terça-feira, 13 de janeiro de 2026

NO MEIO DO CAMINHO

Quem chora por Erfan? Tiberio Canuto
Análises políticas formuladas a partir de informações colhidas nos bastidores dos Poderes da República indicam que o cenário eleitoral de 2026 tende a reproduzir, em escala ampliada, a lógica de polarização que marcou as disputas anteriores. A atuação do núcleo mais duro do bolsonarismo, longe de enfraquecer seu principal adversário, pode novamente contribuir para a consolidação de Luiz Inácio Lula da Silva como protagonista eleitoral, ao aprofundar rejeições, estimular a abstenção e restringir a disputa a um confronto fechado entre dois polos. Nesse ambiente, marcado por antagonismos públicos e convergências tácitas, a eleição se desenha menos como uma escolha de projetos e mais como um embate de rejeições, no qual interesses cruzados, reciprocidades políticas e cálculos de sobrevivência institucional passam a desempenhar papel central. 📰 Texto reescrito e ampliado – análise jornalística **Levantamentos eleitorais preliminares sobre a sucessão presidencial de 2026 têm sido interpretados por analistas em Brasília como um indicativo de continuidade do ambiente de forte polarização que marcou as últimas disputas nacionais. As pesquisas apontam, de forma recorrente, que o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva tende a sair do primeiro turno em posição competitiva — quando não na liderança — mesmo diante de elevados índices de rejeição, em patamar semelhante ao de seus principais adversários. Esse cenário reforça a avaliação de que a eleição poderá ser definida menos por taxas de aprovação e mais pela rejeição acumulada dos campos políticos em disputa. Nesse contexto, chama atenção o fato de que o campo estritamente bolsonarista, ao manter estratégias discursivas radicalizadas e práticas políticas consideradas heterodoxas, parece aprofundar sua própria rejeição eleitoral, sobretudo em cenários de segundo turno. Para parte dos analistas, essa dinâmica levanta uma hipótese incômoda, porém recorrente nos bastidores: a de que as escolhas e posturas do núcleo mais duro do bolsonarismo acabam produzindo, ainda que de forma subliminar e não declarada, um efeito favorável ao seu principal adversário. Ao concentrar altos índices de rejeição, esse campo político contribui para que Lula, mesmo igualmente rejeitado por parcelas expressivas do eleitorado, consiga se apresentar no segundo turno como a alternativa menos rejeitada — fator historicamente decisivo em disputas polarizadas. Pesquisas qualitativas e quantitativas indicam, ainda, a possibilidade de uma expressiva abstenção, votos nulos ou brancos, estimada por alguns institutos em torno de um terço do eleitorado, reflexo do cansaço com a polarização e da descrença em ambos os polos. Esse afastamento tende a favorecer candidaturas com eleitorado fiel e consolidado, característica que, até o momento, permanece mais associada ao atual presidente. Nesse ambiente, ganha força a leitura de que a polarização extrema, longe de prejudicar Lula, pode funcionar como um ativo eleitoral indireto, ao cristalizar o confronto com um adversário que carrega rejeição estrutural elevada. O segundo turno, assim, se desenharia menos como uma disputa de projetos e mais como um plebiscito negativo, no qual vence quem desperta menor repulsa relativa. A ideia de uma reciprocidade política implícita — ainda que paradoxal — também é mencionada por analistas. O campo bolsonarista já teria desempenhado papel decisivo, em mais de uma ocasião, na reconfiguração do cenário que permitiu o retorno de Lula ao centro da disputa política. A extinção prática da Operação Lava Jato, celebrada publicamente por Jair Bolsonaro em declarações nas quais afirmou que “a Lava Jato acabou porque seu governo acabou com a corrupção”, é frequentemente citada como exemplo emblemático. A narrativa, ainda que provocativa, foi funcional ao campo político que hoje ocupa o Palácio do Planalto em seu terceiro mandato. Ao desmobilizar o principal instrumento simbólico de criminalização do lulismo, o bolsonarismo contribuiu para a reconstrução da legitimidade política de seu principal adversário. Assim, sob a ótica de parte da análise política, o que se observa é um jogo de antagonismos aparentes que, na prática, produz efeitos convergentes. A manutenção de um embate radicalizado, com rejeições elevadas e ausência de alternativas competitivas fora dos dois polos, tende a empurrar a disputa novamente para um segundo turno restrito, no qual a lógica do “mal menor” e da rejeição relativa pode, mais uma vez, favorecer o atual presidente da República.”** 📌
PÉ PYTÉRYPE Pé pytérype itá týbi. Itá i tyb pé pytérype. Itá i tyb. Pé pytérype itá týbi. Nda xe resaraîangaîxûé aîpó xe kûapagûera xe resapûeraîa rekobesagûera suíne. Nda xe resaraîangaîxûé aîpó suíne: Pé pytérype itá týbi Itá i tyb pé pytérype. Pé pytérype itá týbi. Retradução para o português: NO MEIO DO CAMINHO No meio do caminho tinha pedra. Tinha pedra no meio do caminho. Tinha pedra. No meio do caminho tinha pedra. Não me esquecerei de jeito nenhum disso pelo que passei que estava na vida de meus olhos cansados. Não me esquecerei de jeito nenhum disso: No meio do caminho tinha pedra. Tinha pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha pedra. ' E eu que esperava Nunca mais amar Nao sei o que faça Com esse amor demais .' Nao Tem Solução Dorival Caymmi Aconteceu um novo amor Que nao podia acontecer Nao era hora de amar Agora o que vou fazer? Nao tem solução Este novo amor Um amor a mais Me tirou a paz E eu que esperava Nunca mais amar Nao sei o que faça Com esse amor demais. Composição: Carlos Guinle / Dorival Caymmi.
Posfácio — Três olhares sobre o impasse O que não foi dito, mas foi desenhado. O que não foi escrito, mas foi compreendido. 🔗 Veja a imagem que traduz o texto: Confira a charge política sobre Lula e Bolsonaro no LinkedIn Posfácio — Três olhares sobre o impasse As reflexões reunidas ao longo deste texto encontram ressonância em leituras distintas, mas convergentes, que ajudam a iluminar o impasse político contemporâneo. Embora partam de campos analíticos diversos, essas abordagens compartilham a percepção de que a polarização deixou de ser apenas um fenômeno eleitoral para se tornar um traço estrutural da crise democrática. Giuseppe Vacca, ao recuperar a ideia de um “novo reformismo”, chama atenção para o esgotamento das coalizões construídas exclusivamente a partir de interesses imediatos. A política, quando dissociada de valores e de um horizonte de longo prazo, perde capacidade transformadora e passa a operar em modo defensivo. Meio ambiente, direito à informação, paz e democracia social exigem uma ação política que ultrapasse fronteiras nacionais e burocracias herdadas, mas também demandam liderança capaz de reorganizar a democracia para além do curto ciclo eleitoral. A ausência desse movimento contribui para que a polarização se cristalize como método de reprodução do poder, e não como motor de mudança. Rubens Barbosa, por sua vez, oferece um diagnóstico institucional direto e pragmático. A convergência das crises política, econômica e ética, somada à disfuncionalidade do sistema político, compromete a governabilidade e marginaliza o País no cenário internacional. O dado mais revelador, contudo, não está apenas na gravidade da crise, mas no vazio de liderança que atravessa os Três Poderes, o setor produtivo e as organizações de trabalhadores. Nesse contexto, a persistência da polarização aparece menos como escolha consciente do eleitorado e mais como consequência da ausência de alternativas viáveis. A demanda por uma candidatura situada fora dos extremos ideológicos revela um desejo difuso de superação do confronto permanente, ainda que sua materialização política permaneça incerta. Já a leitura de Hélio Schwartsman desloca o debate para um plano mais profundo, cultural e filosófico. Ao criticar a tolerância seletiva da esquerda em relação a regimes autoritários de matriz religiosa, ele expõe a permanência de um vínculo metafísico com narrativas redentoras, sejam elas religiosas ou seculares. A crença em utopias — no progresso inevitável, na redenção histórica ou em projetos civilizatórios autojustificados — enfraquece o rigor crítico e normaliza contradições. Nesse ambiente, a política deixa de ser um exercício de análise da realidade e passa a operar como reafirmação identitária, reforçando a polarização como forma de pertencimento. Tomadas em conjunto, essas três perspectivas ajudam a compreender por que o País parece avançar sem sair do lugar. A polarização extrema, longe de representar apenas um conflito entre campos antagônicos, revela a incapacidade de produzir reformas estruturais, lideranças agregadoras e um debate público desprovido de ilusões redentoras. Entre antagonismos ruidosos e convergências silenciosas, o sistema político tende a se fechar sobre si mesmo, limitando o surgimento de alternativas e convertendo a disputa eleitoral em um exercício recorrente de rejeição recíproca. É nesse sentido que o Brasil parece seguir, mais uma vez, no meio do caminho: entre a promessa de mudança e a repetição dos mesmos impasses, entre o confronto permanente e a dificuldade de superá-lo. A travessia permanece inconclusa, à espera de uma política capaz de romper o círculo vicioso da polarização e recolocar o futuro no centro do debate público.
Erfan Soltani, manifestante de 26 anos, teve sua execução marcada para quarta-feira (14) Imagem: Hengaw Organização pelos Direitos Humanos. Quem chora por Erfan? Internacional Irã marca 1ª execução de manifestante; jovem não teve advogado, diz família Do UOL, em São Paulo* 13/01/2026 14h29 Atualizada em 13/01/2026 15h06… - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/01/13/ira-marca-primeira-execucao-de-manifestante.htm?cmpid=copiaecola A iminente execução de Erfan Soltani, marcada para esta quarta-feira, 14 de janeiro de 2026, tornou-se um símbolo trágico da repressão estatal no Irã. Aos 26 anos, Soltani é apontado como o primeiro manifestante a ser executado no contexto da nova onda de protestos que tomou o país no final de 2025. Conforme detalhado em artigo de Tibério Canuto, publicado no Jornal Opção, a história de Erfan expõe, de forma crua, a face mais brutal do regime iraniano. Julgamento sumário Preso no dia 8 de janeiro, na cidade de Karaj, Soltani foi condenado à morte em apenas dois dias, acusado de “guerrear contra Deus” (moharebeh). O processo ocorreu sem direito a advogado, defesa técnica ou julgamento justo. Despedida cruel A família foi informada de que a sentença é definitiva e recebeu apenas dez minutos para a despedida final — um gesto que reforça o caráter exemplar e intimidatório da punição. Contexto de medo e intimidação Organizações como a Hengaw Organization for Human Rights e a Iran Human Rights denunciam que a rapidez da execução tem como objetivo espalhar o medo, silenciar dissidências e conter os milhões de iranianos que voltaram às ruas para exigir o fim da teocracia dos aiatolás. Enquanto o mundo observa com indignação — e, em muitos casos, com silêncio —, o texto de Tibério Canuto expõe o abandono internacional e a urgência de dar voz àqueles que, como Erfan Soltani, enfrentam a forca por clamarem por liberdade. Tibério Canuto Erfan Soltani tem 26 anos. É um entre centenas de milhares — para não dizer milhões — de iranianos que enfrentaram nas ruas a ditadura eclesiástica comandada pelos aiatolás. A vida do jovem Erfan deve chegar ao fim nesta quarta feira. O regime marcou para amanhã o seu enforcamento. Será o primeiro manifestante condenado à pena de morte, aplicada pelo método mais cruel: a forca. Se seguir a tradição da ditadura, a execução de Erfan será pública — um espetáculo de terror para servir de exemplo e impor o medo como ferramenta de repressão, numa tentativa desesperada de pôr fim às manifestações multitudinárias que varrem o Irã e devolvem ao seu povo um sopro de esperança. Erfan será o primeiro iraniano enforcado nesta jornada por democracia. Mas não será o único. Certamente outros jovens rebeldes — como foram as gerações de Maio de 1968, da Primavera de Praga, da luta contra a Guerra do Vietnã e contra as ditaduras de nuestra América — também perderão a vida, pendurados por uma corda, com seus corpos expostos em alguma praça de Teerã. Quantos Erfans ainda serão assassinados por ousarem clamar por liberdade? Não sabemos. Sabemos apenas que, desde o início das manifestações, em 28 de dezembro, já são mais de dois mil mortos — numa contagem conservadora. A oposição fala em doze mil vidas ceifadas, a esmagadora maioria de manifestantes. Esse número pode ser discutido. Mas há uma verdade insofismável: o tirano Ali Khamenei, aiatolá chefe supremo do Irã, está encharcando as ruas do país com o sangue do seu próprio povo. “Isso não é conosco”, dizem vozes cretinas, tentando justificar a omissão criminosa de setores da esquerda global — incluída a nossa — diante da barbárie praticada pela ditadura fundamentalista. Um amigo, velho companheiro do Partidão, chegou a me dizer algo mais ou menos assim: o que Lula tem a ver com essa história? Por que deveria se pronunciar sobre o que acontece no Irã? Pôncio Pilatos fez escola. Essa esquerda lava as mãos por cumplicidade ideológica. Afinal, a tirania iraniana chama o imperialismo americano de Grande Satã e Israel de Pequeno Satã. Por trás do silêncio cúmplice esconde-se um amálgama tóxico de antiamericanismo e antissemitismo que une — pasmem — a esquerda terceiro mundista e a direita fundamentalista iraniana. Quando penso que amanhã o corpo de Erfan poderá estar pendurado num poste ou numa grua, sinto nas entranhas uma revolta profunda. E uma impotência devastadora. O que podemos fazer por ele? Resta-nos chorar. Verter lágrimas. Mas também posso — e devo — desnudar a desfaçatez dos aliados enrustidos, que fazem contorcionismos retóricos para se omitir diante da ação criminosa de Ali Khamenei. Nessas horas, sempre me vem à cabeça uma passagem de “Nossos anos verde oliva”, de Roberto Ampuero. Exilado em Cuba e na Alemanha de Honecker, o autor confessa sua descrença no “socialismo real” por causa de seu caráter autoritário e, então, faz a pergunta incômoda: que categoria mental leva parte da esquerda a denunciar a tortura, o assassinato e a violação dos direitos humanos quando praticados por ditaduras de direita — e, ao mesmo tempo, a se calar quando os mesmos crimes são cometidos por regimes supostamente aliados? O regime tirânico do Irã não é de esquerda — eu sei. Mas, aos olhos de nuestra izquierda, ele é anti-imperialista e anti Israel. Isso basta para a cumplicidade silenciosa, aquela que prega a impotência com a frase: “o Regime do Irã é detestável, mas Trump é a solução?” A outra versão com o mesmo teor é a frase: “tudo bem, cai a ditadura, mas o que se coloca no lugar, Reza Pahlavi?” Há por trás desse raciocínio torto a falsa ideia de que, bem ou mal, a ditadura dos Aiatolás é a garantia da estabilidade do Irã, mesmo à custa de um banho de sangue. Como eu, você talvez esteja agora com um nó na garganta e um sentimento de impotência. Solte o choro. Chore por Erfan. Mas não perca a esperança de que um dia viveremos num mundo em que jovens possam ocupar as ruas, erguer a voz e clamar por liberdade sem o risco de terminar enforcados numa praça qualquer do Irã.

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