Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Do Velar e da Memória
Morreu neste domingo (18) Raul Jungmann, que chefiou os ministérios da Defesa (2016-2018) e da Segurança Pública (2018) no governo de Michel Temer, aos 73 anos.
Manifesto do Velar e da Memória
Por Manoel Fiel Filho, para que a mentira não vença o tempo
A vida não é neutra.
A história tampouco.
A vida vela a vida
de quem a vela.
A memória vela o futuro
de quem se recusa a esquecer.
Velar é permanecer desperto
quando o poder exige silêncio.
É cuidar da verdade
quando a mentira se veste de ordem.
É sustentar a chama
mesmo sabendo que ela consome
— sobretudo os que a carregam.
Não foi suicídio.
Nunca foi.
Foi o Estado
que bateu à noite,
que entrou na fábrica,
que arrancou um trabalhador do chão da vida
e devolveu um corpo
chamando isso de versão oficial.
Manoel Fiel Filho
era operário.
Era metalúrgico.
Era migrante.
Era comum.
E é por isso
que sua morte rompeu o disfarce.
Porque quando o terror mata um trabalhador,
não intimida apenas:
revela seu método.
Disseram “enforcou-se”.
Assinaram laudos.
Arquivaram mentiras.
Mas o corpo falava.
A esposa falou.
A história falou.
Velar não é dominar.
É não virar o rosto.
Não é gritar slogans.
É vigiar o real.
O vento sopra para todos.
Indiferente.
Bruto.
Injusto.
Mas há quem abandone a vela
e chame a deriva de destino.
Há quem abandone a memória
e chame o esquecimento de reconciliação.
A ditadura precisava parecer ordem,
mas vivia de porões.
Precisava falar em distensão,
mas operava a tortura como rotina.
Precisava de silêncio,
mas produziu mortos que falam até hoje.
A morte de Manoel Fiel Filho
não foi um excesso.
Foi um limite.
O ponto em que a farsa começou a rachar
por dentro.
Afastaram um general
não por humanidade,
mas por cálculo.
Porque o cadáver de um operário
tornava impossível fingir normalidade.
Velar é trabalho silencioso.
É gesto repetido.
É luta sem aplauso.
É recusar a mentira confortável.
É sustentar a chama
quando pedem que se apague.
Nada que importa se mantém sozinho.
Nem a vida.
Nem a democracia.
Nem a verdade histórica.
Toda chama abandonada se apaga
— não por violência,
mas por descuido.
Cinquenta anos depois,
Manoel Fiel Filho não é passado.
Ele é pergunta.
Ele é acusação.
Ele é vigília.
Toda vez que relativizam a ditadura,
ele retorna.
Toda vez que chamam tortura de “excesso”,
ele retorna.
Toda vez que pedem esquecimento em nome da paz,
ele retorna.
Porque um país que não vela seus mortos
condena os vivos.
Porque a vida só responde
a quem se compromete com ela.
Este manifesto não pede vingança.
Exige verdade.
Não cultua ódio.
Sustenta memória.
Velar a vida
é velar a história.
Velar a história
é impedir que a mentira
vença o tempo.
E enquanto houver quem vigie,
quem cuide,
quem ilumine —
a chama não se apagará em vão.
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