quarta-feira, 7 de outubro de 2026

“O segundo turno não faz ninguém acreditar em Deus mas faz temer o diabo.”Bom dia!

Questão de Tempo Nara Leão Há de navegar, Há de navegar, Há de navegar, Pelas ondas desse mar. Alguém há de ouvir, A história disso aqui, Há tanta esperança, Manda uma lembrança, Dessa terra nua, Dessa gente boa, Dessa mesa farta, Da conversa à toa, Que vai ser a gota, Dentro dessa vida, Ouça minha amiga, É questão de tempo. Há de navagar, Há de mavagar, Há de navagar, Pelas ondas desse mar. Alguém há de encontrar, De cara se espantar, Com toda essa história, Guardada na memória, E vai ser de um jeito, Sem botar defeito, E que vai crescendo, Feito labareda, Que vai ser um grito, No meio da cidade, Ouça meu amigo, É questão de tempo. Há de navagar, Há de mavagar, Há de navagar, Pelas ondas desse mar. Composição: Kleiton.
Nos artesãos políticos de 1974 👆 “Se é bom conselho pensar no futuro sem esquecer o passado, uma das questões a decidir é se pensaremos em 2030 e mais além com os olhos da memória postos nos heróis combatentes de 1968 ou nos artesãos políticos de 1974. Sinto-me, como sempre, alistado entre esses últimos, e o resultado parcial dessa eleição não muda essa atitude; antes, a reforça.” Paulo Fábio Dantas Neto, 6 de outubro de 2026 Sobre “pós-tudo”: o que já está posto e o que está por vir, por Paulo Fábio Dantas Neto*
terça-feira, 6 de outubro de 2026 ‘Há duas questões centrais em jogo: em primeiro lugar, a democracia’, por Sérgio Abranches Valor Econômico Há, para mim, duas questões centrais em jogo. Em primeiro lugar, a democracia. O ponto, digamos, mais profundo de risco à democracia é a negação da tentativa de golpe de 2022 por Flávio Bolsonaro. A crise no STF completou o processo de esgarçamento institucional. O presidencialismo de coalizão está paralisado com o desequilíbrio nas relações Executivo/Legislativo. O resultado das eleições para o Congresso agrava esse quadro com uma bancada expressiva de extrema-direita. E a crise no STF atinge a capacidade de mediação e resolução de conflitos entre os dois Poderes. O resultado das eleições para o Congresso agrava esse quadro com uma bancada expressiva de extrema-direita. O segundo tema crucial é a preparação do país para a travessia na longa transição estrutural global iniciada pela revolução digital. Trata-se de uma metamorfose global que mudará significativamente a política e a economia na construção da sociedade digital. Cada país terá que encontrar o seu caminho, enfrentando as dificuldades da transição e se aproveitando das oportunidades de mudança nos padrões de produção, consumo, trabalho, educação e representação política. A começar por saber usar e controlar a IA, nosso desafio imediato. Chico Buarque | Bom Tempo (Áudio Oficial) | Que Tal Um Samba? Biscoito Fino
@profFelipeNunes Felipe Nunes @profFelipeNunes 1/ A reação das pessoas ao resultado de domingo só confirma a tese do 'viés de confirmação'. Cada um estava a procura de confirmar seu viés: de um lado a crença de que ia vencer no 1º turno, do outro a crença de que as pesquisas estavam erradas. As evidências são ignoradas. Pare e olhe para esse gráfico. Agora abra seu browser e escreva 'o que é o voto útil?'. A Ciência Política explica o que aconteceu no domingo e que foi capturado nas pesquisas. E não é nem o que um lado acha, muito menos o que o outro acredita. Aproximadamente 7pp dos eleitores de direita que estavam no Cury, Caiado, Renan e Zema abandonaram essas candidaturas e anteciparam o voto em Flávio pra evitar que o Lula vencesse, que era o que eles estavam com medo que acontecesse. Isso aconteceu entre 28/9 e 03/10. O restante é residual... Todos esses elementos estão na pesquisa. É ciência política pura! Mas tem mais... 13:04 · 6 de out. de 2026 · 89,9 mil Visualizações
"It's better to be happy than to be sad Joy is the best thing there is It's like light in the heart" BETTER TO KNOW THAN TO LIVE IN DELUSION «Лучше быть несчастным, но знать, чем счастливым и жить… в дураках.» “Better to be unhappy and know, than to be happy and live… like a fool.” — Ippolit Terentyev, The Idiot (Идиот) Fyodor Dostoevsky, Part IV, Chapter V A brief literary-historical note In The Idiot, Dostoevsky places these words in the mouth of Ippolit Terentyev, a young, gravely ill and intellectually restless character who confronts Prince Myshkin with uncomfortable questions about happiness, knowledge and self-deception. The remark occurs during their conversation in Part IV, Chapter V: Ippolit argues that painful knowledge may be preferable to a happiness founded on ignorance or illusion. ru.wikisource.org The Russian «в дураках» is more literally “like a fool” or “being made a fool of”; the familiar English rendering “in a fool's paradise” captures the sense of living happily under an illusion, but is interpretive rather than literal. Thus, the quotation should be attributed to Ippolit, while The Idiot and its literary authorship belong to Fyodor Dostoevsky. ru.wikisource.org DOSTOEVSKY · THE IDIOT · 1869 Texto original em russo — Ф. М. Достоевский, «Идиот», Parte IV, Capítulo V
quarta-feira, 7 de outubro de 2026 O caminho mais seguro para perder uma eleição presidencial, por Wilson Gomes Folha de S. Paulo Confundir merecimento com voto e certezas com realidade é caminho seguro para a derrota Se é preciso virar um jogo, o eleitor decisivo é justamente aquele que não fala a sua língua Vamos supor que você queira disputar uma eleição presidencial numa situação em que quase metade do eleitorado diz que não votaria em você em hipótese alguma. O país está ávido por mudança, mas esta é a sétima vez que você concorre ao mesmo cargo. É verdade que seu adversário tem rejeição semelhante. Mas há uma diferença importante: é você quem governa o país. É de você que se cobram os problemas que continuam sem solução e as coisas que as pessoas acham que um governo deveria entregar. Para piorar, há mais brasileiros avaliando negativamente a sua administração do que aprovando-a. Por outro lado, você tem um público fiel, em torno de 30% do eleitorado, e pode somar mais uns 15% com simpatizantes. É um cacife eleitoral suficiente para você não ceder o seu lugar para outro companheiro, caso não queira, apesar da fadiga de material e do enfado com mais uma campanha. Diante dessas condições, qual seria o caminho mais seguro para perder a eleição? Um bom começo seria convencer-se de que você vai ganhar a eleição porque é o mais merecedor —considerada a sua história, o seu legado em outros mandatos e os seus valores. Ou de que o adversário não merece ser eleito porque não reúne qualidades comparáveis com as suas. Estabelecido isso, dedique a campanha a mostrar sua trajetória e defender seu legado, forçando o seu eleitor a olhar para trás, sem se importar com o que ele sente no presente nem com o que teme do futuro. Não busque entender quem já disse que não gosta de você. Desconsidere suas razões se elas não refletirem os seus valores, suas prioridades ou a agenda do seu grupo. Parta do pressuposto de que os eleitores têm que aceitá-lo como é. Não busque entender o mundo ao redor. Limite-se às suas crenças sobre o que as pessoas precisam e o que consideram urgente. Acredite que nada há mais que você possa aprender com outros pontos de vista, outras situações existenciais ou, até, com quem adota valores muito diferentes dos seus. Cerque-se de amigos que pensam exatamente como você, afaste-se dos que o desafiam e, sobretudo, nunca teste as suas ideias no atrito com pessoas que pensam diferentemente ou não gostam de você. Desconsidere quem prefere o seu adversário e adota perspectivas opostas às suas. Numa eleição polarizada, com dois candidatos sustentados por eleitorados enormes, não vale a pena se rebaixar a ponto de ouvir e respeitar essas pequenas faixas de cidadãos que ainda poderiam mudar de lado. Posto que sua oferta eleitoral é moral e intelectualmente superior, quem não a reconhece certamente padece de algum defeito de informação, inteligência ou caráter. Chame-os de feios, sujos e malvados —não trará votos, mas será um agrado para os seus. Fale dos assuntos que todos já reconhecem como seus: programas sociais, pobreza, desigualdade, minorias, justiça social. Quanto aos temas que não fazem parte do repertório tradicional do seu campo, não se atormente. Mudanças no mundo do trabalho, produtividade, política industrial, contas públicas, crescimento econômico, empreendedorismo ou desesperança juvenil podem esperar. Evite assuntos em que seu grupo costuma ter respostas menos convincentes: segurança pública, violência urbana, corrupção ou o desgaste político e moral do Supremo. Não se preocupe em descobrir quais são realmente os principais problemas nacionais na cabeça dos eleitores. Tente distraí-los com os seus temas prediletos. É importante que você suponha que todos os cidadãos compartilham o repertório e a linguagem do seu grupo ideológico. Por fim, faça você mesmo sua comunicação eleitoral. Não dê muita importância a pesquisas qualitativas, profissionais especializados ou estratégias diferentes para públicos diferentes. Se você já conhece o país, compreende o povo, domina a política e sabe do que os cidadãos precisam, por que alguém haveria de conhecer melhor do que você a mensagem capaz de convencê-los? Creio que esse seja um manual confiável para o fracasso eleitoral. Mas é também uma lição para quem precisa acertar o passo. Não se ganham eleições apenas porque se acredita ser o mais merecedor, nem os eleitores têm obrigação de votar em quem julgamos melhor. Se é preciso virar um jogo que se está perdendo, o eleitor decisivo é justamente aquele que não fala sua língua, não compartilha suas prioridades nem sequer gosta de você. É possível desprezá-lo, corrigi-lo ou tentar, arrogantemente, educá-lo. Só não convém esquecer que será preciso entendê-lo antes de tentar convencê-lo e respeitá-lo antes de tentar mudar o seu voto.
quarta-feira, 7 de outubro de 2026 Entrevista | Antonio Lavareda: ‘Voto para presidente não mostra revolução de direita’, por Hugo Henud O Estado de S. Paulo Cientista político atribui o revés de Lula no 1.º turno à abstenção e ao pessimismo econômico Sociólogo, é professor colaborador da pós-graduação em Ciência Política da UFPE e especialista em comportamento eleitoral A dianteira de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno não representa, na avaliação do cientista político Antonio Lavareda, uma “revolução de direita” no voto presidencial. Para Lavareda, pequenos deslocamentos do eleitorado em relação a 2022 foram suficientes para produzir um resultado politicamente expressivo e colocar o senador à frente do presidente na disputa pelo Palácio do Planalto. “Aqueles que interpretam que houve uma grande revolução de direita podem usar outros parâmetros, mas o voto presidencial não mostra isso”, diz. Em entrevista ao Estadão, Lavareda afirma que a abstenção ajuda a explicar por que a vantagem de Lula registrada por pesquisas às vésperas da votação não apareceu nas urnas. Para o segundo turno, Lavareda afirma que uma virada de Lula é possível, embora difícil, e exigiria movimentos em três frentes: recuperar parte dos eleitores que se abstiveram, disputar os votos das candidaturas eliminadas, em sua maioria, segundo ele, de perfil conservador, e avançar inclusive sobre quem escolheu Flávio no primeiro turno. Leia os principais trechos: Como avalia o que aconteceu no primeiro turno? O que me surpreendeu menos foi o voto presidencial. Eu já imaginava e já tinha comentado, dias antes da eleição, que não me surpreenderia. Eu dizia que a chance de Lula vir em primeiro lugar era de 60%, mas havia 40% de chance de Flávio aparecer em primeiro lugar. Por quê? Porque a distância era muito estreita e a abstenção, supunha, iria comer parcela bastante razoável dos votos do presidente Lula, tal como havia ocorrido em 2022. É exatamente isso que explica por que o resultado das pesquisas não foi confirmado. Foi, mais uma vez, a abstenção, que é muito difícil de detectar nas pesquisas. Então, isso não me surpreendeu. É possível identificar os erros de Lula para não conseguir impor a vantagem que geralmente um candidato à reeleição tem? Olha, há erros da campanha, mas também erros do governo. O incumbente, quando perde a eleição, dificilmente é apenas por conta da comunicação da campanha. A comunicação “Flávio teve apenas 2,7 pontos sobre o eleitorado total a mais que seu pai quatro anos atrás, e Lula declinou 2,66 pontos em relação à votação que teve quatro anos atrás. São pequenas quantidades, mas que têm efeitos políticos notáveis” do governo é mais importante até do que a comunicação da campanha, no caso do incumbente. Minha experiência diz que o governo Lula deixou passar, desde 2024, incólume a percepção da maioria da opinião pública de que a economia do País seguia no rumo errado. O governo não enfrentou essa questão. Quando chega a campanha eleitoral, uma parte importante da população que via o País indo na direção errada foi atraída com relativa facilidade pelo discurso de mudança, de transformação, do candidato oposicionista. Aqueles que interpretam que houve uma grande revolução de direita podem usar outros parâmetros, mas o voto presidencial não mostra isso. Flávio teve apenas 2,7 pontos sobre o eleitorado total a mais que seu pai quatro anos atrás, e Lula declinou 2,66 pontos em relação à votação que teve quatro anos atrás. Ou seja, são pequenas quantidades, mas que têm efeitos políticos notáveis. E esse resultado afasta bastante o presidente Lula da condição de favorito para o segundo turno de 2026. Essa campanha do segundo turno começa com o franco favorito, que é o senador Flávio Bolsonaro. O problema estaria mais na percepção sobre a economia? A literatura diz que o que preocupa mais o eleitor, o que influencia mais seu voto, é a percepção sobre o rumo do País. E como é que ele formula a sua convicção sobre o rumo do País? A maior parte do eleitorado é de baixa renda, baixa escolaridade. Pelo que ele ouve no noticiário, etc. Então, “o País está endividado”, “nunca o Brasil esteve tão endividado”, “nunca as pessoas estiveram tão endividadas”, etc. Ou seja, o noticiário, que é frequentemente, predominantemente negativo sobre a economia do País, acaba impregnando a avaliação de cada um desses indivíduos. É possível Lula conseguir essa virada? O que ele precisa fazer nas três semanas de campanha? Um candidato como Lula, que sai em segunda colocação, tem que cumprir algumas tarefas. Tem que tentar recobrar um pouco o voto, a participação de eleitores dele que se abstiveram no primeiro turno. Sem sombra de dúvidas, é absolutamente legítimo supormos que a maior parte, a parte predominante dessa abstenção, é de eleitores de Lula. Ele, então, precisa resgatar parte desses eleitores. Precisa disputar o voto daquele contingente que apoiou outros candidatos. É muito difícil ele conseguir uma maioria, porque, obviamente, eram candidatos conservadores e, como tal, seus eleitores, na maior parte dos casos, também são conservadores. E, terceiro, ele precisa mais. Ele precisa até conquistar votos do próprio Flávio Bolsonaro. É possível isso? Pode parecer impossível. Mas Lula conseguiu fazer isso em 2006. Em 2006, no segundo turno, Geraldo Alckmin teve 2,5% dos votos válidos a menos no segundo turno. Então, são três tarefas e é a esse esforço que a campanha deve se endereçar. As chances não são as maiores, mas, de fato, também não se pode dizer que não existam. Como o senhor interpreta o avanço do PL no Senado e na Câmara? A votação maciça do PL para o Senado, que aliás já estava mais ou menos estampada em algumas pesquisas, se deu por um alinhamento entre o voto nacional e o voto local, o voto do Senado. O PL entregou ao eleitor uma compreensão sobre o papel do Senado. As pesquisas qualitativas e quantitativas mostram que os eleitores não sabem exatamente discernir o que fazem os deputados federais e o que fazem os senadores. O PL tornou inteligível o papel de um senador. Que papel era esse, de imediato? Era fazer uma limpeza no Supremo, fazer impeachment dos ministros do Supremo. Então, a partir dos escândalos recentes envolvendo o nome do Supremo, essa onda levou à votação maciça de candidatos bolsonaristas para o Senado.
quarta-feira, 7 de outubro de 2026 As ilusões perdidas, por Marcelo Godoy O Estado de S. Paulo A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o MDB fazia com as siglas da esquerda Ao fazer o retrato inicial de Lucien Chardon, o jovem de origem modesta que aspirava à aristocracia adotando o nome da mãe – Rubempré –, Balzac escreveu que suas “belas ilusões da juventude” ainda não “haviam sido afetadas pelos desejos e pelas dificuldades da vida”. Lucien reencontrava suas recordações, suas ilusões e seus vinte anos ao voltar à sua terra. Esse parece o caso, em cada eleição, das principais forças políticas do País. Seria preciso um Balzac para demonstrar como a terceira via se iludiu durante quatro anos ao se juntar aos Bolsonaros em cada manifestação da Avenida Paulista em vez de lhes disputar a hegemonia na oposição? Quem passou a vida vendo a banda passar sai da urna da mesma forma que entrou. Ou pior: desempregado. Esperidião Amin que o diga. A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o velho MDB tratava as siglas de esquerda que abrigava nos anos 1980: uma turma do barulho, mas que lhe trazia votos. O bolsonarismo se estabiliza no centro do poder como, nos anos 2000, nem o petismo conseguiu. E surge nova ilusão na 3.ª via: achar outra vez que esse movimento pode ser normalizado ou controlado em suas pulsões. Liberais cometeram esse erro na Europa em relação à ultradireita. Lei e ordem não eram limites para Viktor Orbán. Em vez de se preparar como alternativa aos Bolsonaros, há quem deixe a prudência e o cálculo de lado. Caiado, Kassab, Eduardo Leite e outros têm pouco a ver com as práticas do bolsonarismo. Pode-se perguntar: quem acredita que o entorno carioca de Flávio não estará presente em um futuro governo? Kassab é um dos que não creem, assim como Leite. Nenhum deles parece assinar um cheque em branco a quem, no passado, demonstrou o mesmo populismo fiscal que todos apontam no oponente. Enfim, pode-se dizer que, do outro lado, está Lula e tudo o que ele representa. Todos nesta eleição sabem o que os dois candidatos no 2.º turno são. Ninguém pode alegar desconhecimento de seus passados, de seus entornos, de suas políticas e das consequências de suas escolhas ideológicas. Quais valores éticos e morais cada um representa. Para o bem e para o mal. É difícil crer que exista alguém iludido. E nenhum colunista, por mais vaidoso, pode ter a pretensão de que seu texto tenha o mesmo efeito que os nomes para a antiga aristocracia. Ainda assim, Pedro Parente e Moreira Salles estão debatendo. Nenhum deles é como o jovem Lucien. Todos já perderam suas ilusões, fizeram escolhas. Ninguém deseja o destino do personagem de Balzac. O eleitor pode entregar o País a quem lhe aprouver, mas ainda é preciso lembrar que há diferença entre democracia e republicanismo.
quarta-feira, 7 de outubro de 2026 Lula e Flávio representam dois projetos de nação que dividem o Brasil, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense O segundo turno não será apenas o confronto entre os dois candidatos mais votados. As urnas deslocaram a expectativa de poder de Lula para Flávio Bolsonaro O segundo turno da eleição brasileira mobiliza complexos interesses. Terras-raras, energia, alimentos, dados, infraestrutura e Amazônia integram a disputa entre Washington e Pequim. Uma vitória de Flávio Bolsonaro aproximará Brasília da agenda de Trump, encurtando a distância política que Lula preserva. O comércio com a China dificulta uma ruptura, mas cresce a pressão por um realinhamento diplomático radical. O Brasil vive uma encruzilhada geopolítica e, ao mesmo tempo, de modelo de desenvolvimento: negociar sua inserção como produtor de tecnologia e bens de maior valor ou ampliar o papel de fornecedor de produtos agrícolas e recursos minerais estratégicos. A aproximação americana pode trazer investimentos, mas restringir as alternativas. Em contrapartida, a autonomia que Lula defende precisa produzir resultados. A diplomacia não supera, sozinha, a dependência tecnológica. Mesmo enfraquecido pela ultrapassagem por Flávio, o governo Lula ainda concentra muito poder, quando nada porque arrecada, normatiza e coage. Entretanto, a expectativa de poder mudou de lado e, agora, na medida em que a votação se aproxima, pode ser maior até do que a força do Estado. Essa mudança de correlação de forças já chegou ao “pântano” da política, formado por alianças pragmáticas, interesses orçamentários e projetos de sobrevivência, que começam a recalcular sua posição. Quem se aproximou do Planalto e apostava na reeleição pode procurar outro porto. É uma tendência, não ainda uma deserção consumada de toda a base. A ampliação do PL para 121 deputados e uma bancada prevista de 28 senadores em 2027 reforça essa atração. Lula, se reeleito, encontrará um Congresso mais adverso; Flávio tenta apresentar a convergência com o Legislativo como garantia de governabilidade. Isso não assegura obediência parlamentar, mas altera o sistema de alianças. Lula representa uma alternativa ancorada na combinação de direitos constitucionais e pluralismo. Suas raízes estão nas lutas sindicais, na resistência à ditadura e no pacto de 1988. Essa matriz aproxima social-democracia e reformismo popular, embora imponha acomodações com forças conservadoras e Lula seja uma liderança carismática e personalista. Sua maior contradição é depender de negociações opacas e interesses particulares do Centrão. Realinhamento Flávio representa uma direita nacional-conservadora, com tendências “iliberais” herdadas do bolsonarismo, portanto, saudosista do regime militar e do chamado “milagre econômico”. A soberania popular é invocada para fortalecer o governante contra instituições intermediárias, promete um governo de maioria em conflito com as minorias e políticas igualitaristas. Suas raízes incluem o anticomunismo, a tradição de tutela militar e o conservadorismo religioso, reorganizados pelas redes sociais. O poder plebiscitário possibilita ao líder reivindicar interpretar o “povo” contra as instituições. A “economia do afeto” de Lula combina mercado, proteção social e Estado indutor. Herdou a tradição desenvolvimentista de Vargas e da Cepal, especialmente de Celso Furtado, matriz de seu repertório teórico: industrialização, investimento público e redução das desigualdades. Flávio defende liberalização econômica e autoridade política: privatizações, desregulação, contenção do gasto e protagonismo empresarial. Tem mais afinidades com Trump, que combina nacionalismo, tarifas e intervenção. No plano social, a esquerda enfatiza direitos, redistribuição e serviços públicos. A direita privilegia família, religião, empreendedorismo e ordem, sem necessariamente abandonar transferências de renda. São respostas distintas à insegurança: proteção coletiva ou autonomia individual amparada por autoridade. A clivagem da segurança favorece a oposição nesta eleição. Quem ganhar, porém, terá que apresentar os mesmos resultados quanto ao trabalho precário, ao crime e à frustração dos jovens. Além disso, o segundo turno não será apenas o confronto entre os dois candidatos mais votados. As urnas deslocaram a expectativa de poder de Lula para Flávio Bolsonaro. Com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente, o senador ganhou a iniciativa. A diferença é reversível, mas altera cálculos políticos, econômicos e internacionais. Hoje, as democracias representativas enfrentam a cobranças por respostas rápida; negociação parlamentar, controle judicial e participação social são apresentados como obstáculos à eficiência dos governos. O “iliberalismo” nasce dessa promessa de eficiência sem controles. Conserva eleições, mas procura enfraquecer o pluralismo, a imprensa, as minorias e os contrapesos institucionais. Hungria, Rússia e Turquia expressam graus distintos de fechamento político. Com Trump, entretanto, os Estados Unidos se tornaram o principal centro de projeção internacional. Há uma deterioração acelerada da democracia americana. A potência que difundia instituições liberais passou a irradiar impulsos autoritários. Nesse contexto, a eleição brasileira mobiliza grandes interesses internacionais. Terras-raras, energia, alimentos, dados, infraestrutura e Amazônia integram a disputa entre Washington e Pequim. Uma vitória de Flávio tenderia a aproximar Brasília da agenda de Trump, reduzindo a distância política que Lula preserva. O comércio com a China dificulta uma ruptura, a pressão por um realinhamento geopolítico do Brasil pode ser inexorável.
O artigo de Luiz Carlos Azedo analisa o cenário político brasileiro para o segundo turno presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, destacando a disputa entre dois projetos de nação e os impactos geopolíticos. Como contraponto a essa tensão política, a canção "Bom Tempo" de Chico Buarque expressa o anseio por alívio e dias mais tranquilos. Você pode encontrar o áudio oficial e a letra completa da música nos seguintes links: • YouTube • YouTube Osesp apresenta: "O Trenzinho do Caipira", de Heitor Villa-Lobos RODA VIVA | CARLOS MELO | 05/10/2026 106.921 visualizações Transmitido ao vivo em 5 de out. de 2026 Roda Viva | 2026 O Roda Viva recebe, nesta segunda-feira (5), o cientista político e professor do Insper Carlos Melo para analisar o resultado das urnas no domingo. Com apresentação de Ernesto Paglia, o Roda Viva vai ao ar, ao vivo, às 22h, na TV Cultura, com transmissão simultânea pelo YouTube e pelo site oficial da emissora. 00:00 - Apresentação e Introdução 08:19 - Reforma do STF 10:12 - Antipetismo e Antibolsonarismo 17:41 - Expectativas para o Segundo Turno 21:21 - Interregno e Mudanças Globais 25:34 - Erros do Governo e do PT 40:07 - Disputa com Jovens e Mulheres 47:17 - Congresso e Executivo 01:04:13 - Relação com os Estados Unidos 01:14:01 - Religião e Política #RodaViva #TVCultura #SomosCultura #CarlosMelo

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