Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sábado, 18 de abril de 2026
Fidelidade à fonte e fiel à mensagem?
"Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.”
João Guimarães Rosa
José de Souza Martins: O Brasil oculto da polarização
"A partir de 1881, o analfabetismo voltava a vetar o direito de ser eleitor. A sociedade enriquecia, mas não se desenvolvia socialmente. O Brasil sempre foi bom em inventar discriminações e exclusões para se adaptar sem se transformar.
Só em 1967, uma emenda à Constituição reconheceu aos analfabetos o direito de voto. Completava a Lei Áurea. Mas as graves imperfeições do sistema político continuam a mantê-los fora da cidadania. Nas eleições municipais de 2016, dos mais de 38 milhões de eleitores analfabetos, 44% se abstiveram, quase 17 milhões de eleitores.
A polarização política não será superada enquanto o país for competente em eleger representantes do atraso social e do retrocesso político. Gente nascida e cevada nos chamados currais eleitorais dessa imensa e secular trama de armadilhas políticas à democracia.
Há grandes e significativas exceções políticas, de cidadãos decentes e corajosos, empenhados no bem comum e no progresso político do país. Tomara Deus. Mas, Deus mesmo, se vier, que venha armado, como alertou Guimarães Rosa."
Fidelidade à fonte e fiel à mensagem?
Uma carta persa do Brasil ao olhar satírico de Londres
🖼️ Ilustração (à maneira de William Hogarth)
Ilustração satírica no estilo de Hogarth
CARTA LXVII
Do Brasil, a um nobre persa em Londres
Meu estimado amigo,
Se as artes, como me escreves, têm em Londres um intérprete tão engenhoso quanto o pintor que satiriza os vícios de tua cidade, creio poder assegurar-te que aqui, nestas terras do Novo Mundo, encontrei matéria que não lhe seria menos fecunda.
Assisti recentemente a uma cena que, se transposta ao buril desse teu célebre observador dos costumes, produziria uma dessas composições morais em que cada figura parece ignorar o ridículo que encarna. Tratava-se de uma dama reputada por instruída, cuja função é narrar aos outros os acontecimentos do reino — não como um simples cronista, mas como um intérprete das intenções ocultas dos homens.
Ela falava de um magistrado que, segundo dizia, apenas “exarara” um ato conforme a “jurisprudência cediça”. Confesso-te que, ao ouvir tais palavras, julguei estar diante de um escriba de tribunal e não de alguém que se dirige ao público. Mas logo percebi que essa linguagem não era acidente: era ornamento.
Aqui, meu caro, não basta dizer — é preciso parecer dizer como aqueles que decidem. A palavra não serve apenas para esclarecer, mas para indicar proximidade com os que a inspiram. Assim, quem escuta não distingue se está diante de um relato ou de um eco.
O mais curioso, porém, é a prudência com que essa dama se move. Declara com insistência que não há crime; repete que nada foi provado; e, no entanto, cerca essas negativas de tal forma que o espírito do ouvinte, conduzido com delicadeza, chega sozinho a conclusões que jamais foram afirmadas.
Dir-se-ia que aqui descobriram a arte de acusar sem acusar, de sugerir sem dizer, e de convencer sem se comprometer.
Imagino, então, como o teu artista londrino representaria tal cena: ao centro, a narradora, com uma pena numa mão e um espelho na outra — não para refletir a verdade, mas para refletir aqueles a quem deseja agradar. Ao redor, ouvintes de olhar elevado, como se a altura das palavras os elevasse também em entendimento, quando na verdade apenas os afasta da clareza.
Lembrei-me, ao sair, de que os homens não temem tanto o erro quanto a simplicidade. Preferem ser enganados com elegância do que instruídos com franqueza.
Se estas práticas chegarem um dia às tuas ruas — o que não duvido, pois os vícios viajam mais rápido que as virtudes —, aconselho-te a pedir ao teu pintor que as registre. Não para corrigi-las, pois isso seria tarefa ingrata, mas para que ao menos se possa rir delas com alguma consciência.
Permaneço, como sempre, teu atento observador das delicadezas e dos artifícios dos homens,
— Teu amigo nas terras do Brasil
Nota editorial (contexto contemporâneo)
Inspirado no espírito crítico de Montesquieu em Cartas Persas (1721), o texto propõe uma reflexão sobre práticas modernas de comunicação política e jornalística: a tensão entre fidelidade à fonte, construção narrativa e compreensão pública.
Francis Fukuyama: The End of History Was Never What You Think
Sam Harris
16 de abr. de 2026
Sam Harris speaks with Francis Fukuyama about liberal democracy, American politics, and global order. They discuss the misunderstood thesis of "The End of History," how conservatism has mutated into ethno-nationalism, the self-defeating extremes of both identity politics and neoliberalism, the damage of Trump's second term, the war in Iran, the future of Israel, antisemitism on the left and right, and other topics.
Francis Fukuyama is the Olivier Nomellini Senior Fellow at Stanford University's Freeman Spogli Institute for International Studies and Director of Stanford's Ford Dorsey Master's in International Policy. One of the most influential political thinkers of his generation, he is best known for his 1992 book The End of History and the Last Man. His forthcoming memoir is In the Realm of the Last Man. Dr. Fukuyama has held distinguished appointments at Johns Hopkins, George Mason University, the RAND Corporation, and the U.S. Department of State's Policy Planning Staff. His articles can be read at Persuasion, and his podcast is Frankly Fukuyama.
Website: francisfukuyama.com
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sexta-feira, 17 de abril de 2026
O Brasil oculto da polarização, por José de Souza Martins*
Valor Econômico
Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro
Parece que todos são contra a polarização política. À medida que o cenário das eleições se define, em particular a de presidente da República, vai ficando claro que, mais uma vez, o dilema é apenas o de optar por qual polarização. O Brasil tem mudado. Vai se ver, ficou no mesmo lugar. Os penduricalhos do oportunismo não o deixam mover-se.
Há muita coisa por trás disso. Muita história, muitas acomodações, muitos interesses. Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro, que, na verdade, é o município e o regionalismo dele decorrente. Sobretudo, óbvios e conhecidos resíduos dos imensos e acumulados impasses a que o país se torne algo diferente do que sempre foi. Mesmo nossas revoluções são golpes, como em 1889, 1930 e 1964.
A polarização nasceu com o Brasil, com a criação do primeiro município, o de São Vicente, em 1532. Estão aí os fundamentos da estrutura política da sociedade brasileira. A coisa era simples. Havia a Coroa, isto é, o poder do Estado português. E havia os municípios, então chamados “vilas”, o poder local e dos locais, a representação daquela parte da população reconhecida como gente, uma espécie de embrião minoritário e excludente da sociedade civil.
Na verdade, a Coroa não patrocinou a ocupação do território descoberto. O rei não utilizou os meios do Estado para ocupar o que veio a ser o Brasil. Os particulares, com seus próprios recursos materiais e humanos, organizavam as expedições de caça aos indígenas, que trabalhariam para eles em troca da catequese. E de ocupação do território. Em compensação, os conquistadores recebiam reconhecimento simbólico do rei, através de títulos e de formalização jurídica das sesmarias, as concessões de terras.
Era a base política do que veio a ser a corrupção no país. Tomavam do rei o que era deles mesmos, e não do rei. Por isso, no Brasil, a corrupção parece tão natural e até honesta. Os homens bons criavam o patrimônio do rei e com isso também tomavam do rei o que podiam. Não é estranho que ainda hoje, quando corruptos são apanhados, estranhem. E o próprio povo de vários modos não estranhe a corrupção porque não a considera como tal.
Naqueles começos, nem todos os habitantes eram reconhecidos como gente. Os indígenas não o eram. Os negros escravizados trazidos da África tampouco. Para ser gente era preciso ter alma. Nos primeiros tempos, havia dúvidas quanto a se indígenas e negros tinham alma. Foi penosíssimo e lento o processo do reconhecimento suficientemente amplo de que tinham alma e eram gente. Ainda no século XVIII persistia a dúvida teórica, como vejo em documentos de uma pesquisa documental que fiz, aqui e em Portugal.
A partir do século XIX a dúvida estava reduzida a saber e decidir quem podia ter direitos políticos, isto é, o direito de ser eleitor. As primeiras Constituições, desde a Independência, estabeleceram restrições a que alguém se tornasse eleitor.
Até 1881 analfabeto podia votar porque eram raríssimos nas populações originárias os alfabetizados. Para ser eleitor o importante era ter cabedal. A riqueza “alfabetizava” os ricos analfabetos. O cabedal legitimava as diferenças sociais, um progresso na linha de definição da condição humana, desde vésperas da Independência, não mais por direito de nascimento. É que o dinheiro dissolve desigualdades não econômicas e de origem.
Havia disfarces para a discriminação racial que agora tinha outras características: também aí ter cabedal era um deles. E havia uma hierarquia, quem tinha menos podia ser eleitor só no município, um pouco mais na província, muito nas eleições gerais.
A partir de 1881, o analfabetismo voltava a vetar o direito de ser eleitor. A sociedade enriquecia, mas não se desenvolvia socialmente. O Brasil sempre foi bom em inventar discriminações e exclusões para se adaptar sem se transformar.
Só em 1967, uma emenda à Constituição reconheceu aos analfabetos o direito de voto. Completava a Lei Áurea. Mas as graves imperfeições do sistema político continuam a mantê-los fora da cidadania. Nas eleições municipais de 2016, dos mais de 38 milhões de eleitores analfabetos, 44% se abstiveram, quase 17 milhões de eleitores.
A polarização política não será superada enquanto o país for competente em eleger representantes do atraso social e do retrocesso político. Gente nascida e cevada nos chamados currais eleitorais dessa imensa e secular trama de armadilhas políticas à democracia.
Há grandes e significativas exceções políticas, de cidadãos decentes e corajosos, empenhados no bem comum e no progresso político do país. Tomara Deus. Mas, Deus mesmo, se vier, que venha armado, como alertou Guimarães Rosa.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).
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