclusividade. Há contrato tácito.
Não há paixão. Há cálculo.
O afeto é substituído pelo interesse — e a fidelidade, pela conveniência.
O triângulo político brasileiro de 2025 funciona assim:
os segmentos são contíguos (ninguém rompe),
são contínuos (a negociação não para),
e a área interna é ocupada por quem não foi convidado: o público.
4. A soma zero que mente
Chama-se soma zero porque alguém sempre paga.
Mas não são os vértices.
A conta fica dentro da figura:
aumento de impostos,
orçamento maquiado,
emendas ressuscitadas,
cinismo institucionalizado.
É um sistema fechado que só se mantém porque ninguém estica demais a corda. Se um lado resolve ser “coerente”, o triângulo racha. E ninguém quer cair sozinho.
Por isso, todo mundo dança.
5. Quando a política vira samba
E é aqui que a geometria pede licença ao pandeiro.
No samba — especialmente no partido-alto do Fundo de Quintal dos anos 80 — existe uma sabedoria estrutural:
quem canta sozinho perde o tempo; quem entra no coro se mantém.
O refrão explica melhor que qualquer editorial:
É no mesmo balcão
É tudo irmão
Briga é só de falação
No fundo é tudo a mesma mão
O samba revela o que o discurso esconde:
a política brasileira não se organiza em polos, mas em rodas.
Quem bate palma hoje, puxa o coro amanhã.
6. A caricatura como síntese
Na imagem que acompanha este texto, três figuras brindam juntas. Sorriem. Tocam. Cantam.
Não importa quem são — importa o que representam.
A caricatura sambista faz o que a análise técnica não consegue: mostra que, quando os interesses se sobrepõem demais, o poder não desaparece. Ele se concentra.
É a singularidade brasileira:
quanto mais diferentes dizem ser, mais parecidos agem.
7. Conclusão: o Brasil explicado em três acordes
O Brasil de 2025 não vive uma guerra política. Vive uma forma.
Não é ponto único — ainda há tensão.
Não é conflito aberto — isso dá trabalho.
É um triângulo estável, mantido por negociação constante e crítica neutralizada pelo hábito.
A geometria da sobrevivência funciona assim:
ninguém cai,
ninguém rompe,
e todo mundo segue cantando.
No fim, a política brasileira se entende melhor como samba de mesa do que como debate de plenário.
Porque no samba, como na política,
quem paga a saideira raramente segura o microfone.
S
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