sexta-feira, 17 de abril de 2026

Do campo ao Planalto: entre o passe e a decisão

Como funciona a relação entre política e esporte, no Brasil? Poesia | Se os tubarões fossem homens, de Bertold Brecht João Gilberto - Saudosa Maloca (1982) Lula atrás em pesquisas mostra desafio sobre até que ponto PT fala para o Brasil, diz professor Jairo Nicolau, professor da FGV CPDOC, analisou no Mercado Aberto, do canal UOL, o cenário eleitoral após divulgação das pesquisas recentes. Para ele, Lula e Flávio Bolsonaro possuem desafios distintos nas eleições. #MercadoAberto #canaluol #Política #Economia #Lula #FlávioBolsonaro #Eleições #MercadoFinanceiro #corte #canaluoltextos Do diálogo entre camisa 10 e camisa 9 às táticas do poder — quando pensar e romper também definem a política O futebol brasileiro pode ser contado como um diálogo antigo entre dois personagens: o camisa 10 e o camisa 9. Um pensa, o outro rompe. Um desenha o jogo, o outro rasga a linha final. Entre ambos, não há apenas um passe — há uma época inteira. Anos 60: o futebol como invenção Nos anos 60, quando o jogo ainda cabia na imaginação e no talento cru, Pelé e Coutinho, no Santos Futebol Clube, pareciam brincar de antecipar o futuro. Não havia rigidez: o 10 invadia a área, o 9 recuava para pensar. Era o futebol como invenção permanente, onde a tabelinha era quase um sussurro combinado antes do gol. Na mesma década, em outro registro, Tostão e Dirceu Lopes, no Cruzeiro Esporte Clube, refinavam a ideia de inteligência coletiva — um jogo de aproximação, de triangulações curtas, como se o campo fosse menor para quem pensava mais rápido. Anos 70: equilíbrio entre arte e força Os anos 70 trouxeram um futebol mais físico, mas sem abrir mão da arte. Ademir da Guia e César Maluco, na Sociedade Esportiva Palmeiras, representavam o equilíbrio entre cadência e explosão. Ademir era o tempo — desacelerava o mundo ao seu redor; César era o instante — o chute seco, o fim da jogada. Já Rivellino e Flávio Minuano, no Sport Club Corinthians Paulista, davam ao jogo um tom mais dramático: o drible largo, o chute de longe, a tentativa como estilo. E no Botafogo de Futebol e Regatas, Didi e Quarentinha haviam estabelecido um modelo quase didático: o passe como régua, o gol como consequência inevitável. Anos 80: o auge da síntese Nos anos 80, o jogo amadurece taticamente, mas ainda permite o brilho individual como centro gravitacional. Zico e Nunes, no Clube de Regatas do Flamengo, sintetizam essa fase: o 10 já é também finalizador, o 9 já participa da construção. O campo se alonga, a marcação aperta, mas a dupla encontra frestas — como quem conhece de memória os espaços invisíveis do jogo. Anos 90/2000: velocidade e precisão A partir dos anos 90 e, sobretudo, nos anos 2000, o futebol se globaliza, acelera e se torna mais vertical. Na Seleção Brasileira de Futebol, Rivaldo e Ronaldo transformam eficiência em arte: menos toques, mais precisão, como se cada jogada já nascesse sabendo onde terminaria. Ao lado deles, Ronaldinho Gaúcho reintroduz o improviso — lembrando que, mesmo na era da velocidade, o futebol ainda pode ser surpresa. Juiz de Fora: quando o improvável entra em campo Mas a história não se escreve apenas nos grandes estádios. Às vezes, ela escapa — como bola vadia — para campos improváveis. Em Minas, a Seleção Brasileira de Futebol de Pelé cruzou com o Tupi Football Club. Do outro lado, homens comuns. Entre eles, Moacyr Toledo. E então aconteceu o improvável: o empate. 📸 Registro do improvável
Legenda: Pelé (à esquerda) disputa a bola com Moacyr Toledo em jogo-treino da Seleção Brasileira de Futebol contra o Tupi Football Club, em 1966. (Acervo / reprodução) A fotografia prova: por um instante, não havia diferença. Apenas jogo. Do campo à política: o mesmo dilema Essa tensão entre pensar e romper — entre o cálculo e a ação — não pertence apenas ao futebol. Ela reaparece, com outros nomes, no coração da política. No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, essa dualidade ganha forma na atuação de Guilherme Boulos e José Guimarães. Ambos encarnam uma velha encruzilhada: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o passo para preservar alianças. Boulos, vindo dos movimentos sociais, atua como o “camisa 10” — mobilizador, ideológico, voltado à base. Defende mudanças imediatas, como o fim da escala 6×1, como resposta urgente à realidade social. Guimarães, operador experiente do Congresso, assume o papel do “camisa 9” — pragmático, negociador, atento ao momento do chute. Prefere a transição, o acordo, o tempo político necessário para viabilizar decisões. Essa diferença não é erro. É método. Assim como no futebol, onde o passe e a finalização precisam coexistir, o governo oscila entre impulso e cálculo. Mas, levada ao extremo, essa dualidade pode gerar ruído — como um time que não decide se acelera ou segura o jogo. O tempo das decisões O debate sobre a jornada 6×1 revela isso com clareza. Enquanto parte do governo pressiona por mudança imediata, outra reconhece os limites impostos pelo Congresso e pelo setor produtivo. No mundo, a redução da jornada já avançou. No Brasil, o caminho parece ser gradual — uma transição possível entre o ideal e o viável. Entre o passe e o gol No futebol, a jogada perfeita nasce do encontro entre quem pensa e quem executa. Na política, talvez não seja diferente. Entre o 10 e o 9, entre Boulos e Guimarães, entre o impulso e o cálculo, o que está em jogo é sempre a mesma coisa: o tempo certo. E, como naquela fotografia em Juiz de Fora, há momentos raros em que tudo se alinha — e o improvável deixa de ser exceção para se tornar história.
Boulos e Guimarães, duas táticas de Lula na cozinha do Planalto Publicado em 17/04/2026 - 07:43 Luiz Carlos AzedoBrasília, Congresso, Economia, Eleições, EUA, Europa, Governo, Memória, Partidos, Política, Política, Saúde, Sindicatos, Trabalho Ambos protagonizam uma velha encruzilhada dos governos de esquerda: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o passo para preservar alianças e estabilidade Com a saída do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e da ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que disputarão as eleições como candidatos ao Senado, os principais operadores políticos do Palácio do Planalto passaram a ser Guilherme Boulos, na Secretária-Geral da Presidência, e José Guimarães, que substituiu Gleisi. Miriam Belchior assumiu a Casa Civil com foco na gestão administrativa do governo. Boulos e Guimarães têm perfis completamente diferentes. Ex-candidato a prefeito de São Paulo, Boulos construiu sua trajetória política a partir dos movimentos sociais, especialmente no campo da luta por moradia, o que lhe confere forte conexão com a militância de esquerda e com pautas de mobilização popular. Sua atuação no governo reflete essa origem: é um articulador de base social, voltado para sindicatos, movimentos organizados e partidos progressistas, com discurso mais ideológico e mobilizador. Já Guimarães representa a face pragmática do governo. Deputado experiente, com trânsito consolidado no Congresso, atua como operador político clássico, interlocutor do presidente junto ao Centrão e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para construir maiorias e viabilizar votações. Seu perfil é moderado, negociador capaz de fazer muitas concessões para colher resultados. Essas diferenças traduzem estratégias distintas dentro do próprio governo, as quais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estimula como forma de ampliar sua margem de manobra. No caso da proposta de extinção da escala de trabalho 6 x 1, a divergência entre ambos se tornou explícita e revela duas táticas políticas em disputa no interior do Planalto para lidar com o Congresso no processo eleitoral. Levada à prática, porém, essa dualidade costuma causar mais problemas do que soluções. Leia também: Fim da escala 6×1 opõe Congresso e governo Boulos defende uma mudança imediata, sem transição prolongada, uma pauta urgente de justiça social e qualidade de vida. Para ele, a manutenção da escala 6 x 1 representa uma forma de exploração que compromete não apenas a saúde física e mental do trabalhador, mas, também, sua capacidade de convívio familiar e desenvolvimento pessoal. É contra qualquer tentativa de uma transição longa, com implementação gradual ao longo de anos, que seria uma forma de esvaziar politicamente a medida. Ao defender que o fim da escala seja “para agora”, Boulos revela uma estratégia eleitoral que busca mobilizar a base social do lulismo e alargar a chamada “economia do afeto” para vencer as eleições. Guimarães adota postura cautelosa. Embora não se oponha ao mérito da proposta, sinaliza abertura para negociação no Congresso. Inclusive, admite a possibilidade de uma transição. Sua preocupação central é garantir que a mudança seja aprovada sem provocar reação adversa do setor produtivo ou da maioria parlamentar, cuja composição é mais conservadora. Ao afirmar que o tema deve ser “discutido” e que o formato final dependerá do Congresso, Guimarães reforça sua lógica de construção gradual de consenso, sem rupturas políticas que possam comprometer a governabilidade. A oposição também vê a questão pela ótica eleitoral e, por isso, é contra. Debate chega atrasado Essa divergência expressa duas visões sobre o ritmo e o método de transformação social: uma é orientada pela pressão política e pela mobilização, representada por Boulos e os partidos de esquerda; outra, guiada pela negociação institucional e pelo cálculo de viabilidade, encarnada por Guimarães e os aliados do governo mais ao centro. Essa é uma velha encruzilhada dos governos de esquerda: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o passo para preservar alianças e estabilidade. Leia mais: Governo admite transição no fim da escala 6×1 e expõe divergências internas O debate sobre a escala 6 x 1 chega até atrasado. A jornada 5 x 2, por exemplo, nos Estados Unidos, foi adotada por Henry Ford na sua linha de produção de automóveis, em 1926. O modelo brasileiro atual — de até 44 horas semanais — está entre os mais extensos em comparação com países desenvolvidos. Na Europa, observa-se uma tendência consolidada de redução da jornada, com ganhos de produtividade, avanço tecnológico e valorização do bem-estar. Países como Alemanha, Dinamarca e Noruega operam com cargas médias entre 26 e 28 horas semanais, enquanto a França adota uma jornada de cerca de 30 horas e a Itália, em torno de 35 horas. Esses modelos se apoiam em três fundamentos. O primeiro é econômico: trabalhadores menos exaustos tendem a ser mais produtivos. O segundo, social: jornadas menores ampliam o tempo disponível para educação, lazer e convívio familiar, contribuem para a coesão social e para economia do lazer e da cultura. O terceiro é tecnológico: a automação e a digitalização permitem produzir mais com menos horas de trabalho humano, torna possível redistribuir o tempo sem perda de eficiência. Jornadas de quatro dias (4 x 3) têm sido testadas em países como Reino Unido e Espanha. No Brasil, relações de trabalho marcadas por desigualdade e informalidade, somadas à baixa produtividade média, dificultam a adoção imediata de modelos mais avançados. Por isso, a tendência é a transição para o modelo 5 x 2, já presente em diversos setores. A proposta de jornadas mais curtas, como a 4 x 3, esbarra na maioria do Congresso. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #6x1, #Boulos, #congresso, #Guimarães, Lula 🎶 Playlist — O som do gol através do tempo (com links) Dê o play como quem revive: cada faixa é um instante congelado — o passe, o chute, o grito. Anos 60 — O futebol como invenção A Banda — Chico Buarque ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Chico+Buarque+A+Banda Mas Que Nada — Jorge Ben Jor ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Jorge+Ben+Jor+Mas+Que+Nada Anos 70 — Arte e força País Tropical — Jorge Ben Jor ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Jorge+Ben+Jor+Pa%C3%ADs+Tropical Como Nossos Pais — Elis Regina ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Elis+Regina+Como+Nossos+Pais Anos 80 — Síntese e brilho Tempo Perdido — Legião Urbana ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Legi%C3%A3o+Urbana+Tempo+Perdido Você Não Soube Me Amar — Blitz ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Blitz+Voc%C3%AA+N%C3%A3o+Soube+Me+Amar Anos 90/2000 — Velocidade e explosão É Uma Partida de Futebol — Skank ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Skank+%C3%89+Uma+Partida+de+Futebol Festa — Ivete Sangalo ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Ivete+Sangalo+Festa Juiz de Fora — O improvável eterno Romaria — Elis Regina ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Elis+Regina+Romaria Tocando em Frente — Almir Sater ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Almir+Sater+Tocando+em+Frente 🎧 Coda Se o futebol é instante, a música é permanência. O gol dura segundos — a canção, décadas. E quando o leitor apertar o play, talvez perceba: o tempo não passou — ele só mudou de faixa. Se Edu Lobo - Reza — Vídeo TV Alemanha, 1966 A Banda - Lea Massari e Chico Buarque Mas, Que Nada! Jorge Ben Jor - País Tropical Elis Regina - Como Nossos Pais Legião Urbana - Tempo Perdido (Ao Vivo Especial) Você Não Soube Me Amar - Fernanda Abreu e Blitz [DVD Ao Vivo e A Cores] Skank - É Uma Partida De Futebol Ivete Sangalo - Festa (Video Clipe) Elis Regina - Romaria Tocando em Frente, por Almir Sater

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