terça-feira, 20 de outubro de 2026

‘Não dá para tudo ser resolvido no confronto entre lulismo e bolsonarismo’

Chovendo Na Roseira (part. Tom Jobim) Edu Lobo Olha, está chovendo na roseira Que só dá rosa, mas não cheira A frescura das gotas úmidas Que é de Luiza, que é de Paulinho Que é de João, que é de ninguém Pétalas de rosa carregadas pelo vento Um amor tão puro carregou meu pensamento Olha, um tico-tico mora ao lado E passeando no molhado Adivinhou a primavera Olha, que chuva boa, prazenteira Que vem molhar minha roseira Chuva boa, criadeira Que molha a terra, que enche o rio Que lava o céu, que traz o azul Olha, o jasmineiro está florido E o riachinho de água esperta Se lança embaixo do rio de águas calmas Ah, você é de ninguém Ah, você é de ninguém Ah, você é de ninguém Composição: Tom Jobim.
Estadão https://www.estadao.com.br Cúpula do PT quer Lula mais agressivo no tête-à-tête com Flávio no último debate da campanha há 14 horas — As sondagens feitas pelo PT para medir impressões após o debate da Band/Estadão revelaram que eleitores viram... “O trecho completo da matéria intitulada "Cúpula do PT quer Lula mais agressivo no tête-à-tête com Flávio no último debate da campanha" detalha que as sondagens internas do partido revelaram que os eleitores consideraram o desempenho de Luiz Inácio Lula da Silva muito passivo ou contido no debate anterior, promovido pelo pool da Band com o Estadão. Com base nos dados fornecidos pelo portal do jornal, as informações estruturais do cenário são: * O diagnóstico interno: As pesquisas qualitativas e sondagens feitas pelo PT após o debate da Band/Estadão indicaram que os eleitores viram um Lula menos incisivo do que o necessário, permitindo que Flávio Bolsonaro pautasse temas de desgaste contra o governo. * A estratégia para o próximo confronto: Para corrigir essa impressão, a cúpula e os estrategistas da campanha marcharam na direção de exigir uma postura muito mais agressiva e direta no "tête-à-tête" com Flávio, mirando o último debate da corrida eleitoral (tradicionalmente realizado pela Rede Globo). * O foco das discussões: A mudança de rota ocorre em um momento em que a campanha de Flávio Bolsonaro também tenta "recalcular a rota" para focar em propostas, enquanto os bastidores do PT tentam blindar o governo de vidraças econômicas recentes — como as projeções de falta de recursos fiscais a partir de 2028 e o avanço de gastos da ordem de R$ 354 bilhões criticados pela oposição.”
domingo, 18 de outubro de 2026 Entrevista | Marco Aurélio Nogueira: ‘Não dá para tudo ser resolvido no confronto entre lulismo e bolsonarismo’, diz cientista político Por Vera Rosa \ O Estado de S. Paulo Autor do livro ‘Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar’, Marco Aurélio Nogueira vê a democracia no Brasil ameaçada e diz que qualquer candidato eleito para a Presidência, seja Lula ou Flávio, terá de ‘descascar um abacaxi’ BRASÍLIA – O cientista político Marco Aurélio Nogueira define o atual momento que vivemos como “uma encruzilhada política paralisante”. No seu diagnóstico, trata-se de uma época na qual a manipulação de algoritmos domina o mundo e ergue muros. Diante deste cenário, construir pontes ficou mais difícil. “Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um confronto eterno entre o lulismo e o bolsonarismo”, diz Nogueira. Professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e articulista do Estadão, o cientista político observa que os democratas precisam reaprender a dialogar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva errou, na sua avaliação, ao deixar de lado a frente ampla que ajudou a elegê-lo, em 2022. Na outra ponta, o discurso antissistema do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL, não reflete uma coesão social sustentável. A terceira via, por sua vez, não conseguiu sair do acostamento e “virou recheio de um sanduíche”. Em seu mais novo livro, intitulado Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar, Nogueira trata dos muros que nos dividem e observa que o cenário atual, com seu dinamismo frenético, acabou trazendo mal-estar. Questionado se a democracia está sob ameaça, ele não titubeou e encaixou um “sempre” na resposta. “A democracia é aquela planta tenra, que precisa de adubação permanente”, afirmou o professor, citando frase do ex-governador da Bahia Otávio Mangabeira. No livro “Como melhorar a vida que vivemos”, o sr. cita as paredes e os muros que nos dividem e a necessidade de construir pontes. Como fazer isso em um país dividido e com grave crise institucional como o Brasil? Eu acho que isso não é um problema que tenha uma solução de curtíssimo prazo. Ele está sendo decantado na vida brasileira há muito tempo, em parte por conta da briga política que, numa democracia, é inevitável. Mas, por outro lado, essa multiplicação de muros tem a ver também com o modo como a sociedade veio se reorganizando em decorrência da revolução tecnológica digital. Nós vivemos numa época em que tudo está sendo posto em dúvida e tudo é motivo de discussão. Os conflitos funcionam como uma espécie de elixir da democracia. Agora, todas as discussões no Brasil, nos últimos anos, são de temperatura elevada e acabam se resumindo a um choque entre duas posições que, seguramente, não refletem a diversidade política dos brasileiros. Hoje há um estado de indignação geral no país. Nesse cenário, o discurso “antissistema” e a retórica de mudança colam, mesmo quando proferidos por alguém que faz parte do sistema. Estamos num beco sem saída ou numa encruzilhada política? Nós estamos numa encruzilhada política paralisante, que tem a ver com essa época de transição que atravessamos, porque saímos de uma sociedade sólida e entramos em uma sociedade líquida, para falar como Zygmunt Bauman (sociólogo polonês). Beco sem saída, do meu ponto de vista, não existe na história. Alguém sempre encontrará uma porta para sair desse beco escuro e difícil. É uma época de transição? É uma transição, como se nós estivéssemos vivendo num mundo em que sombras de diferentes épocas se cruzam e convivem. A encruzilhada é assim: uma mão vem do passado, a outra de uma nova sociedade. Não dá para apostar numa única direção hoje. Isso explica a confusão das pessoas, a fragmentação, a dose expressiva de indignação que há no mundo. É difícil conversar. E aí você pode transferir isso para aquilo que chamam de mundo da pós-verdade. Cada um tem a sua verdade. Até a ciência está posta em questão. Você lembra a discussão sobre o aquecimento global? (Diziam:) ‘Ah, não. Não tem crise climática nenhuma!’. E aí cada tempestade derruba uma cidade. Então, o que está acontecendo? Os cientistas estão loucos? O que eu chamei no livro de mal-estar tem a ver com isso. Nós não estamos satisfeitos com nada e não sabemos em que direção caminhar porque o nosso mundo não tem utopias. O segundo turno da eleição entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro tem sido marcado por um confronto que está atingindo inclusive o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral. Qual é a solução? Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um confronto eterno entre lulismo e bolsonarismo. O processo político brasileiro sugere uma porta de saída para essa situação de congelamento do conflito bolsonarismo-lulismo, que é a reativação daquilo que nós, por falta de melhor palavra, costumamos chamar de campo democrático. Ou seja, liberais, socialistas, social-democratas, petistas, conservadores democráticos, precisam receber um choque de advertência de que a dissolução dessa polarização depende deles. A outra parte depende de uma expansão dos círculos de discussão, do diálogo entre as pessoas, de uma maior tolerância com relação à diferença. Mas esse movimento foi tentado na eleição de 2022 por Lula, quando ele convidou Geraldo Alckmin para a chapa. A frente ampla que derrotou Jair Bolsonaro foi abandonada pelo governo? Não tenho dúvida. Foi abandonada de dois modos, inclusive. Um, pela cooptação daqueles que Lula convocou para integrar o seu governo. Penso aí na Simone Tebet, na Marina Silva, que foram ministras, não eram do PT e foram simplesmente apagadas durante o governo. Uma outra parte do problema é que o próprio campo democrático, que teve alguma relevância para impulsionar a vitória do Lula, acabou por não demonstrar maior interesse em permanecer como um campo de oposição, no bom sentido da palavra. Uma boa parte das dificuldades eleitorais da candidatura Lula, hoje, tem a ver com esse desaparecimento da frente democrática que o ajudou em 2022. Não houve candidatos de terceira via, vamos chamar assim, que pudessem se alinhar ao presidente Lula no segundo turno. Os candidatos alternativos eram todos candidatos que estavam mais à direita do que ao centro. E com isso o Lula ficou, no segundo turno, falando sozinho com os seus convertidos, tentando capturar votos. Caso o presidente seja reeleito, o sr. acha que esse resgate da frente ampla será necessário para que ele possa governar? Se o presidente Lula for reeleito, esse resgate vai ser importante para fazer uma oposição inteligente a ele. Nenhum governo no mundo pode sobreviver e governar bem se não tiver uma oposição inteligente. Se a oposição se limitar ao histrionismo bolsonarista, Lula não governará bem porque a maioria da Câmara e a maioria do Senado serão contrárias a ele. As disputas eleitorais no Brasil têm sido cada vez mais ácidas e sem propostas. Por que a chamada terceira via nunca consegue emplacar um nome? O campo democrático brasileiro se fragmentou de 2014 para frente. Um dos elementos que era referência, o PSDB, simplesmente desapareceu. E outros partidos também definharam. O PDT, por exemplo, não atingiu a cláusula de barreira; o próprio PSB não se saiu muito bem. Nas atuais eleições, a chamada terceira via apareceu como uma espécie de dissidência do campo bolsonarista. A polarização cresceu de tal maneira que paralisou os demais atores. Então, a terceira via virou o recheio de um sanduíche. Nós entramos numa fase social em que a marcação de identidade se tornou uma coisa muito forte. É a busca por reconhecimento. E isso também ajudou a colocar antagonismo entre as pessoas. Não é um antagonismo guerreiro, mas um atrito entre os diferentes grupos religiosos, raciais, étnicos, de gênero e assim por diante. O seu livro também trata da manipulação de algoritmos. Ainda nesta semana, a campanha de Lula reclamou da “seletividade algorítmica” da Meta, que daria tratamento desigual a ele em relação a Flávio. A revolução digital está impulsionando um ambiente favorável ao desarranjo social e institucional? Com certeza que está. Eu acho que é como se nós pudéssemos ver nisso uma parte do programa da revolução digital. Hoje nós somos, em boa medida, guiados pelas plataformas. Quando você quer assistir a um filme na TV, você é invadido por uma enxurrada de ofertas que acabam por dificultar a sua escolha. Nós não conseguimos largar o celular, andamos com ele como se fosse um colar de pérolas preciosas. O tema da soberania nacional, hoje, se reconfigurou como soberania digital, ou seja, quem controla os dados tem poder. E nós, seres humanos, não controlamos os dados. A Meta é aliada do Trump (Donald Trump, presidente dos EUA), como são as demais plataformas. Pode não ser uma aliança ideológica, mas é uma aliança pragmática. Qual é o desafio de uma eleição presidencial onde a IA tem dominado e produzido vários cenários inverídicos? Os comandantes da Tropa do Flávio e do Exército do Lula deveriam parar um pouco para pensar e deixar de produzir tanta porcaria. É uma coisa horrorosa, agressiva. Eu não sei como isso pode ser concebido para capturar votos. Apresentar propostas não é uma coisa difícil. O eleitor de direita não é necessariamente um bolsonarista. Na sua avaliação, o bolsonarismo é uma força política que veio para ficar, independentemente da eventual vitória de Flávio Bolsonaro? Eu acho que sim, mas essa força, que é expressiva tem algumas carências e uma delas é um partido. O PL não é propriamente um partido bolsonarista. É uma legenda que está sendo usada pelo bolsonarismo. Pode acontecer de ele ser ocupado inteiramente pelo bolsonarismo e virar o partido bolsonarista, com esse nome ou com outro, mas teremos de ver. A outra coisa é que o bolsonarismo não tem uma coesão social sustentável. O eleitor básico, ou o admirador do bolsonarista, é um cidadão flutuante. Não digo que ele seja indeciso, mas ele dança conforme a música. E a música bolsonarista, que pode ser qualquer coisa com a ideia de mudança conseguiu, nesta eleição, ser sedutora. Se Lula perder esta eleição, qual será a consequência para o PT? O partido ficará obrigado a refletir sobre a sua própria história porque não encontrar um substituto para o Lula é um problema grave. Deveria existir um conjunto de lideranças capazes de desempenhar o papel de candidato tanto aos governos estaduais como ao governo federal. Mas o PT não se renovou. O mundo mudou e o discurso do PT continuou o mesmo. Outra possibilidade é que o partido, numa eventual derrota do Lula, se entregue a um ajuste de contas interno para saber quem foi o culpado pelo fracasso. E isso poderá redundar num estilhaçamento do PT. As esquerdas, em momento de crise, sempre tendem a ter dissidências. Não quer dizer que isso vá acontecer porque o PT também tem a sua própria fortaleza e pode fazer parte daquele campo democrático (da frente ampla), sem querer hegemonizá-lo. O PL terá no ano que vem 121 deputados e 28 senadores. Se Lula for reeleito, como governar com esse Congresso que saiu das urnas, muito mais conservador que o de hoje, e onde ‘influencers’ derrubaram antigos políticos? No governo, Lula conseguiu cooptar alguns integrantes do Congresso que não eram de esquerda. Ele fez uma composição ali meio confusa, distribuindo ministérios ao MDB, PSD, União Brasil, PP e assim foi. É provável que ele tente essa mesma operação no quarto governo, se for reeleito. O problema é que as possibilidades de atração se reduziram e a força do PL, somada a outros partidos ali, faz mais da metade da Câmara. O STF tem responsabilidade por esse cenário político a que chegamos hoje? Eu não acho muito bom trabalhar na análise política com a ideia da culpa. Eu acho que tem responsabilidades, mas não propriamente culpa. O STF foi sendo redefinido pelas escolhas presidenciais. Então, o Michel Temer escolheu Alexandre de Moraes, o Lula escolheu o Flávio Dino, e assim por diante. Esse modo de composição do Supremo é ruim porque os escolhidos pelos presidentes tendem a se comportar no tribunal como aliados deles. Nos últimos meses, o espetáculo dado pelo STF foi trágico e patético. Nunca foi normal na história da Corte um ministro xingar o outro, bater boca, ameaçar, chamar a Polícia Federal... Isso espirrou na opinião pública e serviu de combustível para quem via no tribunal a mão do Lula, através do Moraes. O tribunal acabou fazendo parte do conflito político e influenciou as eleições, com certeza. O sr. defende mandatos fixos para ministros do STF? Eu acho que hoje seria uma medida saudável para o país. Seria mais produtivo para o Brasil se os ministros não durassem tanto tempo, praticamente uma vida inteira, sem nenhum tipo de cerceamento. Nos últimos dias, o presidente anunciou um pacote de bondades para os eleitores. Teve a aprovação do fim da escala 6x1, o perdão da dívida dos microempreendedores individuais, o PIX MEI de até R$ 5 mil. São medidas com impacto fiscal. O que o sr. achou desta iniciativa? Essa do PIX de R$ 5 mil, por exemplo, é uma coisa meio escandalosa. É de um oportunismo eleitoral de deixar qualquer um corado de vergonha. Não sei se isso vai ser transformado em uma palavra solta ao vento ou se vai ser levado à frente. A mesma coisa em relação às canetas emagrecedoras. São coisas que, em campanha, os candidatos falam, muitas vezes no empolgamento do comício, mas que não vão ser levadas à frente pelo absurdo que contêm. Mesmo essa coisa do perdão das dívidas. Tudo isso é muito justo, muito generoso, mas tem consequências. O país já está com uma dívida elevada, com desajuste fiscal complicado. Onde vai parar isso? Como é que se faz uma reversão ou uma acomodação das coisas em termos de gestão econômica? É um desafio enorme. Seja quem for o vencedor das eleições, terá que descascar esse abacaxi. A democracia está ameaçada no Brasil? A democracia sempre esteve ameaçada no Brasil. Ao longo da nossa história republicana ou ela foi escanteada por golpes, ou reprimida por medidas constitucionais, ou esteve em vigor de uma maneira frágil, como se fosse aquela planta tenra, que precisa de adubação permanente, como Mangabeira (Otávio Mangabeira) falou. E, no contexto atual, ela está de mãos dadas com as demais democracias do mundo. As democracias hoje, no mundo, estão todas ameaçadas.

DEMOCRACIA • IGUALDADE POLÍTICA • PARTICIPAÇÃO POPULAR

PEC DO SORTEIO CÍVICO DEMOCRÁTICO

Uma proposta para ampliar a igualdade de acesso à representação política no Brasil


Documento-base para discussão pública

Proposta de Emenda à Constituição — 2026

Nota editorial: este documento apresenta uma proposta de reforma institucional para debate público. Não constitui texto legislativo oficialmente protocolado nem parecer jurídico. A substituição das eleições por sorteios para cargos dos Poderes Executivo e Legislativo suscita questões constitucionais relevantes, especialmente diante do art. 60, § 4º, da Constituição Federal.

1. APRESENTAÇÃO DA PROPOSTA

Como ampliar a igualdade de oportunidades no exercício da representação política? É possível construir instituições nas quais cidadãos comuns participem das decisões públicas sem depender exclusivamente de campanhas eleitorais, estruturas partidárias, recursos financeiros ou notoriedade pessoal?

Essas questões fundamentam a proposta de instituição do Sorteio Cívico Democrático, também denominado, em sentido amplo, estococracia: um modelo de seleção aleatória de cidadãos para determinadas funções públicas de representação, deliberação e fiscalização.

A ideia central consiste em investigar se procedimentos de sorteio, estabelecidos por regras públicas e verificáveis, podem ampliar a participação popular, diversificar os perfis presentes nas instituições e reduzir determinadas barreiras de acesso à vida política.

A proposta parte do princípio constitucional de igualdade perante a lei, previsto no art. 5º da Constituição Federal, e do reconhecimento de que todo poder emana do povo, conforme o art. 1º, parágrafo único.

Esses princípios não determinam, por si sós, a substituição das eleições por sorteios. A adoção de um novo modelo de representação exige fundamentação própria, definição de competências, salvaguardas democráticas e exame de sua compatibilidade com as cláusulas constitucionais.

2. MINUTA DA PROPOSTA DE EMENDA À CONSTITUIÇÃO

PROPOSTA DE EMENDA À CONSTITUIÇÃO Nº ___, DE 2026

Ementa: Institui o Sorteio Cívico Democrático como mecanismo de participação e representação política, mediante seleção aleatória, pública, transparente e auditável de cidadãos, e estabelece princípios para sua eventual aplicação aos órgãos dos Poderes da República.

As Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, nos termos do art. 60 da Constituição Federal, promulgam a seguinte Emenda ao texto constitucional:

Art. 1º — Do princípio da participação cívica por sorteio

O art. 1º da Constituição Federal passa a vigorar acrescido de dispositivo com a seguinte redação:

“Art. 1º ............................................................

§ __. A República promoverá mecanismos de participação e representação cívica por seleção aleatória de cidadãos, segundo critérios objetivos, públicos, inclusivos e auditáveis, como instrumento de realização da igualdade política, de ampliação da participação popular e de prevenção da concentração do poder, na forma desta Constituição e da lei.

Art. 2º — Da instituição do Sorteio Cívico Democrático

O art. 14 da Constituição Federal passa a vigorar acrescido dos seguintes dispositivos:

“Art. 14. A soberania popular será exercida nos termos desta Constituição, mediante o sufrágio universal, o voto direto e secreto, os instrumentos de democracia direta e os mecanismos de participação cívica por sorteio previstos constitucionalmente.

§ 1º O Sorteio Cívico Democrático consiste na seleção aleatória, impessoal, transparente e auditável de cidadãos para o exercício de funções de representação, deliberação ou fiscalização pública, conforme a natureza e as atribuições do órgão correspondente.

§ 2º A instituição de cargos ou órgãos preenchidos por sorteio observará:

I — a igualdade de oportunidade de participação entre os cidadãos elegíveis;
II — a vedação de discriminação incompatível com a Constituição;
III — a representatividade territorial e social, quando compatível com a natureza do órgão;
IV — a publicidade dos procedimentos e a possibilidade de auditoria independente;
V — a capacitação dos cidadãos selecionados e a disponibilização de assessoria técnica independente;
VI — a prestação de contas, a fiscalização dos atos praticados e a responsabilização nos termos da lei;
VII — a proteção da privacidade, dos dados pessoais e dos direitos fundamentais dos participantes.

§ 3º A seleção será realizada a partir de cadastro de elegibilidade mantido pela autoridade competente, mediante procedimentos que assegurem a integridade do universo de participantes e a possibilidade de verificação independente dos resultados.

§ 4º O cadastro e o mecanismo de seleção observarão a legislação eleitoral, a legislação de proteção de dados pessoais e as garantias constitucionais, vedada a utilização de dados biométricos como requisito tecnológico exclusivo para a realização do sorteio.

§ 5º A lei regulamentará a composição, as competências, os mandatos, as incompatibilidades, as hipóteses de impedimento, a remuneração, as substituições e os mecanismos de fiscalização dos órgãos instituídos com participação de cidadãos selecionados por sorteio.

§ 6º A participação cívica por sorteio poderá ser obrigatória ou facultativa, conforme a função, observadas as hipóteses legais de dispensa, os impedimentos legítimos e as garantias de acessibilidade e proteção social.

§ 7º A instituição de órgãos de representação política preenchidos integralmente por sorteio, em substituição às eleições para cargos dos Poderes Executivo ou Legislativo, dependerá de disciplina constitucional específica, que definirá suas competências, os procedimentos de transição e sua compatibilidade com as demais disposições desta Constituição.”

Art. 3º — Da regulamentação e da experiência institucional

A lei regulamentadora estabelecerá mecanismos de implantação progressiva do Sorteio Cívico Democrático, podendo prever projetos-piloto, assembleias cidadãs, conselhos deliberativos e órgãos de participação e fiscalização.

§ 1º A regulamentação assegurará avaliação periódica dos resultados, com indicadores de representatividade, transparência, efetividade deliberativa, custos, integridade e confiança pública.

§ 2º Os resultados das avaliações serão publicados em relatórios acessíveis à sociedade.

§ 3º A implantação de mecanismos experimentais não implicará, por si só, a substituição dos processos eleitorais constitucionalmente vigentes.

Art. 4º — Da vigência

Esta Emenda Constitucional entra em vigor na data de sua publicação, observadas as disposições de regulamentação e transição previstas em lei.

3. JUSTIFICAÇÃO

A presente Proposta de Emenda à Constituição tem por finalidade ampliar as possibilidades de participação popular na República Federativa do Brasil mediante a instituição do Sorteio Cívico Democrático, mecanismo de seleção aleatória de cidadãos para funções públicas de representação, deliberação e fiscalização.

A proposta parte de uma questão fundamental: se a soberania pertence ao povo e todos são iguais perante a lei, de que maneira as instituições políticas podem assegurar que a participação na vida pública não fique excessivamente concentrada entre pessoas dotadas de recursos financeiros, influência partidária, notoriedade ou acesso privilegiado às estruturas de poder?

O modelo eleitoral representativo constitui instrumento essencial da democracia constitucional brasileira. Entretanto, sua aplicação pode conviver com obstáculos à participação política, como os custos das campanhas, a desigualdade de recursos, a profissionalização da atividade política e a distância entre parte da população e os centros de decisão.

O sorteio cívico oferece uma alternativa institucional a ser examinada, capaz de permitir que cidadãos comuns participem diretamente da deliberação pública sem depender exclusivamente de campanhas eleitorais ou da construção de carreiras partidárias.

A experiência histórica demonstra que a seleção aleatória foi empregada em instituições políticas da Antiguidade e em diferentes experiências posteriores. Na democracia ateniense, por exemplo, determinados conselhos, magistraturas e tribunais eram compostos por sorteio, enquanto funções específicas podiam ser preenchidas por eleição.

Na contemporaneidade, assembleias cidadãs e outros processos deliberativos utilizam seleção aleatória, frequentemente combinada com critérios demográficos, para reunir grupos que representem a diversidade social e territorial de uma comunidade.

O objetivo da presente iniciativa é desenvolver esse potencial de participação mediante regras que garantam transparência, igualdade de oportunidade, diversidade, preparação técnica, controle institucional e responsabilidade pública.

O sorteio não elimina automaticamente os riscos de corrupção, incompetência ou influência indevida. Por isso, sua adoção exige procedimentos rigorosos de seleção, formação dos participantes, assessoria técnica plural, fiscalização independente e prestação de contas.

Também se reconhece que a substituição integral das eleições para cargos dos Poderes Executivo e Legislativo suscita questões constitucionais relevantes. A proposta deverá ser examinada à luz dos direitos políticos, do sufrágio universal, do voto direto, secreto e periódico, da separação dos Poderes e das limitações materiais ao poder de reforma constitucional.

Dessa forma, propõe-se a construção de um marco constitucional que permita desenvolver e avaliar o Sorteio Cívico Democrático, preservando as garantias fundamentais e estabelecendo parâmetros para eventual ampliação de suas atribuições.

A finalidade última é contribuir para uma democracia mais inclusiva, plural, transparente e participativa, na qual a igualdade política não seja apenas uma declaração normativa, mas também uma diretriz para o desenho e o aperfeiçoamento das instituições públicas.

Sala das Sessões, 20 de outubro de 2026.

Autor(a): ____________________________________


ANEXO I — MEMÓRIA HISTÓRICA E PRECEDENTES DO SORTEIO CÍVICO

A seleção aleatória para funções públicas possui antecedentes históricos documentados. Essas experiências não foram uniformes nem equivalentes à proposta de substituir integralmente as eleições modernas. Seu estudo permite identificar possibilidades, limites e mecanismos institucionais relevantes.

1. Atenas clássica — séculos V e IV a.C.

A democracia ateniense é um dos precedentes mais importantes para o estudo da seleção aleatória de cidadãos para funções públicas. O sorteio integrava um conjunto de instituições que incluía assembleias populares, conselhos, magistraturas e tribunais.

  • Conselho dos Quinhentos (Boulé): seus integrantes eram selecionados por sorteio entre cidadãos elegíveis, distribuídos pelas tribos atenienses. O conselho preparava matérias para a assembleia e desempenhava funções administrativas.
  • Tribunais populares: cidadãos habilitados eram selecionados por procedimentos de sorteio para participar da administração da justiça.
  • Kleroterion: dispositivo arqueológico utilizado em procedimentos de seleção aleatória de cidadãos. Seu funcionamento integra os estudos sobre as técnicas atenienses de distribuição de funções públicas.
  • Cargos eletivos: nem todas as funções eram sorteadas. A eleição era utilizada para determinadas atribuições, incluindo o comando militar dos estrategos.

A experiência ateniense demonstra que sorteio e eleição podem integrar uma mesma arquitetura institucional, com métodos diferentes conforme as atribuições de cada função.

Limite histórico: Atenas não era uma democracia universal no sentido contemporâneo. Mulheres, pessoas escravizadas e estrangeiros residentes não integravam o corpo político de cidadãos.

2. Florença — república e rotatividade política

Florença empregou procedimentos de seleção por sorteio em diferentes períodos para a composição de magistraturas e conselhos. Em determinadas configurações, nomes de pessoas previamente habilitadas eram incluídos em recipientes, dos quais eram extraídos os designados para funções públicas.

Esses procedimentos integravam sistemas políticos complexos, marcados por disputas entre grupos sociais, corporações, famílias e facções. A seleção aleatória podia contribuir para distribuir cargos e limitar o controle direto de grupos concorrentes, mas não eliminava as desigualdades sociais nem as disputas pelo poder.

Referência acadêmica: Najemy, John M. Corporatism and Consensus in Florentine Politics: 1280–1400. University of North Carolina Press, 1982.

Localizar a obra em catálogo bibliográfico.

3. Veneza — sorteio combinado com votação

A República de Veneza desenvolveu um procedimento complexo para selecionar seu doge, combinando sorteios e votações em etapas sucessivas. A combinação procurava distribuir a influência entre diferentes grupos de eleitores e reduzir a possibilidade de que uma única facção controlasse o processo.

Essa experiência é relevante porque demonstra que o sorteio pode atuar como mecanismo de equilíbrio dentro de um procedimento que também utiliza votação.

Entretanto, Veneza não selecionava todos os seus governantes e representantes por sorteio universal. O processo estava inserido em uma estrutura política restrita, na qual a participação era condicionada pelo pertencimento à elite política veneziana.

Pesquisar estudos acadêmicos sobre a eleição do doge veneziano.

4. Experiências suíças

O sorteio foi empregado em diferentes comunidades e cidades europeias para resolver disputas de precedência, distribuir encargos e selecionar pessoas para determinadas funções.

No caso suíço, é necessário distinguir os usos locais e históricos dos mecanismos de sorteio de uma suposta adoção uniforme por todos os cantões. As formas de governo variaram conforme o território e o período.

Afirmações específicas sobre Berna, Basileia ou Glarus devem ser acompanhadas de estudos históricos que identifiquem o período, o cargo e o procedimento exatos.

5. Fundamentos filosóficos

Montesquieu — O Espírito das Leis (1748). No Livro II, capítulo 2, Montesquieu associa o sorteio à democracia e a escolha eleitoral à aristocracia. Trata-se de uma classificação teórica das formas de designação política, não de uma demonstração de que toda eleição seja oligárquica ou de que todo sorteio seja necessariamente democrático.

Consultar o texto de Montesquieu.

Aristóteles — Política, Livro IV. Aristóteles examina diferentes combinações de sorteio, eleição, requisitos de elegibilidade e distribuição de funções. Sua obra mostra que os antigos discutiam múltiplos desenhos institucionais, em vez de defender um único procedimento para todos os cargos.

Consultar Aristóteles na Perseus Digital Library.

Síntese histórica: o argumento mais consistente em favor do sorteio cívico é que a seleção aleatória pode ampliar a igualdade de acesso às funções públicas, reduzir a dependência de campanhas e criar oportunidades de participação para pessoas que normalmente não ingressariam na política institucional. Esses benefícios dependem do desenho concreto das instituições.

ANEXO II — EXPERIÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS

1. Irlanda — Assembleia de Cidadãos

A Irlanda utiliza assembleias de cidadãos selecionados aleatoriamente para examinar questões públicas complexas. O processo procura obter diversidade de gênero, idade, território e condição socioeconômica. Os participantes recebem informações, discutem alternativas e elaboram recomendações.

A assembleia não substitui o Parlamento nem escolhe o governo por sorteio.

Fonte institucional: Citizens' Assembly of Ireland.

2. Bélgica — Comunidade germanófona de Ostbelgien

O modelo de Ostbelgien combina um conselho cidadão permanente com painéis temporários selecionados por sorteio para discutir temas específicos e formular recomendações às autoridades.

É uma referência relevante para a proposta brasileira porque demonstra como institucionalizar a participação cívica sem abolir automaticamente as eleições.

Fonte: OCDE — instituições deliberativas e participação cidadã.

3. França — Convenção Cidadã para o Clima

A Convenção Cidadã para o Clima reuniu cidadãos selecionados aleatoriamente para estudar políticas climáticas, ouvir especialistas, debater medidas e apresentar propostas.

O caso demonstra a utilidade do sorteio em deliberações sobre questões que exigem conhecimento técnico e ponderação de interesses conflitantes.

Fonte: OCDE — experiências e avaliação de processos deliberativos.

A OCDE analisou numerosas experiências de deliberação cidadã e destaca componentes importantes, como seleção aleatória com critérios de representatividade, deliberação informada e conexão efetiva com as decisões das autoridades públicas.


ANEXO III — PROTOCOLO TÉCNICO PARA O SORTEIO CÍVICO BRASILEIRO

1. Cadastro de elegibilidade

Definir previamente quem pode participar, quais são as condições legais de elegibilidade e como corrigir erros ou omissões cadastrais.

2. Igualdade de oportunidade

Assegurar probabilidades de seleção previamente definidas. Quando houver estratificação por território, idade ou outros critérios legítimos, publicar a metodologia e explicar como ela afeta as probabilidades individuais.

3. Sorteio verificável

Utilizar fontes de aleatoriedade independentes, regras públicas, registros criptográficos e auditoria externa. A blockchain pode ser avaliada como recurso complementar, mas não garante, sozinha, a imparcialidade do processo.

4. Formação e assessoria

Oferecer treinamento, documentação acessível e assessoria técnica plural, com declaração de conflitos de interesse e possibilidade de ouvir diferentes perspectivas.

5. Fiscalização e prestação de contas

Garantir controle judicial e administrativo, divulgação das decisões, auditorias periódicas, canais de denúncia e responsabilização por ilícitos.

6. Condições materiais de participação

Prever remuneração adequada, acessibilidade, apoio a pessoas com deficiência, compensação de despesas e proteção contra prejuízos econômicos decorrentes do exercício da função.


ANEXO IV — QUESTÕES CONSTITUCIONAIS E INSTITUCIONAIS

1. Compatibilidade com as cláusulas pétreas

O art. 60, § 4º, da Constituição Federal impede a deliberação de propostas de emenda tendentes a abolir determinadas matérias, entre elas o voto direto, secreto, universal e periódico, a separação dos Poderes e os direitos e garantias individuais.

A substituição integral das eleições para cargos dos Poderes Executivo e Legislativo por sorteios exige análise constitucional específica. Não é possível concluir que essa mudança seria admissível apenas porque o sorteio foi utilizado em democracias históricas.

2. Elegibilidade e direitos políticos

Os critérios de participação devem ser compatíveis com a Constituição, a legislação eleitoral e as garantias fundamentais. A exclusão automática de pessoas com condenações, sem distinção das hipóteses juridicamente aplicáveis, pode gerar incompatibilidades legais.

3. Identificação e proteção de dados

Um número cívico pode auxiliar a administração do sorteio, mas não precisa ser gerado a partir de dados biométricos. A identificação e a seleção devem ser processos separados, com proteção de dados pessoais e minimização das informações coletadas.

4. Mandatos e responsabilidades

Não se deve presumir que um mandato de quatro anos seja adequado a todas as funções. Um conselho cidadão, um órgão legislativo e a chefia do Executivo possuem responsabilidades e exigências institucionais distintas.

5. Implantação progressiva

Uma alternativa prudente consiste em iniciar com assembleias cidadãs e órgãos deliberativos por sorteio, avaliar seus resultados e examinar separadamente qualquer proposta de substituição integral de eleições.


REFERÊNCIAS E FONTES VERIFICÁVEIS

  1. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Especialmente arts. 1º, 5º, 14, 29 e 60. Texto oficial consolidado — Presidência da República.
  2. ARISTÓTELES. Política, Livro IV. Perseus Digital Library.
  3. MONTESQUIEU. O Espírito das Leis, Livro II, capítulo 2. University of Chicago Press.
  4. NAJEMY, John M. Corporatism and Consensus in Florentine Politics: 1280–1400. University of North Carolina Press, 1982. Catálogo bibliográfico WorldCat.
  5. OCDE. Innovative Citizen Participation and New Democratic Institutions: Catching the Deliberative Wave. 2020. Publicação oficial.
  6. OCDE. OECD Guidelines for Citizen Participation Processes. 2022. Documento oficial.
  7. IRLANDA. Citizens' Assembly. Informações institucionais sobre organização e seleção dos participantes. Página oficial.

CONCLUSÃO

A proposta de Sorteio Cívico Democrático possui antecedentes históricos reais e referências contemporâneas relevantes. Seu mérito potencial está na possibilidade de ampliar a participação política, diversificar os perfis presentes nos espaços de decisão e reduzir algumas barreiras associadas à competição eleitoral.

O passo decisivo é definir se o objetivo é complementar as eleições, substituir a composição do Legislativo ou substituir também a escolha do Executivo. Cada alternativa possui consequências constitucionais, institucionais e democráticas distintas.

Uma reforma consistente precisa combinar igualdade de acesso, transparência, capacitação, independência técnica, fiscalização e responsabilização. A seleção aleatória não deve ser tratada como solução automática para os problemas políticos, mas como um instrumento institucional cuja utilidade depende de regras bem construídas e avaliação pública.

Princípio orientador:
Uma democracia mais participativa exige instituições que ampliem as oportunidades de participação do cidadão comum, preservem os direitos fundamentais e permitam que a sociedade fiscalize de forma efetiva o exercício do poder público.

Documento para estudo, debate e aperfeiçoamento legislativo.

As referências históricas e institucionais devem ser consultadas em suas fontes originais. A minuta não substitui parecer jurídico sobre constitucionalidade, técnica legislativa ou viabilidade de apresentação parlamentar.

© 2026 — Texto-base para discussão pública sobre o Sorteio Cívico Democrático.

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