Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
O TEMPO DO TEXTO: MODERNIDADE TARDIA E CONSCIÊNCIA HISTÓRICA
Legenda descritiva:
Charge de J. Caesar, publicada em 18 de dezembro, que retrata três personagens vestidos como presos, cada um se justificando por seus atos com motivações diferentes — “salvar o mundo do comunismo”, “melar a eleição” e “sair ameaçando os outros com uma pistola”. Com humor crítico e ironia, a ilustração evidencia como discursos políticos e pessoais são usados para minimizar ou racionalizar ações graves, sugerindo a responsabilização comum por comportamentos antidemocráticos.
Por José Casado.
Um homem envelhecido, sentado à beira de um palco em ruínas, segura um crânio à maneira hamletiana. Ao fundo, envolto em luz difusa, a silhueta de um homem jovem observa. Cortinas gastas, cadeiras vazias e a penumbra teatral compõem a cena. A imagem traduz a modernidade tardia: a consciência histórica que já não acredita na pureza da ação nem na inocência da representação.
Entre a cena e a vida: o novo, o velho e a repetição brasileira
Há memórias que persistem não pelo fato em si, mas pela pergunta que deixam em aberto. Uma das mais antigas remete à juventude e à crítica dirigida ao teatro praticado na cidade do mais velho. A observação era simples e incômoda: ao invés de levar a vida para o teatro, ele — o Velho, bem entendido — parecia sempre querer trazer o teatro 🎭 para a vida. O que soava, então, como censura estética revelou-se, com o tempo, um dilema histórico mais amplo.
A dúvida que daí nasce é declaradamente hamletiana: seria possível afirmar que o velho e o novo, juntos ou separados, não estariam ambos com razão? A questão não se resolve. Consome. Mas o faz, como diz o aforismo, sempre em benefício da prudência.
O teatro como mediação histórica
Desde a modernidade, o teatro foi pensado como espaço de distanciamento crítico. Levar a vida ao palco significava arrancá-la da opacidade do cotidiano, expor conflitos, tornar visíveis contradições sociais. Foi essa aposta que orientou grande parte do teatro moderno e político do século 20: a crença de que a representação podia produzir consciência.
A posição do jovem nasce desse horizonte. Há desconfiança diante da máscara, rejeição à encenação fora do espaço delimitado da arte. Viver deveria ser viver; representar, apenas no palco. Qualquer transbordamento da teatralidade para a vida parecia artificial, quando não desonesto.
O velho, porém, conhece outro tempo. Sua inclinação a trazer o teatro para a vida não é capricho, mas resultado de experiência histórica acumulada. Ele sabe que a vida social é feita de papéis, que a franqueza absoluta cobra preço alto e que a máscara, muitas vezes, funciona como defesa mínima diante de estruturas rígidas e relações de poder assimétricas.
Modernidade tardia e consciência da repetição
É nesse ponto que o texto se inscreve no que se pode chamar de modernidade tardia. Já não se acredita ingenuamente na transparência da verdade nem na eficácia redentora da arte. Tampouco se aceita, sem resistência, o cinismo que naturaliza a encenação permanente. A política, a vida pública e até a intimidade tornaram-se profundamente teatralizadas.
Hamlet reaparece não como ornamento erudito, mas como chave interpretativa. Sua dúvida não é indecisão vulgar: é excesso de consciência. É o estado de quem compreende demais para agir com pureza e age pouco porque sabe que toda ação nasce comprometida pelo tempo histórico.
Interlúdio cultural: quando a canção antecipa a crítica
Talvez a cultura popular tenha formulado com mais clareza — e ironia — aquilo que a análise histórica demora a admitir. Em 2012, enquanto o país parecia avançar, Rita Lee lançava Rapaz. À época, a canção soava leve, libertária, quase descompromissada. Treze anos depois, revela-se menos ingênua do que parecia.
Em Rapaz, o desejo não organiza projeto histórico algum. Ele foge, ironiza, zomba. “Fugimos pro Tibet” não é geografia: é recusa simbólica da repetição. O “rapaz” não representa o novo como promessa política, mas como gesto momentâneo de deslocamento — um modo de escapar, ainda que provisoriamente, da petrificação moral.
Nesse sentido, a canção dialoga, com deboche, com a sensação contemporânea da “volta dos que não foram”. O novo reaparece velho, o velho se reapresenta como novidade, e a história gira em falso. Rita Lee não propõe saída: ri antes que o riso seja interditado.
O contraponto trágico: da flor ao espinho
Se Rapaz é o gesto irreverente, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito são o saldo. Em canções como A Flor e o Espinho ou Deus me fez assim, não há fuga possível. O tempo passa, cobra, endurece. A flor vira espinho. Não por maldade, mas por desgaste.
É o mesmo país, visto por ângulos distintos. Onde Rita Lee antecipa com ironia, Nelson Cavaquinho constata sem ilusão. Ambos falam da mesma realidade histórica: a dificuldade brasileira de transformar experiência em aprendizado coletivo.
Prudência como lucidez possível
Falar em prudência, aqui, não é defender acomodação. Trata-se de uma prudência ativa, que desconfia tanto da pureza quanto do artifício. Entre o jovem que exige verdade inteira e o velho que administra máscaras, resta a consciência incômoda de que ambos carregam uma parte da razão.
Sustentar essa tensão, sem resolvê-la apressadamente, talvez seja uma das poucas formas de lucidez ainda possíveis num tempo em que a cena se confunde com a vida — e a vida, cada vez mais, insiste em se apresentar como repetição mal disfarçada.
📌 Nota editorial
Texto no formato ensaio cultural para publicação digital.
O vídeo funciona como interlúdio crítico, não como ilustração musical.
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Supostos negócios de Lulinha com Careca do INSS são dor de cabeça para Lula
Publicado em 19/12/2025 - 05:54 Luiz Carlos Azedo
Brasília, Comunicação, Congresso, Ética, Governo, Justiça, Memória, Política, Política, Sindicatos
Estava tudo sob controle na CPMI, até aparecerem indícios de que Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, teria negócios que envolveriam o filho do presidente da República
“Filhos, porque qui-los”, diria Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o humorista Barão de Itararé, parafraseando o ex-presidente Jânio Quadros. A frase ilustra o dilema político e moral dos presidentes que, no exercício do cargo, veem familiares cruzarem a linha tênue entre o público e o privado. No caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Operação Sem Desconto e seus desdobramentos na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS criam um novo cenário para a atuação do colegiado, corrosivo para a imagem do governo e de grande risco eleitoral, por causa do suposto envolvimento de seu filho Fábio Luís Lula da Silva com o operador central do esquema de desvio de recursos de aposentados e pensionistas, Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
A CPMI do INSS vinha sendo administrada com relativa tranquilidade pelo governo. A base aliada conseguiu impor maioria, controlar a pauta e barrar convocações consideradas sensíveis, como as do próprio Fábio Luís Lula da Silva e do irmão do presidente, Frei Chico, vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, que entrou de gaiato no navio, ao assumir o cargo após o escândalo. A blindagem institucional pode não eliminar o desgaste eleitoral e político: quanto mais o governo atuar para conter o avanço da CPMI, maior será a impressão de que há algo a esconder, percepção que alimenta a narrativa da oposição e amplia o custo político do controle da comissão.
Leia também: Empresária ligada a Lulinha é alvo da Operação Sem Desconto da PF
Criado em 27 de junho de 1990, o INSS é a fusão do Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social (Iapas) com o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Inicialmente, ele era uma autarquia vinculada ao então Ministério da Previdência e Assistência Social. Desde então, as fraudes se sucedem. Esse escândalo do INSS deixa no chinelo o caso mais famoso.
Jorgina de Freitas era procuradora previdenciária desde 1988. Em 1991, foi descoberto um grande esquema de fraude que desviou bilhões do INSS, no qual ela estava envolvida: um grupo de 20 pessoas forjava processos de indenização milionários. Jorgina fugiu em 1992, após ser condenada, e só foi capturada em 1998, na Costa Rica. Ela ficou presa por 12 anos, perdeu o registro da OAB e ainda foi obrigada a devolver R$ 200 milhões aos cofres públicos. Solta em 2010, ela morreu em julho de 2022.
Agora, as investigações da Polícia Federal indicam um esquema nacional de descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS, praticados entre 2019 e 2024, com prejuízo estimado em até R$ 6,3 bilhões. Trata-se de um crime que atinge diretamente aposentados e pensionistas, público historicamente associado à base eleitoral de Lula e do PT. Isso torna o episódio duplamente perigoso: pelo volume financeiro envolvido e pelo simbolismo político da vítima. O governo tomou medidas efetivas para reembolsar os lesados, e a Polícia Federal investiga os envolvidos.
Filho de César
Estava tudo sob controle na CPMI, até aparecerem indícios de que Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, teria negócios que envolveriam Lulinha, inclusive com transferências financeiras vultosas, empresas no exterior e projetos comerciais sensíveis. Ainda que tais acusações não tenham sido comprovadas, a suspeita favorece a narrativa da oposição e produz efeitos midiáticos relevantes. É aquela história famosa da mulher de César, o grande imperador romano; não basta ser honesta, precisa parecer honesta.
O presidente Lula foi obrigado a vir a público dizer que “ninguém ficará livre”. Adotou uma postura institucionalmente correta, porém muito constrangedora: “Se tiver filho meu envolvido nisso, ele será investigado”, declarou. O que Lula pode fazer é separar o chefe de Estado do pai, reafirmar a autonomia da Polícia Federal e do Judiciário e demonstrar compromisso com a legalidade. É a única postura possível para quem tem o discurso da justiça social e do combate às desigualdades. Entretanto, não será fácil impedir convocação, quebras de sigilo e aprofundamento de investigações na CPMI que mirem Lulinha.
Leia mais: “Se tiver filho meu metido nisso, vai ser investigado”
Essa é a grande dor de cabeça do governo. CPMIs não são apenas um instrumento de apuração factual; são arenas políticas, nas quais se digladiam governo e oposição, por meio de vazamentos seletivos e disputas simbólicas. A oposição encontrou uma oportunidade de associar a corrupção bilionária e os prejuízos a aposentados ao suposto favorecimento a familiares do presidente, narrativa de fácil comunicação com a opinião pública. Além disso, o envolvimento do senador Weverton Rocha, alvo de busca e apreensão, mostra que o caso não envolve apena ex-gestores do INSS e entidades sindicais. Com parlamentares, a CPMI recupera densidade política.
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#Aposentados, #CPMI, #INSS, #Lulinha, #Sindicatos, #Weverton, Lula
Genial/Quaest: Avaliação negativa do governo Lula é a maior entre os Poderes
O governo Lula tem avaliação negativa de 38% dos eleitores, percentual maior do que o do Legislativo e o do Judiciário, segundo pesquisa Genial/Quaest
Publicado em: 19/12/2025 9:09
Rosana Hessel
A avaliação negativa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é maior entre os Poderes da República, de acordo com dados da pesquisa Genial/Quaest que o Blog teve acesso com exclusividade.
Conforme dados do levantamento, 38% dos entrevistados avaliam o governo Lula como negativo, maior percentual do que os do Legislativo e do Judiciário. Os desempenhos do Supremo Tribunal Federal (STF) e a da Câmara dos Deputados são considerados negativos para 36% dos eleitores, empatados no segundo lugar. E, em terceiro lugar, o Senado Federal, recebeu 33% das avaliações negativas.
A pesquisa mostra ainda que a avaliação negativa do Supremo aumentou quatro pontos percentuais em relação ao levantamento anterior da Quaest, de julho, quando o percentual negativo era de 32%. Para 33% dos entrevistados, o desempenho do STF é positivo e, para 24%, regular. Sete por cento não responderam ou não avaliaram.
No Legislativo, a avaliação negativa do Senado oscilou um ponto percentual em relação à pesquisa anterior, de outubro, passando de 34% para 33%. A avaliação positiva avançou de 18% para 22%, no mesmo intervalo de comparação. Enquanto isso, a avaliação negativa da Câmara recuou de 39% para 36%, entre outubro e dezembro, e a positiva subiu de 15% para 20%, no mesmo período.
O levantamento faz parte da 20ª rodada da Pesquisa Genial/Quaest de avaliação do governo Lula. Foram entrevistados 2.004 eleitores com idade superior a 16 anos entre os dias 11 e 14 de dezembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais e o índice de confiança é de 95%.
Indicação de Messias
Em outro levantamento da Quaest, divulgado nesta sexta-feira (19/12), sobre a indicação de Lula do nome do ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para uma vaga no STF, 45% dos entrevistados afirmaram que desaprovam a decisão do presidente, enquanto 30% aprovam.
O percentual negativo, contudo, é inferior aos 60% de desaprovação, em abril de 2023, quando Lula indicou o ministro Cristiano Zanin para o Supremo. Naquela época, apenas 23% dos eleitores aprovaram a indicação do atual ministro.
Veja um destaque da pesquisa:
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