Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sábado, 27 de dezembro de 2025
NO futuro
“E não mais ensinará cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: — Conhece o Senhor! Porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior.” — Paulo. (HEBREUS, 8.11)
Pão Nosso - Capítulo 41 No futuro - por Rodrigo Lima
1 Quando o homem gravar na própria alma os parágrafos luminosos da Divina Lei,
2 O companheiro não repreenderá o companheiro, o irmão não denunciará outro irmão.
3 O cárcere cerrará suas portas, os tribunais quedarão em silêncio.
4 Canhões serão convertidos em arados, homens de armas volverão à sementeira do solo.
5 O ódio será expulso do mundo, as baionetas repousarão.
6 As máquinas não vomitarão chamas para o incêndio e para a morte, mas cuidarão pacificamente do progresso planetário.
7 A justiça será ultrapassada pelo amor.
8 Os filhos da fé não somente serão justos, mas bons, profundamente bons.
9 A prece constituir-se-á de alegria e louvor e as casas de oração estarão consagradas ao trabalho sublime da fraternidade suprema.
10 A pregação da Lei viverá nos atos e pensamentos de todos, porque o Cordeiro de Deus terá transformado o coração de cada homem em tabernáculo de luz eterna, em que o seu Reino Divino resplandecerá para sempre.
Emmanuel
Texto extraído da 1ª edição desse livro.
41
No futuro
Salão do Colégio Allan Kardec, Sacramento, início do século XX.
Idealizado e ampliado por Cosme Martins de Oliveira, que, à semelhança do Cosme de Damião, preferiu agir a discursar. Diante da falta, derrubou paredes, abriu espaço e não deixou ninguém — alunos ou princípios — abandonado, de mãos abanando, sem eira nem beira.
[PDF] UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA
LÁGRIMAS E ALEGRIA
O texto relata um episódio da vida de Eurípedes, quando decidiu romper com as normas vigentes ao instituir classes mistas, reunindo alunos e alunas no mesmo espaço. A iniciativa contrariou costumes, provocou comentários na cidade e dividiu opiniões: alguns pais viam progresso; outros temiam a convivência.
Entre os opositores iniciais estava Cosme Martins de Oliveira, homem respeitado, pai de alunas do colégio. Informado dos rumores, procurou Eurípedes e declarou discordância — não do princípio, mas das condições materiais: a sala era pequena para tantos alunos.
Antes que Eurípedes respondesse, Cosme assumiu a responsabilidade. Providenciou, com recursos próprios e ajuda de amigos, a reforma do prédio, ampliando o espaço escolar. A antiga residência de Eurípedes foi adaptada; paredes caíram; o salão cresceu.
A inauguração ocorreu em 17 de agosto de 1910, celebrada com discursos, apresentações teatrais e participação dos alunos. Eurípedes, sensibilizado pela solidariedade, discursou com emoção contida. Ao final, recebeu de Cosme um ramalhete de flores — gesto simples, preservado pela família como relíquia por décadas.
No ano seguinte, as matrículas aumentaram de forma expressiva.
Nota de tom (fora do resumo)
O episódio é narrado sem heroísmo retórico: homens agem, discordam, resolvem. A mudança não vem do discurso, mas do gesto prático. A emoção aparece breve, controlada, quase envergonhada — como convém aos fatos que dispensam exagero.
O Evangelho seg. o Espiritismo [Ep88] Os órfãos (cap XIII, 18)
Os órfãos
18. Meus irmãos, amai os órfãos. Se soubésseis quanto é triste ser só e abandonado, sobretudo na infância! Deus permite que haja órfãos, para exortar-nos a servir-lhes de pais. Que divina caridade amparar uma pobre criaturinha abandonada, evitar que sofra fome e frio, dirigir-lhe a alma, a fim de que não desgarre para o vício! Agrada a Deus quem estende a mão a uma criança abandonada, porque compreende e pratica a sua lei. Ponderai também que muitas vezes a criança que socorreis vos foi cara noutra encarnação, caso em que, se pudésseis lembrar-vos, já não estaríeis praticando a caridade, mas cumprindo um dever. Assim, pois, meus amigos, todo sofredor é vosso irmão e tem direito à vossa caridade; não, porém, a essa caridade que magoa o coração, não a essa esmola que queima a mão em que cai, pois freqüentemente bem amargos são os vossos óbolos! Quantas vezes seriam eles recusados, se na choupana a enfermidade e a miséria não os estivessem esperando! Dai delicadamente, juntai ao benefício que fizerdes o mais precioso de todos os benefícios: o de uma boa palavra, de uma carícia, de um sorriso amistoso. Evitai esse ar de proteção,que equivale a revolver a lâmina no coração que sangra e considerai que, fazendo o bem, trabalhais por vós mesmos e pelos vossos. – Um Espírito familiar. (Paris, 1860.)
COISAS DO MUNDO, PAULINHO
"Com amor se faz bem feito.
O amor é mais forte
que o ódio."
As coisas estão no mundo, minha nega
Um país em silêncio diante do asfalto
Paulinho da Viola e Graciliano Ramos encontram-se na esquina de 2025
Por Graça de Ramos
Publicado em 03 de novembro de 2025
Em 2025, acanalharam.
O país, cansado de seus próprios fantasmas, aprendeu a conviver com a barbárie como quem se acostuma ao calor excessivo: sem espanto, sem protesto, apenas suando. Já não se indigna. Aguenta.
Na rua estreita, os corpos foram estendidos um ao lado do outro, cobertos por panos coloridos. Não havia cerimônia. Os vivos observavam os mortos com a serenidade que se reserva ao hábito. Um filmava com o celular. Outro, calado, contava quantos eram. Nenhum pranto alto — apenas o murmúrio da vizinhança, esse som baixo que não exige explicação.
O país tornou-se isso: uma sequência de tragédias registradas e esquecidas no dia seguinte. A multidão fotografa, comenta, compartilha — e segue. A violência virou idioma nacional. Já ninguém estranha a gramática do sangue.
Lembrei de Paulinho da Viola:
“As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.”
Em 1968, Paulinho escreveu sobre um corpo iluminado, uma discussão banal, um pandeiro no chão. Falava da vida e da morte com a delicadeza exata de quem conhece o peso das coisas pequenas. Era outra violência — doméstica, íntima, quase silenciosa. Ainda havia espanto. Ainda havia música.
Hoje, minha nega, as coisas continuam no mundo.
Mas desaprendemos a vê-las.
A morte perdeu o peso. A notícia virou ruído. A compaixão, artigo raro. O país olha, registra e passa. Não por crueldade explícita, mas por cansaço. O cansaço é uma forma eficiente de anestesia.
Graciliano Ramos diria — sem elevar a voz — que o Brasil se acostumou ao suplício. Que o povo, esfolado pela rotina e pela polícia, aprendeu a sobreviver sem esperança, porque a esperança exige energia, e energia falta. Reconheceria a secura deste tempo: os vivos andando de cabeça baixa, os mortos alinhados no asfalto como números mal resolvidos.
O samba de Paulinho insiste, contudo, como uma oração sem igreja. Não promete redenção. Apenas lembra que ainda há algo por aprender. Talvez o gesto simples de não desviar o olhar. Talvez o desconforto de sentir vergonha quando todos parecem excessivamente à vontade.
As coisas estão no mundo, minha nega.
Mas parece que o mundo desaprendeu de sentir —
e segue, como quem anda, sem saber exatamente para onde.
As coisas estão no mundo, minha nega
Um país em silêncio diante do asfalto. Paulinho da Viola e Graciliano Ramos encontram-se na esquina de 2025.
Por Graça de Ramos — Publicado em 03 de novembro de 2025
Em 2025, acanallaram.
O país, cansado de seus próprios fantasmas, aprendeu a conviver com a barbárie como quem suporta o calor. Não se espanta mais. Só transpira.
Na rua estreita, os corpos foram estendidos um ao lado do outro, cobertos com panos coloridos. Os vivos observavam os mortos com a serenidade que se reserva ao costume. Alguém filmava com o celular. Outro, calado, contava quantos eram. Nenhum pranto alto — apenas o murmúrio da vizinhança.
O país virou isso: uma sequência de tragédias documentadas, esquecidas no dia seguinte. A multidão fotografa, comenta, compartilha, e segue. A violência se tornou o idioma nacional, e já ninguém estranha a gramática do sangue.
Lembrei de Paulinho da Viola:
“As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.”
Em 1968, ele escreveu sobre um corpo iluminado, uma discussão banal, um pandeiro no chão. Falava da vida e da morte com a delicadeza que só os poetas do morro conhecem. Era outra violência, mais íntima, menos institucionalizada. Ainda havia espanto, havia música.
Hoje, minha nega, as coisas continuam no mundo — mas desaprendemos a vê-las.
A morte perdeu o peso. A notícia virou ruído. E a compaixão, luxo.
Graciliano diria que o país se acostumou ao suplício. Que o povo, esfolado pela rotina e pela polícia, aprendeu a sobreviver sem esperança. Ele entenderia a secura deste tempo, em que os vivos andam de cabeça baixa e os mortos se alinham em fila no asfalto.
O samba de Paulinho ecoa como oração laica, lembrando que ainda há algo por aprender. Talvez o gesto de não desviar o olhar. Talvez o dever de sentir vergonha.
As coisas estão no mundo, minha nega.
Mas parece que o mundo desaprendeu de sentir.
🎧 Ouça a música original:
Paulinho da Viola — Coisas do Mundo, Minha Nêga (1968)
📀 Versão do álbum Memórias Cantando (1976 / Remaster 2012)
Paulinho da Viola — Coisas do Mundo, Minha Nêga (2012 Remaster)
Ficha técnica
Voz e violão: Paulinho da Viola
Piano: Cristovão Bastos
Violão: Cesar Faria
Flauta e clarinete: Copinha
Bandolim: Chiquinho
Baixo elétrico: Dininho
Pandeiro: Elton Medeiros
Bateria: Hércules Pereira Nunes
Chocalho: Chaplin
Tamborim: Rafael
Arranjo: coletivo
Direção artística: Milton Miranda
Produção: Paulinho da Viola e Mariozinho Rocha
Arte da capa: Elifas Andreato
Selo: EMI — LP 1976 / CD 1996
Capa do álbum:
Paulinho da Viola — “Memórias Cantando”
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