Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
domingo, 25 de outubro de 2026
ÀS REGRAS: “As regras do jogo, por Luiz Sérgio Henriques*”
Nana, Dori e Danilo Caymmi - Marina (DVD Para Caymmi - Ao Vivo)
Warner Music Brasil
11 de ago. de 2019
Parte do DVD histórico “Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo”, gravado em 2004 como homenagem aos 90 anos do mestre Dorival Caymmi, que acaba de ser disponibilizado na íntegra em nosso canal para marcar o Dia dos Pais. Assista ao DVD completo: http://bit.ly/NDDnlCaymmi
FRANCISCO ALVES - MARINA
Estudio78RPM (Otacílio)
MARINA - SAMBA CANÇÃO de DORIVAL CAYMMI com FRANCISCO ALVES e ORQUESTRA ODEON - DIR.: LÍRIO PANICALI. Disco ODEON Nº 12.773-b. Matriz 8191. Tamanho 25cm. Gravado em 11/03/1947. Lançado em maio de 1947. * Dorival Caymmi ao sair de casa e despedir-se de seu filho Dorivalzinho recebeu deste a frase: "Estou de mal" e Dorival foi para as compras com aquela frase a lhe martelar os ouvidos; Quando regressou das compras vinha já com a composição pronta.
No artigo publicado em O Estado de S. Paulo, Luiz Sérgio Henriques analisa os riscos que o avanço da extrema direita representa para a democracia, no Brasil, nos Estados Unidos e em outras nações ocidentais. O autor destaca que a essência da democracia não está apenas na realização de eleições, mas, sobretudo, no respeito às regras institucionais, à Constituição e aos resultados das urnas, mesmo quando desfavoráveis aos próprios interesses políticos.
Recorrendo aos episódios de invasão do Capitólio, em janeiro de 2021, e aos atos golpistas de Brasília, em janeiro de 2023, o articulista demonstra como a rejeição das derrotas eleitorais e as tentativas de concentração de poder ameaçam os fundamentos democráticos. No caso brasileiro, considera que a responsabilização dos envolvidos nos ataques às instituições confirma a capacidade de resistência da ordem constitucional, embora não elimine os riscos de novas investidas contra ela.
Henriques também critica propostas que possam favorecer a alteração das regras constitucionais em benefício de interesses pessoais ou eleitorais. Ao final, defende que democratas de todas as correntes políticas — esquerda, centro e direita constitucional — superem suas divergências e reconstruam um compromisso comum com a democracia, isolando os extremismos e preservando a integridade das instituições.
A mensagem central do artigo é inequívoca: na democracia, não basta disputar o poder e vencer eleições; é indispensável respeitar as regras do jogo, aceitar as derrotas e garantir que nenhum governante esteja acima da Constituição.
As regras do jogo - Estadão
O artigo de Luiz Sérgio Henriques publicado no O Estado de S. Paulo argumenta que a preservação da democracia exige o compromisso incondicional com as regras do jogo eleitoral diante do avanço de uma extrema direita subversiva. O texto destaca que a estabilidade institucional brasileira permanece vigente, mas alerta contra tentativas de manipular normas constitucionais e enfatiza a necessidade de um cordão sanitário democrático contra o extremismo. Você pode ler a análise completa em O Estado de S. Paulo.
domingo, 25 de outubro de 2026
As regras do jogo, por Luiz Sérgio Henriques*
O Estado de S. Paulo
Não é possível escolher o terreno da luta, mas pode-se fixar o objetivo comum de restabelecer a integridade do espectro político
Não é nada incomum, na política e na vida, ter de agir sob a pressão inclemente da força das coisas. Num momento em que a recessão democrática se espalha em países-chave do Ocidente, é obrigatório valorizar os fundamentos mais elementares da nossa crença comum ou, para ser mais enfático, da nossa escolha de vida. Somos democratas – de esquerda, direita ou centro – e nos habituamos a considerar como intocável o compromisso com eleições justas e livres, embora os fins pelos quais lutamos possam divergir. Numa formulação um tanto mais teórica, por princípio interessa-nos menos o resultado do jogo do que as regras sob as quais ele é jogado.
A espantosa novidade dos nossos dias é o surgimento de uma extrema direita abertamente subversiva, que, violando regras, se lança sobre todas as instâncias da ordem democrática, sem exclusão das estritamente liberais. Pode até acontecer a eleição regular de um líder supremo, desde que se preserve a ligação direta com as massas. Por isso, logo em seguida, busca-se corroer os instrumentos liberais que limitam o poder pessoal e atuam como freio à autocratização. A ascensão aparentemente irresistível dessa nova direita, respeitadas as particularidades dos mais variados contextos, indica que ela não é o resultado da ação fortuita de líderes talentosos ou adversários destituídos de capacidades mínimas, ainda que uns e outros de fato existam.
Deixemos de lado as condições de possibilidade da “direita revolucionária” e examinemos os casos críticos do Brasil, hoje, e dos Estados Unidos, com as eleições legislativas de 3 de novembro. As vicissitudes que atingiram as duas maiores democracias americanas confirmam, além de qualquer dúvida razoável, o elevado risco que correram – e correm. O presidente Donald Trump invariavelmente se autoproclama vencedor integral de três eleições seguidas, quando só numa delas, em 2024, levou a melhor tanto no voto popular quanto no colégio eleitoral. E o motim deflagrado contra o Capitólio, em janeiro de 2021, por ocasião da derrota para o presidente Joe Biden, serviria como modelo insurrecional para os fatos de Brasília em janeiro de 2023, ao se frustrar a reeleição do então presidente Jair Bolsonaro.
É preciso reconhecer nisso a transgressão de mais uma pedra fundamental da nossa crença, estabelecida com acuidade por Adam Przeworski. A democracia, segundo este cientista político, é “o sistema em que partidos perdem eleições” e, por isso, são absolutamente ilegítimos atos insanos ou desesperados. As palavras de Przeworski parecem modestas e são cortantes. Sugerem recuo para uma definição mínima e, na verdade, estabelecem um ponto além do qual a forma de vida já é outra, moldada pelo que tem sido o “subversivismo elementar” de boa parte dos maiores responsáveis pela grande transformação em curso.
À luz dessa concepção mínima, o Brasil continua a ser uma democracia. Realiza eleições regulares, faz prevalecer seus resultados e dispõe de instituições capazes de responsabilizar quem tentou subvertê-los. As condenações pelos atos de Brasília, longe de desmentirem essa condição, confirmam a vigência da ordem constitucional. Nem os escândalos e desvios que atingem a República autorizam a conclusão contrária. Mas seria imprudente supor que uma Constituição nascida das lutas contra o arbítrio esteja imune a novas tentativas de alterar as regras do jogo.
Por este motivo, não faz parte do repertório legalmente constituído – e, portanto, por si só causa justificada apreensão – a mal-ajambrada pretensão de reforma constitucional veladamente exposta pelo senador Flávio Bolsonaro. A pretexto de liquidar o instituto da reeleição e abrir mão da disputa em 2030, o senador parece reivindicar – ou deixar ao acaso de eventual maioria legislativa – a extensão de hipotético mandato que agora conquiste. Ainda uma vez, o que se evidencia é tanto a tentação de obter um resultado altamente questionável quanto o desprezo cínico pelas regras do jogo. Mandatos legítimos, uma vez conquistados, não devem ser prorrogados depois de conferidos pelas urnas.
Para sair da conjuntura crítica, os democratas de todo o espectro – aqui, nos Estados Unidos e em muitos outros países – enfrentam suas próprias contradições e dificuldades. O centro político, por exemplo, está em retirada, incapaz como foi de uma candidatura presidencial que funcionasse como alternativa. A direita constitucional está desafiada continuamente a se afastar da nova direita subversiva. E a esquerda, muito variada internamente, nem sempre escapa à tentação suicida de uma polarização catastrófica para os fins de mudança social a que aspira.
Não é possível escolher o terreno da luta, mas pode-se fixar o objetivo comum de restabelecer a integridade do espectro político, com independência das siglas que o componham. O intuito é refazer, o quanto antes, aquele “cordão sanitário” em torno do extremismo – aliás, não só de direita – que ajudou a preservar as democracias modernas.
Entre estas, afinal, com altos e baixos, nos situamos orgulhosamente desde 1988.
*TRADUTOR E ENSAÍSTA, É COEDITOR DAS ‘OBRAS’ DE GRAMSCI NO BRASIL
domingo, 25 de outubro de 2026
Lula ou Flávio, a sorte, as virtudes e o papel do indivíduo na história, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Todo aventureirismo é perigoso. O governante sem limites é aquele que considera legítimo remover qualquer obstáculo à própria vontade
“Aquele que menos se apoiou na sorte reteve o poder mais seguramente.” A advertência de Nicolau Maquiavel, no capítulo VI de O príncipe (Hemus), merece reflexão neste domingo. Conquistar o governo e saber governar são capacidades distintas. As circunstâncias podem abrir as portas do poder a quem não construiu os meios para exercê-lo. A virtù permite aproveitar a fortuna e enfrentar suas consequências. Essa correlação ajuda a compreender a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, que aspira à Presidência.
Para o pensador florentino, virtù não significa bondade, pureza de intenções ou obediência à moral religiosa, mas capacidade política, ou seja, discernimento, coragem, flexibilidade e competência para agir diante das circunstâncias. Já a fortuna são essas contingências, abrange acontecimentos que escapam à vontade do governante. Nenhum dirigente controla integralmente o destino, mas é possível se preparar para as tempestades e aproveitar os ventos favoráveis.
Diante dessa lição de Maquiavel, qual é o papel do indivíduo na história? Atribuir tudo aos grandes personagens subestima os movimentos sociais que os embalam. Submetê-los integralmente a forças impessoais também falseia a compreensão dos acontecimentos. Entre o carisma do líder e o peso das estruturas há o espaço da ação política, no qual decisões individuais podem ampliar possibilidades, desperdiçar oportunidades ou precipitar os desastres.
Karl Marx mostrou essa tensão no passagem de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (Boitempo), a maior reportagem política já escrita, que relata a segunda restauração da monarquia após a Revolução Francesa : “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.
Essa frase ilumina as trajetórias de Lula e Flávio quanto aos limites da vontade. Os candidatos são expressão de interesses, expectativas e conflitos, mas suas escolhas diante das contradições do processo político decidem o destino de todos nós. Lula cumpriu esse papel com notável destaque. Sua trajetória reúne experiências vividas da transição social do Brasil rural para o urbano: a migração nordestina, o trabalho industrial, o sindicalismo, a resistência à ditadura e a organização partidária dos trabalhadores.
Sua liderança nasceu das greves do ABC, ganhou expressão nacional com a fundação do PT e alcançou a Presidência depois de três derrotas eleitorais. Não é fruto de um golpe de sorte, muito pelo contrário. Essa resiliência não o torna infalível ou dispensa o julgamento de seus governos. Sua habilidade de conciliação produziu acomodações e suas alianças agora cobram o preço de concessões e contradições. A biografia excepcional não responde automaticamente aos problemas do presente. A experiência pode produzir prudência, mas também alimentar a confiança excessiva em soluções que podem já não dar certo.
Quando os tempos mudam
A presença de Lula no poder não pode ser explicada como um acidente eleitoral. O presidente que busca o quarto mandato ajudou a organizar as forças que o projetaram e promoveu o reconhecimento, a participação e a inclusão dos mais pobres. Sua genialidade política foi transformar experiência pessoal em identificação coletiva. Lula ganhou dimensão histórica porque soube representar milhões de pessoas que procuravam um lugar nas decisões nacionais.
Entretanto, como já dizia Maquiavel, a maior virtude do governante é perceber quando os tempos mudam e não subestimar os adversários. Flávio Bolsonaro ocupa posição distinta. Tem carreira parlamentar, foi deputado estadual e chegou ao Senado; mostrou ser incorreto tratá-lo como estreante. Entretanto, sua projeção nacional está inseparavelmente ligada ao patrimônio político do pai. Não apresenta trajetória equivalente de organização social, construção partidária ou direção do Executivo. A diferença em relação a Lula ultrapassa a idade: envolve a origem e a autonomia da liderança.
É nesse sentido que a imagem do príncipe aventureiro de Maquiavel se ajusta à candidatura de Flávio. O filho do ex-presidente Bolsonaro pode alcançar o poder beneficiado por circunstâncias que não criou: o desgaste do adversário, a rejeição ao PT e a disponibilidade de uma identidade política herdada. A fortuna, aqui, tem sobrenome, base eleitoral e estruturas de mobilização. O risco começa quando essa herança é apresentada como capacidade para governar e resgata uma experiencia fracassada quanto ao seu humanismo.
Todo aventureirismo é perigoso quando a ambição é maior do que a responsabilidade democrática. O príncipe sem limites é aquele que considera legítimo remover qualquer obstáculo à própria vontade. Na República, o Congresso e a Justiça, as demais instituições democráticas, a sociedade civil, a imprensa e a oposição têm funções que transcendem ao resultado eleitoral, principalmente nos momentos de crise. A vitória concede um mandato temporário subordinado à Constituição. Não entrega ao vencedor a propriedade do Estado.
E o voto secreto, direto e universal, na urna eletrônica, garante que cada brasileiro faça sua escolha e o resultado do pleito seja inequívoco.
Alea jacta est!
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