Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
O Globo, a Borracha e a Gaiola
Notas físico-geopolíticas sobre poder, isolamento e silêncio
Citação físico-geopolítica
Onde não há circuito, não há choque; onde não há condução, o poder se dissipa em retórica.
Epígrafe
“O mundo não é redondo para ser dominado, mas para girar fora das mãos de quem o aperta demais.”
— paráfrase livre, à sombra de Chaplin
Resumo (Português)
Este ensaio articula conceitos fundamentais da física elétrica — circuito, isolamento, potencial e blindagem — com uma metáfora geopolítica inspirada tanto na célebre cena do globo terrestre de O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin, quanto no princípio físico da Gaiola de Faraday. Argumenta-se que, em sistemas de poder assimétricos, a recusa em conduzir — mais do que o confronto direto — pode neutralizar efeitos de coerção. O isolamento estratégico surge, assim, como arquitetura de preservação soberana, não como passividade.
Abstract (English)
This essay connects basic principles of electricity — circuit closure, insulation, electric potential, and shielding — with a geopolitical metaphor inspired by the globe scene in Charles Chaplin’s The Great Dictator (1940) and by the Faraday cage principle. It argues that, in asymmetric power systems, refusing to conduct influence may be more effective than direct confrontation. Strategic insulation emerges as structural resistance rather than political passivity.
Resumen (Español)
Este ensayo articula conceptos fundamentales de la física eléctrica — circuito, aislamiento, potencial y blindaje — con una metáfora geopolítica inspirada en la escena del globo terráqueo de El Gran Dictador (1940) de Charles Chaplin y en el principio de la Jaula de Faraday. Se sostiene que, en contextos de poder asimétrico, negarse a conducir la influencia puede ser más eficaz que el enfrentamiento directo.
Corpo do texto
Chaplin, em O Grande Ditador (1940), resolve a geopolítica com um gesto silencioso: o tirano dança com o globo terrestre como se fosse um balão. Inflado, leve, dócil — até estourar. A cena, amplamente comentada como uma das mais memoráveis da história do cinema, dispensa discurso: quem confunde o mundo com brinquedo acaba vencido pela própria fantasia de controle.
"BRINCANDO COM O GLOBO"-O GRANDE DITADOR
▶ Cena do globo terrestre:
https://www.youtube.com/watch?v=qIXQoLISn2E
A física ajuda a traduzir o gesto.
Para que exista choque elétrico, é indispensável um circuito fechado. Sem caminho, não há corrente; sem corrente, não há dano. O isolante — a borracha — não enfrenta a tensão, não a repele, não a desafia. Ele simplesmente recusa-se a conduzi-la.
Esse mesmo princípio aparece de forma didática no fenômeno da Gaiola de Faraday, amplamente explicado na divulgação científica contemporânea: a carga elétrica pode atingir a superfície externa, o campo pode se reorganizar, mas o interior permanece protegido. Não por força, mas por arquitetura. Blindagem não é bravata; é engenharia.
▶ Blindagem Eletrostática | Gaiola de Faraday (BláBláLogia):
https://www.youtube.com/watch?v=ZiA9RfzY16Q
Transposta à política, a metáfora torna-se precisa. Um poder central tenta descarregar influência de modo exemplar e simultâneo. Busca eficiência: um gesto, dois efeitos. Mas entre os alvos existe um elemento isolante — um ator que não fecha o circuito.
Esse ator não reage, não amplifica, não serve de fio. Seu silêncio não é ingenuidade; é decisão estrutural. Ao não conduzir, protege a si e aos que dependem exclusivamente dele para fechar o circuito. O poder que buscava espetáculo fica entregue à própria retórica — rodopiando com o globo até o ar escapar.
Esse silêncio estruturado encontra um equivalente raro na música brasileira. Em Sinal Fechado, de Paulinho da Viola, o diálogo existe, mas não flui; as frases se tocam, não se conduzem. Há contato, há reconhecimento, mas não há passagem. Décadas depois, a interpretação ao vivo de Paulinho da Viola e Lobão (1989) reforça essa suspensão: o encontro acontece, o tempo para, a corrente não segue.
▶ Paulinho da Viola & Lobão — “Sinal Fechado” (ao vivo, 1989)
https://www.youtube.com/watch?v=t0rpfpVGPx4
Corolário técnico e político:
Quem conduz, propaga.
Quem isola, limita.
Quem confunde domínio com contato esquece que a corrente precisa de chão.
Conclusão
Em física como em geopolítica, há forças que só operam quando encontram passagem. Nem toda resistência exige embate frontal; algumas exigem apenas a recusa em servir de meio. O isolamento estratégico — quando consciente, estável e bem calibrado — funciona como blindagem coletiva, preservando soberanias sem transformar o espaço comum em teatro de descargas alheias.
O poder gosta de circuitos contínuos.
A sobrevivência prefere bons isolantes.
Epitáfio (à maneira de Ayres, em Machado de Assis)
Aqui jaz um condutor voluntário.
Teve contato com tudo,
achou-se centro do circuito,
e morreu eletrocutado
pela própria importância.
Fontes e Referências
CHAPLIN, Charles. The Great Dictator. Estados Unidos, 1940.
Cena do globo terrestre: https://www.youtube.com/watch?v=qIXQoLISn2E
FARADAY, Michael. Experimental Researches in Electricity.
FEYNMAN, Richard. The Feynman Lectures on Physics, Vol. II.
GRIFFITHS, David J. Introduction to Electrodynamics.
URQUIZA, Ivys. Blindagem Eletrostática | Gaiola de Faraday. BláBláLogia, 2017.
https://www.youtube.com/watch?v=ZiA9RfzY16Q
VIOLA, Paulinho da. Sinal Fechado. Festival da Record, 1969.
VIOLA, Paulinho da; LOBÃO. “Sinal Fechado” (ao vivo). Programa Homem 90, 1989.
https://www.youtube.com/watch?v=t0rpfpVGPx4
MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Memórias Póstumas de Brás Cubas.
S
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário