sábado, 27 de dezembro de 2025

Algoritmo Contra Algoritmo: Um Ensaio

Algoritmo contra Algoritmo À espera de saída: política, maleabilidade e recusa Por [autor] Epígrafe Ler o mundo sem terceirizar o olhar. Interpretá-lo com palavras próprias. Concordar ou discordar sem recorrer a lentes emprestadas. Pensar com autonomia aquilo que já foi, tantas vezes, pensado por outros — e ainda assim pensar. Essa exigência é menos um método do que uma ética. Serve de baliza para o que segue e será, ao final, julgada por sua própria coerência. Introdução 2025 termina sob um cansaço difuso. Não é apenas fadiga econômica ou descrença institucional: trata-se de um esgotamento cognitivo e moral. A política segue ativa, ruidosa, permanentemente em disputa, mas esvaziada de sentido programático. As escolhas que se anunciam para 2026 não empolgam. Mobilizam pelo medo, não pela esperança. Organizam-se mais por reações do que por projetos. Esse cenário pode ser lido como efeito de uma engrenagem contemporânea específica: o algoritmo. Não apenas o digital, mas o algoritmo social, isto é, a lógica que ordena comportamentos, distribui visibilidade, recompensa alinhamentos e pune desvios. É nesse terreno que se trava hoje uma disputa silenciosa: algoritmo contra algoritmo. 1. A maleabilidade humana: advertência antiga Montesquieu, no século XVIII, descreveu o ser humano como “flexível”: moldável pelas ideias, costumes e instituições. Essa flexibilidade, dizia ele, é ambígua. Pode conduzir ao autoconhecimento quando há instrução moral; pode também resultar no “roubo do sentimento” quando sistemas sociais impedem que o indivíduo reconheça sua própria natureza. Não se trata de ingenuidade iluminista. Trata‑se de um alerta: sociedades organizam pessoas. E, ao fazê‑lo, podem formá‑las ou esvaziá‑las. 2. O batalhão: de estrutura social a ecossistema algorítmico O samba “Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim)”, de Wilson Batista, imortalizado na interpretação de Paulinho da Viola, formula em linguagem mínima uma recusa decisiva: “Nunca tomei parte desse enorme batalhão…” O “batalhão” é a metáfora do alinhamento exigido: poder, posições, prestígio, reconhecimento. Hoje, esse batalhão não se limita a partidos ou hierarquias formais. Ele se expandiu e se automatizou. O batalhão contemporâneo é o feed, a métrica, o engajamento, o conflito permanente. Entrar nele significa ajustar linguagem, ritmo emocional e identidade para permanecer visível. Aqui, a maleabilidade humana encontra sua exploração mais eficiente. 📺 Interlúdio audiovisual I A recusa formulada no samba não é abstrata. Ela tem corpo, tempo e voz. Antes de avançar, vale ouvir como essa posição se sustenta quando dita sem pressa, sem ênfase e sem disputa por atenção. Paulinho da Viola interpreta “Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim)”, de Wilson Batista: https://www.youtube.com/watch?v=U01OSRz7Bi0 3. O roubo do sentimento na era da atenção O algoritmo não suprime o sentimento. Ele o converte. Sentir torna‑se reagir. Pensar vira responder. Experiência vira conteúdo. A política passa a operar menos pela persuasão e mais pela ativação emocional contínua. O cidadão não é convocado a compreender, mas a se posicionar imediatamente. Nesse processo, perde‑se a medida humana. O sentimento não desaparece; ele é sequestrado e redirecionado. 📺 Interlúdio audiovisual II Antes que a política se organize definitivamente como reação e conflito, convém lembrar que houve um tempo em que a formação do sensível passava por outros ritmos, outras imagens e outra relação com a palavra. Curta “Brasilianas (1955) – Meus Oito Anos”, direção Humberto Mauro, poema de Casimiro de Abreu: https://www.youtube.com/watch?v=UuhkUa0bOck 4. O binarismo como algoritmo dominante A política brasileira recente ilustra esse mecanismo com clareza. Dois polos se retroalimentam. A existência de um justifica o outro. A agitação de um reforça o antagonista. Programas tornam‑se acessórios. O drama é o centro. Esse binarismo não é apenas disputa ideológica: é modelo operacional. Ele organiza a cena pública porque é eficiente em termos de engajamento. Paralisa alternativas e empobrece a representação. 5. A recusa: entre consciência e fadiga O samba propõe uma recusa consciente. Não é fuga nem apatia. É preservação de autonomia: “Nada mais vai no caixão…” A frase dissolve a lógica acumulativa que sustenta o batalhão. Introduz finitude, proporção, limite. Já a recusa contemporânea frequentemente assume outra forma: não‑voto, indecisão, indiferença. Aqui, o risco é grande. A recusa deixa de ser ética e torna‑se apenas exaustão produzida pelo próprio sistema. O algoritmo vence quando até o afastamento é previsto e absorvido. 6. Algoritmo contra algoritmo Falar em “algoritmo contra algoritmo” não é propor tecnocracia nem neutralidade. É reconhecer que: há lógicas que moldam comportamentos; algumas reduzem o humano à previsibilidade; outras podem restaurar medida, tempo e reflexão. O samba opera como um anti‑algoritmo: desacelera, desprioriza, retira recompensa simbólica. Ele não compete por visibilidade. Retira sentido da competição. Conclusão: três caminhos possíveis Diante do esgotamento atual, três trajetórias se desenham: 1. A continuidade algorítmica O conflito se mantém como motor. A política segue organizada por medo e reação. O cansaço cresce, mas o sistema permanece funcional. 2. A recusa passiva Afastamento, não-voto, silêncio sem elaboração. O batalhão segue marchando sem oposição consciente. O sentimento não retorna. 3. A recusa lúcida Reorganização do espaço público a partir de limites, programas e mediações. Não negação da política, mas reconstrução de suas bases cognitivas e morais. Aqui a epígrafe retorna como teste: foi possível pensar sem terceirizar o olhar? Cartola lamentava: “Ah, se eu tivesse autonomia…”. Paulinho da Viola foi ungido como herdeiro, mas o fio que sustenta este texto não passa apenas por ele. Passa por Wilson Batista, contemporâneo de Cartola e Noel, que percebeu cedo o preço do alinhamento. E passa por Montesquieu, que advertiu que a flexibilidade humana é virtude e risco. O buraco é mais embaixo porque não se trata de sucessão estética, mas de autonomia moral. Referências e fontes MONTESQUIEU. O Espírito das Leis. Prefácio. 1748. https://www.gutenberg.org/ebooks/27573 NOGUEIRA, Marco Aurélio. “À espera de 2026”. O Estado de S. Paulo, 27 dez. 2025. https://www.estadao.com.br BATISTA, Wilson. Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim). Samba. Década de 1940. https://pt.wikipedia.org/wiki/Wilson_Batista PAULINHO DA VIOLA. A Dança da Solidão. Álbum, 1972. https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulinho_da_Viola CARTOLA. Entrevistas e cancionário. https://pt.wikipedia.org/wiki/Cartola_(compositor)
Epílogo / Epitáfio Aqui jaz o samba. Não morreu de silêncio, mas de excesso de ruído. Entre a surdina do bamba e a cadência do morto, descansa a forma que ensinou limites ao poder e medida ao homem. Wilson Batista encontrou Montesquieu não no salão das ideias, mas no ponto exato em que a autonomia se recusa a marchar. P

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