terça-feira, 22 de setembro de 2026

Em uma frase: o texto defende que o Brasil deveria ir além da dicotomia “EUA versus Sul Global”, construindo uma política externa soberana, democrática e pragmática — “outro Ocidente, nunca anti-Ocidente”.

BINGO DO LULA NA ONU Como foi o bingo de Lula na ONU AO VIVO: ASSEMBLEIA-GERAL DA ONU 2026 | PLANTÃO THE NEWS 22/09 the news cc Transmissão ao vivo realizada há 7 horas Vídeo: ONU/Reprodução
"Para atingir Mendonça, Moraes dispara um tiro que ricocheteia no ministro Fachin, que atua como presidente-anteparo. Nessa troca de chumbo no Supremo, Mendonça revida o Inquérito das Fake News com uma investigação própria. Um embate direto travado por meio de inquéritos mágicos." RODA VIVA | WÁLTER MAIEROVITCH | 21/09/2026 Roda Viva e TV Cultura Transmissão ao vivo realizada há 19 horas Roda Viva | 2026 Nesta segunda-feira (21), o Roda Viva recebe o jurista e professor Wálter Maierovitch. Após o país acompanhar com atenção a sessão plenária do Supremo Tribunal Federal, paralisada pelo pedido de vista do ministro Flávio Dino, o programa analisa os próximos passos da Corte, os impactos das posturas adotadas pelos magistrados e os reflexos em todo o Poder Judiciário. A discussão integra a programação do mês de celebração dos 40 anos do Roda Viva, reafirmando o compromisso do programa com o debate dos grandes temas nacionais. 00:00:00 Abertura e apresentação 00:02:49 Apuração e ética no STF 00:08:40 Suspeição do Procurador-Geral 00:13:39 Decoro e imagem das instituições 00:20:00 Crises históricas do Judiciário 00:27:02 Impactos nas eleições de 2026 00:31:00 Impedimento e foro íntimo 00:33:57 Propostas de mudança no STF 00:42:53 Papel do CNJ e transparência 00:50:45 Relações do Caso Master 00:59:00 Validade da delação premiada 01:04:14 Mudanças no STF e mandato 01:09:00 Projetos de anistia e golpe 01:13:42 Crise entre os Poderes 01:18:31 Considerações finais e encerramento #RodaViva #TVCultura #SomosCultura #WálterMaierovitch
Resumo O artigo de Christopher Garman, publicado no Valor Econômico, argumenta que o Brasil vive uma degradação institucional lenta, mais preocupante no longo prazo do que a atual crise envolvendo o STF. O autor identifica três frentes principais: Judiciário: o aumento da atuação de escritórios ligados a familiares de ministros e suspeitas de influência sobre decisões criaria um ambiente propício ao tráfico de influência. Crime organizado: facções estariam ampliando sua atuação econômica e política, alcançando setores como combustíveis, mineração e fintechs e aumentando sua presença em governos locais. Congresso: o crescimento das emendas parlamentares, combinado com fiscalização considerada insuficiente, teria ampliado o poder econômico do Legislativo e favorecido interesses particulares. Segundo Garman, esses processos não configuram ainda uma ruptura institucional, mas corroem gradualmente a confiança nas instituições e a igualdade de competição entre empresas. No curto prazo, a crise do STF poderia afetar a confiança dos investidores e o ambiente político para uma eventual reforma fiscal em 2027. O autor considera que mudanças no Judiciário e maior fiscalização das emendas são possíveis, mas vê como desafio mais difícil conter a penetração do crime organizado no Estado. Ao mesmo tempo, o artigo ressalta que o Brasil mantém instituições relativamente robustas: Judiciário e Ministério Público independentes, Polícia Federal atuante e diversos mecanismos de veto no sistema político. Essa estrutura, argumenta Garman, também explica por que grandes escândalos conseguem vir à tona. Tese central: mais importante do que a permanência de ministros específicos no STF é saber se a crise atual produzirá reformas capazes de reduzir estruturalmente o tráfico de influência, a corrupção e a infiltração do crime organizado nas instituições.
terça-feira, 22 de setembro de 2026 Lenta e ampla degradação institucional, por Christopher Garman Valor Econômico Apesar de tudo, as instituições brasileiras são robustas em comparação com os padrões globais O Supremo Tribunal Federal está mergulhado em uma crise institucional sem precedentes. Por trabalhar em uma empresa de risco global, frequentemente recebo perguntas sobre os efeitos desse escândalo na confiança dos investidores internacionais. A resposta não é fácil. No curto prazo, a principal questão é como essa crise pode afetar o resultado da eleição presidencial e, consequentemente, as perspectivas para uma reforma fiscal em 2027 que crie condições para a queda das taxas de juros, que vêm estrangulando as empresas e as famílias. Mas os efeitos de longo prazo são, de longe, mais relevantes: o escândalo envolvendo o Supremo é sintoma de uma degradação institucional em curso há uma década, visível em três frentes: o tráfico de influência em decisões judiciais, a cooptação crescente da política pelo crime organizado e a corrupção difusa entre parlamentares que, cada vez mais, defendem seus próprios interesses econômicos. Juntos, esses vetores não configuram uma crise institucional aguda, mas a dinâmica se assemelha à de uma rã na água fervente: mina lentamente a confiança nas instituições e no ambiente de negócios. A crise no STF tem suas raízes em um ambiente propício ao tráfico de influência nos tribunais. Em 2023, a corte flexibilizou as restrições impostas a familiares de ministros que atuam em escritórios responsáveis por casos perante as cortes superiores. E, de acordo com um estudo do jornal O Estado de São Paulo, das 1.860 ações apresentadas ao STF e ao Superior Tribunal de Justiça por escritórios onde advogam familiares de ministros, 70% foram protocoladas após o parente assumir o cargo. Oito dos dez ministros do STF estão nessa situação. Advogados relatam que clientes contratam, cada vez mais, além de um escritório tradicional, outro de um familiar de um ministro. Relatos de que algumas decisões nos tribunais superiores estão sendo influenciadas por quem contrata esses escritórios vêm aumentando. Ao mesmo tempo, cresce a infiltração do crime organizado na esfera pública. Facções criminosas estão diversificando seus negócios, incluindo combustíveis, mineração e fintechs; um estudo mostra que essas atividades já respondem por 5% do PIB do país. Pesquisas apontam que cerca de 19% da população vive em áreas controladas por facções, e a infiltração em governos estaduais e municipais é generalizada, como indicam investigações no Rio de Janeiro e em São Paulo. Há um risco real de que a infiltração do crime nas instituições se aproxime do modelo hoje visto no México, embora ainda não tenhamos chegado nesse estado. No Congresso Nacional, a corrupção cresceu desde que uma emenda à Constituição deu ao Legislativo, a partir de 2015, controle sobre emendas orçamentárias, sem supervisão do Executivo: os recursos saltaram de R$ 3,8 bilhões em 2015 para R$ 47 bilhões em 2025, o equivalente a cerca de 0,36% do PIB. O problema não é só o uso ineficiente, mas a ausência de fiscalização: prefeitos relatam exigências de comissões de até 20%, pagas por meio de superfaturamento das obras. Os parlamentares tornaram-se também menos dependentes do Executivo e, cada vez mais, passaram a legislar em benefício de seus negócios privados. O Executivo enfrenta mais dificuldades para conseguir que o Senado aprove nomeações para agências reguladoras, e crescem também relatos de indicações de escritórios de advocacia para ajudar em temas regulatórios. Juntos, esses vetores representam uma decadência institucional lenta, cujo custo é difícil de mensurar, mas que se manifesta principalmente de duas formas. Primeiro, mina a igualdade de condições de competição: investidores e empresas que não jogam o jogo de influência nos tribunais, ou que enfrentam parlamentares com interesses próprios e crime organizado infiltrado em seus setores, sentem esse desequilíbrio na prática. Segundo, corrói a confiança nas instituições: os eleitores já apontam a corrupção como o principal problema desta eleição, e essa desconfiança tende a se refletir nas urnas. Diante de um escândalo dessa magnitude no STF, alguma mudança é provável, e tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto o senador Flávio Bolsonaro já defendem uma reforma do Judiciário. A falta de fiscalização sobre as emendas orçamentárias, por sua vez, é mais difícil de enfrentar. Qualquer novo governo será tentado a negociar a aprovação de um ajuste fiscal em troca da preservação desse mecanismo. O cenário mais provável é que o uso dos recursos passe a ser mais fiscalizado, com as investigações em curso servindo como instrumento de pressão — mas nenhum novo governo conseguirá alterar essas regras rapidamente. O desafio maior, entretanto, é frear a degradação institucional decorrente do avanço do crime organizado: o Ministério Público, a Polícia Federal e a Receita Federal têm avançado, mas a cooptação do setor público continua a crescer. Apesar de tudo isso, as instituições brasileiras são robustas em comparação com os padrões globais. O Judiciário e o Ministério Público são independentes; a Polícia Federal é atuante; e o sistema político tem múltiplos pontos de veto. Esse arranjo dificulta a governabilidade, mas, ao mesmo tempo, explica por que grandes escândalos vêm à tona (em outras democracias, escândalos como esse não veem a luz do dia). Investidores internacionais reconhecem isso. Mas a batalha para preservar a robustez institucional depende de medidas que ataquem a raiz dessa degradação. Mais relevante do que a permanência ou não do ministro Alexandre de Moraes (ou de outros) no cargo é saber se a crise pode dar início a uma reforma que coíba as práticas que criam um ambiente propício ao tráfico de influência.
Resumo O artigo de Paulo Fábio Dantas Neto parte de um discurso de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, para propor uma reflexão sobre o lugar do Brasil no mundo diante da ofensiva internacional de Donald Trump. A ideia central é que a ordem internacional do pós-guerra está se enfraquecendo, dando lugar a uma competição mais agressiva entre grandes potências. Carney propõe que países de porte intermediário, como Canadá e Brasil, atuem conjuntamente — política, comercial e diplomaticamente — para defender soberania, democracia, direitos humanos e pluralismo, sem simplesmente se alinhar a uma potência rival dos EUA. Para o autor, essa proposta oferece ao Brasil uma alternativa ao conceito de “Sul Global” como principal eixo de sua política externa. O Brasil poderia manter relações econômicas com países do Sul, China e Brics, mas sem transformar essas relações em alinhamento político com regimes autoritários. Interesses pragmáticos e valores democráticos, argumenta, podem coexistir. O artigo recupera então o pensamento de San Tiago Dantas, especialmente sua defesa de uma política externa independente, baseada na soberania nacional e na cooperação voluntária entre Estados. Nessa visão, o Brasil não deveria ser nem potência agressora nem país subordinado, mas um Estado capaz de cooperar preservando sua autonomia. Daí surge a ideia de “outro Ocidente”, associada também a José Guilherme Merquior: o Brasil faria parte de uma tradição cultural e política ocidental, mas não precisaria se subordinar às grandes potências ocidentais. Para o autor, essa posição permitiria ao Brasil defender seus interesses e sua soberania mantendo vínculos com democracias. Em uma frase: o texto defende que o Brasil deveria ir além da dicotomia “EUA versus Sul Global”, construindo uma política externa soberana, democrática e pragmática — “outro Ocidente, nunca anti-Ocidente”.
terça-feira, 22 de setembro de 2026 Mark Carney, San Tiago Dantas e o mote do “outro Ocidente”, por Paulo Fábio Dantas Neto* Demorou um pouco até que uma voz mais firme e positiva surgisse de um país ocidental, reconhecendo com realismo a extensão e profundidade radicais da ofensiva de Donald Trump para decretar, nas relações internacionais, o retorno do império da competição sem regras entre grandes potências. O primeiro ministro Mark Carney, do Canadá, em pronunciamento no Fórum Econômico Mundial, em Davos, além de fazer isso, lançou um facho de luz num mundo que, diante da fera, tem oscilado entre a perplexidade, o medo, a retórica oca e a indignação impotente. Ao reconhecer a falência da ordem mundial do pós-guerra e a impossibilidade de sua refundação, exortou o que chama de potências médias (dentre as quais vê o seu país incluído) a agirem em bloco, política, comercial e diplomaticamente para resistirem à ação das potências hegemonistas e contraporem, ao mundo sem regras que elas estão consagrando na esteira da blitz trumpista, um processo de construção de uma nova ordem, na qual possam ser preservados tanto os interesses soberanos dos países, como valores civilizatórios supranacionais, com destaque aos direitos humanos, à democracia e o pluralismo político. A relativa demora da reação guarda alguma semelhança com a prudência da diplomacia brasileira. Afinal, ambos os países estão tradicionalmente situados na chamada área de influência dos EUA. No caso do Canadá, mais ainda, porque tem com aquele país uma imensa fronteira, tendo sido alvo de insólita ameaça de anexação. Isso valoriza ainda mais a firmeza, a ousadia e a largueza de visão do pronunciamento do primeiro-ministro. O único ponto não bem explicitado no discurso memorável é a indeterminação, talvez deliberada, do que se pode considerar como médias potências. Mas a afirmação final do discurso de que o caminho proposto é “totalmente aberto para qualquer país disposto a trilhá-lo conosco” não deixa dúvidas sobre a amplitude política e a generosidade planetária do posicionamento. Certamente a amplitude não é politicamente ingênua. Sabe discernir as distintas capacidades de reação de distintos países (daí a alusão ao protagonismo dos de porte intermediário) mas não fecha previamente o arco da promessa. Fica evidente uma tentativa de construir uma alternativa a artefatos da estratégia trumpista, como o chamado comitê de paz de Gaza, uma iniciativa com clara intenção de consumar a interdição do papel da ONU, de há muito desafiado e desgastado por grandes potências. Em vez de clamar, retoricamente, pelo respeito ao virtual e cada vez menos real poder arbitral daquela organização, Carney está propondo uma articulação e ação realistas de novo tipo. E pelo desenho mesmo da proposta, combinando interesses e valores, o reconhecimento da ineficácia da ONU como poder arbitral não implica em desconhecer nem deixar de apoiar o papel ativo que desempenha, através de várias organizações específicas, na promoção dos direitos humanos no mundo e na assistência e solidariedade contínuas a populações submetidas aos efeitos de situações de agressão e opressão. O pronunciamento é, por tudo isso, uma sinalização concreta para a política externa brasileira. Se ela assumir a integridade e as implicações políticas de um discurso como esse, estará sintonizada não apenas com o Canadá e o mundo democrático, mas com as melhores tradições do Itamaraty. Essa sinalização chega em momento propício para encontrar boa guarida. A política externa brasileira atual, desde o tarifaço de Trump, passou a demonstrar razoável sintonia com esse discurso. O horizonte dessa sintonia é bem mais largo do que o discurso do "Sul Global", a marca geopolítica principal que, até poucos meses atrás, tentava guiar passos do próprio Itamaraty. Parece que a realidade da blitz trumpista está levando o governo a achar um eixo que articule melhor política e diplomacia. Os efeitos têm sido animadores e justificam a expectativa de que o governo brasileiro e seu presidente acolham a fala canadense como aceno a uma firme aliança e não como o nascimento de um discurso rival. A lógica pragmática da prioridade às relações “Sul-Sul” é se amparar no banco dos Brics e na influência chinesa para escapar das garras de Trump. Isso colocaria em segundo plano o Canadá, assim como a UE. A conversa do canadense é outra. Para enfrentar a ofensiva de Trump não adota o caminho de amparar-se em potências rivais dos EUA, cujo traço comum, para além de suas vocações também imperiais, é serem ditaduras. Com elas, relações diplomáticas e comerciais, sim, cooperação política, não. Nenhum interesse pragmático justifica um compromisso seletivo com o valor dos direitos humanos. Por essa chave de abordagem das relações internacionais cabe, por exemplo, contrapor-se ao massacre de Israel em Gaza e não cabe fazer silêncio ou murmurar com timidez sobre o que ocorre no Irã. Pragmatismo de interesses e de valores não são incompatíveis. São complementares para livrar potências médias, como somos Brasil e Canadá, de escolherem inseticidas para combater os insetos. O pronunciamento de Carney evoca as melhores tradições da nossa política externa, registradas em formulações igualmente amplas, em distintos contextos. Não vou aqui exumar tais contextos nem resgatar, pela enésima vez, as memórias de Rio Branco, Ruy Barbosa, ou Osvaldo Aranha. Trago à lembrança San Tiago Dantas, pelo que ele tem de mais contemporâneo. Não tanto sua experiencia no Itamaraty, evidentemente datada, mas o legado do seu pensamento político de esquerda positiva, formulador de uma combinação fantástica de convicção democrática, reformismo social e - o que aqui mais interessa – visão do interesse nacional soberano articulado com uma perspectiva cosmopolita. É dele a reflexão que tentarei resumir, pedindo desculpas por possíveis imprecisões e servindo-me da memória de discussões do grupo de pesquisa Ecos do Subsolo, que tive a sorte de coordenar na UFBa. San Tiago buscava definir, de forma teórica e de forma prática, possibilidades de uma política de não-alinhamento que impulsionasse o Brasil como protagonista de suas experiências sociopolíticas, em detrimento de qualquer subordinação primária a interesses externos. Na dinâmica internacional, poder-se-ia identificar, segundo ele, grupos distintos de acordo com seus interesses externos, entendidos enquanto aqueles interesses que podem levar um Estado nacional a intervenções fora de seu campo interno de ação e indispensáveis para o preenchimento de seus fins políticos. São estes: Grupo 1 - Estados potencialmente agressores: têm como tendência permanente serem determinantes na esfera de interesses internos de outros Estados. Buscam interferir em áreas que estão sob controle de outro Estado, sendo que a maioria dessas modalidades de influência, quando se exercem como ações permanentes, configura o imperialismo; Grupo 2 - Estados potencialmente agredidos: aqueles que visam à preservação da própria esfera de determinações contra interferências de outro Estado. Almejam, portanto, a defesa da própria soberania contra todas as formas externas de infiltração, com reivindicações anti-imperialistas. São o oposto dos países do grupo 1. Esses dois primeiros grupos eram extremos da linha de política exterior, entre os quais se pode identificar o modo como os vários estados nacionais se posicionam em relação aos outros na dinâmica política internacional. Isso é especialmente relevante quando, para San Tiago, nenhum Estado pode existir em isolamento absoluto, nem mesmo teoricamente, uma vez que “a existência de um Estado Nacional pressupõe a de outros Estados Nacionais, cujas esferas de interesses e de influência, ou coincidem convergentemente, ou se desenvolvem paralelamente com a do Estado considerado". No caso brasileiro, a experiência nacional identificaria o país num terceiro grupo, no qual os interesses externos corresponderiam à necessidade de cooperação voluntária, via entendimentos com outros Estados para o preenchimento de seus fins. Aspiração à atividade não-compulsória que se processaria justamente pela capacidade que esse Estado teria de oferecer reciprocidade a formas de cooperação. Devemos notar ainda a forma como San Tiago Dantas identificava o Brasil, a partir de uma dimensão histórica, na dicotomia Ocidente x Oriente. Segundo ele, a experiência civilizatória realizada no nosso meio, a partir de um processo colonizador deliberado empregado por Portugal, iniciou um processo de transplantação da civilização ocidental. Este processo teria sido comunicado aos povos e continuaria a orientá-los após alcançarem a independência política, e, no caso das Américas espanhola e portuguesa, a partir da tentativa de implantação da civilização ocidental nos trópicos, aspecto irremediavelmente determinante da formação brasileira e das virtudes e vícios das suas políticas interna e externa. Essa postura realça a ideia de "outro ocidente", termo que devemos a José Guilherme Merquior, também um pensador instigante do Brasil. Nas percepções do liberal Merquior e do trabalhista San Tiago a comum compreensão de que esse outro ocidente é a praia natural do Brasil, da sua cultura nacional e da sua diplomacia. Sintonia fina, contemporânea e mais ou menos coetânea entre dois intelectuais cujas reflexões sobre o tema separam-se no tempo por duas décadas, entre a dos 60 e a dos 80. Sintonia contemporânea que se pode dar também entre pensamentos não coetâneos, hipótese acolhida no universo compreensivo de um terceiro pensador brasileiro, Guerreiro Ramos, hoje mobilizado, com discutível precisão, por defensores da necessidade de “descolonização” do nosso pensamento político. Pois é justamente nessa hipótese que se pode ler o discurso atual de Carney como portador de um pensamento político análogo. Sem prejuízo da intensificação das relações comerciais com os países "do sul" (o próprio Canadá faz isso), a reação política global contra o trumpismo tem que superar a conversa do Sul Global. Ir além dela. Mostra que o ocidente não é uma imagem do passado, inerte diante da ofensiva de um presidente autocrático à frente do governo de uma potência hegemônica. Sintonia com esse discurso inclusivo e não demarcatório de fronteiras ideológicas é caminho para o Brasil defender sua soberania sem negar laços tradicionais da sua trajetória histórica, colada a destinos de lugares onde a democracia política prosperou. Em outras palavras, outro ocidente, nunca anti-ocidente. Tomara que o atual governo possa superar suas ambiguidades ideológicas e permitir que essa linha se desenvolva. O Brasil tem porte para isso e diplomacia capaz de cumprir essa missão nacional. *Cientista político e professor da UFBa

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