CARREIRINHAS SUCUPIRANAS
Uma Trilogia Satírica de Esquetes por Avant-Première em Londres
Cartaz oficial da estreia vitoriana no West End londrino.
O ano é 1899. A névoa de Londres testemunha o choque tectônico de eras, impérios e retóricas. Esmerilando o estilo e armando o mecanismo na terra batida de Sucupira, apresentamos o libreto completo da trilogia satírica que uniu a erudição barroca do Conselheiro Rui Barbosa ao pragmatismo pedagógico das carreirinhas coloniais.
🔫 CARREIRINHA NÚMERO UM: O Debu do Topetudo na Profecia do Conselheiro
Cenário: Salão Oval da Casa Branca, alta madrugada. O Líder do Topete Fulvo caminha de um lado para o outro gesticulando. Sobre a mesa, um pergaminho diplomático de 1899. O fantasma holográfico de Rui Barbosa observa com os pés imersos em sua bacia de gelo.
O LÍDER DO TOPETE FULVO: Isto aqui é fake news! Uma fraude total produzida pelo Deep State latu-sensu do século dezenove! Quem é esse tal de Barbosa? Nunca ouvi falar. Dizem que era o "Águia de Haia". Grande coisa. Eu conheço as melhores águias, as águias americanas, que são muito maiores e mais vitoriosas que as águias da Holanda. E ele diz aqui... vejam só... ele diz que o meu povo, as minhas belas indústrias do Rust Belt, seriam inundadas por um pozinho da China? Mentira! Nossos operários são fantásticos. O fentanil é terrível, é um desastre, mas nós vamos construir um muro químico! Um muro enorme e os laboratórios subterrâneos vão pagar por ele!
RUI BARBOSA: Cale-se, tribuno de quermesse e mercador de ilusões televisivas! Vossa bonomia mercantilista e vossa prosódia eivada de barbarismos não são capazes de obliterar o peso inexorável da realidade fatídica! Não há muro, por mais monumental e hiperbólico que vossa vaidade conceba, capaz de deter a osmose silenciosa do veneno sintético. O que assistis hoje em vossas metrópoles opulentas não é um acidente aduaneiro; é o epílogo trágico da vossa própria soberba imperialista! Vós, que herdastes o cetro de Salisbury, colheis agora o lodo que vossos antecessores semearam nas margens do Rio das Pérolas!
O LÍDER DO TOPETE FULVO: Olha aqui, homenzinho do bigode de morsa, você fala muito difícil. Ninguém entende o que você diz. É por isso que você perdeu as eleições no seu país, sabiam disso? Eu ganhei, e ganhei por muito, uma vitória tremenda, a maior da história! Você fala em "osmose", eu falo em tarifas! Nós vamos taxar a papoula, vamos taxar os laboratórios, vamos taxar o passado! Se a China nos manda o torpor, nós mandamos o maior contra-ataque comercial que o mundo já viu. É muito simples, é o deal.
RUI BARBOSA: Simplismo atroz de uma mente colonizada pelo cifrão! Julgais que a vingança histórica se resolve em balancetes alfandegários? O ópio que outrora decompôs o brio da dinastia Qing transmudou-se, pela alquimia dos tempos modernos, no fentanil que hoje anestesia o vigor de vossas massas laboriosas. Enquanto vos jactais de vossas maiorias parlamentares e de vossa retórica ruidosa de palanque, o dragão asiático — com a paciência milenar que vos falta — observa, de forma quase hilária, a decadência espasmódica de vossa república. Vossos súditos jazem nas calçadas, capturados pelo espectro químico, enquanto vós tuitais impropérios contra a realidade!
O LÍDER DO TOPETE FULVO: Sabe de uma coisa? Você é um cara muito negativo. Um loser do passado. A América está ótima, vai ser maior do que nunca. Esse fentanil aí... nós vamos resolver com duas ligações telefônicas. Duas ligações. Eu ligo para o presidente de lá e digo: "Parou com o pozinho". E ele para. Porque ele me respeita. Ponto final.
RUI BARBOSA: Oh, paciência histórica! Diante de tamanha cegueira deliberada e de tamanha penúria dialética, limito-me apenas a ordenar que tragam a minha bacia com a água da bica mais fria! Pois o calor dessa insolência trumpista exige que eu deposite nela meus pés descalços e desarmados, a fim de emitir nervosamente um sinal para o meu cérebro central para que eu não desfaleça diante de tanta nulidade! Ponto!
🔫 CARREIRINHA NÚMERO DOIS: A Gramática da Papoula e o Tratado dos Espertos
Cenário: Alfândega Real de Lisboa, 1808. Dom João VI mastiga uma coxa de frango com os dedos engordurados. Lord Strangford, enviado britânico, ostenta farda impecável e um sorriso de agiota geopolítico.
LORD STRANGFORD: Vossa Alteza Real deve compreender a excelsitude jurídica deste arranjo. A Grã-Bretanha, em sua infinita magnanimidade e movida pelo puro espírito cristão, cedeu sua orgulhosa armada para escoltar vossos navios e vossa ilustre corte até este éden tropical. Em contrapartida, estas pequenas taxas alfandegárias de 15% para os produtos ingleses — enquanto vossos próprios súditos pagam 16% — não passam de uma justa e cristã compensação pelo frete marítimo. É o livre mercado operando em sua pureza bíblica.
DOM JOÃO VI: Ora, Strangford, tu falas muito bonito, mas o fato é que eu saí de Lisboa fugindo de Napoleão e cheguei aqui devendo até os dentes à vossa Majestade! Abrir os portos aos vossos panos de algodão e às vossas bugigangas de ferro significa que o Rio de Janeiro vai virar um armazém de Londres! E as nossas poucas manufaturas? Vão todas para o beleléu! Isso não é comércio, homem, isso é um assalto de casaca!
LORD STRANGFORD: Alteza, por favor, evitemos termos vulgares. Nós não assaltamos; nós "franqueamos os canais da civilização". O mesmo método, aliás, estamos a aplicar com grande sucesso no Oriente. A China insistia em manter seus portos fechados ao mundo, numa demonstração de soberba medieval. Pois bem, resolvemos o impasse mercantil introduzindo nas províncias de Cantão um produto agrícola de altíssima circulação: o ópio. Os mandarins reclamam, dizem que o povo está a definhar nos fumódromos, mas nós explicamos que a livre circulação da papoula é um imperativo do direito internacional! O vício é apenas um efeito colateral da modernização.
DOM JOÃO VI: Valha-me Deus, Strangford! Vós viciais os chineses para roubar-lhes a prata e chamais a isso de "direito internacional"? Se Carlota Joaquina descobre esse negócio de ópio, ela me dropa uma substância dessas na sopa para me deixar dopado o dia inteiro e governar o Brasil sozinha! É uma gramática muito esperta essa vossa, onde o contrabando vira tratado e a dependência vira progresso!
Use o código com cuidado. LORD STRANGFORD: É a gramática dos espertos, Alteza. Quem dita as regras escreve o dicionário. Vós nos entregais o monopólio do vosso comércio em troca de proteção contra os franceses; os chineses nos entregam o seu chá e a sua prata em troca do torpor que os impede de reagir. No grande teatro do mundo, há os que operam os navios e os que consomem a carga. Vossa Alteza escolheu o lado mais seguro... o lado que assina o papel. 🔫 CARREIRINHA NÚMERO TRÊS: O Exílio da Bacia de Gelo na Névoa de Londres Cenário: Um gabinete gélido em Londres, outono de 1894. Rui Barbosa digita furiosamente em uma Remington. Mrs. Higgins, a governanta inglesa, segura uma bandeja com uma xícara fumegante. MRS. HIGGINS: Mr. Barbosa, por favor! Esta já é a terceira vez que o senhor manda a criadagem esvaziar o bule de chá preto de Ceilão. O clima de Londres está a zero grau e o senhor insiste em exigir que tragam água da bica mais fria do pátio para encher essa bacia de metal! A cozinha está em polvorosa. Tome o chá, homem! Vai pegar uma pneumonia! RUI BARBOSA: Silêncio, senhora das conveniências domésticas e guardiã do torpor britânico! Julgais, em vossa augusta e simplória ignorância das ciências fisiológicas, que permitirei que o meu intelecto — este farol da resistência republicana — seja submetido às propriedades estimulantes, espúrias e artificiais dessa vossa infusão de ervas coloniais? O chá que me ofereceis com atenção quase criminosa não passa de um primo bem-vestido daquela mesma papoula nefausta com que vossos lordes anestesiaram o brio do Celeste Império! Não transigirei com a química! MRS. HIGGINS: É apenas chá, sir! Chá com leite! O próprio Primeiro-Ministro bebe! RUI BARBOSA: Pois que beba Salisbury e que se afogue em sua própria indolência imperial! Minhas vigílias literárias e jurídicas contra o marechal de ferro não dependem de alcaloides exóticos! Exijo, sim, e ordeno com a autoridade da razão, que a água de meus pés seja aquela captada no âmago mais profundo das tubulações de ferro desta metrópole, onde o frio é genuíno, cortante e mecânico! É através deste choque térmico periférico que meus pés descalços, desarmados e desprovidos de qualquer artifício têxtil, emitem nervosamente um sinal bioelétrico indelével para o cérebro central, escorraçando o sono sem corromper a alma! Ponto! MRS. HIGGINS: Pois bem! Fique aí com os seus pés congelados e sua máquina de escrever barulhenta. Se o senhor amanhecer petrificado como uma estátua de gelo do Museu de Cera de Madame Tussauds, não diga que eu não avisei. Os brasileiros são todos loucos... RUI BARBOSA: Uh!... Exce-celso!... Ide, Mrs. Higgins, ide cuidar de vossas obrigações culinárias e deixai que o gelo de Londres esmerile a pureza do meu verbo! Enquanto Floriano Peixoto julga que o exílio amordaçou o Águia de Haia, eu permaneço alerta, com o cérebro central eletrificado pela bica vitoriana, pronto para fulminar as nulidades que assaltaram a minha pátria! Publicado direto do porto de desembarque virtual. Ponto.




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