Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Metástase na República
Não são simplificações: são traduções de registro.
**METÁSTASE NA REPÚBLICA:
Crime Organizado, Sistema Financeiro e o Colapso Silencioso da Autoridade**
Capa Estadão
A palavra metástase não comporta frivolidade retórica. No vocabulário médico, designa o momento em que uma patologia deixa de ser localizada e passa a circular pelo organismo, utilizando suas próprias vias de sustentação. No campo político-institucional, a analogia é igualmente precisa — e perturbadora.
O que se observa hoje no Brasil é a transformação do crime organizado de agente externo em modo de operação interno do sistema bancário e financeiro. Não se trata mais de infiltração episódica, mas de circulação estrutural, amparada por instrumentos legais, brechas regulatórias e zonas deliberadas de silêncio institucional.
O caso Banco Master, analisado recentemente no programa Não é bem assim (MyNews), não inaugura essa crise. Ele a revela. Como ocorre nos exames clínicos mais graves, o diagnóstico apenas confirma um processo já em curso, prolongado por anos de omissão, relativização e pactos implícitos em nome de uma estabilidade que, no limite, se confunde com anestesia.
Banco Central, Supremo Tribunal Federal, Tribunal de Contas da União e Congresso Nacional surgem nesse contexto como órgãos vitais de um mesmo corpo submetido a estresse sistêmico. Quando instituições passam a priorizar autopreservação e equilíbrio formal em detrimento de sua função republicana, o sistema imunológico falha. A metástase prospera não apenas pela agressividade da doença, mas pela fragilidade do organismo que a hospeda.
A história recente oferece precedentes. Após o Plano Real, a quebra de grandes bancos levou à criação do Fundo Garantidor de Crédito — uma costura institucional imperfeita, mas necessária para conter danos sociais imediatos. Hoje, porém, o risco é outro: a normalização da circulação do ilícito como engrenagem funcional do sistema.
É nesse ponto que a reflexão filosófica deixa de ser ornamento e se torna ferramenta cívica. Crises institucionais não se constroem em momentos espetaculares, mas em intervalos prolongados, nos quais alertas são ignorados e responsabilidades dissolvidas. Quando o “momento” chega — na forma de escândalo, CPI ou nova legislação — ele já não é ponto de inflexão, mas confirmação tardia.
Mário Quintana, que jamais ingressou na Academia Brasileira de Letras apesar de sucessivas candidaturas, respondeu à exclusão institucional com ironia mínima e precisão máxima. Em seu Poeminha do Contra, sintetizou uma lição que a República ainda reluta em aprender: estruturas que se pretendem eternas passam; aquilo que preserva sentido permanece.
A distinção entre poder e autoridade é central. Poder pode ser obtido por meios opacos; autoridade só se constrói por legitimidade, coerência e confiança pública. Uma democracia que confunde uma coisa com a outra abre espaço para que patologias sistêmicas se tornem regra.
Chamar esse processo de metástase não é pessimismo. É rigor conceitual. O desafio que se impõe é saber se o diagnóstico levará a um tratamento efetivo — com corte, limpeza e costura adequada — ou se será apenas mais um laudo arquivado enquanto a doença segue circulando.
METÁSTASE NA REPÚBLICA
Em memória de quem insistiu em chamar a doença pelo nome —
e foi tratado como exagerado.
1. METÁSTASE NÃO É FIGURA DE LINGUAGEM
Metástase não é licença poética.
É termo clínico, técnico, preciso.
Designa o estágio em que uma doença deixa de ser localizada e passa a circular pelo organismo, utilizando suas próprias vias — sangue, tecidos, sistemas de defesa — para se espalhar.
No caso aqui tratado, a palavra não é retórica inflamada:
o crime organizado deixou de ser externo ao sistema bancário e financeiro e passou a operar dentro dele, como modo de funcionamento, amparado por contratos, títulos, brechas legais e silêncios institucionais.
Não é mais o assalto ao banco.
É o banco como plataforma.
Não é exceção.
É método.
2. O EXAME QUE NÃO CRIA A DOENÇA
▶ VÍDEO 1 — ANÁLISE CENTRAL
📍 Inserir vídeo (embed)
MyNews — “Entenda por que o caso Banco Master abala Banco Central, STF e Congresso”
🔗 Link para o original: https://www.youtube.com/watch?v=C_yOdHyna3s
Estreia: 21 jan. 2026
Programa: Não é bem assim
O caso Banco Master não inaugura a crise.
Ele revela.
Banco Central, STF, TCU e Congresso aparecem como órgãos de um mesmo corpo pressionado por interesses cruzados, tentativas de interferência e riscos sistêmicos.
Como na medicina:
o problema não é o laudo —
é o histórico que ele confirma.
3. O CORPO DA REPÚBLICA SOB ESTRESSE
Instituições deveriam funcionar como sistema imunológico.
Mas quando passam a priorizar autopreservação, acordos tácitos e estabilidade aparente, a defesa cai.
A metástase prospera quando:
alertas são relativizados,
controles são flexibilizados,
e o tempo vira aliado da doença.
Estabilidade, aqui, não é saúde.
É anestesia.
4. INTERVALOS: O TERRITÓRIO DA DOENÇA
A vida é feita de momentos, dizem.
Mas as crises institucionais são feitas de intervalos.
Intervalos longos demais:
entre um alerta e uma decisão,
entre um escândalo e uma responsabilização,
entre o diagnóstico e o corte.
Quando o “momento” chega — quebra, CPI, nova lei —
ele já não é virada.
É confirmação tardia.
5. A COSTURA: ENTRE O CORTE E A INFECÇÃO
Nenhum cirurgião sério corta sem pensar na costura.
E nenhuma República sobrevive a costuras mal feitas.
O Brasil conhece bem esse expediente:
remendos legais,
acordos políticos emergenciais,
soluções provisórias que viram regra.
Após o Plano Real, a criação do Fundo Garantidor de Crédito foi uma costura imperfeita, mas necessária: conteve a hemorragia do poupador comum.
Hoje, o risco é outro:
não conter danos,
mas normalizar a circulação da doença.
Costurar sem limpar infecciona.
Costurar para esconder apodrece.
6. ANTECEDENTES DO INCÊNDIO
▶ VÍDEO 2 — CONTEXTO
📍 Inserir vídeo (embed)
MyNews — “Entenda como o crime organizado invade o sistema financeiro”
🔗 Link para o original: https://www.youtube.com/watch?v=VeDQnFEWSuQ
Data: 25 nov. 2025
Lavagem de dinheiro, títulos suspeitos, BRB, Banco Master, nova legislação.
A pergunta central permanece:
O sistema está sendo infiltrado
ou já está sendo operado?
7. FRASES-BIÓPSIA
“Em princípio, é incompetência ou é desonestidade.”
Márcio Fortes
“Todos os caminhos levam ao crime organizado. Mala vita.”
Marcelo Madureira
“Alto volume, empresa nova, títulos falsos e a descoberto. BRB compra e paga.”
Pedro Paulo Magalhães
Biopsias incomodam.
Mas sem elas, trata-se apenas sintomas.
8. PADRÕES QUE SE REPETEM
Sítios emprestados.
Jatinhos de terceiros.
Resorts de sócios de parentes.
Campeões nacionais.
Quedas espetaculares.
Casos distintos,
arquitetura parecida.
A metástase não tem ideologia.
Tem oportunidade.
9. LÍNGUA, PRECISÃO E PODER
❌ haver a ter — não existe
✅ ter a ver → relação
✅ ter a haver → crédito
Língua frouxa favorece pensamento frouxo.
E pensamento frouxo é ambiente propício para doença sistêmica.
10. O PASSARINHO (E NÃO O FARDO)
Aqui entra Mário Quintana —
não como ornamento, mas como chave de leitura.
Gaúcho arretado, tentou a ABL várias vezes.
Nunca entrou.
Respondeu não com ressentimento,
mas com ironia mínima e devastadora:
um poema curto, exato, que diz mais sobre instituições do que tratados inteiros.
Não é sobre pássaros.
É sobre permanência.
11. FECHO
Chamar o que vemos de metástase não é pessimismo.
É diagnóstico.
O pessimismo da razão exige admitir:
o crime organizado não infiltra mais —
ele circula.
O otimismo do coração — esse músculo teimoso à esquerda do peito —
ainda aposta que diagnóstico, corte e costura correta
podem salvar o corpo.
Desde que não se confunda:
consenso com conivência,
estabilidade com anestesia,
imortalidade institucional com vida.
Eles passarão.
O passarinho… veremos.
ANEXO — CONTEXTUALIZAÇÃO POÉTICA
Poeminha do Contra
Autor: Mário Quintana
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!
Leitura e Significado
Obstáculos:
“Todos esses que aí estão” representam pessoas, estruturas ou poderes que bloqueiam o caminho.
Ambiguidade central:
“Eles passarão” pode ser:
o futuro do verbo passar (os obstáculos são temporários);
ou simples passagem no tempo, enquanto algo mais leve permanece.
Resiliência e ironia:
“Eu passarinho” não é fuga.
É estratégia: leveza, desvio, voo por cima.
A força do poema está na economia absoluta de meios e na crítica implícita às instituições que se acreditam eternas.
▶ VÍDEO COMPLEMENTAR — ANÁLISE DO POEMA
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Prof. Marcelo Nunes
YouTube — 31 jan. 2023
⏱ 54s
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