Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
TRIÂNGULO DOS PODERES NO ENTORNO DO PARQUE
Bom Natal, feliz 2026!
PRESÉPIO AO CENTRO IMPERIAL
Entre a Ceia e o Poder
Cristianismo, política e a difícil arte de conviver entre diferentes
Na mesa de fim de ano, o peru costuma esfriar mais rápido do que os ânimos. Não é raro que a ceia natalina brasileira se transforme em um microcosmo da República: de um lado, defensores incondicionais de Lula; do outro, fiéis a Bolsonaro. Ambos, curiosamente, se dizem cristãos. Ambos falam em nome do bem, da justiça, do povo — ou de Deus. E ambos, com frequência, parecem dispostos a romper a comunhão familiar em nome de uma verdade que já não admite conversa.
Talvez o problema não seja apenas político. Talvez seja mais profundo.
Jesus de Nazaré — figura central para todos os que se afirmam cristãos — jamais deixou instruções sobre como vencer eleições, formar maiorias parlamentares ou derrotar adversários. Ao contrário: recusou ser feito rei, rejeitou o uso da força e distinguiu com clareza desconcertante o poder terreno do Reino de Deus. “Meu Reino não é deste mundo”, disse a um governador romano quando tudo indicava que um gesto populista poderia poupá-lo da cruz.
Essa recusa não é detalhe teológico. É chave política.
Jesus não organiza massas, não constrói propaganda, não exige lealdade pessoal. Fala a consciências individuais. Quem o segue o faz livremente — e pode ir embora quando quiser. Nesse sentido forte, Jesus é o oposto do líder carismático moderno.
É aqui que Hannah Arendt se torna indispensável. Em Origens do Totalitarismo, ela observa que regimes totalitários não surgem prontos. Antes do terror, vem a propaganda. Antes da violência aberta, a substituição da verdade factual por narrativas plausíveis. As massas não são convencidas pela razão, mas conquistadas emocionalmente — enquanto elites aprendem a instrumentalizar ressentimentos e identidades.
O totalitarismo começa, alerta Arendt, quando pensar se torna desnecessário.
Não é preciso — nem intelectualmente honesto — afirmar que Lula ou Bolsonaro governem regimes totalitários. Mas é impossível ignorar que ambos se tornaram polos de lealdade personalista. Lula encarna uma biografia que, para muitos seguidores, se confunde com o próprio projeto político. Bolsonaro, elevado por parte de seus apoiadores a figura messiânica, funde política, moral e religião numa identidade fechada. Em ambos os casos, a crítica tende a ser percebida não como discordância legítima, mas como ataque moral — quando não como traição.
Quando cristãos passam a defender líderes com mais fervor do que defendem a verdade, já não estão fazendo política — estão praticando idolatria.
Aqui está o afastamento decisivo em relação a Jesus.
Jesus aponta para a verdade; líderes carismáticos pedem fidelidade.
Jesus aceita limites; líderes personalistas os relativizam.
Jesus separa Deus e poder; a política contemporânea frequentemente os confunde.
Pedro Doria, em recente crônica, chama atenção para outro fator menos visível, mas igualmente decisivo: o sistema eleitoral brasileiro empurra partidos e eleitores para essa polarização exaustiva. As regras incentivam a repetição dos mesmos nomes, mesmo quando a maioria da sociedade manifesta rejeição a eles. O resultado é um país aprisionado em disputas simbólicas, enquanto o debate público se reduz a torcidas organizadas.
É nesse cenário que a ceia de Natal se torna campo minado.
Talvez, porém, haja saída — não pela conversão do outro, mas pelo deslocamento da conversa. Em vez de perguntar “em quem você vota?”, seria mais fecundo perguntar:
Jesus pediu que seus seguidores defendessem líderes terrenos a qualquer custo?
Se meu político favorito mentisse de forma comprovada, eu mudaria de posição?
Consigo reconhecer boa-fé em quem vota diferente de mim?
Aceito limites institucionais ao governante que apoio?
Essas perguntas não separam esquerda e direita. Separam idolatria e consciência.
O cristianismo, em sua forma mais elementar, não exige unanimidade política. Exige algo mais difícil: amor ao outro, compromisso com a verdade e recusa em transformar o poder em objeto de fé. Quando cristãos relativizam fatos, justificam mentiras ou demonizam adversários em nome de um líder, não estão apenas fazendo má política — estão praticando uma forma de anti-evangelho.
Talvez a maior contribuição política que um cristão possa oferecer hoje não seja eleger seu candidato, mas recusar a sacralização da política. Defender instituições. Preservar a pluralidade. Manter viva a capacidade de pensar — e de ouvir.
Se a ceia terminar sem consenso eleitoral, tudo bem. O que não pode faltar é aquilo que Jesus nunca dispensou e Hannah Arendt tanto temeu perder: a liberdade interior. Sem ela, não há fé que resista — nem democracia que sobreviva.
Referências
Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo.
Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro.
Max Weber, Economia e Sociedade.
Pedro Doria, O Globo, dezembro de 2025.
Bíblia — Evangelhos (Jo 6:15; Jo 18:36; Mt 20:26).
Steven Levitsky & Daniel Ziblatt, Como as Democracias Morrem.
Epitáfio de fim de ceia
Aqui jaz a briga da ceia.
Morreu de cansaço.
Sobreviveu o amor ao próximo —
que não vota, não grita,
mas insiste em sentar à mesa.
✅ P
“A política trata da convivência entre diferentes. Onde a pluralidade é destruída, começa a barbárie.”
Hannah Arendt
POVO FOTOGRAFANDO BESTIFICADO DE UM DOS BANCOS AO LADO DO REGAÇO DA PRAÇA
Balanço do ajuste de contas com a tentativa de golpe de 8 de janeiro
Publicado em 24/12/2025 - 07:08 Luiz Carlos Azedo
Brasília, Comunicação, Congresso, Eleições, Governo, Justiça, Memória, Militares, Paraguai, Política, Política, Rio Grande do Sul, Violência
Comorbidades e nova dosimetria podem permitir que Bolsonaro volte mais cedo à prisão domiciliar, mas antes das eleições isso só ocorrerá se realmente estiver muito doente
Para usar uma expressão do general Golbery do Couto e Silva, estrategista do regime militar, talvez uma “diástole” em relação ao presidente Jair Bolsonaro e aos generais condenados pelo 8 de Janeiro tenha começado mais cedo do que se imaginava, na velha tradição republicana de perdoar os revoltosos. A origem dessa tradição é a Guerra dos Farrapos, um movimento republicano e separatista que sacudiu o Rio Grande do Sul e Santa Catarina de 1835 a 1845, cujos generais foram anistiados e incorporados ao Exército Brasileiro com suas patentes originais, pelo Tratado de Poncho Verde e, depois, canonizados pela República.
Bento Gonçalves renunciou à Presidência da República Rio-Grandense em 1844 depois de um duelo contra Onofre Pires. Após o acordo, manteve a patente, retirou-se para sua estância em Camaquã e faleceu em 1847, dois anos após o fim da guerra, vítima de pleurisia. David Canabarro foi o principal negociador do acordo e, anos depois, liderou tropas brasileiras na Guerra do Paraguai (1864-1870), vindo a falecer em 1867.
Bento Manoel Ribeiro, que trocou de lado várias vezes, manteve grande influência política e militar na província até sua morte, em 1855. Antônio de Sousa Neto, proclamador da República Rio-Grandense, mudou-se para o Uruguai e, depois, retornou ao Brasil para lutar na Guerra do Paraguai, onde foi ferido em combate e faleceu em Corrientes, na Argentina, em 1866. Giuseppe Garibaldi deixou a revolução em 1841, foi para o Uruguai com Anita Garibaldi, para retornar à Itália e liderar sua unificação.
A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 confrontou essa tradição, com a centralidade do Poder Judiciário como protagonista institucional da resposta à tentativa de golpe. Ao contrário de 1937 ou de 1964, não foi o sistema político que arbitrou o desfecho, mas o Supremo Tribunal Federal (STF), que assumiu integralmente a investigação, o julgamento e a dosimetria das penas. O balanço apresentado pela Primeira Turma ao fim de 2025 é histórico e sem precedentes na democracia brasileira, ainda que o Congresso tente recuperar parte desse protagonismo com a redução da dosimetria das penas.
Leia também: Por que o indulto de Natal deixou de fora os condenados pelo 8 de janeiro?
Desde janeiro de 2023, foram autuadas 1.734 ações penais relacionadas aos atos antidemocráticos. Desse total, 619 envolveram crimes mais graves — organização criminosa, tentativa de golpe de Estado e atentado contra o Estado Democrático de Direito — enquanto 1.115 trataram de delitos de menor gravidade, como incitação e associação criminosa. Até o encerramento do ano judiciário, a Primeira Turma condenou 810 pessoas, sendo 395 por crimes graves e 415 por crimes menos severos, além de 14 absolvições.
Punições severas
Foram homologados 564 acordos de não persecução penal, cerca de 45% das ações, que envolveram autores de menor potencial ofensivo, com medidas alternativas, como prestação de serviços comunitários e cursos sobre democracia, além do ressarcimento de mais de R$ 3 milhões aos cofres públicos. Do restante, 31% das condenações resultaram em penas leves, de até dois anos e meio, e apenas 24% corresponderam a condenações mais severas. Dentro desse grupo, cerca de 5% receberam penas superiores a 12 anos, reservadas às condutas de maior gravidade.
Esses números desmontam a narrativa de punição indiscriminada. Houve individualização da pena e concentração do peso do sistema penal nos núcleos dirigentes, financiadores e articuladores da ruptura institucional, ao mesmo tempo em que se descomprime o sistema em relação à massa mobilizada politicamente. É nesse contexto que se inserem as medidas de flexibilização de penas decorrentes da análise sobre saúde, comorbidades e prisão domiciliar humanitária.
Dos 38 condenados que pediram o benefício, 21 obtiveram concessão e 17 tiveram o pedido negado. Entre os beneficiados, 15 são idosos, todos com alegações de doenças graves ou incapacitantes. O caso do general Augusto Heleno, de 78 anos, condenado a longa pena e portador de Alzheimer, simboliza essa inflexão, de caráter humanitário. Já o ex-presidente Jair Bolsonaro, embora alegue problemas de saúde, permanece reconhecidamente fora desse padrão jurisprudencial.
A negativa reiterada de prisão domiciliar, mesmo diante da autorização para cirurgia eletiva, indica que o STF fixou uma linha clara: apenas quadros graves, permanentes e incompatíveis com o regime fechado justificam a exceção. Antes das eleições de 2026, qualquer flexibilização mais ampla do regime fechado de Bolsonaro dependerá de um agravamento médico efetivo e comprovado, sob pena de a Corte ser acusada de interferência direta no processo político. Depois da eleição, será outra história.
Leia mais: Bolsonaro sai da prisão para ser operado
A “diástole” não é anistia nem absolvição disfarçada. É controlada e seletiva. O encerramento formal dos processos no STF, agora, desloca o conflito para uma nova instância: o Superior Tribunal Militar, que deverá julgar a perda de patente e graduação dos militares condenados. Caso o STM confirme a cassação das patentes, o Brasil consolidará um precedente inédito: a responsabilização plena de oficiais-generais por crimes contra a ordem democrática, com sanção penal e sanção corporativa. Se, ao contrário, prevalecer uma leitura corporativa mitigadora, a “diástole” poderá se converter em recomposição simbólica do estamento militar, relativizando o alcance do ajuste de contas promovido pelo STF.
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#Bolsonaro, #Dosimetria, #Heleno, #Prisão, #STM, #Supremo
Cabritada mal sucedida - Geraldo Pereira:
“O patrão da Sebastiana é que foi ao Distrito e mandou me soltar🎼”
"Que história, que narração."
"Puseram a gente sem culpa no carrro da rádio-patrulha e levaram."
"Puseram a raça sem culpa no carro da rádio-patrulha e levaram."
"Assis Valente compôs a verdadeira canção de Natal? Acho que sim. Dá o que pensar, traz a imagem da felicidade como algo a ser conquistado. Com certeza, não é um brinquedo de papel. Bom Natal, feliz 2026!"
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Caetano Veloso - Boas Festas #LivedoCaetanodeNatal
Caetano Veloso
Estreou em 23 de dez. de 2020
#LivedoCaetanodeNatal #CaetanoVeloso #BoasFestas
Caetano Veloso - Boas Festas
Anoiteceu
O sino gemeu
A gente ficou
Feliz a rezar
Papai Noel
Vê se você tem
A felicidade
Pra você me dar
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim, felicidade
Eu pensei que fosse uma
brincadeira de papel
Já faz tempo que pedi
Mas o meu Papai Noel
não vem
Com certeza já morreu
Ou, então, felicidade
É brinquedo que não tem
(Assis Valente)
2020 Uns Produções
Transcrição
"Benguelê
Parceria com Gastão Vianna. Cópia do manuscrito do próprio Pixinguinha desta música – classificada por ele mesmo como “lundu africano” – encontra-se no acervo da Casa do Choro. O arranjo desta música – um dos pontos altos da carreira do compositor, pela verve e riqueza dos contrapontos – foi editado em 1946 pela Mangione. No mesmo ano “Benguelê” receberia sua primeira gravação, com o grupo Anjos do Inferno (disco Victor 800408).
Benguelê - Pixinguinha
piccinini02
1 de abr. de 2010
"Benguelê", composed by Pixinguinha and Gastão Vianna, here played by Orquestra Pixinguinha ( Orquestra Brasilia)
Track list "Um Gênio Brasileiro - Cem anos de Pixinguinha":
01- Cheguei
02- Carinhoso
03- Um a Zero
04- Lamentos
05- Proezas do Solon
06- Benguelê
07- Rosa
08- Vou Vivendo
09- Ingênuo
10- Naquele Tempo
11- O Gato e o Canário
12- Os Oito Batutas
Tracks 1,5,6,8,10 and 11 have the original arrangements by Pixinguinha.
Transcrição
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