Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sábado, 27 de dezembro de 2025
Algoritmo Contra Algoritmo: Um Ensaio
Algoritmo contra Algoritmo
À espera de saída: política, maleabilidade e recusa
Por [autor]
Epígrafe
Ler o mundo sem terceirizar o olhar. Interpretá-lo com palavras próprias. Concordar ou discordar sem recorrer a lentes emprestadas. Pensar com autonomia aquilo que já foi, tantas vezes, pensado por outros — e ainda assim pensar.
Essa exigência é menos um método do que uma ética. Serve de baliza para o que segue e será, ao final, julgada por sua própria coerência.
Introdução
2025 termina sob um cansaço difuso. Não é apenas fadiga econômica ou descrença institucional: trata-se de um esgotamento cognitivo e moral. A política segue ativa, ruidosa, permanentemente em disputa, mas esvaziada de sentido programático. As escolhas que se anunciam para 2026 não empolgam. Mobilizam pelo medo, não pela esperança. Organizam-se mais por reações do que por projetos.
Esse cenário pode ser lido como efeito de uma engrenagem contemporânea específica: o algoritmo. Não apenas o digital, mas o algoritmo social, isto é, a lógica que ordena comportamentos, distribui visibilidade, recompensa alinhamentos e pune desvios. É nesse terreno que se trava hoje uma disputa silenciosa: algoritmo contra algoritmo.
1. A maleabilidade humana: advertência antiga
Montesquieu, no século XVIII, descreveu o ser humano como “flexível”: moldável pelas ideias, costumes e instituições. Essa flexibilidade, dizia ele, é ambígua. Pode conduzir ao autoconhecimento quando há instrução moral; pode também resultar no “roubo do sentimento” quando sistemas sociais impedem que o indivíduo reconheça sua própria natureza.
Não se trata de ingenuidade iluminista. Trata‑se de um alerta: sociedades organizam pessoas. E, ao fazê‑lo, podem formá‑las ou esvaziá‑las.
2. O batalhão: de estrutura social a ecossistema algorítmico
O samba “Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim)”, de Wilson Batista, imortalizado na interpretação de Paulinho da Viola, formula em linguagem mínima uma recusa decisiva:
“Nunca tomei parte desse enorme batalhão…”
O “batalhão” é a metáfora do alinhamento exigido: poder, posições, prestígio, reconhecimento. Hoje, esse batalhão não se limita a partidos ou hierarquias formais. Ele se expandiu e se automatizou.
O batalhão contemporâneo é o feed, a métrica, o engajamento, o conflito permanente. Entrar nele significa ajustar linguagem, ritmo emocional e identidade para permanecer visível. Aqui, a maleabilidade humana encontra sua exploração mais eficiente.
📺 Interlúdio audiovisual I
A recusa formulada no samba não é abstrata. Ela tem corpo, tempo e voz. Antes de avançar, vale ouvir como essa posição se sustenta quando dita sem pressa, sem ênfase e sem disputa por atenção.
Paulinho da Viola interpreta “Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim)”, de Wilson Batista: https://www.youtube.com/watch?v=U01OSRz7Bi0
3. O roubo do sentimento na era da atenção
O algoritmo não suprime o sentimento. Ele o converte.
Sentir torna‑se reagir. Pensar vira responder. Experiência vira conteúdo. A política passa a operar menos pela persuasão e mais pela ativação emocional contínua. O cidadão não é convocado a compreender, mas a se posicionar imediatamente.
Nesse processo, perde‑se a medida humana. O sentimento não desaparece; ele é sequestrado e redirecionado.
📺 Interlúdio audiovisual II
Antes que a política se organize definitivamente como reação e conflito, convém lembrar que houve um tempo em que a formação do sensível passava por outros ritmos, outras imagens e outra relação com a palavra.
Curta “Brasilianas (1955) – Meus Oito Anos”, direção Humberto Mauro, poema de Casimiro de Abreu: https://www.youtube.com/watch?v=UuhkUa0bOck
4. O binarismo como algoritmo dominante
A política brasileira recente ilustra esse mecanismo com clareza. Dois polos se retroalimentam. A existência de um justifica o outro. A agitação de um reforça o antagonista. Programas tornam‑se acessórios. O drama é o centro.
Esse binarismo não é apenas disputa ideológica: é modelo operacional. Ele organiza a cena pública porque é eficiente em termos de engajamento. Paralisa alternativas e empobrece a representação.
5. A recusa: entre consciência e fadiga
O samba propõe uma recusa consciente. Não é fuga nem apatia. É preservação de autonomia:
“Nada mais vai no caixão…”
A frase dissolve a lógica acumulativa que sustenta o batalhão. Introduz finitude, proporção, limite.
Já a recusa contemporânea frequentemente assume outra forma: não‑voto, indecisão, indiferença. Aqui, o risco é grande. A recusa deixa de ser ética e torna‑se apenas exaustão produzida pelo próprio sistema.
O algoritmo vence quando até o afastamento é previsto e absorvido.
6. Algoritmo contra algoritmo
Falar em “algoritmo contra algoritmo” não é propor tecnocracia nem neutralidade. É reconhecer que:
há lógicas que moldam comportamentos;
algumas reduzem o humano à previsibilidade;
outras podem restaurar medida, tempo e reflexão.
O samba opera como um anti‑algoritmo: desacelera, desprioriza, retira recompensa simbólica. Ele não compete por visibilidade. Retira sentido da competição.
Conclusão: três caminhos possíveis
Diante do esgotamento atual, três trajetórias se desenham:
1. A continuidade algorítmica
O conflito se mantém como motor. A política segue organizada por medo e reação. O cansaço cresce, mas o sistema permanece funcional.
2. A recusa passiva
Afastamento, não-voto, silêncio sem elaboração. O batalhão segue marchando sem oposição consciente. O sentimento não retorna.
3. A recusa lúcida
Reorganização do espaço público a partir de limites, programas e mediações. Não negação da política, mas reconstrução de suas bases cognitivas e morais.
Aqui a epígrafe retorna como teste: foi possível pensar sem terceirizar o olhar?
Cartola lamentava: “Ah, se eu tivesse autonomia…”. Paulinho da Viola foi ungido como herdeiro, mas o fio que sustenta este texto não passa apenas por ele. Passa por Wilson Batista, contemporâneo de Cartola e Noel, que percebeu cedo o preço do alinhamento. E passa por Montesquieu, que advertiu que a flexibilidade humana é virtude e risco.
O buraco é mais embaixo porque não se trata de sucessão estética, mas de autonomia moral.
Referências e fontes
MONTESQUIEU. O Espírito das Leis. Prefácio. 1748.
https://www.gutenberg.org/ebooks/27573
NOGUEIRA, Marco Aurélio. “À espera de 2026”. O Estado de S. Paulo, 27 dez. 2025.
https://www.estadao.com.br
BATISTA, Wilson. Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim). Samba. Década de 1940.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Wilson_Batista
PAULINHO DA VIOLA. A Dança da Solidão. Álbum, 1972.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulinho_da_Viola
CARTOLA. Entrevistas e cancionário.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cartola_(compositor)
Epílogo / Epitáfio
Aqui jaz o samba.
Não morreu de silêncio,
mas de excesso de ruído.
Entre a surdina do bamba e a cadência do morto,
descansa a forma que ensinou limites ao poder
e medida ao homem.
Wilson Batista encontrou Montesquieu
não no salão das ideias,
mas no ponto exato em que a autonomia
se recusa a marchar.
P
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