Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
IA, poder, memória e limites: quando a política perde a medida
Ballads / John Coltrane Quartet
António José Seguro | Discurso de Vitória da Primeira Volta
Solucionado o problema da Groenlândia
Pau Brasil
"Dê um zoom na imagem para ver o Portinari"
Folia de São Sebastião
Folia de São Sebastião da Comunidade Roça do Mato, apresentando em Medina-MG. #culturapopular
Minas Life
#culturapopular
"A idolatria política nasce quando o
fascínio pelo líder ocupa o lugar da
razão, transformando homens em
símbolos e símbolos em ilusões."
Os textos reunidos nesta publicação tratam, à primeira vista, de campos distintos — inteligência artificial, história política recente, memória e ética pública. Lidos em conjunto, porém, revelam um mesmo problema de fundo: o esvaziamento da responsabilidade como princípio organizador do poder, seja no Vale do Silício, seja na política brasileira.
No universo da tecnologia, o caso narrado por Pedro Doria expõe uma contradição central do nosso tempo. Yann LeCun, um dos três cientistas que criaram os fundamentos da inteligência artificial moderna, deixa a Meta depois de ver seu trabalho submetido a decisões apressadas, orientadas mais por mercado, vaidade e cópia do que por inovação real. A empresa que controla Facebook, Instagram e WhatsApp — e que deveria liderar o avanço tecnológico — revela-se incapaz de compreender o próprio sentido do que produz. Ao colocar um jovem empresário do “serviço pesado” para chefiar um cientista consagrado, a Meta confunde hierarquia com inteligência, velocidade com avanço e poder corporativo com criação intelectual.
No campo político, a morte de Raul Jungmann suscita uma reflexão paralela, mas ainda mais grave. O texto de Luiz Carlos Azedo não se limita a registrar uma biografia ou prestar uma homenagem pessoal. Ele recoloca a política no terreno da responsabilidade moral, hoje amplamente abandonado. Jungmann representa uma geração que atravessou a clandestinidade, ajudou a reconstruir a democracia e exerceu o poder como dever público — não como propriedade privada, identidade fechada ou instrumento de vingança simbólica.
O que se seguiu à publicação do texto, contudo, revela uma fratura mais profunda. As reações de escárnio, ofensa e blasfêmia dirigidas a Raul Jungmann não configuram discordância política legítima. Representam algo mais elementar e mais inquietante: o ataque a um homem morto. Esse gesto ultrapassa fronteiras ideológicas. Viola um limite civilizatório básico, anterior a partidos, governos ou disputas conjunturais.
A tradição clássica compreendeu isso com clareza. Desde os gregos, o respeito aos mortos constitui um dos fundamentos da vida civilizada — inclusive quando o morto era inimigo. Honrar os mortos não significa concordar com eles, mas reconhecer que a política não é soberana sobre tudo, que o poder não autoriza a negação integral da humanidade do outro e que existe uma ordem simbólica que impõe limites à violência, inclusive à violência da linguagem. Quando esse limite é rompido, a política deixa de ser espaço comum e se converte em campo de excomunhão.
O direito brasileiro, longe de legitimar esse tipo de ataque, caminha na direção oposta. A Constituição privilegia o direito à memória e à verdade, fundado na dignidade da pessoa humana e na liberdade de informação. O Supremo Tribunal Federal rejeitou a ideia de um “direito ao esquecimento” como regra geral, justamente para impedir o apagamento arbitrário da história. Ao mesmo tempo, o ordenamento jurídico protege a honra e a memória dos falecidos, punindo ofensas caluniosas ou difamatórias que nada têm a ver com interesse público. Memória não é censura; é responsabilidade.
O que se manifesta nos ataques à memória de Jungmann é menos um debate político do que uma política capturada pelo ressentimento. Uma esquerda que reage não com argumentos, mas com afeto negativo; não com crítica, mas com tentativa de apagamento simbólico. Esse comportamento ajuda a explicar um fenômeno que muitos se recusam a enxergar: o cansaço crescente com o sistema político como um todo, expresso no aumento de abstenções, votos nulos e rejeições generalizadas. Não se quer a direita tradicional, não se quer a extrema direita, mas tampouco se quer o lulismo. Esse vazio não nasce apenas de desinformação ou ignorância. Ele é produzido por um ambiente simbólico asfixiante, no qual qualquer dissenso é tratado como traição e qualquer nuance, como ameaça.
Quando a política perde sua dimensão dialógica, quando abandona qualquer traço de grandeza simbólica, ela deixa de oferecer sentido, pertencimento e horizonte. O afastamento passa a ser uma forma de autoproteção.
Nesse contexto, os textos que seguem se iluminam mutuamente. A crítica de LeCun à cópia sem inovação, à pressa sem compreensão e ao poder que sufoca a inteligência ecoa, em outro registro, na crítica à política que abdica da ética, da memória e dos limites civilizatórios. Em ambos os casos, o problema não é geracional em sentido simples. Muitas vezes, quem não chegou ao poder acaba levando a culpa pelo que foi decidido — e consumido — por outros.
Como no aforismo que atravessa esta edição:
A geração de 1950 não chegou ao poder. Ainda assim, os ratinhos da geração de 1980 a acusam injustamente de lhes ter tirado oportunidades, quando, na verdade, quem concentrou o poder e consumiu os recursos foi a geração dos gatos, a de 1940.
Entre a inteligência artificial que promete compreender o mundo e a política que parece esquecer o que a sustenta, esta publicação propõe uma mesma pergunta de fundo: o que acontece quando o poder perde a memória, a medida e o respeito pelos limites? A resposta, infelizmente, começa a ficar visível demais.
"Raul Jungmann
Morreu meu amigo Raul Jungman. Viemos do mesmo campo político, ao longo do caminho nos separamos, passamos a pensar diferente, mas nunca deixamos de gostar um do outro, de nos respeitar, de passar juntos bons momentos, de sentir prazer no convívio, mesmo com as diferenças e até por conta delas, de aproveitar o conhecimento um do outro, que sempre soubemos valorizar."
"Luiz Eduardo Soares , boa tarde. O seu texto sobre Raúl Jungmann cumpre uma função que ultrapassa o registro da homenagem pessoal ou do reconhecimento biográfico. Ele recoloca a política no terreno da responsabilidade moral, um terreno que vem sendo abandonado de maneira acelerada e quase naturalizada. Ao escrever sobre Jungmann, você não apenas descreve uma trajetória pública. Você reafirma a ideia de que a vida política, para não se degradar em puro exercício de força simbólica, precisa preservar critérios de justiça, de medida e de decência. O que se seguiu à publicação do texto, contudo, expôs uma fratura mais funda. As reações de ofensa, blasfêmia e escárnio dirigidas a Raúl Jungmann não configuram apenas discordância política. Elas representam um total desrespeito a um homem morto. Esse dado não é secundário. Ele é central. Atacar os mortos é ultrapassar um limite civilizatório elementar, um limite que antecede ideologias, partidos e disputas conjunturais. Trata-se de um gesto que dissolve qualquer pretensão ética da política. A tradição clássica já havia compreendido isso com clareza notável. Os gregos, muito antes das modernas teorias da democracia, estabeleceram que o respeito aos mortos era um dos fundamentos da vida civilizada. Mesmo quando o morto era inimigo. Mesmo quando havia guerra, ódio e conflito irreconciliável entre os vivos. Honrar os mortos significava reconhecer que a política não é soberana sobre tudo, que o poder não autoriza a negação completa da humanidade do outro, que existe uma ordem simbólica que impõe limites à violência, inclusive à violência da linguagem. Esse princípio atravessou a tragédia, o direito, a filosofia e a ética política ocidental. Negá-lo é retroceder a um estágio anterior à própria ideia de civilização. O que se viu, no entanto, foi a manifestação de uma esquerda capturada pelo ressentimento. As reações partem de petistas históricos, de lulistas, de uma esquerda que se tornou reacionária no sentido mais preciso do termo, incapaz de lidar com a diferença, incapaz de reconhecer qualquer valor fora de sua própria identidade política. Essa esquerda não reage politicamente. Ela reage afetivamente, movida por raiva, por frustração e por uma lógica punitiva que substitui o debate pela desqualificação moral. Não há crítica. Há excomunhão. Não há controvérsia. Há tentativa de apagamento simbólico. Esse comportamento ajuda a explicar um fenômeno que muitos insistem em não compreender. O crescente cansaço com Lula, o aumento dos votos nulos, dos votos brancos e das abstenções não são apenas respostas a políticas públicas, conjunturas econômicas ou decisões de governo. Eles são também reações a um ambiente simbólico asfixiante, no qual qualquer dissenso é tratado como traição e qualquer nuance é percebida como ameaça. A política, quando perde sua dimensão dialógica, passa a expulsar silenciosamente aqueles que não aceitam viver sob permanente vigilância moral. O cenário é revelador. Não se quer Flávio Bolsonaro. Não se quer Ratinho Jr., Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado. Mas também não se quer Lula. Esse vazio político não é fruto de ignorância popular nem de desinformação apenas. Ele é produzido pela degradação do espaço público, pela incapacidade de construir narrativas que acolham a complexidade social e pela transformação da política em um campo de identidades rígidas e afetos negativos. Quando a política se reduz a isso, ela deixa de oferecer sentido, pertencimento e horizonte. Talvez eu esteja sob forte impacto das leituras recentes de O Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, da UFMG e da Quaest, e de A Cabeça do Povo Brasileiro, de Alberto Carlos de Almeida, que passou pela UFF e pela Universidade Federal do ABC. Esses trabalhos ajudam a compreender como amplos setores da sociedade reagem quando a política perde qualquer traço de grandeza simbólica. O afastamento não é simples apatia. Ele é uma forma de autoproteção diante de um campo político percebido como hostil, agressivo e moralmente empobrecido. O ataque à memória de Raúl Jungmann não corrige a história. Não reescreve sua trajetória. Não altera o significado de sua atuação pública. Ele apenas expõe o empobrecimento ético de quem ataca. Revela uma política que já não reconhece limites, que não respeita sequer a condição dos mortos, que confunde justiça com vingança simbólica. Quando esse ponto é alcançado, algo essencial já foi perdido. Não apenas a civilidade, mas a própria ideia de política como espaço comum entre diferentes. Por isso, o seu texto importa tanto. Ele não é apenas um gesto de afeto ou de reconhecimento. Ele é um ato de resistência contra a barbárie simbólica que se instala quando a política abandona qualquer compromisso com a ética, com a memória e com a condição humana. Escrever assim é lembrar que existem fronteiras que não deveriam ser ultrapassadas, mesmo em tempos de conflito, mesmo em tempos de radicalização. Quando você fizer uma daquelas reuniões em sua casa, me chame. Ficarei contente. Abraço forte. Paulo Baía" /
"O ataque à memória, compreendido como a tentativa de apagar, distorcer ou negar fatos históricos, violações de direitos humanos ou a reputação de falecidos, é um tema complexo no direito brasileiro, situando-se no conflito entre o "direito ao esquecimento" e o "direito à verdade/memória". 1. Na Constituição Federal (CF/88) A Constituição brasileira não prevê um "direito ao esquecimento" explícito. Pelo contrário, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que tal tese é incompatível com a Constituição, especialmente por ferir a liberdade de expressão e de imprensa. Fundamentos: O direito à memória e à verdade é protegido implicitamente, baseado na dignidade da pessoa humana (Art. 1º, III), na liberdade de expressão (Art. 5º, IV e IX) e no direito de acesso à informação (Art. 5º, XIV). Exceções: O STF fixou que, embora a divulgação de fatos verídicos seja livre, o abuso ou excesso que viole a honra e a intimidade pode ser passível de indenização, sem configurar, porém, um direito de censura prévia ou apagamento histórico. 2. Na Ética A memória é considerada um elemento fundamental para a identidade coletiva e para a democracia, sendo um compromisso ético evitar a repetição de violações de direitos humanos. Justiça de Transição: O ataque à memória, como o negacionismo de crimes de ditaduras (como a ditadura militar brasileira), é eticamente condenável e contrário ao direito à verdade, necessário para a justiça. Responsabilidade: Ética e constitucionalmente, é dever da sociedade e do Estado proteger a memória, resgatando a história de vítimas e desaparecidos políticos. 3. No Código Penal e legislação infraconstitucional O Código Penal Brasileiro protege a honra de quem já faleceu, o que se enquadra na proteção da memória. Difamação/Calúnia (Art. 138 e 139): Crimes contra a honra, aplicáveis quando se ataca indevidamente a reputação de alguém, mesmo falecido (Art. 138, § 2º - Calúnia contra os mortos). Ofensa à Memória (Ação Penal): A legislação (anteriormente tratada na Lei de Imprensa, Lei 5.250/67, cujos princípios penais contra a honra persistem no CP) prevê que o cônjuge, ascendente ou irmão pode processar por crimes contra a memória de alguém falecido. Contexto: O STF entende que a denúncia de fatos criminosos do passado (ex: ditadura) é direito à informação, não "crime contra a memória", ao passo que a difamação de um falecido sem interesse público pode ser ilícita. Em suma, o ordenamento jurídico brasileiro privilegia a preservação da memória e a liberdade de informação (direito à verdade) sobre o "esquecimento" de fatos passados, punindo apenas ofensas injuriosas, difamatórias ou caluniosas que abusem do direito de informar. "
IA, poder e gerações: quem chegou, quem ficou pelo caminho
Os dois textos que seguem tratam de temas distintos — inteligência artificial e política brasileira —, mas dialogam profundamente entre si. Ambos falam de poder, de decisões concentradas, de gerações que chegaram ao comando e de outras que, embora preparadas e experientes, ficaram à margem ou foram responsabilizadas por escolhas que não fizeram.
No Vale do Silício, o embate se dá no coração da revolução tecnológica. Yann LeCun, um dos três cientistas que criaram os fundamentos da inteligência artificial moderna, deixa a Meta após ver seu trabalho atropelado por decisões gerenciais apressadas. A companhia que abriga Facebook, Instagram e WhatsApp falha onde suas concorrentes avançam: inovação real em IA. Ao colocar um jovem empresário do “serviço pesado” para chefiar um cientista consagrado, a Meta expõe uma lógica recorrente do nosso tempo — a de confundir escala com inteligência, velocidade com avanço, e gestão com criação.
No Brasil, a morte de Raul Jungmann encerra a trajetória de um homem público que atravessou a clandestinidade da ditadura, ajudou a reconstruir a democracia e ocupou posições-chave do Estado com densidade, diálogo e compromisso republicano. Jungmann representa uma geração que não se apropriou do poder como propriedade privada, mas o exerceu como responsabilidade institucional — frequentemente pagando o preço por isso.
Há, nas entrelinhas, uma acusação recorrente em nosso tempo: a de que gerações intermediárias teriam bloqueado o futuro das que vieram depois. Mas a história costuma ser menos simples. Muitas vezes, quem não chegou ao poder acaba levando a culpa pelo que foi decidido — e consumido — por outros.
Como no aforismo que encerra esta edição:
A geração de 1950 não chegou ao poder. Ainda assim, os ratinhos da geração de 1980 a acusam injustamente de lhes ter tirado oportunidades, quando, na verdade, quem concentrou o poder e consumiu os recursos foi a geração dos gatos, a de 1940.
Entre a IA que promete compreender o mundo e a política que precisa reaprender a servi-lo, os textos a seguir convidam à mesma reflexão: inovação, democracia e futuro não se constroem com atalhos, nem com cópias — mas com responsabilidade, visão e coragem para contrariar o senso comum.
Pesquisa mostra impacto da Inteligência Artificial no futuro do trabalho
80% dos empregadores consideram a contratação de talentos qualificados em IA uma prioridade, confira
Ana Beatriz Dias, da CNN
27/11/23 às 21:05 | Atualizado 28/11/23 às 15:00
IA - AI
"Pôs um garoto que montou uma empresa para fazer o serviço pesado e pouco sofisticado que as grandes da IA terceirizam e para chefiar o cientista de 65 anos que todo mundo no ramo admira. LeCun pediu o chapéu."
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
O velho cientista de IA. Por Pedro Doria
O Globo
Diferentemente do resto do Vale do Silício, a companhia não consegue acertar em inteligência artificial
Yann LeCun anunciou que deixaria a Meta, casa de Facebook, Instagram e WhatsApp, em novembro último. A saída parecia cordial. Aí, não faz uma semana, ele deu uma entrevista pesada — e a bomba estourou. A Meta deverá anunciar um número grande de demissões ainda nesta semana porque atravessa uma crise profunda. Diferentemente do resto do Vale do Silício, a companhia não consegue acertar em inteligência artificial. É nesse contexto que terminou se demitindo um dos três nomes que inventaram a tecnologia por trás da IA.
A última versão do Llama, modelo de IA da Meta, foi lançada em abril passado. É um desastre. Não é só que seja incapaz de competir com GPT, Gemini ou Claude, os três que disputam cabeça a cabeça a liderança do jogo. O Llama escorregou para trás do Grok, IA erguida às pressas, em poucos meses, pela X/AI de Elon Musk. Perde também para o DeepSeek, precária IA gratuita chinesa treinada com material preparado pelo ChatGPT. Como pode a única companhia que tem na folha de pagamento um dos inventores dos princípios por trás da tecnologia estar tão atrás na disputa? Segundo LeCun, o problema é o CEO e fundador da Meta. O problema é Mark Zuckerberg.
Perante o desastre do Llama 4, Zuck adquiriu a Scale AI, empresa que tratava textos em grande escala para servir ao treinamento de IAs. Aí fez de seu fundador, Alexandr Wang, de 29 anos, chefe do Laboratório de IA da companhia. Pôs um garoto que montou uma empresa para fazer o serviço pesado e pouco sofisticado que as grandes da IA terceirizam e para chefiar o cientista de 65 anos que todo mundo no ramo admira. LeCun pediu o chapéu.
O Llama 4 foi um desastre porque Zuck forçou o lançamento às pressas, sem nenhuma das inovações tecnológicas que o velho cientista e seu time pretendiam incluir no treinamento. Sem qualquer novidade e desenvolvido rápido, saiu mesmo algo parecido com o que todo mundo já havia feito — só que no passado. Agora, ainda mais em desespero, a empresa deverá cortar na carne para botar mais dinheiro e tentar, ao menos, chegar perto da concorrência. Afinal, a IA da Meta é aquela que está na mão de todo mundo que usa Face, Insta ou Zap — e, ainda assim, quase ninguém usa.
LeCun colhe dinheiro para erguer uma empresa nova que fará um tipo de IA completamente diferente. Sua crença é que o modelo atual, baseado em linguagem, não terá como alcançar a superinteligência em que apostam OpenAI, Google e Anthropic (do Claude). Como o treinamento é feito apenas com texto, uma quantidade imensa de textos, mas somente isso, não adianta. Os modelos podem prever uma sequência de palavras mas jamais compreenderão o que dizem. Ficam cada vez maiores, treinados com mais livros, mas não se tornam substancialmente melhores.
O velho cientista sugere que o caminho para a superinteligência artificial é outro. Uma IA treinada com o tipo de material com que nossos cérebros são treinados: áudio, vídeo, espaço tridimensional. A forma de treinar é a mesma. Mas, com texto, a IA é capaz de prever como se organiza outro texto. Com imagens e sons, a IA seria capaz de prever como as coisas funcionam no mundo. Entenderia o que é um gato e o som de um miado pelo que o bicho é, não apenas pela sequência de quatro letras.
Além disso, LeCun argumenta que as IAs atuais têm um imenso problema de memória. Conseguem trabalhar e processar informação até um determinado ponto. Quando batem no limite rígido da quantidade de texto que são capazes de gerenciar, se perdem. Esquecem o que já souberam naquela conversa, não sabem o que guardar. Alucinam. Dão respostas sem sentido sem que, muitas vezes, o usuário sequer perceba que já perderam o foco e se manifestam aleatoriamente.
Esses são os dois problemas que LeCun deseja resolver. Agora, fora da Meta. Sua crítica: Zuck não quer inovar, não quer fazer melhor, quer apenas copiar. Não é o primeiro a criticar a Meta desse jeito. É a companhia gigante, no Vale, com menor capacidade de inovação. Conhecida, essencialmente, por copiar.
Jungmann deixa legado nas políticas de Defesa, segurança e agrária
Publicado em 20/01/2026 - 08:34 Luiz Carlos Azedo
Brasília, Comunicação, Congresso, Justiça, Memória, Militares, Partidos, Pernambuco, Política, Política, Recife, Segurança, Trabalho, Violência
Da militância no PCB clandestino à liderança no PPS e ao campo político que desembocaria no Cidadania, Jungmann representou a esquerda democrática e republicana
A morte de Raul Jungmann, aos 73 anos, em Brasília, devido às complicações de um câncer de pâncreas, contra o qual lutou dois anos, encerra a trajetória de um dos mais completos homens públicos de sua geração. O político pernambucano atravessou a clandestinidade da resistência democrática e, na democracia, assumiu responsabilidades de Estado em diferentes governos e momentos da vida nacional. Era muito respeitado até por adversários, pela capacidade de diálogo, pela integridade e pelo compromisso republicano.
No ambiente político e intelectual do Recife, Jungmann iniciou sua militância no PCB ainda na clandestinidade, quando a política era também risco pessoal. Mais tarde, ajudou a fundar o PPS e se tornou uma de suas principais lideranças nacionais, atuando por 26 anos no partido. Exerceu três mandatos de deputado federal e foi vereador. Foi ministro cinco vezes — no governo Fernando Henrique Cardoso, ocupou Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário e Políticas Fundiárias; no governo Michel Temer, chefiou a Defesa; e, em 2018, tornou-se ministro da Segurança Pública do país.
Leia mais: Morre Raul Jungmann, aos 73 anos
No Desenvolvimento Agrário e nas políticas fundiárias, Jungmann enfrentou conflitos históricos e tensões permanentes. Soube combinar pragmatismo e visão pública à reforma agrária como política de Estado, não como improviso ou instrumento de pressão circunstancial. Na sua visão, primeiro, reforma agrária não se limita à distribuição de terra: assentamentos precisam ser estruturados com infraestrutura, assistência técnica, crédito e integração produtiva. A regularização fundiária é condição civilizatória, capaz de reduzir violência, insegurança jurídica e conflitos de posse, e de dar racionalidade ao uso do território. Jungmann reconhecia a legitimidade da demanda social sem renunciar à legalidade, do diálogo e da pacificação.
No Ministério da Defesa, Jungmann deixou um projeto de Política Nacional de Defesa como instrumento de planejamento estratégico de longo prazo, fundamental para um país continental, com fronteiras extensas, riquezas naturais e responsabilidades internacionais crescentes. O texto busca reposicionar as Forças Armadas em bases democráticas e associadas ao desenvolvimento do país e está engavetado no Congresso. É um esforço para fortalecer o papel do ministério como comando civil democrático, com profissionalismo, coordenação e modernização foi louvável, sobretudo em tempos de instabilidade.
Jungmann, mesmo fora do governo, atuou nos bastidores das crises militares e de segurança pública, como interlocutor político junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). Fazia uma clara distinção entre defesa nacional e segurança interna, que não são a mesma coisa, ainda que se comuniquem. Preservar essa fronteira evita a militarização da política e a politização da caserna. Entretanto, quando foi nomeado ministro da Segurança Pública, acabou substituído na Defesa por um general.
Em 2018, Jungmann assumiu o recém-criado Ministério da Segurança Pública, numa conjuntura de crise política e pressão social diante do avanço do crime organizado e da violência. Sua atuação representou uma tentativa de superar a fragmentação histórica do setor: estados carregam o peso operacional, a União dispõe de recursos e instrumentos federais, e a cooperação entre instituições nem sempre ocorre de modo eficiente.
Cidadania
Sua contribuição foi a criação do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), como marco na busca de cooperação e coordenação nacional. Era uma voz respeitada nos debates sobre governança, integração e coordenação federativa entre forças policiais, inteligência e planejamento. Amadureceu essa visão durante a desastrosa intervenção militar no Rio de Janeiro, para a qual foi nomeado o ex-ministro e general de exército Walter Braga Netto, que hoje está preso, condenado por tentativa de golpe de Estado. Segundo Jungmann, a segurança pública não deve ser objeto de punitivismo ou propaganda de ocasião: exige técnica, legitimidade democrática e instituições capazes de funcionar em rede e combater a infiltração do crime organizado.
Da militância no PCB clandestino à liderança no PPS e ao campo político que desembocaria no Cidadania, Jungmann representou a esquerda democrática e republicana, que não abdica de justiça social, mas entende que a democracia é valor, método e limite. Ao se afastar do Cidadania, Jungmann denunciou práticas internas autoritárias e reafirmou o princípio de que democracia não é apenas discurso contra adversários — deve existir em relação a todos, dentro das organizações e nas regras do cotidiano. Deixa um exemplo de que é possível exercer poder com densidade, diálogo e responsabilidade republicana.
Leia ainda: Adeus a Raul Jungmann reúne autoridades em cerimônia reservada
Ao romper com Roberto Freire, em 2018, foi coerente com sua trajetória. Em carta pública, Jungmann afirmou se afastar do “seu único partido” por discordar da forma como o comando partidário em seu estado havia sofrido uma intervenção para ser entregue de maneira “autoritária”, “sem transparência” e em afronta à democracia interna ao ex-deputado Daniel Coelho (PE), por Roberto Freire, sem nenhuma comunicação e prévio entendimento, uma prática recorrente. Mais do que mera disputa interna, o episódio revela um traço central de sua vida pública: a ideia de que partidos e instituições não podem ser tratados como cartórios e propriedade privada.
Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo
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#Cidadania, #Defesa, #Freire, #jungmann, #segurança, #Terra
Ratinho acusa: "A geração de 1950 não chegou ao poder. A dos ratinhos da geração de 1980 acusa a primeira, injustamente, de ter-lhes tolhido o que a dos gatos de 1940 comeu."
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Do Velar e da Memória
Morreu neste domingo (18) Raul Jungmann, que chefiou os ministérios da Defesa (2016-2018) e da Segurança Pública (2018) no governo de Michel Temer, aos 73 anos.
Manifesto do Velar e da Memória
Por Manoel Fiel Filho, para que a mentira não vença o tempo
A vida não é neutra.
A história tampouco.
A vida vela a vida
de quem a vela.
A memória vela o futuro
de quem se recusa a esquecer.
Velar é permanecer desperto
quando o poder exige silêncio.
É cuidar da verdade
quando a mentira se veste de ordem.
É sustentar a chama
mesmo sabendo que ela consome
— sobretudo os que a carregam.
Não foi suicídio.
Nunca foi.
Foi o Estado
que bateu à noite,
que entrou na fábrica,
que arrancou um trabalhador do chão da vida
e devolveu um corpo
chamando isso de versão oficial.
Manoel Fiel Filho
era operário.
Era metalúrgico.
Era migrante.
Era comum.
E é por isso
que sua morte rompeu o disfarce.
Porque quando o terror mata um trabalhador,
não intimida apenas:
revela seu método.
Disseram “enforcou-se”.
Assinaram laudos.
Arquivaram mentiras.
Mas o corpo falava.
A esposa falou.
A história falou.
Velar não é dominar.
É não virar o rosto.
Não é gritar slogans.
É vigiar o real.
O vento sopra para todos.
Indiferente.
Bruto.
Injusto.
Mas há quem abandone a vela
e chame a deriva de destino.
Há quem abandone a memória
e chame o esquecimento de reconciliação.
A ditadura precisava parecer ordem,
mas vivia de porões.
Precisava falar em distensão,
mas operava a tortura como rotina.
Precisava de silêncio,
mas produziu mortos que falam até hoje.
A morte de Manoel Fiel Filho
não foi um excesso.
Foi um limite.
O ponto em que a farsa começou a rachar
por dentro.
Afastaram um general
não por humanidade,
mas por cálculo.
Porque o cadáver de um operário
tornava impossível fingir normalidade.
Velar é trabalho silencioso.
É gesto repetido.
É luta sem aplauso.
É recusar a mentira confortável.
É sustentar a chama
quando pedem que se apague.
Nada que importa se mantém sozinho.
Nem a vida.
Nem a democracia.
Nem a verdade histórica.
Toda chama abandonada se apaga
— não por violência,
mas por descuido.
Cinquenta anos depois,
Manoel Fiel Filho não é passado.
Ele é pergunta.
Ele é acusação.
Ele é vigília.
Toda vez que relativizam a ditadura,
ele retorna.
Toda vez que chamam tortura de “excesso”,
ele retorna.
Toda vez que pedem esquecimento em nome da paz,
ele retorna.
Porque um país que não vela seus mortos
condena os vivos.
Porque a vida só responde
a quem se compromete com ela.
Este manifesto não pede vingança.
Exige verdade.
Não cultua ódio.
Sustenta memória.
Velar a vida
é velar a história.
Velar a história
é impedir que a mentira
vença o tempo.
E enquanto houver quem vigie,
quem cuide,
quem ilumine —
a chama não se apagará em vão.
sábado, 17 de janeiro de 2026
Levantando mãos santas
“Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda.” — Paulo. (1 TIMÓTEO, 2.8)
1 Neste trecho da primeira epístola de Paulo a Timóteo, recebemos preciosa recomendação de serviço.
2 Alguns aprendizes desejarão lobrigar no texto apenas uma exortação às atitudes de louvor; no entanto, o convertido de Damasco esclarece que devemos levantar mãos santas em todo lugar, sem ira nem contenda.
3 Não se referia Paulo ao ato de mãos-postas que a criatura prefere sempre levar a efeito, em determinados círculos religiosos, onde, pelo artificialismo respeitável da situação, não se justificam irritações ou disputas visíveis. 4 O apóstolo menciona a ação honesta e edificante do homem que colabora com a Providência Divina e reporta-se ao trabalho de cada dia, que se verifica nas mais recônditas regiões do Globo.
5 Lendo-lhe o conselho, é razoável recordar que o homem, no esforço individualista, invariavelmente ergue as mãos, na tarefa diuturna. Se administra, permanece indicando caminhos; se participa de labores intelectuais, empunha a pena; se opera no campo, guiará o instrumento agrícola. 6 Paulo acrescenta, porém, que essas mãos devem ser santificadas, depreendendo-se daí que muita gente move os braços na obra terrestre, salientando-se, todavia, a conveniência de se ajuizar da finalidade e do conteúdo da ação despendida.
7 Se desejas aplicar o raciocínio a ti próprio, repara, antes de tudo, se a tua realização vai prosseguindo sem cólera destrutiva e sem demandas inúteis.
Emmanuel
Texto extraído da 1ª edição desse livro.
84
Levantando mãos santas
Pão Nosso #084 - Levantando mãos santas
NEPE Paulo de Tarso | Evangelho e Espiritismo
Transmitido ao vivo em 23 de fev. de 2023
Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Pão Nosso", de Emmanuel/Chico Xavier.
Transcrição
O Colégio Allan Kardec | Sacramento-MG
Os alunos de Eurípedes demonstram a brilhante formação recebida especialmente na maneira fluente e elegante com que se expressam em cartas e outros tipos de comunicação.
Lições teóricas e práticas de Astronomia eram ministradas aos discípulos em geral, em aulas coletivas.
Em 1.911, Eurípedes adquiriu da Casa Freitas, do Rio de Janeiro, um binóculo de campo, de grande alcance, que estava ligado ao nome do grande astrônomo francês Camille Flammarion. Com esse aparelho realizava observações no campo celeste, junto a seus discípulos, em inesquecíveis aulas de Astronomia. Podiam divisar mais distintamente as constelações e planetas vistos a olho nu e identificavam-se pelo nome as estrelas dessas constelações. Reconstruíam-se os históricos remotos desses astros o que tornava o estudo sumamente empolgante.
Tais recursos ao vivo se estendiam ao aprendizado de Botânica e Zoologia.
Eurípedes era sumamente analítico e exigia, nos seus contatos com os alunos, sempre o porquê de tudo. Nunca, porém, deixava uma dúvida no cérebro dos educandos. Toda situação-problema era esmiuçada, examinada nos mínimos detalhes. Como exemplo, transcrevemos a seguir um dos itens da Língua Portuguesa, inserta numa apostila de sua autoria, preparada especialmente para os alunos, que a antiga aluna do Colégio Allan Kardec, Sra. Hipólita Alves Neme – atualmente radicada na cidade do Rio de Janeiro – ofereceu à Sala de Eurípedes, em Sacramento:
(39) Ver Inácio Ferreira, Subsídio para a História de Eurípedes Barsanulfo, Editado pelo Autor, Uberaba, MG, 1962.
Eurípedes – o Homem e a Missão — p. 113
PROPOSIÇÃO IMPERATIVA é a que exerce as funções do imperativo, isto é, exorta, ordena, invoca, postula, convida.
Exortação é dar uma ordem, convencendo.
Exemplo: Dá-me um pedaço de pão, porque estou com fome.
Ordenar é exprimir uma ordem.
Exemplo: Oliviel, vá pegar a patativa.
Invocar é chamar.
Exemplo: Vem, criança, vem comigo.
Postular é pedir com insistência.
Exemplo: Levantem-se, meninos, levantem-se, não é respeitoso sentar, quando outros de pé estão.
Convidar é pedir o comparecimento, motivando o interesse do convidado.
Exemplo: Vem ao estudo, porque o estudo engrandece.
Eurípedes – o Homem e a Missão — p. 116
Capítulo XIV — Honrai a vosso pai e a vossa mãe
Honrai vosso pai e vossa mãe
1. Sabeis os mandamentos: não cometereis adul-tério; não matareis; não roubareis; não prestareis falso-testemunho; não fareis agravo a ninguém; honrai a vosso pai e a vossa mãe. (S. MARCOS,10:19; S. LUCAS, 18:20; S. MATEUS, 19:18-19.)
2. Honrai a vosso pai e a vossa mãe, a fim de viverdes longo tempo na terra que o Senhor vosso Deus vos dará. (Decálogo: Êxodo, 20:12.)
Piedade filial
3. O mandamento: “Honrai a vosso pai e a vossa mãe” é um corolário da lei geral de caridade e de amor ao próximo, visto que não pode amar o seu próximo aquele que não ama a seu pai e a sua mãe; mas, o termo honrai encerra um dever a mais para com eles: o da piedade filial. Quis Deus mostrar por essa forma que ao amor se devem juntar o respeito, as atenções, a submissão e a condescendência, o que envolve a obrigação de cumprir-se para com eles, de modo ainda mais rigoroso, tudo o que a caridade ordena relativamente ao próximo em geral. Esse dever se estende naturalmente às pessoas que fazem as vezes de pai e de mãe, as quais tanto maior mérito têm, quanto menos obrigatório é para elas o devotamento. Deus pune sempre com rigor toda violação desse mandamento.
Honrar a seu pai e a sua mãe, não consiste apenas em respeitá-los; é também assisti-los na necessidade; é proporcionar-lhes repouso na velhice; é cercá-los de cuidados como eles fizeram conosco, na infância.
Sobretudo para com os pais sem recursos é que se demonstra a verdadeira piedade filial. Obedecem a esse mandamento os que julgam fazer grande coisa porque dão a seus pais o estritamente necessário para não morrerem de fome, enquanto eles de nada se privam, atirando-os para os cômodos mais ínfimos da casa, apenas por não os deixarem na rua, reservando para si o que há de melhor, de mais confortável? Ainda bem quando não o fazem de má vontade e não os obrigam a comprar caro o que lhes resta a viver, descarregando sobre eles o peso do governo da casa! Será então aos pais velhos e fracos que cabe servir a filhos jovens e fortes? Ter-lhes-á a mãe vendido o leite, quando os amamentava? Contou porventura suas vigílias, quando eles estavam doentes, os passos que deram para lhes obter o de que necessitavam? Não, os filhos não devem a seus pais pobres só o estritamente necessário, devem-lhes também, na medida do que puderem, os pequenos nadas supérfluos, as solicitudes, os cuidados amáveis, que são apenas o juro do que receberam, o pagamento de uma dívida sagrada. Unicamente essa é a piedade filial grata a Deus.
Ai, pois, daquele que olvida o que deve aos que o ampararam em sua fraqueza, que com a vida material lhe deram a vida moral, que muitas vezes se impuseram duras privações para lhe garantir o bem-estar. Ai do ingrato: será punido com a ingratidão e o abandono; será ferido nas suas mais caras afeições, algumas vezes já na existência atual, mas com certeza noutra, em que sofrerá o que houver feito aos outros.
Alguns pais, é certo, descuram de seus deveres e não são para os filhos o que deviam ser; mas, a Deus é que compete puni-los e não a seus filhos. Não compete a estes censurá-los, porque talvez hajam merecido que aqueles fossem quais se mostram. Se a lei da caridade manda se pague o mal com o bem, se seja indulgente para as imperfeições de outrem, se não diga mal do próximo, se lhe esqueçam e perdoem os agravos, se ame até os inimigos, quão maiores não hão de ser essas obrigações, em se tratando de filhos para com os pais! Devem, pois, os filhos tomar como regra de conduta para com seus pais todos os preceitos de Jesus concernentes ao próximo e ter presente que todo procedimento censurável, com relação aos estranhos, ainda mais censurável se torna relativamente aos pais; e que o que talvez não passe de simples falta, no primeiro caso, pode ser considerado um crime, no segundo, porque, aqui, à falta de caridade se junta a ingratidão.
4. Deus disse: “Honrai a vosso pai e a vossa mãe, a fim de viverdes longo tempo na terra que o Senhor vosso Deus vos dará.” Por que promete ele como recompensa a vida na Terra e não a vida celeste? A explicação se encontra nestas palavras: “que Deus vos dará”, as quais, suprimidas na moderna fórmula do Decálogo, lhe alteram o sentido. Para compreendermos aqueles dizeres, temos de nos reportar à situação e às idéias dos hebreus naquela época. Eles ainda nada sabiam da vida futura, não lhes indo a visão além da vida corpórea. Tinham, pois, de ser impressionados mais pelo que viam, do que pelo que não viam. Fala-lhes Deus então numa linguagem que lhes estava mais ao alcance e, como se se dirigisse a crianças, põe-lhes em perspectiva o que os pode satisfazer. Achavam-se eles ainda no deserto; a terra que Deus lhes dará é a Terra da Promissão, objetivo das suas aspirações. Nada mais desejavam do que isso; Deus lhes diz que viverão nela longo tempo, isto é, que a possuirão por longo tempo, se observarem seus mandamentos.
Mas, ao verificar-se o advento de Jesus, já eles tinham mais desenvolvidas suas idéias. Chegada a ocasião de receberem alimentação menos grosseira, o mesmo Jesus os inicia na vida espiritual, dizendo: “Meu reino não é deste mundo; lá, e não na Terra, é que recebereis a recompensa das vossas boas obras.” A estas palavras, a Terra Prometida deixa de ser material, transformando-se numa pátria celeste. Por isso, quando os chama à observância daquele mandamento: “Honrai a vosso pai e a vossa mãe”, já não é a Terra que lhes promete e sim o céu. (Caps. II e III.)
Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?
5. E, tendo vindo para casa, reuniu-se aí tão grande multidão de gente, que eles nem sequer podiam fazer sua refeição. – Sabendo disso, vieram seus parentes para se apoderarem dele, pois diziam que perdera o espírito.
Entretanto, tendo vindo sua mãe e seus irmãos e conservando-se do lado de fora, mandaram chamá-lo. – Ora, o povo se assentara em torno dele e lhe disseram: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te chamam. – Ele lhes respondeu: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, perpassando o olhar pelos que estavam assentados ao seu derredor, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; – pois, todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. (S. MARCOS, 3:20-21 e 31 a 35; – S. MATEUS, 12:46 a 50.)
6. Singulares parecem algumas palavras de Jesus, por contrastarem com a sua bondade e a sua inalterável benevolência para com todos. Os incrédulos não deixaram de tirar daí uma arma, pretendendo que ele se contradizia. Fato, porém, irrecusável é que sua doutrina tem por base principal, por pedra angular, a lei de amor e de caridade. Ora, não é possível que ele destruísse de um lado o que do outro estabelecia, donde esta consequência rigorosa: se certas proposições suas se acham em contradição com aquele princípio básico, é que as palavras que se lhe atribuem foram ou mal reproduzidas, ou mal compreendidas, ou não são suas.
7. Causa admiração, e com fundamento, que, neste passo, mostrasse Jesus tanta indiferença para com seus parentes e, de certo modo, renegasse sua mãe.
Pelo que concerne a seus irmãos, sabe-se que não o estimavam. Espíritos pouco adiantados, não lhe compreendiam a missão: tinham por excêntrico o seu proceder e seus ensinamentos não os tocavam, tanto que nenhum deles o seguiu como discípulo. Dir-se-ia mesmo que partilhavam, até certo ponto, das prevenções de seus inimigos. O que é fato, em suma, é que o acolhiam mais como um estranho do que como um irmão, quando aparecia à família. S. João diz, positivamente (cap. 7:5), “que eles não lhe davam crédito”.
Quanto à sua mãe, ninguém ousaria contestar a ternura que lhe dedicava. Deve-se, entretanto, convir igualmente em que também ela não fazia idéia muito exata da missão do filho, pois não se vê que lhe tenha nunca seguido os ensinos, nem dado testemunho dele, como fez João Batista. O que nela predominava era a solicitude maternal. Supor que ele haja renegado sua mãe fora desconhecer-lhe o caráter. Semelhante idéia não poderia encontrar guarida naquele que disse: Honrai a vosso pai e a vossa mãe. Necessário, pois, se faz procurar outro sentido para suas palavras, quase sempre envoltas no véu da forma alegórica.
Ele nenhuma ocasião desprezava de dar um ensino; aproveitou, portanto, a que se lhe deparou, com a chegada de sua família, para precisar a diferença que existe entre a parentela corporal e a parentela espiritual.
A parentela corporal e a parentela espiritual
8. Os laços do sangue não criam forçosamente os liames entre os Espíritos. O corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito, porquanto o Espírito já existia antes da formação do corpo. Não é o pai quem cria o Espírito de seu filho; ele mais não faz do que lhe fornecer o invólucro corpóreo, cumprindo-lhe, no entanto, auxiliar o desenvolvimento intelectual e moral do filho, para fazê-lo progredir.
Os que encarnam numa família, sobretudo como parentes próximos, são, as mais das vezes, Espíritos simpáticos, ligados por anteriores relações, que se expressam por uma afeição recíproca na vida terrena. Mas, também pode acontecer sejam completamente estranhos uns aos outros esses Espíritos, afastados entre si por antipatias igualmente anteriores, que se traduzem na Terra por um mútuo antagonismo, que aí lhes serve de provação. Não são os da consangüinidade os verdadeiros laços de família e sim os da simpatia e da comunhão de idéias, os quais prendem os Espíritos antes, durante e depois de suas encarnações. Segue-se que dois seres nascidos de pais diferentes podem ser mais irmãos pelo Espírito, do que se o fossem pelo sangue. Podem então atrair-se, buscar-se, sentir prazer quando juntos, ao passo que dois irmãos consangüíneos podem repelir-se, conforme se observa todos os dias: problema moral que só o Espiritismo podia resolver pela pluralidade das existências. (Cap. IV, nº 13)
Há, pois, duas espécies de famílias: as famílias pelos laços espirituais e as famílias pelos laços corporais. Duráveis, as primeiras se fortalecem pela purificação e se perpetuam no mundo dos Espíritos, através das várias migrações da alma; as segundas, frágeis como a matéria, se extinguem com o tempo e muitas vezes se dissolvem moralmente, já na existência atual. Foi o que Jesus quis tornar compreensível, dizendo de seus discípulos: Aqui estão minha mãe e meus irmãos, isto é, minha família pelos laços do Espírito, pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus é meu irmão, minha irmã e minha mãe.
A hostilidade que lhe moviam seus irmãos se acha claramente expressa em a narração de São Marcos, que diz terem eles o propósito de se apoderarem do Mestre, sob o pretexto de que este perdera o espírito. Informado da chegada deles, conhecendo os sentimentos que nutriam a seu respeito, era natural que Jesus dissesse, referindo-se a seus discípulos, do ponto de vista espiritual: “Eis aqui meus verdadeiros irmãos”. Embora na companhia daqueles estivesse sua mãe, ele generaliza o ensino que de maneira alguma implica haja pretendido declarar que sua mãe segundo o corpo nada lhe era como Espírito, que só indiferença lhe merecia. Provou suficientemente o contrário em várias outras circunstâncias.
Instruções dos Espíritos
A ingratidão dos filhos e os laços de família
9. A ingratidão é um dos frutos mais diretos do egoísmo. Revolta sempre os corações honestos. Mas, a dos filhos para com os pais apresenta caráter ainda mais odioso. É, em particular, desse ponto de vista que a vamos considerar, para lhe analisar as causas e os efeitos. Também nesse caso, como em todos os outros, o Espiritismo projeta luz sobre um dos grandes problemas do coração humano.
Quando deixa a Terra, o Espírito leva consigo as paixões ou as virtudes inerentes à sua natureza e se aperfeiçoa no espaço, ou permanece estacionário, até que deseje receber a luz. Muitos, portanto, se vão cheios de ódios violentos e de insaciados desejos de vingança; a alguns dentre eles, porém, mais adiantados do que os outros, é dado entrevejam uma partícula da verdade; apreciam então as funestas conseqüências de suas paixões e são induzidos a tomar resoluções boas. Compreendem que, para chegarem a Deus, uma só é a senha: caridade. Ora, não há caridade sem esquecimento dos ultrajes e das injúrias; não há caridade sem perdão, nem com o coração tomado de ódio.
Então, mediante inaudito esforço, conseguem tais Espíritos observar os a quem eles odiaram na Terra. Ao vê-los, porém, a animosidade se lhes desperta no íntimo; revoltam-se à idéia de perdoar, e, ainda mais, à de abdicarem de si mesmos, sobretudo à de amarem os que lhes destruíram, quiçá, os haveres, a honra, a família. Entretanto, abalado fica o coração desses infelizes. Eles hesitam, vacilam, agitados por sentimentos contrários. Se predomina a boa resolução, oram a Deus, imploram aos bons Espíritos que lhes dêem forças, no momento mais decisivo da prova.
Por fim após anos de meditações e preces, o Espírito se aproveita de um corpo em preparo na família daquele a quem detestou, e pede aos Espíritos incumbidos de transmitir as ordens superiores permissão para ir preencher na Terra os destinos daquele corpo que acaba de formar-se. Qual será o seu procedimento na família escolhida? Dependerá da sua maior ou menor persistência nas boas resoluções que tomou. O incessante contacto com seres a quem odiou constitui prova terrível, sob a qual não raro sucumbe, se não tem ainda bastante forte a vontade. Assim, conforme prevaleça ou não a resolução boa, ele será o amigo ou inimigo daqueles entre os quais foi chamado a viver. É como se explicam esses ódios, essas repulsões instintivas que se notam da parte de certas crianças e que parecem injustificáveis. Nada, com efeito, naquela existência há podido provocar semelhante antipatia; para se lhe apreender a causa, necessário se torna volver o olhar ao passado.
Ó espíritas! Compreendei agora o grande papel da Humanidade; compreendei que, quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do espaço para progredir; inteirai-vos dos vossos deveres e ponde todo o vosso amor em aproximar de Deus essa alma; tal a missão que vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se fielmente a cumprirdes. Os vossos cuidados e a educação que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu bem-estar futuro. Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará Deus: Que fizestes do filho confiado à vossa guarda? Se por culpa vossa ele se conservou atrasado, tereis como castigo vê-lo entre os Espíritos sofredores, quando de vós dependia que fosse ditoso. Então, vós mesmos, assediados de remorsos, pedireis vos seja concedido reparar a vossa falta; solicitareis, para vós e para ele, outra encarnação em que o cerqueis de melhores cuidados e em que ele, cheio de reconhecimento, vos retribuirá com o seu amor.
Não escorraceis, pois, a criancinha que repele sua mãe, nem a que vos paga com a ingratidão; não foi o acaso que a fez assim e que vo-la deu. Imperfeita intuição do passado se revela, do qual podeis deduzir que um ou outro já odiou muito, ou foi muito ofendido; que um ou outro veio para perdoar ou para expiar. Mães! Abraçai o filho que vos dá desgostos e dizei convosco mesmas: Um de nós dois é culpado. Fazei-vos merecedoras dos gozos divinos que Deus conjugou à maternidade, ensinando aos vossos filhos que eles estão na Terra para se aperfeiçoar, amar e bendizer. Mas, oh! muitas dentre vós, em vez de eliminar por meio da educação os maus princípios inatos de existências anteriores, entretêm e desenvolvem esses princípios, por uma culposa fraqueza, ou por descuido, e, mais tarde, o vosso coração, ulcerado pela ingratidão dos vossos filhos, será para vós, já nesta vida, um começo de expiação.
A tarefa não é tão difícil quanto vos possa parecer. Não exige o saber do mundo. Podem desempenhá-la assim o ignorante como o sábio, e o Espiritismo lhe facilita o desempenho, dando a conhecer a causa das imperfeições da alma humana.
Desde pequenina, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz da sua existência anterior. A estudá-los devem os pais aplicar-se. Todos os males se originam do egoísmo e do orgulho. Espreitem, pois, os pais os menores indícios reveladores do gérmen de tais vícios e cuidem de combatê-los, sem esperar que lancem raízes profundas. Façam como o bom jardineiro, que corta os rebentos defeituosos à medida que os vê apontar na árvore. Se deixarem se desenvolvam o egoísmo e o orgulho, não se espantem de serem mais tarde pagos com a ingratidão. Quando os pais hão feito tudo o que devem pelo adiantamento moral de seus filhos, se não alcançam êxito, não têm de que se inculpar a si mesmos e podem conservar tranqüila a consciência. À amargura muito natural que então lhes advém da improdutividade de seus esforços, Deus reserva grande e imensa consolação, na certeza de que se trata apenas de um retardamento, que concedido lhes será concluir noutra existência a obra agora começada e que um dia o filho ingrato os recompensará com seu amor. (Cap. XIII, nº 19.)
Deus não dá prova superior às forças daquele que a pede; só permite as que podem ser cumpridas. Se tal não
sucede, não é que falte possibilidade: falta a vontade. Com efeito, quantos há que, em vez de resistirem aos maus pendores, se comprazem neles. A esses ficam reservados o pranto e os gemidos em existências posteriores. Admirai, no entanto, a bondade de Deus, que nunca fecha a porta ao arrependimento. Vem um dia em que ao culpado, cansado de sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe lança aos pés. As provas rudes, ouvi-me bem, são quase sempre indício de um fim de sofrimento e de um aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas com o pensamento em Deus. É um momento supremo, no qual, sobretudo, cumpre ao Espírito não falir murmurando, se não quiser perder o fruto de tais provas e ter de recomeçar. Em vez de vos queixardes, agradecei a Deus o ensejo que vos proporciona de vencerdes, a fim de vos deferir o prêmio da vitória. Então, saindo do turbilhão do mundo terrestre, quando entrardes no mundo dos Espíritos, sereis aí aclamados como o soldado que sai triunfante da refrega.
De todas as provas, as mais duras são as que afetam o coração. Um, que suporta com coragem a miséria e as privações materiais, sucumbe ao peso das amarguras domésticas, pungido da ingratidão dos seus. Oh! que pungente angústia essa! Mas, em tais circunstâncias, que mais pode, eficazmente, restabelecer a coragem moral, do que o conhecimento das causas do mal e a certeza de que, se bem haja prolongados despedaçamentos d’alma, não há desesperos eternos, porque não é possível seja da vontade de Deus que a sua criatura sofra indefinidamente? Que de mais reconfortante, de mais animador do que a idéia que de cada um dos seus esforços é que depende abreviar o sofrimento, mediante a destruição, em si, das causas do mal? Para isso, porém, preciso se faz que o homem não retenha na Terra o olhar e só veja uma existência; que se eleve, a pairar no infinito do passado e do futuro. Então, a justiça infinita de Deus se vos patenteia, e esperais com paciência, porque explicável se vos torna o que na Terra vos parecia verdadeiras monstruosidades. As feridas que aí se vos abrem, passais a considerá-las simples arranhaduras. Nesse golpe de vista lançado sobre o conjunto, os laços de família se vos apresentam sob seu aspecto real. Já não vedes, a ligar-lhes os membros, apenas os frágeis laços da matéria; vedes, sim, os laços duradouros do Espírito, que se perpetuam e consolidam com o depurarem-se, em vez de se quebrarem por efeito da reencarnação.
Formam famílias os Espíritos que a analogia dos gostos, a identidade do progresso moral e a afeição induzem a reunir-se. Esses mesmos Espíritos, em suas migrações terrenas, se buscam, para se gruparem, como o fazem no espaço, originando-se daí as famílias unidas e homogêneas. Se, nas suas peregrinações, acontece ficarem temporariamente separados, mais tarde tornam a encontrar-se, venturosos pelos novos progressos que realizaram. Mas, como não lhes cumpre trabalhar apenas para si, permite Deus que Espíritos menos adiantados encarnem entre eles, a fim de receberem conselhos e bons exemplos, a bem de seu progresso. Esses Espíritos se tornam, por vezes, causa de perturbação no meio daqueles outros, o que constitui para estes a prova e a tarefa a desempenhar.
Acolhei-os, portanto, como irmãos; auxiliai-os, e depois, no mundo dos Espíritos, a família se felicitará por haver salvo alguns náufragos que, a seu turno, poderão salvar outros. – Santo Agostinho. (Paris, 1862.)
Execute boas coisas e observe o
movimento da vida a seu favor.
Deus, em você, realiza
maravilhas.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Da honra cantada à palavra que hesita
Da honra cantada à palavra que hesita
Camões, Eça, Machado e Brasília: uma travessia atlântica do poder e da linguagem
A literatura de língua portuguesa nasce no mar. Em Os Lusíadas, Camões transforma a navegação em destino histórico: a honra é pública, o heroísmo é inequívoco, a palavra épica organiza o mundo. A justiça, ainda que divina, é clara; o poeta canta, o sentido se fixa.
Mas nenhuma navegação é eterna. Séculos depois, o Atlântico deixa de ser espaço de conquista para tornar-se metáfora de deslocamento — moral, social e linguístico. O que antes era espada passa a ser papel; o que era canto, converte-se em carta; o que era certeza, termina em hesitação.
É nesse movimento que se inscrevem Eça de Queirós, Machado de Assis — e, hoje, Brasília.
Eça de Queirós e a justiça como humilhação
Em Os Maias, a epopeia já morreu. O mundo que Eça descreve é o de uma elite decadente, onde a honra sobrevive apenas como ritual social. O episódio da Carta de Dâmaso é exemplar.
Dâmaso Salcede, personagem menor e ressentido, difama Carlos da Maia na imprensa. João da Ega, para vingar o amigo, não recorre ao tribunal nem ao duelo. Escolhe algo mais eficaz: a humilhação escrita.
Dâmaso é forçado a assinar uma carta em que se declara mentiroso, caluniador, invejoso e covarde — e ainda aceita que o texto registre que assinava embriagado. A retratação não o reabilita; ela o destrói. A carta circula, e sua ruína social se consuma.
Aqui, a justiça não repara: exibe.
A palavra não absolve: fixa o ridículo.
No final do romance, Dâmaso não desaparece. Sobrevive — mas como sobra social, figura risível, excluída do convívio que desejava frequentar. É o castigo moderno: viver sem dignidade.
Machado de Assis: quando a palavra se volta contra quem escreve
Machado herda esse mundo em que a honra virou linguagem, mas radicaliza o problema. Em Dom Casmurro, não há carta de retratação. Há um livro inteiro de acusação. Bentinho escreve para condenar Capitu — que nunca assina nada, nunca se defende, nunca confessa.
A humilhação, agora, é unilateral e talvez imaginária. Se Eça mostra o poder destrutivo da palavra pública, Machado revela algo mais inquietante: a palavra pode destruir o próprio narrador.
Bentinho não derrota Capitu. Ele se encerra num labirinto de suspeita e memória. A linguagem já não organiza o mundo; ela o corrói por dentro.
É nesse ponto que surge o Conselheiro Ayres, figura tardia, diplomática, crepuscular. Ayres não acusa, não humilha, não absolve. Observa, atenua, registra. Sua ética é a da contenção. Não escreve cartas de condenação, mas diários de convivência possível.
Brasília: a carta que virou enigma
Chegamos, então, ao século XXI. O mar desapareceu, mas a metáfora náutica persiste. Ancoramos em Brasília, às margens do Lago Paranoá, atrás da Praça dos Três Poderes. Aqui, o poder não canta nem ironiza — explica. Ou tenta.
Em uma entrevista ao vivo, um constitucionalista comenta a frase:
“No meio do átrio sobre patamar supremo na nau de Dias liberando acusado depois de dias?”
A análise é cautelosa. A frase é classificada como metafórica, híbrida, enigmática. Mistura arquitetura do poder, memória épica, ato jurídico e tempo simbólico. E o intérprete conclui: sem mais contexto, é impossível oferecer uma resposta exata.
Estamos diante de uma Carta de Dâmaso pós-moderna.
Ela não humilha definitivamente.
Não absolve com clareza.
Não fixa sentido.
Paira.
Do canto épico à hesitação institucional
Camões cantava a honra.
Eça administrava a vergonha.
Machado problematizava a verdade.
Brasília hesita diante da linguagem que produz.
Se no século XIX uma carta podia destruir um homem, no século XXI a palavra jurídica parece incapaz até mesmo de concluir seu próprio gesto. O poder fala — mas já não controla plenamente o significado do que diz.
Talvez esta seja a última ironia da travessia atlântica da língua portuguesa:
não foi o mar que secou; foi a certeza do sentido.
E, no lugar da epopeia, da sátira e da ironia, resta o intérprete cauteloso, em live, confessando aquilo que a literatura já sabia há mais de um século:
a linguagem é poderosa — mas nunca inocente, nem definitiva.
RETRATOS EM SÉRIE
2. VERSÃO FINAL FORMATADA
Caderno cultural “Em Outras Soluções”
Não tem solução? Outras maneiras de ver
De Caymmi e Carlos Guinle a Donato e Gil: impasse, leveza e modernidade na canção brasileira
Por Dorival Nonato
🔊 Ouça “Não tem solução” (Dorival Caymmi) | 📄 Leia a letra
🔊 Ouça “Bananeira” (João Donato & Gilberto Gil) | 📄 Leia a letra
Na década de 1950, o Brasil tinha poucos milionários — e alguns deles eram cultos, sensíveis e profundamente implicados na vida cultural do país. Carlos Guinle, herdeiro de uma das maiores fortunas nacionais e parceiro de Dorival Caymmi na canção Não tem solução, é um desses personagens hoje quase impensáveis.
Setenta anos depois, o país acumula milhares de milionários e quase bilionários, mas raramente encontra entre eles figuras com densidade cultural comparável. A pergunta, então, se impõe: morreram os Guinles ou mudaram os fundamentos da riqueza no Brasil?
O impasse como consciência
Em “Não tem solução”, Caymmi e Carlos Guinle constroem uma canção de contenção extrema. O conflito não conduz à catarse, tampouco à superação. O eu lírico reconhece o excesso — de amor, de sentimento, de desordem — e constata a ausência de saída.
Não há redenção. Há lucidez.
O título da canção funciona como um enunciado histórico forte: não se trata apenas de um drama íntimo, mas da percepção de um limite estrutural. A consciência do impasse não gera ação; gera suspensão.
🔊 Ouça novamente “Não tem solução”
📄 Letra completa disponível online
Gramsci, ideologia e hegemonia rarefeita
À luz de Antonio Gramsci — relido por Giuseppe Vacca —, essa forma de consciência pode ser compreendida como sintoma de uma crise de hegemonia. Ideologia, aqui, não é discurso explícito, mas estrutura de sentimento: a percepção de que as mediações tradicionais já não operam plenamente.
Carlos Guinle, enquanto intelectual amador e mecenas, pertenceu a uma elite que ainda produzia cultura como parte de sua função histórica. Quando esse vínculo se rompe, a riqueza permanece — mas a densidade simbólica se dissolve.
O deslocamento moderno: “Bananeira”
Décadas depois, “Bananeira”, de João Donato e Gilberto Gil, responde ao impasse não com gravidade, mas com deslocamento.
Não há drama.
Não há solução.
Há jogo.
O “não sei”, o “sei lá”, longe de empobrecimento expressivo, tornam-se forma estética. A canção não busca resolver o mundo — prefere olhá-lo de outro modo.
🔊 Ouça “Bananeira” (João Donato & Gilberto Gil)
📄 Letra completa disponível online
Da tragédia à leveza crítica
Se “Não tem solução” expressa a consciência trágica de um limite, “Bananeira” aceita o limite como dado e o transforma em circulação sensível. O conflito não paralisa; ele se dissolve em percepção, olhar, quintal, coração.
É a modernidade brasileira operando em modo menor — e, por isso mesmo, profundamente eficaz.
Em outras soluções
Talvez a pergunta já não seja mais “qual é a solução?”, mas — como sugere a canção moderna — “como olhar?”
Entre o impasse lúcido de Caymmi e Guinle e a leveza crítica de Donato e Gil, a canção brasileira registra, com rara inteligência histórica, a passagem de um país que buscava respostas para outro que aprendeu a habitar a indeterminação.
E talvez seja justamente aí que resida, ainda hoje, uma das nossas formas mais sofisticadas de pensamento.
🔗 SERVIÇO AO LEITOR
🎧 Não tem solução — Dorival Caymmi (áudio e letra em plataformas digitais)
🎧 Bananeira — João Donato & Gilberto Gil (áudio e letra em plataformas digitais)
S
Não Tem Solução
Dorival Caymmi - Tema
15 de nov. de 2015
Provided to YouTube by Universal Music Group
Não Tem Solução · Dorival Caymmi
Retratos
℗ 1955 EMI Music Brasil Ltda
Released on: 2004-01-01
Producer: Milton Miranda
Composer Lyricist: Dorival Caymmi
Composer Lyricist: Carlos Guinle
Auto-generated by YouTube.
Música
1 músicas
Não Tem Solução
Dorival Caymmi
Retratos
Nao Tem Solução
Dorival Caymmi
Série Retratos: Dorival Caymmi
Aconteceu um novo amor
Que nao podia acontecer
Nao era hora de amar
Agora o que vou fazer?
Nao tem soluçao
Este novo amor
Um amor a mais
Me tirou a paz
E eu que esperava
Nunca mais amar
Nao sei o que faço
Com esse amor demais.
Compositores: Carlos de Oliveira Rocha Guinle (Carlos Guinle)
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
NO MEIO DO CAMINHO
Quem chora por Erfan?
Tiberio Canuto
Análises políticas formuladas a partir de informações colhidas nos bastidores dos Poderes da República indicam que o cenário eleitoral de 2026 tende a reproduzir, em escala ampliada, a lógica de polarização que marcou as disputas anteriores. A atuação do núcleo mais duro do bolsonarismo, longe de enfraquecer seu principal adversário, pode novamente contribuir para a consolidação de Luiz Inácio Lula da Silva como protagonista eleitoral, ao aprofundar rejeições, estimular a abstenção e restringir a disputa a um confronto fechado entre dois polos. Nesse ambiente, marcado por antagonismos públicos e convergências tácitas, a eleição se desenha menos como uma escolha de projetos e mais como um embate de rejeições, no qual interesses cruzados, reciprocidades políticas e cálculos de sobrevivência institucional passam a desempenhar papel central.
📰 Texto reescrito e ampliado – análise jornalística
**Levantamentos eleitorais preliminares sobre a sucessão presidencial de 2026 têm sido interpretados por analistas em Brasília como um indicativo de continuidade do ambiente de forte polarização que marcou as últimas disputas nacionais. As pesquisas apontam, de forma recorrente, que o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva tende a sair do primeiro turno em posição competitiva — quando não na liderança — mesmo diante de elevados índices de rejeição, em patamar semelhante ao de seus principais adversários.
Esse cenário reforça a avaliação de que a eleição poderá ser definida menos por taxas de aprovação e mais pela rejeição acumulada dos campos políticos em disputa. Nesse contexto, chama atenção o fato de que o campo estritamente bolsonarista, ao manter estratégias discursivas radicalizadas e práticas políticas consideradas heterodoxas, parece aprofundar sua própria rejeição eleitoral, sobretudo em cenários de segundo turno.
Para parte dos analistas, essa dinâmica levanta uma hipótese incômoda, porém recorrente nos bastidores: a de que as escolhas e posturas do núcleo mais duro do bolsonarismo acabam produzindo, ainda que de forma subliminar e não declarada, um efeito favorável ao seu principal adversário. Ao concentrar altos índices de rejeição, esse campo político contribui para que Lula, mesmo igualmente rejeitado por parcelas expressivas do eleitorado, consiga se apresentar no segundo turno como a alternativa menos rejeitada — fator historicamente decisivo em disputas polarizadas.
Pesquisas qualitativas e quantitativas indicam, ainda, a possibilidade de uma expressiva abstenção, votos nulos ou brancos, estimada por alguns institutos em torno de um terço do eleitorado, reflexo do cansaço com a polarização e da descrença em ambos os polos. Esse afastamento tende a favorecer candidaturas com eleitorado fiel e consolidado, característica que, até o momento, permanece mais associada ao atual presidente.
Nesse ambiente, ganha força a leitura de que a polarização extrema, longe de prejudicar Lula, pode funcionar como um ativo eleitoral indireto, ao cristalizar o confronto com um adversário que carrega rejeição estrutural elevada. O segundo turno, assim, se desenharia menos como uma disputa de projetos e mais como um plebiscito negativo, no qual vence quem desperta menor repulsa relativa.
A ideia de uma reciprocidade política implícita — ainda que paradoxal — também é mencionada por analistas. O campo bolsonarista já teria desempenhado papel decisivo, em mais de uma ocasião, na reconfiguração do cenário que permitiu o retorno de Lula ao centro da disputa política. A extinção prática da Operação Lava Jato, celebrada publicamente por Jair Bolsonaro em declarações nas quais afirmou que “a Lava Jato acabou porque seu governo acabou com a corrupção”, é frequentemente citada como exemplo emblemático.
A narrativa, ainda que provocativa, foi funcional ao campo político que hoje ocupa o Palácio do Planalto em seu terceiro mandato. Ao desmobilizar o principal instrumento simbólico de criminalização do lulismo, o bolsonarismo contribuiu para a reconstrução da legitimidade política de seu principal adversário.
Assim, sob a ótica de parte da análise política, o que se observa é um jogo de antagonismos aparentes que, na prática, produz efeitos convergentes. A manutenção de um embate radicalizado, com rejeições elevadas e ausência de alternativas competitivas fora dos dois polos, tende a empurrar a disputa novamente para um segundo turno restrito, no qual a lógica do “mal menor” e da rejeição relativa pode, mais uma vez, favorecer o atual presidente da República.”**
📌
PÉ PYTÉRYPE
Pé pytérype itá týbi.
Itá i tyb pé pytérype.
Itá i tyb.
Pé pytérype itá týbi.
Nda xe resaraîangaîxûé aîpó xe kûapagûera
xe resapûeraîa rekobesagûera suíne.
Nda xe resaraîangaîxûé aîpó suíne: Pé pytérype
itá týbi
Itá i tyb pé pytérype.
Pé pytérype itá týbi.
Retradução para o português:
NO MEIO DO CAMINHO
No meio do caminho tinha pedra.
Tinha pedra no meio do caminho.
Tinha pedra.
No meio do caminho tinha pedra.
Não me esquecerei de jeito nenhum disso pelo que passei
que estava na vida de meus olhos cansados.
Não me esquecerei de jeito nenhum disso: No meio do caminho
tinha pedra.
Tinha pedra no meio do caminho.
No meio do caminho tinha pedra.
' E eu que esperava
Nunca mais amar
Nao sei o que faça
Com esse amor demais .'
Nao Tem Solução
Dorival Caymmi
Aconteceu um novo amor
Que nao podia acontecer
Nao era hora de amar
Agora o que vou fazer?
Nao tem solução
Este novo amor
Um amor a mais
Me tirou a paz
E eu que esperava
Nunca mais amar
Nao sei o que faça
Com esse amor demais.
Composição: Carlos Guinle / Dorival Caymmi.
Posfácio — Três olhares sobre o impasse
O que não foi dito, mas foi desenhado.
O que não foi escrito, mas foi compreendido.
🔗 Veja a imagem que traduz o texto: Confira a charge política sobre Lula e Bolsonaro no LinkedIn
Posfácio — Três olhares sobre o impasse
As reflexões reunidas ao longo deste texto encontram ressonância em leituras distintas, mas convergentes, que ajudam a iluminar o impasse político contemporâneo. Embora partam de campos analíticos diversos, essas abordagens compartilham a percepção de que a polarização deixou de ser apenas um fenômeno eleitoral para se tornar um traço estrutural da crise democrática.
Giuseppe Vacca, ao recuperar a ideia de um “novo reformismo”, chama atenção para o esgotamento das coalizões construídas exclusivamente a partir de interesses imediatos. A política, quando dissociada de valores e de um horizonte de longo prazo, perde capacidade transformadora e passa a operar em modo defensivo. Meio ambiente, direito à informação, paz e democracia social exigem uma ação política que ultrapasse fronteiras nacionais e burocracias herdadas, mas também demandam liderança capaz de reorganizar a democracia para além do curto ciclo eleitoral. A ausência desse movimento contribui para que a polarização se cristalize como método de reprodução do poder, e não como motor de mudança.
Rubens Barbosa, por sua vez, oferece um diagnóstico institucional direto e pragmático. A convergência das crises política, econômica e ética, somada à disfuncionalidade do sistema político, compromete a governabilidade e marginaliza o País no cenário internacional. O dado mais revelador, contudo, não está apenas na gravidade da crise, mas no vazio de liderança que atravessa os Três Poderes, o setor produtivo e as organizações de trabalhadores. Nesse contexto, a persistência da polarização aparece menos como escolha consciente do eleitorado e mais como consequência da ausência de alternativas viáveis. A demanda por uma candidatura situada fora dos extremos ideológicos revela um desejo difuso de superação do confronto permanente, ainda que sua materialização política permaneça incerta.
Já a leitura de Hélio Schwartsman desloca o debate para um plano mais profundo, cultural e filosófico. Ao criticar a tolerância seletiva da esquerda em relação a regimes autoritários de matriz religiosa, ele expõe a permanência de um vínculo metafísico com narrativas redentoras, sejam elas religiosas ou seculares. A crença em utopias — no progresso inevitável, na redenção histórica ou em projetos civilizatórios autojustificados — enfraquece o rigor crítico e normaliza contradições. Nesse ambiente, a política deixa de ser um exercício de análise da realidade e passa a operar como reafirmação identitária, reforçando a polarização como forma de pertencimento.
Tomadas em conjunto, essas três perspectivas ajudam a compreender por que o País parece avançar sem sair do lugar. A polarização extrema, longe de representar apenas um conflito entre campos antagônicos, revela a incapacidade de produzir reformas estruturais, lideranças agregadoras e um debate público desprovido de ilusões redentoras. Entre antagonismos ruidosos e convergências silenciosas, o sistema político tende a se fechar sobre si mesmo, limitando o surgimento de alternativas e convertendo a disputa eleitoral em um exercício recorrente de rejeição recíproca.
É nesse sentido que o Brasil parece seguir, mais uma vez, no meio do caminho: entre a promessa de mudança e a repetição dos mesmos impasses, entre o confronto permanente e a dificuldade de superá-lo. A travessia permanece inconclusa, à espera de uma política capaz de romper o círculo vicioso da polarização e recolocar o futuro no centro do debate público.
Erfan Soltani, manifestante de 26 anos, teve sua execução marcada para quarta-feira (14)
Imagem: Hengaw Organização pelos Direitos Humanos.
Quem chora por Erfan?
Internacional
Irã marca 1ª execução de manifestante; jovem não teve advogado, diz família
Do UOL, em São Paulo*
13/01/2026 14h29
Atualizada em
13/01/2026 15h06… - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/01/13/ira-marca-primeira-execucao-de-manifestante.htm?cmpid=copiaecola
A iminente execução de Erfan Soltani, marcada para esta quarta-feira, 14 de janeiro de 2026, tornou-se um símbolo trágico da repressão estatal no Irã. Aos 26 anos, Soltani é apontado como o primeiro manifestante a ser executado no contexto da nova onda de protestos que tomou o país no final de 2025.
Conforme detalhado em artigo de Tibério Canuto, publicado no Jornal Opção, a história de Erfan expõe, de forma crua, a face mais brutal do regime iraniano.
Julgamento sumário
Preso no dia 8 de janeiro, na cidade de Karaj, Soltani foi condenado à morte em apenas dois dias, acusado de “guerrear contra Deus” (moharebeh). O processo ocorreu sem direito a advogado, defesa técnica ou julgamento justo.
Despedida cruel
A família foi informada de que a sentença é definitiva e recebeu apenas dez minutos para a despedida final — um gesto que reforça o caráter exemplar e intimidatório da punição.
Contexto de medo e intimidação
Organizações como a Hengaw Organization for Human Rights e a Iran Human Rights denunciam que a rapidez da execução tem como objetivo espalhar o medo, silenciar dissidências e conter os milhões de iranianos que voltaram às ruas para exigir o fim da teocracia dos aiatolás.
Enquanto o mundo observa com indignação — e, em muitos casos, com silêncio —, o texto de Tibério Canuto expõe o abandono internacional e a urgência de dar voz àqueles que, como Erfan Soltani, enfrentam a forca por clamarem por liberdade.
Tibério Canuto
Erfan Soltani tem 26 anos. É um entre centenas de milhares — para não dizer milhões — de iranianos que enfrentaram nas ruas a ditadura eclesiástica comandada pelos aiatolás. A vida do jovem Erfan deve chegar ao fim nesta quarta feira. O regime marcou para amanhã o seu enforcamento. Será o primeiro manifestante condenado à pena de morte, aplicada pelo método mais cruel: a forca.
Se seguir a tradição da ditadura, a execução de Erfan será pública — um espetáculo de terror para servir de exemplo e impor o medo como ferramenta de repressão, numa tentativa desesperada de pôr fim às manifestações multitudinárias que varrem o Irã e devolvem ao seu povo um sopro de esperança.
Erfan será o primeiro iraniano enforcado nesta jornada por democracia. Mas não será o único. Certamente outros jovens rebeldes — como foram as gerações de Maio de 1968, da Primavera de Praga, da luta contra a Guerra do Vietnã e contra as ditaduras de nuestra América — também perderão a vida, pendurados por uma corda, com seus corpos expostos em alguma praça de Teerã.
Quantos Erfans ainda serão assassinados por ousarem clamar por liberdade? Não sabemos. Sabemos apenas que, desde o início das manifestações, em 28 de dezembro, já são mais de dois mil mortos — numa contagem conservadora. A oposição fala em doze mil vidas ceifadas, a esmagadora maioria de manifestantes. Esse número pode ser discutido. Mas há uma verdade insofismável: o tirano Ali Khamenei, aiatolá chefe supremo do Irã, está encharcando as ruas do país com o sangue do seu próprio povo.
“Isso não é conosco”, dizem vozes cretinas, tentando justificar a omissão criminosa de setores da esquerda global — incluída a nossa — diante da barbárie praticada pela ditadura fundamentalista. Um amigo, velho companheiro do Partidão, chegou a me dizer algo mais ou menos assim: o que Lula tem a ver com essa história? Por que deveria se pronunciar sobre o que acontece no Irã?
Pôncio Pilatos fez escola. Essa esquerda lava as mãos por cumplicidade ideológica. Afinal, a tirania iraniana chama o imperialismo americano de Grande Satã e Israel de Pequeno Satã. Por trás do silêncio cúmplice esconde-se um amálgama tóxico de antiamericanismo e antissemitismo que une — pasmem — a esquerda terceiro mundista e a direita fundamentalista iraniana.
Quando penso que amanhã o corpo de Erfan poderá estar pendurado num poste ou numa grua, sinto nas entranhas uma revolta profunda. E uma impotência devastadora.
O que podemos fazer por ele? Resta-nos chorar. Verter lágrimas.
Mas também posso — e devo — desnudar a desfaçatez dos aliados enrustidos, que fazem contorcionismos retóricos para se omitir diante da ação criminosa de Ali Khamenei. Nessas horas, sempre me vem à cabeça uma passagem de “Nossos anos verde oliva”, de Roberto Ampuero.
Exilado em Cuba e na Alemanha de Honecker, o autor confessa sua descrença no “socialismo real” por causa de seu caráter autoritário e, então, faz a pergunta incômoda: que categoria mental leva parte da esquerda a denunciar a tortura, o assassinato e a violação dos direitos humanos quando praticados por ditaduras de direita — e, ao mesmo tempo, a se calar quando os mesmos crimes são cometidos por regimes supostamente aliados?
O regime tirânico do Irã não é de esquerda — eu sei. Mas, aos olhos de nuestra izquierda, ele é anti-imperialista e anti Israel. Isso basta para a cumplicidade silenciosa, aquela que prega a impotência com a frase: “o Regime do Irã é detestável, mas Trump é a solução?”
A outra versão com o mesmo teor é a frase: “tudo bem, cai a ditadura, mas o que se coloca no lugar, Reza Pahlavi?” Há por trás desse raciocínio torto a falsa ideia de que, bem ou mal, a ditadura dos Aiatolás é a garantia da estabilidade do Irã, mesmo à custa de um banho de sangue.
Como eu, você talvez esteja agora com um nó na garganta e um sentimento de impotência. Solte o choro. Chore por Erfan. Mas não perca a esperança de que um dia viveremos num mundo em que jovens possam ocupar as ruas, erguer a voz e clamar por liberdade sem o risco de terminar enforcados numa praça qualquer do Irã.
domingo, 11 de janeiro de 2026
Quando eu morrer não deixo pena, pena deixo para quem fica
Assentamento
Miúcha
O cosmos não interrompe seu giro para o luto, mas a cultura pausa para o silêncio. Em um intervalo de apenas uma rotação terrestre — um único dia entre 9 e 10 de janeiro de 2026 — o mundo perdeu o olhar crítico de Beatriz González e a crônica afetiva de Manoel Carlos.
Entre o nascimento de Maneco (1933) e de Beatriz (1938), a Terra completou 5,67 voltas ao redor do Sol. Foram 2.073 auroras de diferença que moldaram trajetórias distintas: ele, pintando o cotidiano carioca com palavras; ela, recortando a história colombiana em cores e móveis populares.
Neste "último traslado", enquanto o planeta avançava apenas 0,0027 de sua órbita, os dois se despediram, deixando-nos a herança de quem soube observar o tempo. Como bem interpretado por Chico Buarque na obra de Paulo Vanzolini, a morte não deixa pena para quem vai, mas o peso da saudade para quem permanece no giro incessante da vida.
🎧 Ouça aqui: "Quando Eu Morrer" - Chico Buarque (Composição de Paulo Vanzolini)
“O tempo não para, mas a arte eterniza o instante em que a Terra parou para eles.”
Los suicidas del Sisga II (Sobre una obra de Beatriz González)
Mãe e filha foram primeira e última Helena de Manoel Carlos
— A primeira Helena do autor, que morreu neste sábado (10) no, Rio de Janeiro, foi a atriz Lílian Lemmertz, em 'Baila Comigo', de 1981.
Gshow
https://gshow.globo.com › manoel-carlos › noticia › ma...
há 21 horas
Assentamento
Chico Buarque
Quando eu morrer, que me enterrem na
beira do chapadão
-- contente com minha terra
cansado de tanta guerra
crescido de coração
Tôo
(apud Guimarães Rosa)
Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora
Ver o capim
Ver o baobá
Vamos ver a campina quando flora
A piracema, rios contravim
Binho, Bel, Bia, Quim
Vamos embora
Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com a minha terra:
Cana, caqui
Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim
Vamos embora
Composição: Chico Buarque.
Quando eu morrer não deixo pena, pena deixo para quem fica
Crédito consignado, poder político e Minas Gerais: duas décadas de uma mesma engrenagem
A história do crédito consignado no Brasil não é linear nem episódica. Ela atravessa governos, partidos e décadas, sempre orbitando o mesmo núcleo sensível: o INSS, os aposentados e a interseção entre política e sistema financeiro. Para compreendê-la com honestidade intelectual, é necessário separar os tempos — sem apagar os vínculos estruturais que permanecem.
I — O presente: o escândalo dos descontos indevidos (2024–2025)
Desde 2024, o INSS voltou ao centro de uma crise de grandes proporções. A Polícia Federal, a CGU e o Congresso Nacional, por meio da CPMI do INSS, investigam um esquema de descontos não autorizados aplicados diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas.
O que está comprovado até agora
Houve descontos indevidos, realizados por meio de convênios firmados entre o INSS e entidades associativas, muitas vezes sem autorização expressa ou consciente dos beneficiários.
Houve prisões. Entre elas, a do ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, acusado de envolvimento em um esquema de corrupção e favorecimento de entidades conveniadas.
Houve mandados de busca e apreensão que atingiram operadores políticos e pessoas com mandato parlamentar.
O que está sob investigação (sem condenação)
O deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) foi citado em relatórios e foi alvo de medidas investigativas. Até o momento, não há condenação judicial, e sua menção decorre exclusivamente de investigações em curso.
Empresas em nome de familiares de agentes políticos aparecem como suspeitas de recebimento de valores, o que ainda está sendo apurado.
Não há, até aqui, comprovação de que bancos privados sejam os protagonistas diretos do esquema atual; o foco central recai sobre entidades associativas, intermediários e falhas institucionais do INSS.
II — O passado: a origem do consignado e o ciclo do Mensalão (2002–2005)
Voltar no tempo não é confundir fatos: é reconhecer a origem estrutural do problema.
O crédito consignado foi instituído no início do primeiro governo Lula, com a promessa de ampliar acesso ao crédito a aposentados, utilizando o desconto em folha como garantia.
O banco mineiro da origem
O Banco BMG, de Minas Gerais, foi a primeira instituição financeira privada a firmar convênio com o governo federal para operar crédito consignado para aposentados do INSS.
Esse protagonismo colocou o banco no centro de debates e investigações posteriores, especialmente no contexto do Mensalão.
O elo político daquele período
O deputado mineiro Romeu Queiroz (PTB-MG) foi condenado pelo STF por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, em razão de repasses ligados às empresas de Marcos Valério.
Parte das investigações analisou a relação entre empréstimos do BMG ao PT, contratos públicos e a expansão acelerada do consignado.
Esses fatos resultaram na Ação Penal 420, julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Trata-se de um escândalo encerrado juridicamente, ainda que suas consequências institucionais permaneçam.
III — Virgílio Guimarães, Marcos Valério e a família do banco
Outro nome central daquele período foi o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG).
Virgílio admitiu ter apresentado Marcos Valério à direção do PT no início do governo Lula.
Ele é primo de Ricardo Guimarães, então presidente do Banco BMG.
Dirigentes do banco foram denunciados por gestão temerária e operações financeiras irregulares, mas não houve prisões prolongadas nem condenações equiparáveis às de agentes políticos do Mensalão.
Anos depois, já em outro contexto histórico, o BMG firmaria acordos bilionários relacionados a práticas no cartão consignado, reconhecendo falhas e ressarcindo consumidores.
IV — O fio que não se rompe
Não se trata de dizer que os escândalos são o mesmo. Eles não são.
Mas tampouco se pode fingir que são acidentes isolados.
O que atravessa os anos é:
a fragilidade do aposentado diante de sistemas automáticos;
a opacidade dos convênios com o INSS;
a recorrente presença de operadores políticos;
a dificuldade histórica de responsabilização plena.
Os nomes mudam.
Os partidos se alternam.
As operações ganham novos nomes.
Mas quem fica — sempre — é quem depende do benefício para viver.
Quando eu morrer não deixo pena.
Pena deixo para quem fica.
E, no Brasil, quem fica quase sempre é o aposentado.
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