quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Em tese, príncipes

ODORICO PARAGUAÇO
No Brasil até o passado é imprevisível. EM TESE: PRÍNCIPES República, hereditariedade informal e o Príncipe Total no Brasil pós-moderno Epígrafe “Não é o bem particular, mas o bem comum o que engrandece as cidades.” Nicolau Maquiavel, Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio Citação-chave “O contrário acontece quando há um Príncipe e, na maioria das vezes, o que é feito em seu favor ofende a cidade, e o que se faz pela cidade o ofende.” Maquiavel, Discursos, Livro I, cap. IX Resumos Resumo (Português) Este ensaio examina a persistência da lógica principesca no Brasil republicano, articulando Maquiavel, Gramsci e a tradição literária machadiana para analisar a hereditariedade informal do poder, a formação das elites, o papel das famílias políticas e as tensões entre sistema financeiro, Judiciário e democracia. Argumenta-se que a República brasileira aboliu o trono, mas não a mentalidade principesca, hoje reorganizada sob a figura do Príncipe Total. Abstract (English) This essay analyzes the persistence of princely logic in Brazil’s republican experience, drawing on Machiavelli, Gramsci, and Machado de Assis. It examines informal political heredity, elite formation, family-based power, and institutional tensions involving finance and the judiciary. The argument is that the Republic abolished the throne but not the princely mindset, now reconfigured as a Total Prince. Riassunto (Italiano) Il saggio analizza la persistenza della logica principesca nella Repubblica brasiliana, alla luce di Machiavelli, Gramsci e Machado de Assis. Si sostiene che la Repubblica abbia abolito il trono ma non la mentalità del principe, oggi riorganizzata in forme post-moderne di potere totale. Résumé (Français) Cet essai examine la survivance de la logique princière dans la République brésilienne à partir de Machiavel, Gramsci et Machado de Assis. Il soutient que la République a supprimé le trône, mais non la culture du prince, aujourd’hui reformulée sous la figure du Prince Total. Introdução A República brasileira nasce como promessa de superação do poder hereditário, mas carrega consigo uma contradição estrutural: a persistência de práticas, mentalidades e privilégios próprios do principado. Desde o Império até o presente, o poder reorganiza-se menos pela ruptura e mais pela adaptação. Este ensaio propõe uma leitura maquiavélica e gramsciana do Brasil contemporâneo, iluminada pela ironia machadiana, para compreender como o príncipe reaparece onde a República falha. Desenvolvimento 1. Maquiavel e a distinção fundadora Maquiavel separa com precisão o bem comum republicano do interesse particular do príncipe. Não se trata apenas de forma de governo, mas de lógica de ação. Onde o poder se personaliza, a cidade é ofendida. 2. O Império como matriz Dom Pedro I, português feito imperador brasileiro, e Dom Pedro II, brasileiro coroado criança, fundam uma tradição de poder concentrado, legitimado por símbolos, saber e distância social. A queda do Império não elimina essa lógica: ela se desloca. 3. Bacharéis, elites e intelectuais orgânicos De Coimbra à PUC-Rio, do Apipucos ao Itamaraty, forma-se um circuito de reprodução das elites. À luz de Gramsci, trata-se de intelectuais orgânicos da ordem, capazes de dirigir sem parecer governar. 4. Famílias políticas na República A centralidade dos filhos de presidentes — tanto em governos quanto na oposição — revela uma hereditariedade informal. A República tolera o príncipe desde que ele se apresente como cidadão comum. 5. Príncipes do dinheiro, da toga e da farda O sistema financeiro, o Judiciário e as Forças Armadas produzem seus próprios príncipes. O Caso Master, as tensões no STF e a atuação da Polícia Federal ilustram o conflito entre legalidade republicana e tutela aristocrática. 6. O Príncipe Total Na modernidade tardia, o príncipe não reina sozinho. Ele é total porque soma narrativa, instituição, família, capital simbólico e medo. É temido pelos democratas porque promete ordem onde a República exige conflito regulado. Conclusões provisórias A República brasileira aboliu o trono, mas não a cultura principesca. O príncipe contemporâneo opera por redes, não por coroas. A democracia depende menos de salvadores e mais de instituições desacralizadas. O maior risco não é o autoritarismo explícito, mas o paternalismo legitimado. Sugestões para futuros desenvolvimentos Comparar o Príncipe Total brasileiro com experiências latino-americanas e europeias; Analisar o papel das plataformas digitais na construção de novas cortes simbólicas; Estudar a formação jurídica como mecanismo de aristocratização republicana; Desenvolver uma leitura cruzada entre Maquiavel e Machado sobre dissimulação e poder. Epitáfio maquiavélico-machadiano-gramsciano (pós-moderno) Aqui jaz o Príncipe. Morreu eleito, viveu ungido, jurou servir à República, mas governou como herdeiro. A cidade sobreviveu, porque, apesar dele, aprendeu a desconfiar. Referências e fontes MAQUIAVEL, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. GODOY, Marcelo. “Todos os filhos dos presidentes”. O Estado de S. Paulo, 2025. CRUZ, Valdo. Bastidores do STF e Caso Master, dezembro de 2025. Relatórios e notícias da Polícia Federal, STF e Banco Central do Brasil. Links para consulta Maquiavel – Discursos: https://www.gutenberg.org Gramsci – Cadernos do Cárcere (acervos): https://www.marxists.org Machado de Assis – obras completas: https://www.dominiopublico.gov.br O Estado de S. Paulo: https://www.estadao.com.br STF – notícias e decisões: https://www.stf.jus.br Polícia Federal: https://www.gov.br/pf S
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025 Opinião do dia – Nicolau Maquiavel* “É fácil de entender: não é o bem particular, mas o bem comum o que engrandece as cidades. E, sem dúvida, este bem comum não é observado senão nas repúblicas, porque tudo o que é feito, é feito para seu bem, e embora aquilo que se faça cause dano a um ou outro homem privado, são tantos os que se beneficiam que é possível fazer as coisas contra a vontade dos poucos que sejam oprimidos por elas. O contrário acontece quando há um Príncipe e, na maioria das vezes, o que é feito em seu favor ofende a cidade, e o que se faz pela cidade o ofende”. *Nicolau Maquiavel (1469-1527), Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, 2000. p. 139
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025 Todos os filhos dos presidentes. Por Marcelo Godoy O Estado de S. Paulo Lula e Bolsonaro têm de lidar com as novas confusões em torno de suas proles neste decisivo 2026 Desde 1954 a Nação não se debruçava tanto sobre o que se diz e se pensa a respeito de familiares de um presidente. A cena atual tem um complemento único na história do País: as atenções também voltadas para as confusões dos filhos de um ex-presidente. É notável a insistência com que os nomes da prole de Lula aparecem nas investigações da Polícia Federal. Primeiro foi o enteado, Marcos Cláudio Lula da Silva. Ele surpreendeu os agentes que bateram na porta da casa de sua ex-mulher, Carla Ariane Trindade, em Campinas, para cumprir um mandado de busca durante a Operação Coffee Break. Eram 6 horas, horário incomum para um ex-marido abrir a porta da casa da ex-mulher. Enfim, a ex-nora é suspeita de receber propinas de um empresário preso na operação, em 12 de novembro. Na mesma investigação surgiu um ex-sócio de Fábio Luís, o Lulinha. Lulinha escapou, por enquanto, de ser convocado a depor em outro caso, o investigado pela CPI do INSS. Mas a Operação Sem Desconto mostrou que o Careca do INSS fez repasses de R$ 300 mil a uma ricaça e encontrou mensagens que sugerem que o dinheiro era destinado ao “filho do rapaz”. Na Coffee Break há fotos e mensagens que mostram que a máfia da Educação tinha conexões com aquela do INSS, o que sugere que malfeitores dos dois esquemas estariam juntos e misturados. As aparições dos familiares do presidente obrigaram Lula a dizer: “Se tiver filho meu metido nisso, ele será investigado”. O que os petistas temem não são os inquéritos e CPIs, mas a campanha eleitoral de 2026. É nela que a oposição vai questionar os papéis dos filhos de Lula, estratégia que não deve ser diferente da que o PT deve lançar: expor os filhos de Bolsonaro. Flávio, o ungido pelo pai como pré-candidato à Presidência hoje vive às turras com o STF, mas, no passado, contou com decisões da Corte para paralisar as investigações sobre a rachadinha em seu gabinete. Era retratado como o “filho rico do presidente”, dono de imóveis, lojas e influente nos tribunais. E não foi o único a ocupar o noticiário em 2025. Eduardo se aboletou nos EUA, onde, além de frequentar a Disney, fez lobby para prejudicar o País com tarifas e ameaças a magistrados em razão do processo a que o pai respondia no Supremo. Conseguiu apenas perder o mandato e ganhar um processo por obstrução da Justiça no STF. Por fim, 2026 reserva espaço a Carlos, que pretende se candidatar ao Senado por Santa Catarina em uma manobra que promete dividir a direita e permitir à esquerda obter no Estado uma, até então, improvável vaga no Senado. Enfim, o que 2026 promete é um ano com muitos dos filhos dos presidentes.
Príncipes: da Coroa ao Bacharel Dom Pedro I nasceu em Portugal e aportou na colônia brasileira em 1808, conduzido pela família imperial sob a proteção da Marinha inglesa, fugindo de um italiano coroado imperador da França. Tornou-se imperador do Brasil e, mais tarde, retornou à terra natal para assumir cumulativamente o trono português. A acumulação de títulos antecipava um traço duradouro da política brasileira: o poder que se desloca sem jamais se dissolver. Dom Pedro II nasceu no Brasil. Foi coroado ainda criança e só deixou o país já adulto, no auge de sua maturidade intelectual, em sua primeira viagem à Europa, passando pelos Estados Unidos e aportando na França. O imperador ilustrado, porém, retornaria ao exílio em 1889, escorraçado por novos príncipes — militares e civis — que aboliram o trono, mas preservaram a lógica imperial. O Poder Moderador, ungido por Deus e situado acima dos três poderes, apenas mudou de forma, não de substância. Machado de Assis percebeu cedo essa mutação. Bentinho, seu personagem mais emblemático, vai a Coimbra em busca de ilustração e retorna bacharel, investido não de coroa, mas de distinção social. É o príncipe republicano de classe, o intelectual orgânico avant la lettre, na linguagem de outro italiano, mais ao norte e mais próximo da África morena. O bacharel substitui o nobre; a toga, a espada; o diploma, o sangue. O padrão se atualiza. Arthur Lira e Ciro Nogueira buscam ilustração no bacharelado da Gávea, na PUC-Rio, abonados por famílias do Norte que desfrutam do Sul maravilha. A formação jurídica continua a funcionar como rito de passagem, abrindo as portas da corte republicana. Na mesma linhagem, o príncipe da sociologia carioca, formado por Florestan Fernandes e herdeiro simbólico do príncipe dos Apipucos de Recife, assume o papel de príncipe do Itamaraty. Coordena jovens bacharéis, muitos deles oriundos da PUC-Rio, e põe o Plano Real de pé. A moeda se estabiliza; a hierarquia se preserva. E lá vai a barca, avançando para 2025–2026. De um lado, príncipes do sistema financeiro; de outro, príncipes togados. Ambos amparados por garantias luxuosas oferecidas por príncipes federais e militares. Nenhum usa coroa. Todos reivindicam tutela. A República segue, vigiada. S
Os bastidores relatados pelo jornalista Valdo Cruz em 30 de dezembro de 2025 confirmam um cenário de alta tensão institucional no STF, envolvendo a condução do Caso Master pelo ministro Dias Toffoli. Os fatos centrais desse desdobramento no último dia útil do ano foram: Acareação no STF sob Tensão: Em pleno recesso judiciário, Toffoli trouxe para dentro da sede do Supremo a delegada da Polícia Federal, Janaina Palazzo, e os investigados para a realização de depoimentos e uma acareação. O clima foi descrito como pesado devido a divergências entre a delegada e o juiz auxiliar de Toffoli sobre a metodologia dos interrogatórios. Recuo e Autonomia à PF: Inicialmente, Toffoli havia determinado a acareação direta entre três partes. No entanto, após pressão e críticas de que o Judiciário estaria interferindo em ritos da PF, o ministro recuou e deu autonomia para que a delegada decidisse, após ouvir os envolvidos individualmente, se a acareação seria necessária. Resultado do Confronto: A acareação acabou ocorrendo apenas entre o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. O diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, foi dispensado do confronto por decisão da PF, após prestar um depoimento considerado esclarecedor. Contexto de Bastidores: O movimento de Toffoli de trazer militares e policiais para o núcleo de seu gabinete (como o caso citado do general da reserva Fernando Azevedo e Silva no passado) é visto por analistas como uma marca de sua gestão, buscando assessoria direta de órgãos de controle e segurança dentro do tribunal para mediar crises e investigações sensíveis. O caso é monitorado de perto por envolver suspeitas de fraudes de R$ 12 bilhões e o uso de "contabilidade criativa" no sistema financeiro. As respostas da IA podem conter erros. Para orientação jurídica, consulte um profissional. Saiba mais O clima no Supremo foi de tensão entre a delegada da PF Janaina Palazzo, o ... Instagram·SomosResistência 2:24 Caso Master: PF conclui acareação entre Daniel Vorcaro e ex-presidente do BRB ... YouTube·CNN Brasil 0:49 PF conclui acareação com dono do Banco Master e ex-presidente do BRB | WW YouTube·CNN Brasil" O ChatGPT disse: Entendi — você compartilhou um conjunto de textos e anotações que misturam citação clássica (Maquiavel), artigo jornalístico contemporâneo, reflexões histórico-políticas sobre “príncipes” no Brasil e bastidores institucionais recentes (STF, sistema financeiro, PF). Para já não ficar em silêncio nem interpretar demais, faço duas coisas abaixo: uma síntese interpretativa curta do conjunto; opções claras do que posso fazer a seguir, conforme o que você quiser. 1) Síntese interpretativa do conjunto O fio condutor do material é a ideia de “príncipes” como forma recorrente de poder no Brasil, atravessando: Maquiavel: a oposição entre bem comum (república) e interesse particular (príncipe); República brasileira atual: filhos de presidentes (Lula e Bolsonaro) funcionando como extensões informais de poder, conflito e desgaste institucional; Império: Pedro I e Pedro II como fundadores de uma lógica patrimonial e personalista do Estado; Literatura e formação das elites: Bentinho (Machado), Coimbra, PUC-Rio, Apipucos — a reprodução simbólica e educacional das classes dirigentes; Tecnocracia e finanças: “príncipes” do sistema financeiro, do Plano Real ao Caso Master; Judiciário: “príncipes togados”, com tensão entre STF, PF, militares e órgãos de controle. O argumento implícito é que a República nunca conseguiu eliminar a lógica principesca, apenas a redistribuiu: do trono para o partido, da coroa para o mandato, do sangue para o sobrenome, da espada para a toga, do palácio para o banco. No fundo, o texto dialoga com Maquiavel para sugerir que o bem comum segue capturado por interesses privados, ainda que sob roupagem republicana.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025 O que 2025 ensinou à democracia. Por Wilson Gomes Folha de S. Paulo Autoritarismo e limites ao pluralismo marcaram o ano Direita e esquerda têm dificuldade com o dissenso Esta coluna de fechamento de 2025 é uma retrospectiva. Não dos fatos do ano, mas das preocupações que orientaram nossa navegação por eles —sobretudo daquelas ligadas à comunicação política e aos dilemas da democracia brasileira, searas em que me atrevo a opinar. Ao longo dos meses, diferentes episódios, sob formas variadas, foram sendo lidos —noto agora— à luz de um mesmo campo de problemas: autoritarismo, radicalização eleitoral, crise do pluralismo e dificuldades crescentes de governar e disputar legitimidade em um ambiente polarizado. Logo no início do ano, já era evidente que a comunicação política não seria um tema lateral, mas um teste da capacidade efetiva de governar sob ataque. A incapacidade do governo de antecipar crises, reagir rapidamente e disputar percepções —como no episódio do Pix— revelou vulnerabilidades profundas em sua comunicação. Ao mesmo tempo, a persistência do bolsonarismo indicava que a conquista do imaginário brasileiro pelos radicais não havia sido superada. Fora do país, o quadro se repetia, com variações locais. Trump e a extrema direita europeia e sul-americana mostravam que não deveriam ser tratados como desvios exóticos ou acidentes históricos. Impunha-se a constatação incômoda de que o autoritarismo se tornara uma escolha política racional, com base social, estratégia definida e expectativas eleitorais concretas. Em 2025, abandonamos o choque com a eleição de líderes que desprezam normas civilizatórias e passamos a nos indagar por que parcelas expressivas do eleitorado desejam exatamente esse tipo de liderança. Tornou-se necessário abandonar a simplificação. Não existe uma extrema direita única. Populistas de direita compartilham traços, mas diferem em estilo, relação com instituições, base social e grau de radicalização. Compreender essas diferenças não é exercício acadêmico, mas condição para avaliar os custos, os limites e as vulnerabilidades. À medida que o ano avançava, a atenção foi se deslocando cada vez mais para dentro do campo democrático. Um problema passou a se destacar: a erosão do pluralismo. À direita e à esquerda, cresce a dificuldade de conviver com o dissenso como elemento legítimo da democracia. A tentação de doutrinar, reeducar ou silenciar o outro —em nome de valores tradicionais ou da justiça— torna-se recorrente. A política vai sendo empurrada para um registro moralizante, no qual verdades consideradas inegociáveis substituem a disputa entre projetos. Nesse ponto, nos deparamos com as fragilidades democráticas da esquerda. Não por simetria fácil com a extrema direita, mas por um dilema próprio. Sempre que a igualdade social é colocada acima da igualdade política, das liberdades civis e do repúdio inequívoco ao autoritarismo, a credencial democrática se enfraquece. O apoio ou a complacência com ditaduras "amigas", a racialização da moralidade e a atribuição coletiva de culpa não são apenas incoerências normativas, mas passivos políticos com alto custo eleitoral. Em paralelo, tornou-se impossível ignorar o autoengano progressista quanto à correlação de forças. Confundir influência em elites culturais, acadêmicas e jornalísticas com maioria social levou a uma leitura equivocada do país. O Brasil é, de fato, mais conservador, mais hostil ao identitarismo e menos indulgente com certos enquadramentos morais do que muitos imaginam. A extrema direita conseguiu até mesmo ocupar o imaginário da rebeldia, da contestação e da ruptura, apresentando-se como força antiortodoxa —ainda que, na prática, opere com métodos autoritários. Ao final dessa travessia, uma linha se impõe: a democracia entrou numa fase em que já não basta ter razão normativa. É preciso compreender o terreno político concreto, os afetos dominantes, as expectativas frustradas e os limites reais da competição eleitoral. Autoritarismos de direita não crescem apenas porque mentem ou manipulam, mas porque oferecem diagnósticos, identidades e promessas que fazem sentido para sociedades inseguras e desconfiadas. É com esse quadro que chegamos a 2026. Um ano eleitoral em que a disputa não será apenas por votos e programas, mas por interpretações da realidade e por quem consegue parecer mais legítimo e mais conectado ao país que existe —e não ao país que gostaríamos que existisse. Aos leitores que me acompanharam nessa navegação ao longo de 2025, e à própria democracia brasileira, fica o desejo de que o próximo ano traga mais lucidez, mais disposição ao dissenso civilizado e menos ilusões confortáveis. Um feliz Ano-Novo.

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