quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Da honra cantada à palavra que hesita

Da honra cantada à palavra que hesita Camões, Eça, Machado e Brasília: uma travessia atlântica do poder e da linguagem A literatura de língua portuguesa nasce no mar. Em Os Lusíadas, Camões transforma a navegação em destino histórico: a honra é pública, o heroísmo é inequívoco, a palavra épica organiza o mundo. A justiça, ainda que divina, é clara; o poeta canta, o sentido se fixa. Mas nenhuma navegação é eterna. Séculos depois, o Atlântico deixa de ser espaço de conquista para tornar-se metáfora de deslocamento — moral, social e linguístico. O que antes era espada passa a ser papel; o que era canto, converte-se em carta; o que era certeza, termina em hesitação. É nesse movimento que se inscrevem Eça de Queirós, Machado de Assis — e, hoje, Brasília. Eça de Queirós e a justiça como humilhação Em Os Maias, a epopeia já morreu. O mundo que Eça descreve é o de uma elite decadente, onde a honra sobrevive apenas como ritual social. O episódio da Carta de Dâmaso é exemplar. Dâmaso Salcede, personagem menor e ressentido, difama Carlos da Maia na imprensa. João da Ega, para vingar o amigo, não recorre ao tribunal nem ao duelo. Escolhe algo mais eficaz: a humilhação escrita. Dâmaso é forçado a assinar uma carta em que se declara mentiroso, caluniador, invejoso e covarde — e ainda aceita que o texto registre que assinava embriagado. A retratação não o reabilita; ela o destrói. A carta circula, e sua ruína social se consuma. Aqui, a justiça não repara: exibe. A palavra não absolve: fixa o ridículo. No final do romance, Dâmaso não desaparece. Sobrevive — mas como sobra social, figura risível, excluída do convívio que desejava frequentar. É o castigo moderno: viver sem dignidade. Machado de Assis: quando a palavra se volta contra quem escreve Machado herda esse mundo em que a honra virou linguagem, mas radicaliza o problema. Em Dom Casmurro, não há carta de retratação. Há um livro inteiro de acusação. Bentinho escreve para condenar Capitu — que nunca assina nada, nunca se defende, nunca confessa. A humilhação, agora, é unilateral e talvez imaginária. Se Eça mostra o poder destrutivo da palavra pública, Machado revela algo mais inquietante: a palavra pode destruir o próprio narrador. Bentinho não derrota Capitu. Ele se encerra num labirinto de suspeita e memória. A linguagem já não organiza o mundo; ela o corrói por dentro. É nesse ponto que surge o Conselheiro Ayres, figura tardia, diplomática, crepuscular. Ayres não acusa, não humilha, não absolve. Observa, atenua, registra. Sua ética é a da contenção. Não escreve cartas de condenação, mas diários de convivência possível. Brasília: a carta que virou enigma Chegamos, então, ao século XXI. O mar desapareceu, mas a metáfora náutica persiste. Ancoramos em Brasília, às margens do Lago Paranoá, atrás da Praça dos Três Poderes. Aqui, o poder não canta nem ironiza — explica. Ou tenta. Em uma entrevista ao vivo, um constitucionalista comenta a frase: “No meio do átrio sobre patamar supremo na nau de Dias liberando acusado depois de dias?” A análise é cautelosa. A frase é classificada como metafórica, híbrida, enigmática. Mistura arquitetura do poder, memória épica, ato jurídico e tempo simbólico. E o intérprete conclui: sem mais contexto, é impossível oferecer uma resposta exata. Estamos diante de uma Carta de Dâmaso pós-moderna. Ela não humilha definitivamente. Não absolve com clareza. Não fixa sentido. Paira. Do canto épico à hesitação institucional Camões cantava a honra. Eça administrava a vergonha. Machado problematizava a verdade. Brasília hesita diante da linguagem que produz. Se no século XIX uma carta podia destruir um homem, no século XXI a palavra jurídica parece incapaz até mesmo de concluir seu próprio gesto. O poder fala — mas já não controla plenamente o significado do que diz. Talvez esta seja a última ironia da travessia atlântica da língua portuguesa: não foi o mar que secou; foi a certeza do sentido. E, no lugar da epopeia, da sátira e da ironia, resta o intérprete cauteloso, em live, confessando aquilo que a literatura já sabia há mais de um século: a linguagem é poderosa — mas nunca inocente, nem definitiva.

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