Existe um antigo princípio filosófico e jurídico derivado da máxima em latim “Qui potest plus, potest minus” que dita: "Quem pode o mais, pode o menos". No entanto, quando adicionamos uma sutil camada de sabedoria prática a essa estrutura, chegamos a uma provocação ainda mais profunda: pode mais quem pode dizer que pode menos.
Essa reconfiguração celebra a humildade estratégica. Quem realmente detém poder, conhecimento ou recursos não carece da necessidade de ostentação. Apenas a segurança psicológica plena confere a alguém a calma necessária para se colocar em posição de modéstia sem o temor de ser desvalorizado. O ápice do poder reside, afinal, na liberdade de não precisar demonstrá-lo.
A Anatomia da Percepção Humana
Essa busca por discrição e pelo domínio sobre as próprias potências encontra um paralelo perfeito no próprio desenho da biologia humana. Se analisarmos o rosto humano, regido pela simetria bilateral de nossa evolução, encontramos exatamente sete orifícios externos. Curiosamente, com exceção de apenas um deles, todos os outros vêm em dobro:
- Dois olhos: Que garantem nossa visão binocular e a noção de profundidade espacial.
- Dois ouvidos: Que calculam milissegundos de diferença para a localização tridimensional do som.
- Duas narinas: Que alternam seu fluxo ao longo do dia para otimizar a filtragem do ar e a captação de aromas.
- Uma única boca: Posicionada exatamente na linha central de fusão do nosso corpo.
Enquanto os órgãos duplicados servem à nossa sobrevivência e mapeamento espacial, a boca atua como o canal de digestão e emissão. Na antiguidade, o filósofo estoico Epicteto já observava essa proporção anatômica como uma lição moral e meditativa: "A natureza nos deu dois ouvidos e apenas uma boca para que possamos ouvir o dobro do que falamos". Quem muito observa e pouco alardeia retém o verdadeiro controle do ambiente.
O Lampejo de Caetano Veloso no Exílio
Essa exata simetria dos sentidos serviu de combustível para um dos lampejos criativos mais impressionantes da Música Popular Brasileira. Em 1971, imerso no exílio cinzento e nostálgico de Londres, Caetano Veloso compôs a hipnótica canção "A Tua Presença Morena". Na letra, o compositor subverte a biologia ao cantar que uma força arrebatadora consegue invadir o indivíduo justamente "pelos sete buracos da minha cabeça".
Embora comumente interpretada sob uma ótica puramente romântica ou erótica, a composição nasceu como uma devoção sagrada direcionada a Nossa Senhora Aparecida, a padroeira negra do Brasil. Para traduzir a magnitude de uma fé que satura o corpo, Caetano utilizou a imagem dos orifícios como portais sensoriais absolutos: a divindade é vista, ouvida, respirada e saboreada simultaneamente. Não há escapatória para a alma quando todos os canais físicos são tomados por uma força maior.
A Sensualidade Casta e o Sincretismo do Recôncavo
O impacto da obra reside no que podemos chamar de uma sensualidade casta. Há um forte teor sensorial na invasão dos poros e canais do corpo, mas ele não se desvirtua em vulgaridade; opera, sim, como um erotismo sagrado onde o corpo serve de templo receptor.
Esse fenômeno estético e espiritual está profundamente enraizado na vivência de Caetano no Recôncavo Baiano. Em sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, a matriz católica de Nossa Senhora da Purificação coexiste de forma indissociável com os cultos de matriz africana. O misticismo de terreiro e as saudações aos Orixás fundem-se à santa, resultando naquela "presença negra, negra, negra" que ecoa como um mantra. Mesmo isolado geograficamente na Europa, o Criador utilizou a própria distância para reabsorver a Bahia e torná-la perfeitamente presente em sua carne.
O Arco da Promessa e o Toque de Jards Macalé
A força dessa resistência espiritual é sintetizada no verso "Mantém sempre teso o arco da promessa". Evocando tanto o arco-íris bíblico da aliança após o dilúvio quanto a tensão mecânica de uma flecha pronta para o disparo, Caetano determinava ali o seu pacto de sobrevivência e prontidão criativa em plena ditadura militar.
No entanto, para que essa potência abstrata ganhasse o mundo material, foi necessária a intervenção direta de outra mente brilhante: Jards Macalé. Responsável pelo arranjo, direção musical e pela condução da banda em Londres, Macalé foi o arquiteto que estruturou a canção. Foi o seu violão de aço cortante e sua produção orgânica (gravada praticamente ao vivo em estúdio) que deram o andamento circular e o transe necessários à faixa.
"Macalé foi o canalizador técnico e estético que permitiu que o lampejo místico de Caetano saísse dos sete buracos de sua cabeça e ganhasse o mundo em forma de carne, som e história."
A união entre a poesia transcendental de Caetano, a voz visceral de sua irmã Maria Bethânia (que imortalizou a faixa em seu disco homônimo de 1971) e a crueza harmônica aplicada por Jards Macalé transformou um tratado anatômico sobre os sentidos em um hino imortal de devoção e soberania cultural.
Use o código com cuidado. Para complementar o seu texto no blog com o registro sonoro histórico dessa criação, você pode incorporar a interpretação original e profunda de Maria Bethânia de 1971: 2:07 A Tua Presença Morena--Maria Bethânia (LP Mono 1971) há 8 meses YouTube · vinil e K7, os melhores presentes ! Se precisar Flávio contra Flávio O SUPREMO que virou ínfimo Crônica de uma ressaca anunciada A morte e a morte do STF Mire veja, meu senhor... O que o senhor me diz do STF, com as licenças do respeito, me traz o eco do que se vive no meio do redemoinho. O senhor falou e a minha mente campeou longe, lá pelas veredas do Cerrado, onde o vento entorta a árvore mas não quebra a raiz. Se me permite, vou prosear o que o senhor disse, mas do meu modo, tirado do tear do sertão: Nonada. O STF é ali na vizinha Brasília, fincada no mesmo chão de poeira vermelha e buriti que o nosso eito. Mas escute o que lhe digo: ali não se carece de ferro na cintura. O jagunço de lá vigia é com a língua, e o berro deles já nasce engatilhado é na garganta. O projétil é o verbo, a lei artilhada, o parágrafo que risca o destino de um homem feito bala de cano curto. O senhor concorda? Pois sim. A cintura daquela gente só serve mesmo para conter o pano da toga, que de tão velha e desbotada já tem o cinza do céu de estiagem. Aquela roupa preta, seu doutor, é o couro do magistrado; amarra-se ali o cordão do poder e a criatura se transfigura. O homem some, fica só o Tribunal. É o mistério das vestes que dão tamanho ao bicho humano. E o senhor bem notou: eles cantam esses berros a três por quatro, sem dar trégua ao tempo. É despacho de manhã, liminar de tarde, acórdão ao sol posto. O sertão do Brasil virou um tiroteio de sentenças, onde o perigo não avisa e a justiça tem de atirar primeiro, no galope do mundo que está ligeiro demais. Quem não atira a palavra, é apeado do cavalo. Agora, o senhor me perguntou: limpar o berro pra quê? Ah, meu senhor, isso eu sei de ciência própria dos meus tempos de jagunçagem com o bando de Joca Ramiro. Arma que se limpa é arma que descansa na gaveta. E ali o cano está sempre fervendo, a fumaça nem desanda de sair de dentro das leis. Não há vago para espanar a fuligem. O diabo da discórdia está solto no meio do redemoinho, provocando o juízo de todos, e o tribunal não pode cochilar no estribo. Se limpa o berro, o outro lado saca antes. O viver deles é em constante prontidão de guerra. O sertão é onde o pensamento da gente da cidade grande também se esbarra, pois o homem é o mesmo em qualquer paragem, seja de terno e capa ou de gibão de couro. O que o senhor acha? O senhor gostaria que eu trouxesse mais alguma outra reflexão desse narrador sobre a justiça dos homens, ou prefere focar em algum ponto específico da prosa (como o amor de Diadorim ou o medo do Demo) cruzado com o cenário de Brasília? Entrevista Exclusiva Luiz Felipe Pondé “Houve uma piora na qualificação da elite brasileira .” Marco Antonio Villa Estreou em 24 de set. de 2026 Podcasts #marcoantoniovilla #deputadofederal #eleicoes2026 #brasil #luizfelipepondé terça-feira, 29 de setembro de 2026 Polêmicas entre Lula e Flávio têm limites nos votos consolidados, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense Até domingo, a tendência mais consistente é a de Lula preservar a dianteira no primeiro turno, com Flávio buscando reduzi-la pelo voto útil. Mas precisa combinar com o eleitor. Depois de semanas dominadas pela crise do Supremo, pelo caso Banco Master e pelo confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro sobre corrupção e democracia, as pesquisas Quaest e a Nexus divulgadas nesta segunda-feira, 28, mostram que, ao menos em parte, as duas controvérsias mais recentes, a medida provisória que proibiu as bets e o boato sobre Nossa Senhora Aparecida, favoreceram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista manteve a vantagem no primeiro turno e empata no segundo com Flávio Bolsonaro. Na Quaest, Lula passou de 37% para 39%, e Flávio, de 33% para 34%. A Nexus registrou 42% para o presidente e 37% para o senador, ante 40% e 37% na rodada anterior. Os dois levantamentos indicam uma ampliação numérica da dianteira de Lula no primeiro turno. As mudanças individuais, contudo, são pequenas diante das margens de erro e não demonstram que uma polêmica específica tenha produzido o movimento. Num eventual segundo turno, a Quaest mostra 42% para cada candidato; a Nexus, 46% para Lula e 44% para Flávio, também em empate técnico. A proibição das bets é a iniciativa com maior potencial de atingir a vida cotidiana. Na noite de sexta-feira, 25, Lula editou uma medida provisória que alcança apostas esportivas e jogos online. Ela proibiu novos aportes nas plataformas, fixou prazo para a retirada dos saldos pelos usuários e determinou que sites e aplicativos saiam do ar a partir de 6 de outubro. A decisão responde ao endividamento e aos danos à saúde associados ao jogo, mas também abre uma disputa sobre sua execução, o mercado ilegal e os efeitos sobre empresas e clubes patrocinados pelo setor, que já foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF. Em termos eleitorais a polêmica vem sendo boa para Lula. A Quaest ouviu eleitores de 24 a 27 de setembro, e a Nexus, de 25 a 27. Ambas captaram, portanto, apenas parte da repercussão da medida anunciada na sexta-feira à noite. Ainda é possível que Lula obtenha até domingo algum benefício adicional entre famílias atingidas pelas apostas, mesmo que a medida provisória seja derrubada ou sustada pelo ministro Luiz Fux, relator do caso no STF. A controvérsia religiosa tem dinâmica diferente. Circulou nas redes a informação falsa de que Flávio retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O candidato negou a hipótese, e a GloboNews corrigiu a referência a um antigo projeto, apresentado por outro parlamentar e arquivado em 2008. A disputa ganhou novo capítulo com decisões judiciais sobre a remoção de publicações e a liberdade de expressão. No domingo, questionado sobre o boato, Lula disse não saber se a informação era falsa, o que deu à campanha adversária mais um argumento para reagir. Um levantamento sobre as conversas digitais entre 24 e 26 de setembro encontrou críticas à divulgação do boato em proporção superior à indignação com a suposta ameaça à padroeira. Outro monitoramento, feito num momento anterior da circulação, havia apontado maior pressão sobre Flávio. A pesquisa eleitoral, por enquanto, não demonstra perda expressiva de Flávio nem ganho expressivo do presidente por causa dessa disputa. Já a crise do STF e o caso Master têm uma força de inércia mais longa. Não dependem de uma única postagem ou declaração: investigações, decisões judiciais e novas revelações podem recolocá-los no centro da campanha a qualquer momento. Flávio explora o desgaste da Corte e tenta associá-lo a Lula; o presidente procura se distanciar dos ministros envolvidos e lembrar as conexões do banqueiro Daniel Vorcaro com o campo adversário. Na Quaest da semana passada, 62% afirmaram que a crise no Supremo não influenciava seu voto. Disputa pelas bordas O principal freio a qualquer reviravolta está na consolidação dos votos. Na Nexus, 87% dos entrevistados que escolheram um candidato disse ter a decisão tomada, ante 84% na semana passada. Entre os eleitores de Lula, são 92%; entre os de Flávio, 91%. Apenas 2% não indicaram um nome no primeiro turno, embora 12% dos que escolheram alguém admitam mudar. Mas dificilmente converterão, em grande número, apoiadores convictos de um polo ao outro. Os dados estatísticos mais relevantes estão nas demais candidaturas. Na Quaest, Augusto Cury caiu numericamente de 6% para 4%, Caiado permaneceu com 4%, Renan Santos com 3% e Zema com 1%. Na Nexus, Cury e Caiado têm 5% cada, Renan, 4%, e Zema, 1%. Não se pode atribuir a oscilação de Cury a uma polêmica nem identificar para onde teriam ido seus antigos eleitores. Pode estar começando uma onda de “voto útil”. Se houver segundo turno entre Lula e Flávio, a disputa central será por corações e mentes desse grupo. Um recorte do Datafolha mostrou que, entre os eleitores somados de Cury, Caiado, Renan e Zema, 43% escolheriam Flávio; 30%, Lula; e 26%, branco, nulo ou nenhum. Essa vantagem ajuda a explicar o empate nas simulações finais, apesar da liderança inicial do presidente. Até domingo, a tendência mais consistente é a de Lula preservar a dianteira no primeiro turno, com Flávio buscando reduzi-la pelo “voto útil”. A proibição das bets ainda pode render apoio ao presidente; o boato sobre Nossa Senhora de Aparecida perde força, mas provocou um litígio religioso. E o Master continua assombrando o Supremo. As pesquisas revelam forte inércia nos dois polos e uma disputa ainda aberta nas bordas. Lula chega mais bem colocado para vencer a primeira etapa. Flávio mantém condições de equilibrar a segunda. Só falta combinar com o eleitor. Canal Livre entrevista Lula neste domingo - 27/09/2026 Me Lembro Bem Waldirene Eu... Ainda me lembro, Das palavras que ouvi. Pensei que o mundo Desabava sobre mim, Me lembro bem. Eu... Acreditei em seu amor, E me perdi. Quando chorei, Você zombou de mim, Me lembro bem. Eu... Ainda me lembro, Das palavras que ouvi. Pensei que o mundo Desabava sobre mim, Me lembro bem. Hoje... Ainda me lembro Que eu queria te ofender Mas na verdade Eu só queria te querer, Desesperada eu não sabia O que fazer. E agora... Depois de tudo o que passei Você quer voltar, Infelizmente não existe aquele amor Que no passado foi tão lindo E se acabou. E agora... Depois de tudo o que passei Você quer voltar, Infelizmente não existe aquele amor Que no passado foi tão lindo E se acabou. Composição: Chico Roque, Roberto Sol.


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