quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

RETRATOS EM SÉRIE

2. VERSÃO FINAL FORMATADA Caderno cultural “Em Outras Soluções” Não tem solução? Outras maneiras de ver De Caymmi e Carlos Guinle a Donato e Gil: impasse, leveza e modernidade na canção brasileira Por Dorival Nonato 🔊 Ouça “Não tem solução” (Dorival Caymmi) | 📄 Leia a letra 🔊 Ouça “Bananeira” (João Donato & Gilberto Gil) | 📄 Leia a letra Na década de 1950, o Brasil tinha poucos milionários — e alguns deles eram cultos, sensíveis e profundamente implicados na vida cultural do país. Carlos Guinle, herdeiro de uma das maiores fortunas nacionais e parceiro de Dorival Caymmi na canção Não tem solução, é um desses personagens hoje quase impensáveis. Setenta anos depois, o país acumula milhares de milionários e quase bilionários, mas raramente encontra entre eles figuras com densidade cultural comparável. A pergunta, então, se impõe: morreram os Guinles ou mudaram os fundamentos da riqueza no Brasil? O impasse como consciência Em “Não tem solução”, Caymmi e Carlos Guinle constroem uma canção de contenção extrema. O conflito não conduz à catarse, tampouco à superação. O eu lírico reconhece o excesso — de amor, de sentimento, de desordem — e constata a ausência de saída. Não há redenção. Há lucidez. O título da canção funciona como um enunciado histórico forte: não se trata apenas de um drama íntimo, mas da percepção de um limite estrutural. A consciência do impasse não gera ação; gera suspensão. 🔊 Ouça novamente “Não tem solução” 📄 Letra completa disponível online Gramsci, ideologia e hegemonia rarefeita À luz de Antonio Gramsci — relido por Giuseppe Vacca —, essa forma de consciência pode ser compreendida como sintoma de uma crise de hegemonia. Ideologia, aqui, não é discurso explícito, mas estrutura de sentimento: a percepção de que as mediações tradicionais já não operam plenamente. Carlos Guinle, enquanto intelectual amador e mecenas, pertenceu a uma elite que ainda produzia cultura como parte de sua função histórica. Quando esse vínculo se rompe, a riqueza permanece — mas a densidade simbólica se dissolve. O deslocamento moderno: “Bananeira” Décadas depois, “Bananeira”, de João Donato e Gilberto Gil, responde ao impasse não com gravidade, mas com deslocamento. Não há drama. Não há solução. Há jogo. O “não sei”, o “sei lá”, longe de empobrecimento expressivo, tornam-se forma estética. A canção não busca resolver o mundo — prefere olhá-lo de outro modo. 🔊 Ouça “Bananeira” (João Donato & Gilberto Gil) 📄 Letra completa disponível online Da tragédia à leveza crítica Se “Não tem solução” expressa a consciência trágica de um limite, “Bananeira” aceita o limite como dado e o transforma em circulação sensível. O conflito não paralisa; ele se dissolve em percepção, olhar, quintal, coração. É a modernidade brasileira operando em modo menor — e, por isso mesmo, profundamente eficaz. Em outras soluções Talvez a pergunta já não seja mais “qual é a solução?”, mas — como sugere a canção moderna — “como olhar?” Entre o impasse lúcido de Caymmi e Guinle e a leveza crítica de Donato e Gil, a canção brasileira registra, com rara inteligência histórica, a passagem de um país que buscava respostas para outro que aprendeu a habitar a indeterminação. E talvez seja justamente aí que resida, ainda hoje, uma das nossas formas mais sofisticadas de pensamento. 🔗 SERVIÇO AO LEITOR 🎧 Não tem solução — Dorival Caymmi (áudio e letra em plataformas digitais) 🎧 Bananeira — João Donato & Gilberto Gil (áudio e letra em plataformas digitais) S Não Tem Solução Dorival Caymmi - Tema 15 de nov. de 2015 Provided to YouTube by Universal Music Group Não Tem Solução · Dorival Caymmi Retratos ℗ 1955 EMI Music Brasil Ltda Released on: 2004-01-01 Producer: Milton Miranda Composer Lyricist: Dorival Caymmi Composer Lyricist: Carlos Guinle Auto-generated by YouTube. Música 1 músicas Não Tem Solução Dorival Caymmi Retratos Nao Tem Solução Dorival Caymmi Série Retratos: Dorival Caymmi Aconteceu um novo amor Que nao podia acontecer Nao era hora de amar Agora o que vou fazer? Nao tem soluçao Este novo amor Um amor a mais Me tirou a paz E eu que esperava Nunca mais amar Nao sei o que faço Com esse amor demais. Compositores: Carlos de Oliveira Rocha Guinle (Carlos Guinle)

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