quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Tem Muita Ginga, Tem Muita Gente que Paga pra Ver

Luciano Pavarotti sings "Nessun dorma" from Turandot (The Three Tenors in Concert 1994)
🇵🇾 JOAJU HA TETÃRAYHU União e Amor à Pátria. A força de um povo está na união, no patriotismo e no amor à sua terra. Pelo Paraguai, pela nossa gente e pelo nosso futuro! 🇵🇾
Presidente do Paraguai, Santiago Peña, renuncia após crise bancária; Câmara decide seguir com impeachment Presidente paraguaio é alvo de processo de impeachment por crise bancária após banco virtual fechar e deixar milhares de clientes sem seu dinheiro. Peña havia assumido em 2023 e governaria até 2028. Por Redação g1 05/11/2026 13h18 Atualizado há 2 horas PARAGUAI EM CRISE: O SONHO DOS BRASILEIROS ACABOU? | Papo Antagonista - 05/11/2026 O Antagonista
O colunista Luiz Carlos Azedo analisa como o resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos reflete a frustração material da população e o desgaste da agenda anti-imigração direcionada por Donald Trump contra as comunidades hispânicas. A articulação de forças moderadas e progressistas garantiu vitórias estratégicas para os democratas no Congresso, consolidando um revés político ao trumpismo e ao movimento MAGA. Para conferir a análise completa, leia no Correio Braziliense.
quinta-feira, 5 de novembro de 2026 O sonho americano, a perseguição aos hispânicos e a derrota de Trump, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense A frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump é uma ameaça à democracia Publicado em 1909, “Martin Eden”, de Jack London (1876-1916), conta a história de um jovem marinheiro autodidata que luta para se tornar escritor. Inspirado na trajetória do autor, o romance acompanha a conquista do reconhecimento e a desilusão com uma sociedade que mede o valor dos indivíduos pelo dinheiro e pelo prestígio. Também retrata o “sonho americano” na ótica dos trabalhadores que ajudaram a construir os Estados Unidos. London escreveu o livro durante sua viagem pelo Pacífico a bordo do Snark, quando já era conhecido por “O chamado da selva”, “O lobo do mar” e “Caninos brancos”. Seu alcance ultrapassa a autobiografia. Mostra a correlações entre trabalho, nacionalidade e posição social, as contradições de um país que sempre precisou dos braços de estrangeiros enquanto estabelecia a hierarquias entre eles. Essa história é bem contada em “Nós, o povo”, de Leo Huberman (1903-1968), uma interpretação da formação dos Estados Unidos pelo trabalho e pelas disputas em torno da riqueza. A imagem do país como um grande ímã de povos traduz a realidade de que sua expansão econômica foi inseparável da chegada de milhões de pessoas de diferentes nacionalidades, religiões, profissões, culturas e condições sociais. “Gente branca, preta, amarela, de pele escura; católicos, protestantes, huguenotes, quakers, batistas, metodistas, unitarianos, judeus; espanhóis, ingleses, alemães, franceses, noruegueses, suecos, dinamarqueses, chineses, japoneses, holandeses, boêmios, italianos, austríacos, eslavos, poloneses, romenos, russos – e a lista está apenas começando; fazendeiros, mineiros, aventureiros, soldados, marinheiros, ricos, pobres, mendigos, ladrões, sapateiros, alfaiates, atores, músicos, ministros religiosos, engenheiros, escritores, cantores, cavadores de valas, industriais, açougueiros, padeiros e fabricantes de velas”, destaca Huberman. Todos abriram caminhos, ergueram cidades e transformaram costumes. A diversidade da vida norte-americana resulta desse processo, cujo êxito decorre da tradução da identidade étnica pelo sonho de uma vida melhor. É um erro, porém, desconsiderar seus conflitos. A imigração voluntária não se confunde com o tráfico de africanos escravizados, assim como a expansão territorial não apaga a expropriação dos povos indígenas. Na verdade, a hostilidade aos estrangeiros e as restrições raciais à entrada e à cidadania também fazem parte da trajetória dos Estados Unidos e suas elites, ingredientes incorporados por Trump à sua política. O estrangeiro sempre foi necessário à economia e, simultaneamente, apresentado como ameaça ao emprego, à segurança e à identidade nacional. Efeito catalisador Trump fez da imigração um instrumento de mobilização eleitoral contra o outro. Fechar as fronteiras passou a funcionar como resposta para inseguranças que nascem do custo de vida, das transformações no trabalho e da perda de perspectivas de ascensão social. A perseguição a imigrantes, porém, atingiu famílias e comunidades muito além daqueles sujeitos à deportação. Foi uma agressão ao que existe de mais profundo e antropológico no imaginário da formação do povo norte-americano. As eleições de 3 de novembro expuseram os limites dessa estratégia. Os democratas reconquistaram o Senado e a Câmara, avançando sobre territórios republicanos. James Talarico venceu no Texas; Roy Cooper conquistou a vaga da Carolina do Norte; Sherrod Brown recuperou espaço em Ohio. Kansas também mudou de lado. Inflação, denúncias de corrupção, a guerra com o Irã e a brutalidade do governo contra os hispânicos produziram uma rejeição que atravessou fronteiras sociais e partidárias. Rompeu-se a confiança nas grandes promessas feitas por Trump. O afastamento de eleitores hispânicos em redutos históricos de Trump integra esse quadro. Muitos nasceram nos Estados Unidos, em famílias estabelecidas há gerações; somente os cidadãos naturalizados podem votar nas eleições federais. Não existe um voto latino automático. Como em toda eleição, renda, religião, segurança e expectativas econômicas pesam nas escolhas. Mas acontece que a frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump representa uma ameaça à democracia. Prometeu prosperidade, entregou conflitos e insegurança. Surgiram novos líderes democratas. Talarico simboliza a possibilidade de disputar um estado há décadas identificado com os republicanos. Jon Ossoff, na Geórgia, ampliou sua força. Em Michigan, Jocelyn Benson emergiu na disputa pelo governo, enquanto o progressista Abdul El-Sayed avançou para o Senado. A onda azul favoreceu diferentes correntes, entre as quais a socialista, mas os democratas moderados demonstraram maior capacidade de ampliar alianças. O desafio democrata é transformar a rejeição a Trump numa maioria duradoura. O novo Congresso poderá conter iniciativas e investigar abusos, mas Trump permanece na Casa Branca. E o trumpismo conserva suas raízes, ancorado no movimento MAGA (Make America Great Again) e no “supremacismo branco” de anglo-saxões e nórdicos.
O dia em que Moraes Moreira chegou, ficou e partiu antes que a vacina nos livrasse da malchegada Covid-19

GOVERNADOR, O SENHOR PRECISA DOS VOTOS DA CIDADANIA OU DAS BÊNÇÃOS DE LULA?

Entre a legitimidade popular e a distribuição partidária do poder, uma reflexão sobre democracia, representatividade e projeto político.

A entrevista concedida pelo governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, ao jornal O Globo, suscita uma questão que vai muito além da sucessão presidencial ou da disputa por espaços dentro do Partido dos Trabalhadores. Ela toca no fundamento da democracia representativa: a quem deve servir a política? À cidadania, que confere legitimidade pelo voto, ou às estruturas partidárias, que frequentemente confundem projeto de poder com projeto de país?

Ao afirmar que o sucessor de Luiz Inácio Lula da Silva não precisa necessariamente ser filiado ao PT, Jerônimo demonstra reconhecer que a continuidade de um projeto político pode ultrapassar os limites de uma legenda. Cita, inclusive, o vice-presidente Geraldo Alckmin como exemplo de liderança que, embora não pertença ao partido, desempenha papel relevante na atual composição política do governo.

É uma afirmação razoável. Afinal, em uma democracia plural, a capacidade de governar não deveria estar condicionada à filiação partidária, mas à legitimidade política, à competência administrativa e à identificação com um projeto capaz de atender aos interesses nacionais.

O PARADOXO DA REPRESENTATIVIDADE

Entretanto, há uma contradição interessante na entrevista. Ao defender a ampliação do campo político para a escolha do futuro sucessor de Lula, o governador também reivindica maior participação do Nordeste nas decisões do PT e na composição do próximo governo.

Argumenta que os quatro governadores petistas são nordestinos, que a região possui expressiva representação parlamentar e que a Bahia ofereceu milhões de votos à candidatura presidencial. Reconhece, corretamente, que a contribuição nordestina não deve ser reduzida a uma simples conta matemática de votos e ministérios. Mas insiste na necessidade de reconhecimento político e de maior presença regional nos espaços decisórios.

A reivindicação é legítima quando representa a necessidade de incorporar as demandas históricas e sociais do Nordeste à agenda nacional. Torna-se questionável, porém, quando a representatividade regional se confunde com a ampliação da influência de grupos partidários.

Afinal, representar o povo nordestino não é necessariamente a mesma coisa que representar os interesses do PT nordestino. A distinção é essencial.

O PARTIDO É INSTRUMENTO, NÃO PROPRIETÁRIO DO PODER

Em uma democracia representativa, os partidos são instrumentos de organização da vontade política. Os governos exercem mandatos temporários, submetidos à Constituição e ao controle da sociedade. E o cidadão, por meio do voto, permanece como titular da soberania popular.

Lula pode ter influência na escolha de seu sucessor. O PT pode discutir seus rumos, renovar suas lideranças e defender a continuidade de seu projeto. As forças regionais também podem reivindicar participação. Tudo isso pertence à dinâmica legítima da política.

Mas nenhuma dessas instâncias pode se sobrepor à vontade soberana do eleitor. A sucessão presidencial não é uma herança familiar, uma propriedade partidária ou uma concessão pessoal do atual ocupante do Palácio do Planalto.

As bênçãos de Lula podem ajudar a construir uma candidatura. A estrutura partidária pode oferecer sustentação política. As alianças podem ampliar sua viabilidade eleitoral. Mas a legitimidade democrática somente se completa nas urnas.

A CIDADANIA ACIMA DAS CONVENIÊNCIAS PARTIDÁRIAS

É justamente nesse ponto que a entrevista merece uma reflexão mais profunda. Quando um governante reivindica maior participação de seu grupo político nas decisões nacionais, deve esclarecer se está defendendo a ampliação da representação popular ou simplesmente a redistribuição de influência dentro da máquina partidária.

Não são necessariamente a mesma coisa.

O Nordeste precisa, sem dúvida, de maior atenção nas políticas públicas, nos investimentos em infraestrutura, na ciência, na educação e no desenvolvimento econômico. Precisa participar efetivamente da formulação das estratégias nacionais. Mas essa participação deve ser orientada pelas necessidades de sua população, e não apenas pelo peso eleitoral de suas lideranças.

O mesmo princípio vale para qualquer região do país. O Brasil não pode ser governado como uma federação de interesses partidários, na qual cada grupo reivindica sua parcela de cargos e influência proporcional à contribuição eleitoral que ofereceu.

A PERGUNTA QUE FICA AO GOVERNADOR

Governador, com todo o respeito: o senhor pretende governar em nome dos milhões de cidadãos que lhe confiaram o voto ou administrar sua parcela de influência na estrutura de poder do presidente Lula?

O senhor está preocupado em ampliar a representação do povo nordestino nos espaços de poder ou em ampliar a representação do PT nordestino nesses mesmos espaços?

São questões que merecem respostas claras, porque a política não pode se limitar à disputa por cargos, ministérios, posições estratégicas e reconhecimento das lideranças partidárias.

O verdadeiro reconhecimento político de uma região acontece quando sua população deixa de ser lembrada apenas nos períodos eleitorais e passa a ser contemplada, permanentemente, pelas decisões de governo.

DEMOCRACIA NÃO SE FAZ POR BÊNÇÃOS

A democracia representativa exige partidos fortes, lideranças legítimas e governos capazes de construir consensos. Mas exige, acima de tudo, que os representantes não se esqueçam de quem lhes delegou o poder.

O partido é instrumento. O governo é mandato. O cidadão é soberano.

As bênçãos do presidente podem ajudar a escolher um sucessor. As articulações partidárias podem viabilizar uma candidatura. A força regional pode influenciar os rumos de um projeto nacional.

Mas nenhuma dessas prerrogativas substitui a vontade popular.

Governador, a pergunta permanece: para exercer o poder, o senhor precisa dos votos da cidadania ou das bênçãos de seu presidente?

Em uma democracia digna desse nome, a resposta deveria ser inequívoca.

Santa Fé — Moraes Moreira, Fausto Nilo & Mano Brown no tempo

Uma fotografia, uma canção, uma imagem que aparece na ferrugem e as possibilidades da imaginação

Antes de tudo, a canção: Santa Fé

A escuta é o primeiro convite desta viagem. A canção Santa Fé, de Moraes Moreira e Fausto Nilo, abre um caminho para as imagens, lembranças e interpretações que atravessam este ensaio.

Composição: Moraes Moreira e Fausto Nilo.

♪ LER A LETRA DE SANTA FÉ

O vídeo é incorporado do canal oficial de Moraes Moreira no YouTube. A letra pode ser consultada no site Vagalume.

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1. Uma fotografia e uma descoberta

Tudo começa com uma fotografia. Nela, uma superfície metálica, marcada pelo tempo, apresenta camadas de tinta azul, verde-clara e branca, descascadas e interrompidas por manchas de ferrugem. A matéria parece guardar uma história silenciosa: a ação do clima, a passagem dos anos, o desgaste e a transformação.

Mas há algo que ultrapassa o registro de uma superfície deteriorada. Em determinada mancha de ferrugem, aparece uma forma que lembra um rosto de perfil. A imagem não foi necessariamente desenhada, planejada ou produzida por alguém. Ela parece ter surgido do encontro entre a corrosão, as cores, as irregularidades da matéria e o olhar de quem observa.

Fotografia original de superfície com tinta azul descascada e ferrugem
A fotografia original: o tempo transforma a superfície e o olhar encontra uma figura.

É nesse instante que a fotografia deixa de ser apenas uma fotografia. O olhar reconhece uma possibilidade de figura humana e começa a construir relações. A mancha passa a sugerir um personagem, uma presença, uma memória.

2. Pareidolia: quando o olhar encontra imagens

Existe um fenômeno conhecido como pareidolia: a tendência humana de reconhecer formas familiares em estímulos visuais indefinidos. Vemos rostos nas nuvens, animais nas pedras, figuras nas sombras e desenhos em superfícies manchadas.

Não significa que a figura esteja objetivamente ali, como estaria um retrato pintado. Significa que o cérebro e a imaginação participam da construção daquilo que vemos. A superfície oferece formas, contornos e contrastes; o observador completa a imagem.

Na fotografia, a mancha de ferrugem sugere um perfil que pode remeter visualmente a Mano Brown. Essa associação é uma leitura subjetiva, uma aproximação criada pelo olhar. Não se trata de afirmar que a fotografia contém um retrato real do artista, mas de explorar o que acontece quando uma imagem casual desperta uma referência cultural e afetiva.

3. A ferrugem e o tempo

A ferrugem é uma marca física do tempo. Ela aparece quando o metal reage com o ambiente e se transforma. A tinta perde aderência, a superfície se abre, as camadas se revelam. Aquilo que antes parecia uniforme passa a apresentar diferenças, acidentes e texturas.

Há uma espécie de memória material nessa transformação. A ferrugem registra uma história que não foi escrita em palavras. Cada descascamento revela uma camada anterior, como se o presente deixasse à mostra vestígios do passado.

A fotografia congela esse processo por um instante. O tempo que continua agindo sobre o objeto fica suspenso na imagem. E, ao mesmo tempo, o olhar de quem a contempla põe esse instante novamente em movimento.

O tempo modifica a matéria. O olhar modifica o sentido daquilo que a matéria apresenta.

4. Santa Fé: a canção como campo de interpretação

É nesse cenário que entra Santa Fé, composição de Moraes Moreira e Fausto Nilo. A canção oferece uma dimensão poética para a experiência visual. Sua escuta permite que a fotografia seja percebida não apenas como um objeto, mas como parte de uma reflexão sobre vida, passagem, memória e imaginação.

A música e a fotografia não precisam contar a mesma história. O encontro entre elas pode acontecer justamente porque cada uma conserva sua linguagem. A canção se desenvolve no tempo sonoro; a fotografia fixa um instante visual. Uma convoca a outra, e dessa aproximação nasce uma terceira experiência: aquela que o observador constrói.

A composição de Moraes Moreira e Fausto Nilo torna-se, assim, uma espécie de trilha para a contemplação da imagem. Não como explicação definitiva da fotografia, mas como uma chave poética possível.

5. Mano Brown: a presença de uma referência cultural

A associação visual com Mano Brown acrescenta outra camada à leitura. Sua imagem pública e sua trajetória na cultura brasileira, especialmente na história do rap, fazem com que a lembrança de seu perfil carregue significados que vão além da aparência física.

Mano Brown representa, para muitos ouvintes, uma voz ligada à experiência urbana, à observação crítica da sociedade e à expressão de realidades que durante muito tempo tiveram pouco espaço nos meios de comunicação tradicionais.

Quando a ferrugem parece sugerir seu perfil, a fotografia aproxima universos diferentes: a canção de Moraes Moreira e Fausto Nilo, a cultura do rap, a materialidade de uma parede envelhecida e a imaginação de quem observa.

Não é uma colaboração musical entre esses artistas, nem uma afirmação de que suas obras tenham sido concebidas em diálogo. É uma aproximação interpretativa, construída a partir da imagem e de suas ressonâncias culturais.

6. A inteligência artificial entra na conversa

A partir da fotografia original, surge uma nova possibilidade: pedir à inteligência artificial que desenvolva visualmente aquilo que o olhar humano percebeu como sugestão.

A IA pode trabalhar com a textura da ferrugem, os contornos sugeridos pela mancha, a tinta descascada e a atmosfera da fotografia. Pode propor uma composição mais definida, uma interpretação artística ou uma imagem simbólica que aproxime a percepção inicial de uma representação visual.

Mas é importante distinguir as coisas: a fotografia original registra uma superfície real; a imagem produzida por IA é uma interpretação construída a partir de instruções e referências. Uma não substitui a outra.

A inteligência artificial não descobre necessariamente um rosto que estivesse escondido na ferrugem. Ela participa de um processo criativo, reorganizando elementos visuais e oferecendo uma possibilidade entre muitas.

Interpretação artística inspirada na fotografia da ferrugem
Interpretação visual criada com auxílio de inteligência artificial, inspirada na fotografia original. Não é um retrato documental.

7. Do real ao ideal: o movimento da imaginação

O ponto de partida é real: uma superfície metálica, tinta descascada, ferrugem e uma fotografia. A partir daí, o olhar identifica uma semelhança, estabelece uma associação e cria uma hipótese visual.

O que era apenas uma mancha passa a ser percebido como figura. A figura lembra alguém. Essa lembrança conduz a uma referência cultural. A referência se aproxima de uma canção. A canção transforma a maneira de perceber a fotografia.

A imagem gerada por inteligência artificial pode ampliar esse percurso, mas não encerra o processo. O resultado continua aberto à interpretação.

É nesse movimento que se estabelece a relação entre o real e o ideal. O real oferece a matéria; o ideal surge como possibilidade imaginada. Entre os dois estão o tempo, a experiência humana, a memória e a capacidade de atribuir significados.

8. Uma possível sequência audiovisual

A experiência também pode ser organizada como um pequeno percurso audiovisual. Primeiro, a fotografia original aparece em silêncio, permitindo que o observador examine a superfície e descubra a mancha. Em seguida, entra a canção Santa Fé, criando uma atmosfera de escuta.

Depois, a imagem pode receber um movimento lento de aproximação, destacando a ferrugem e a forma que lembra um perfil. A interpretação visual criada com IA pode surgir em seguida, não como substituição da fotografia, mas como desdobramento da percepção.

Por fim, as duas imagens podem aparecer lado a lado: a fotografia real e sua interpretação artística. O contraste evidencia o caminho entre aquilo que existe e aquilo que imaginamos.

9. A música, a imagem e o tempo

Moraes Moreira, Fausto Nilo e Mano Brown pertencem a trajetórias artísticas distintas. A aproximação proposta aqui não pretende apagar essas diferenças. Ao contrário: é justamente o encontro entre linguagens e universos diferentes que torna a experiência interessante.

A música tem duração. Uma fotografia guarda um instante. A ferrugem revela a passagem do tempo. A imaginação cria relações entre elementos que talvez nunca tivessem sido colocados juntos.

A tecnologia acrescenta uma nova ferramenta a esse processo. Ela pode ajudar a visualizar uma ideia, mas a pergunta inicial, a escolha das referências e o sentido atribuído ao resultado continuam ligados à experiência humana.

10. O que vemos — e o que fazemos aparecer

Talvez a questão mais interessante não seja descobrir se existe realmente um rosto na ferrugem. A questão é entender por que o olhar encontrou ali uma figura e o que essa figura despertou.

A fotografia não precisa provar nada. A semelhança não precisa ser perfeita. A interpretação não precisa ser única. O valor da experiência está justamente na passagem de uma percepção espontânea para uma reflexão sobre arte, cultura, memória e tecnologia.

A superfície envelhecida oferece o acaso. O olhar encontra uma possibilidade. A música amplia a sensibilidade. A inteligência artificial propõe outra forma de representação. E o tempo atravessa tudo isso.

Talvez a arte comece exatamente nesse intervalo: entre aquilo que o mundo apresenta e aquilo que somos capazes de imaginar.

Considerações finais

Santa Fé — Moraes Moreira, Fausto Nilo & Mano Brown no tempo é uma experiência de aproximação entre linguagens. Parte de uma fotografia casual, passa pela pareidolia, encontra uma referência no universo do rap, dialoga com uma canção e experimenta as possibilidades da inteligência artificial.

Não se trata de afirmar que todos esses elementos nasceram juntos, mas de mostrar como podem se encontrar no olhar de quem observa. A ferrugem é real. A fotografia é real. A associação com um rosto é uma interpretação. A imagem produzida por IA é uma criação derivada. E a canção permanece como obra musical, aberta às experiências de cada ouvinte.

No fim, talvez a imagem mais importante não seja a que está na parede, nem a que a inteligência artificial consegue produzir. Talvez seja aquela que se forma dentro de nós quando música, memória, tempo e imaginação se encontram.

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Referências e créditos

Canção: “Santa Fé” — Moraes Moreira e Fausto Nilo.

Vídeo: Moraes Moreira — Santa Fé (Áudio Oficial) .

Letra: Santa Fé — Vagalume .

Artista: Moraes Moreira — Letras .

Fotografia original: imagem autoral que deu origem à reflexão.

Imagem interpretativa: criação com auxílio de inteligência artificial, inspirada na fotografia original. Não representa um retrato documental ou oficial de Mano Brown.

Ensaio autoral. As aproximações entre os artistas e as linguagens aqui apresentadas são interpretações propostas pelo autor.

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