Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Da Sedução das Bets à Fuga pelas Cataratas: O Canto de Florentina no Império do Norte
Ao Modo do Chanceler Florentino — Onde os Versos do Vulgo Tecem as Alianças e os Exílios do Poder
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
O homem que viu o trem passar e a fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA, por Luiz Carlos AzedoCorreio BrazilienseFlávio Bolsonaro recebeu 48% dos votos. A votação não lhe concede imunidade penal, mas aumenta a responsabilidade das autoridades de explicar suas decisõesClaude Monet: A collection of 1540 paintings (HD)
"Felizmente, contudo, a oposição a Lula não depende de Jair Bolsonaro nem muito menos de Flávio, que em breve ficará desempregado e que terá de prestar contas à Justiça em razão das inúmeras suspeitas de corrupção que pesam contra ele. Vários partidos que se alinharam a Flávio no segundo turno aceitaram imediatamente a vitória de Lula e já se preparam para trabalhar com esse cenário. É assim que funciona numa democracia."
"A eleição demonstrou que nem só de antipetismo vive o País. O antibolsonarismo tem força própria, e o clã se esmera em renová-la. Enquanto o PT explora a identificação abusiva entre sua permanência no poder e a sobrevivência da democracia, os Bolsonaros fornecem a ameaça real que torna esse expediente convincente. Em vez de libertar o País do lulopetismo, garantem-lhe sobrevida. Não se vencerá a chantagem petista repetindo o papel que o PT reserva aos adversários."
"Para ser a alternativa liberal, conservadora e democrática de que o País precisa, urge recusar esse golpismo bolsonarista de uma vez por todas."
👆O editorial de O Estado de S.Pauo de 28/08/2026, dia do Servidor Público, no Brasil, bate na canga da direita imoderada para a direita constitucional entender e retomar seu prumo! Como na República Funcional da Asa Sul de Brasília👇
O famoso apartamento funcional na Asa Sul de Brasília que funcionou como uma verdadeira "república" e berço de articulações da redemocratização (onde Ulysses Guimarães e Nélson Carneiro dividiram residência por anos e recebiam lideranças como Tancredo Neves) fica localizado no seguinte endereço:
* Endereço: SQS 110, Bloco I, Apartamento 303
* Região: Asa Sul, Brasília - DF
Esse endereço consta formalmente nos registros históricos de correspondências dos parlamentares durante o período em que debatiam as fórmulas de resistência e os rumos políticos do país.
O Brasil voltou ao normal, por Elio GaspariO GloboA ameaça do candidato do PL durou uma noite“Reinaldo Azevedo: Flávio voa da lama, na lama e para a lama; Metrópoles 28/10/26👆Equivalência entre Luiz Inácio, Miley e Trump?
"Chegou a hora de sermos menos apaixonados pela disputa entre direita e esquerda e de dedicarmos mais atenção à permanente desigualdade entre senhores e escravos, homens e mulheres, honestos e gatunos da coisa pública."
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Para que serve a polarização? Por Roberto DaMattaO Estado de S. Paulo
No domingo, com o seu voto, você ajudou a adormecer uma forma de polaridade: a oposição, burramente vista no Brasil como irreconciliável, entre a direita e a esquerda. Este dualismo, em tese, impede de maneira estúpida qualquer colaboração. Hoje, porém, com um novo presidente eleito, essa polarização terminou para dar lugar a uma oposição que a esquerda e a direita escamoteavam, a saber: a oposição entre a centralidade dos poderosos que vão para os palácios e a situação dos perdedores que são relegados à periferia. Agora, tranquilos, sabemos quem são os mandões e quem são os mandados. Ou seja, voltamos a viver a oposição rotineira entre os que detêm o poder e aqueles que devem se submeter a ele. Recuperamos a concepção tradicional de autoridade e, assim, restauramos o velho reino imperial iniciado com d. João VI e continuado pelos golpes, ditaduras e governos demagógicos.
"Chegou a hora de sermos menos apaixonados pela disputa entre direita e esquerda e de dedicarmos mais atenção à permanente desigualdade entre senhores e escravos, homens e mulheres, honestos e gatunos da coisa pública."
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
O homem que viu o trem passar e a fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA, por Luiz Carlos Azedo
Correio BrazilienseFlávio Bolsonaro recebeu 48% dos votos. A votação não lhe concede imunidade penal, mas aumenta a responsabilidade das autoridades de explicar suas decisões
George Simenon foi um dos mais importantes e produtivos escritores de romances policiais, a maioria deles tendo como protagonista o Comissário Maigret. “O homem que via o trem passar” (1938) é um célebre romance psicológico do autor, cujo principal personagem é Kees Popinga, holandês pacato, burguês e exemplar chefe de escritório na cidade de Groningen, que pira quando descobre que seu patrão faliu e fraudou a empresa.
Decidido a romper com as convenções e a hipocrisia de sua rotina, Popinga vai para Amsterdã e depois para Paris, numa espiral de crimes, delírios e fugas da polícia. Simenon faz um mergulho existencialista na loucura, na solidão e na desintegração moral de um homem comum, que comete um crime quase perfeito, mas fica completamente paranoico e acaba se entregando à polícia. Simenon claramente se inspira em “Crime e castigo”, de Fiódor Dostoiévski.
Desculpem-me a analogia com o personagem Popinga, mas a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos vai além do candidato que viu o trem da eleição passar. Tem dimensão dostoievskiana, se considerarmos que há também motivação de ordem penal, que nos bastidores de Brasília levaram alguns aliados a apontar os riscos de perder as eleições e ficar, pela primeira vez na vida política, sem a imunidade parlamentar.
Somente Flávio sabe tudo o que fez. Os elementos até agora relatados são insuficientes, porém, para afastar a inoportunidade política da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
Foi inútil mandar apreender os passaportes de Flávio Bolsonaro e impedir sua saída do país. A medida atendeu ao pedido da Polícia Federal apresentado apenas sete minutos depois da confirmação do resultado da eleição presidencial. A proximidade entre os acontecimentos não comprova perseguição, mas ofereceu à oposição argumento poderoso para transformar um investigado em suposto exilado político.
É preciso distinguir os fatos. Apenas sete minutos separam o anúncio da derrota do requerimento policial, não necessariamente da assinatura da decisão judicial. Segundo reportagem reproduzida pelo Estado de Minas, o resultado foi confirmado às 21h09 de domingo; a representação da PF recebeu assinatura digital às 21h16. Moraes acolheu o pedido naquela noite, e a ordem foi executada na segunda-feira. Uma providência dessa importância, nesse momento, exigia fundamentação capaz de enfrentar o inevitável questionamento público sobre sua urgência.
O alcance das suspeitas e a consistência das provas permanecem parcialmente encobertos pelo sigilo. Entretanto, não se pode afirmar que nada se sabe. O material divulgado aponta uma investigação sobre suposta lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz, empresas de apostas e movimentações financeiras no exterior. A defesa nega que Flávio tivesse poderes sobre contas das empresas do advogado e sustenta que a relação entre ambos é de amizade. Suspeitas precisam ser investigadas.
Falta fundamentação
Entretanto, foro não é sigilo. A prerrogativa de função define o tribunal competente para investigar e julgar determinadas condutas de parlamentares; não torna automaticamente secretos todos os procedimentos. O resguardo das diligências pode ser necessário, mas cobra um preço quando impede a sociedade de compreender por que o candidato derrotado à Presidência foi proibido de viajar imediatamente após a eleição. Quanto menos se conhece a fundamentação, maior o espaço ocupado pelas versões.
Não houve ordem de prisão contra Flávio, mas uma cautelar de restrição de viagem e entrega dos documentos. O senador descumpriu o prazo e a PF cancelou seus passaportes. Na segunda-feira, ele havia anunciado que permaneceria no Brasil e atenderia à determinação. A saída do país enfraquece sua própria palavra e sustenta a interpretação de que procurou escapar do alcance das medidas judiciais.
A repercussão institucional, porém, é desastrosa. Flávio recebeu aproximadamente 48% dos votos e representa uma parcela expressiva do eleitorado. Essa votação não lhe concede imunidade penal, mas aumenta a responsabilidade das autoridades de explicar suas decisões. Moraes, já convertido em personagem central da polarização, oferece à oposição uma oportunidade de mobilização, porque os fundamentos da medida permanecem não esclarecidos. A saída está sendo apresentada como consequência de perseguição. Entretanto, a tese de que vivemos numa “ditadura” não se sustenta.
A oposição disputa eleições, conquista mandatos, governa estados, atua no Congresso e critica abertamente os ministros. A narrativa do exílio integra o repertório recorrente do bolsonarismo. Eduardo Bolsonaro instalou-se nos Estados Unidos antes de sua condenação e da perda do mandato, conforme o material apresentado. Alexandre Ramagem também seguiu para território americano; Carla Zambelli buscou a Itália.
Os processos são diferentes, mas a defesa política converge: apresentar a responsabilização judicial como perseguição e procurar proteção fora do alcance imediato das autoridades brasileiras. O componente americano agrava a crise. Simón Levy, ligado ao movimento MAGA, afirmou que o secretário de Estado Marco Rubio coordenou a operação que levou Flávio aos Estados Unidos.
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Da Sedução das Bets à Fuga pelas Cataratas: O Canto de Florentina no Império do Norte
Ao Modo do Chanceler Florentino — Onde os Versos do Vulgo Tecem as Alianças e os Exílios do Poder
Diz o ditado que os Príncipes não caem pelo clamor do povo, mas pelas armadilhas que eles mesmos cavam sob as vestes da legalidade. Quando as águas de Foz do Iguaçu rugem, dividindo os impérios do Sul, supõe-se que o jovem patrício Flávio, acuado pelos inquéritos das finanças e pelas suspeitas de sociedades ocultas no reino das apostas, busque o exílio rumo às terras do Norte — onde impera o poderoso e loiro Donald, o aliado de outrora que recuperou o manto da soberania americana.
Para compreender tal tragédia política, recorramos ao canto satírico de Tiririca, pois muitas vezes os bobos da corte revelam as verdades que os senadores tentam ocultar. Vertamos, pois, a melodia de Florentina para a linguagem do realismo e da astúcia.
Florentina de Jesus: A Sedução da Fortuna
"Florentina, Florentina / Florentina de Jesus
Não sei se tu me amas / Pra que tu me seduz?"
O que é a Florentina no teatro do poder senão a própria Fortuna vestida em forma de lucros fáceis e mercados de quota fixa? O jovem Bolsonaro, seduzido pelo canto dourado das bets e pelas holdings ocultas, entregou-se aos encantos da riqueza sem rastro. Ele agora questiona o destino: se essa engrenagem não havia de lhe garantir a impunidade e o amor do eleitorado, por que o seduziu a entrar em tamanho labirinto de investigações?
O Soldado e o Encontro no Cárcere do Norte
O vulgo canta que o cantor foi levado à prisão pelo próprio soldado que elogiara seu talento. Na alta política, o soldado são os órgãos de controle e as ordens do Supremo Tribunal que empurram o patrício para o enquadramento criminal. Ao cruzar as fronteiras líquidas do Iguaçu, desaguando no exílio, o jovem depara-se com o "loirão muito doido" que habita o palácio de Washington: o próprio Trump.
O senhor do Norte, operando sob a mais pura Ética da Convicção de seu próprio império, olha para o aliado fugitivo e questiona: "Qual é? Qual foi? Por que é que tu tá nessa?" ao que o jovem responde, em sua defesa defensiva, que apenas operava a música da política tradicional. Contudo, no jogo imperial, a fraqueza não encontra compaixão. O loiro do Norte impõe o silêncio: "Cala a tua boca, senão boto teus dentes para dentro", lembrando que no exílio os suplicantes perdem a voz e tornam-se reféns da boa vontade do protetor.
A Eterna Repetição do Erro
A ironia suprema de Tiririca reside no homem que jura nunca mais cantar a melodia maldita, mas passa o resto dos seus dias repetindo o mesmo refrão. Assim agem os dinastas da República: juram abandonar os métodos do caixa dois, prometem o fim dos laços ocultos com os operadores do ouro, anunciam o cansaço do povo — "isso é uma coisa que todo mundo abusa" —, mas, ao menor sinal de crise, retornam à mesma cantilena.
Dizem que vão mudar de assunto, que vão entoar os "hinos de Roberto Carlos" — a nova face da moderação e do republicanismo —, mas as cordas vocais do poder estão viciadas. Quando abrem a boca, o que se ouve nos bastidores de Brasília e Mar-a-Lago é o eterno retorno da mesma Florentina: a ocultação de valores, a lavagem de capitais e a dependência mútua entre o ouro privado e o manto público.
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