sábado, 27 de maio de 2017

A MORTE NO ENVELOPE

Segundo Carpeaux, “não há nada que seja tão interessante como a explicação de um crime misterioso. Não há nada que contribua com eficiência maior para divertir os espíritos preocupados nestes tempos difíceis”.




95. A MORTE NO ENVELOPE
LUIZ LOPES COELHO (1911- ? | Brasil)

O escritor Luiz Lopes Coelho por Cássio Loredano - Cássio Loredano / Agência O GLOBO


A descoberta do envenenamento da esposa, "ignorante, insensível e gorda criatura", fez o marido, Sílvio Cardenacci, dar com os costados na Penitenciária, obrigando-o a substituir seu avental de médico por uma espécie de pijama de zuarte.
Outro presidiário, um jovem advogado, falsificara o testamento de abastado cliente para impedir que a herança passasse às mãos da viúva, indigna de recebê-la, segundo afirmava, porque traía o marido. .. Acrescendo-se a essa espantosa fidelidade profissional um estelionato contra determinado banco, encontram-se as razões por que Armando Sinval usava, diariamente, o mesmo pijama azulado.
O mundo dos criminosos também é pequeno. Embora procurasse disfarçar, Sinval perturbou-se quando Cardenacci entrou, acompanhado do vice-diretor do presídio.
- O Conselho Penitenciário permitiu a convivência de dois sentenciados na mesma cela. Vocês ficarão juntos. Ambos são formados por curso superior, o que facilitará a vida comum e auxiliará o trabalho de recuperação. Cardenacci teve ótimo comportamento no estágio e, por isso, a diretoria atendeu ao seu pedido: prestará serviços como enfermeiro categorizado. Você, Sinval, continuará na secretaria. Felicidades na nova vida de casal...
Os dois homens sorriram, mas Sinval, artificioso, como se obedecesse a pedido de fotógrafo.
Cardenacci levou o saco de roupas para o canto da cela. O outro sentou-se à beira da cama. Enfrentavam com receio o início do diálogo, porém, dentro em pouco, as palavras foram escapando, soltas e preguiçosas; depois começaram a agrupar-se com mais ligeireza e, quando conquistavam o vaivém de conversa, a campainha estridulou "silêncio". Cardenacci abafou um "boa noite".
Se as palavras de Sinval pareceram filtradas por uma tela de cuidados, os pensamentos, ao contrário, desabalavam, impulsionados pela memória. Tinham provindo os óbices verbais da desarmonia entre o que falava e o que pensava. Livre, agora, do encargo oral, ordenou as idéias, como jogador arruma as cartas no início do jogo.
Cardenacci não o reconhecera. Recordou-se de todos os pormenores da consulta. Que tarde horrível! Descrevera ao médico a sensibilidade retardada da epiderme, a dormência das pernas. Mostrara-lhe as manchas escuras. Depois de demorado exame, o médico fizera correr sobre a pele uma pena de ave na pesquisa de índices sensíveis. A reação da vacina feita no antebraço não acusara vermelhidão em torno do ponto injetado. Embora fosse necessário, ainda, um exame do muco nasal, o médico, desajeitado, cedera às instâncias de Sinval, anunciando: lepra. Saiu aturdido do inferno branco que era o consultório de Cardenacci. Andou pelas ruas, mais desertas com a noite, julgando ver nos olhares dos raros transeuntes a aversão provocada por um leproso. Cada problema de sua vida, um aperto de angústia. Repeliu o beijo dos filhos. Repudiou o leito conjugal. Escusas claudicantes despertaram suspeitas. Insônia nas noites imensas. Rondou-lhe o espírito a idéia de suicídio, logo afugentada, porém, pela antevisão da família na miséria.
Outro plano acampou no seu cérebro. A ameaça do nenhum espólio fertilizou o projeto de uma apropriação indébita. Foi então que cometera as primeiras falcatruas, a princípio bem-sucedidas. As pequenas vantagens embolsadas, porém, não lhe apaziguaram o desespero. Coube a um velho amigo, tornado confidente, sugerir novo médico, novos exames. Apático, Sinval deixou o companheiro dirigir-lhe os passos, e, ao fim de dois dias, encheu-se de vida e de sorrisos: vacina negativa, exames negativos! Cardenacci errara o diagnóstico.
Sinval nunca meditara sobre certos aspectos de seu caso criminal; o encontro com Cardenacci, entretanto, ressuscitou a memória de antigas emoções. Recordou-se de que cometera o primeiro delito - germe de todos os outros - porque se supunha um leproso. Racionalizando, passou a ver em Cardenacci o responsável pelas soluções criminosas que adotara. Quando a exaustão lhe abateu as pálpebras, perseverava ainda em fortificar-se com as lembranças.
Passaram-se calmas semanas, mas um dia Cardenacci foi encontrado morto na cela: envenenado com veronal. Suicidara-se o médico. Havia furtado o tóxico do laboratório, ingerindo-o na cela, antes da chegada de seu companheiro. Suicidara-se o médico, na aparência, por considerar insuficiente, como acontece a outros, a condenação imposta pela sociedade. ..
Que Sinval se entristecesse com o acontecimento era compreensível; mas os diretores da Penitenciária não entendiam seu estranho comportamento: prestou informações no inquérito sob forte crise emocional; tornou-se agitado, nervoso; procurava a solidão, evitando falar no caso.
Intrigado com isso, o diretor chamou ao presídio o velho Leite, delegado de polícia, conhecido pelos seus excepcionais dotes de criminalista.
Atravessando o último pórtico da Penitenciária, o delegado levantou os olhos e leu a inscrição no alto: "Aqui, o trabalho, a disciplina e a bondade resgatam a falta cometida e reconduzem o homem à comunhão social." A frase era mais escorreita, concisa, elegante do que verdadeira. Pensou nos reincidentes, nos crimes cometidos dentro dos próprios presídios, na idéia obsessiva de fuga, inquietando a mente de cada sentenciado... Teria prolongado a divagação, se não lhe aparecesse a figura do diretor, o abraço derramado, a poltrona de couro macio. Logo, a pressurosidade das palavras:
- Tenho um caso interessantíssimo. Só você poderá resolvê-lo. Nunca esquecerei a ajuda que você me deu na descoberta do crime do refeitório. Além de tudo, investigar e descobrir é sua função e seu prazer.
Narrou a morte de Cardenacci com pormenores, informando ter descoberto as causas do suicídio: o médico recebia, com freqüência, cartas de uma moça que se assinava "Neusa", e de um amigo "Álvaro". Deduzira, pela correspondência, ter-se Cardenacci apaixonado por uma jovem da alta sociedade, com quem pretendia casar-se, quando conseguisse eliminar a esposa. Neusa comprometera-se demais na aventura e queixava-se, nas cartas, de sua situação. Dizia amá-lo e ser capaz de aguardar o livramento condicional ou mesmo o cumprimento da pena... mas vivia temerosa do escândalo iminente. Álvaro, o amigo, acompanhava a vida de Neusa. Exasperara-se a moça com os problemas psicológicos e familiares que lhe atormentavam a existência, e, numa tarde, seu corpo foi achado na praia. No dia em que recebeu essa notícia, numa carta de Álvaro, Cardenacci matou-se.
- O que não se entende em toda essa história, meu caro Leite, é a reação de Sinval. Tornou-se inquieto, excitado, deficiente no trabalho. Come pouquíssimo, emagreceu demais. Foi surpreendido pelo guarda da noite a chorar convulsamente. Irrita-se quando alguém fala no suicídio. Não comenta o fato, não diz uma palavra. Não conseguimos estabelecer relação alguma entre Cardenacci e Sinval. Nem tampouco houve entre eles o menor incidente. Sentimos, porém, que há qualquer coisa. A reação de Sinval é anormal e desnorteante.
- Não há pista nenhuma?
- Nenhuma.
- Então, se há qualquer coisa, está escondida na cabeça do homem. Se ele se acha abatido, como você me disse, poderei aplicar um velho truque que me tem ajudado em situações semelhantes. Vamos tentar o golpe. Você me apresentará a Sinval como o delegado de polícia encarregado do inquérito sobre o suicídio. Eu farei o resto.
Tilintou a campainha, o guarda entrou e recebeu a ordem. Voltou acompanhado de Armando Sinval. Pálido, o olhar baço, arrastando as pernas, desinteressado de tudo. Alertou-se, e um certo viço revestiu os olhos, quando soube quem era o seu interlocutor. O delegado falou com energia e decisão:
- Armando Sinval: comunico-lhe que procedi a investigações sobre o suicídio de Cardenacci. Descobri tudo. Espero, agora, suas explicações. Vamos.
Sinval recuou, como se alguém o tivesse empurrado. Uma pausa silenciosa. O presidiário respirou fundo e depois respondeu mansamente:
- Nunca pensei que a coisa chegasse a esse extremo. Os senhores, naturalmente, desejam saber a causa, já que descobriram tudo. Eu me intoxiquei com a lembrança dos dias mais 'horrorosos da minha vida. Tudo por culpa de Cardenacci.
Contou, então, o erro de diagnóstico, os padecimentos durante o período em que se considerava um leproso, os seus delitos. Concluiu:
- A presença de Cardenacci despertou em mim o desejo de vingança. Passei a acreditar que estava encarcerado por culpa dele. Então, eu. .. O resto os senhores já sabem.
Entreolharam-se os dois homens. Não sabiam de nada. Que ocultaria a mente do sentenciado? Que papel teria desempenhado na morte de Cardenacci? Do velho Leite partiu a isca novamente:
- Como conseguiu você fazer o que fez?
- Naturalmente os senhores compreenderão que me era fácil executar o serviço. Além de minha habilidade, meu cargo na secretaria ajudou bastante, é claro.
E o homem calou-se de novo. Continuava a ronda do mistério. Se não estivesse tão prostrado, e por isso sem perspicácia, Sinval teria notado a ansiedade do diretor. O delegado mantinha-se firme e natural. O condenado perguntou:
- Estou dispensado?
O velho Leite lançou o último arpão: - Ainda não, Sinval. Necessitamos de sua confissão completa. Embora o assunto já esteja esclarecido, você é obrigado a relatar tudo quanto fez. Isso é necessário para apurarmos se há cúmplices no caso.
- Não senhor, de modo algum. Fiz tudo sozinho. Na secretaria, ao receber as cartas, eu separava as que eram dirigidas a Cardenacci por Neusa e Álvaro. Durante o dia, eu as substituía por outras, por mim falsificadas. Colocava as falsas no expediente da distribuição e inutilizava as verdadeiras. Inventei o suicídio de Neusa. Nunca pensei que Cardenacci se matasse. Eu queria, apenas, que ele sofresse alguns dias como eu sofri...

O livro A Morte no Envelope do paulista Luiz Lopes Coelho é apresentado, em outras antologias, como "o primeiro volume de contos policiais escrito em nosso idioma" (o que não é acurado: esta primazia cabe a Medeiros e Albuquerque, com o seu Se eu Fosse Sherlock Holmes). Foi lançado pela antiga Civilização Brasileira - que lançaria mais tarde seu segundo livro O Homem que Matava Quadros - e recebeu críticas boas de leitores bem-dotados como Otto Maria Carpeaux, que escreveu sobre ele uma ótima resenha no Correio da Manhã. Um dos pioneiros do gênero entre nós, sua presença nesta antologia se fazia necessária.



O HOMEM MAU! (MAU MESMO) – 1968

O HOMEM MUITO MAU MESMO!
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"O Homem Mau"
Léo Canhoto e Robertinho
Composição: Léo Canhoto E Robertinho

"Atenção crianças, não fiquem na rua!
O terrível Homem Mau está ali no bar.

Eu sou o homem mau, eu sou mau, mau mesmo
Vendeiro traz cachaça com farinha pra todos

Vamos logo, Mistura esse negocio ai, é pra todo mundo beber
Onde vai moço?
Eu vou indo embora, eu nunca bebi (tiro)
E nem vai beber

E você ai, como é seu nome?
Meu nome é Pedro (tiro)
Era Pedro, agora é Defunto. Hahahahaaaaaaaa

Sua cara muito feia dava medo até de ver
Quando entrava na cidade dava tiros pra valer
Não tinha nenhum amigo, só vivia pra matar
Certa vez numa vendinha veja o que foi se passar:

Quem é o dono dessa porcaria aqui?
Sou eu, senhor
Então, ta dormindo? Traz Wisky logo.
Não tem Wisky.
O que é que eu bebo então?
Bebe leite!
Quem bebe leite é bezerro!(tiro)
Toma!Aprenda a respeitar o homem mau.

E essa mulher de quem é?
Essa mulher é minha!(tiros)
Era sua, agora é minha! Hahahahahahahaaaaaa

Certa vez mais um bandido apareceu no povoado
Pra matar o Homem Mau ele veio contratado
O Homem Mau falou pra ele:
-Você veio me matar! A madeira do caixão você já pode encomendar

Então você veio me matar não é? Quem é você?
Eu sou o famoso Billy Gancho porque?(tiro)
Pronto. Era Billy Gancho, agora é Defunto Gancho.Hahahahahahahaaaaaa

Todos tem seu dia certo, todos tem seu fim marcado
Pra acabar com o Homem Mau veio de longe um delegado
Os dois homens frente a frente lá na rua se encontraram
O Homem Mau e o delegado desse jeito conversaram

Então você é o delegado que veio acabar comigo? Qual é o seu nome delegado?
Meu nome é JUSTIÇA. Você está preso Homem Mau.
Hahahahahahahaaaaaa...Quem é você para me prender delegado? Fique sabendo que eu sou o Homem Mau, Mau.(tiros)
É você era o Homem Mau, agora é Defunto Mau.

A justiça sempre vence
Terminou aquela intriga
O Homem Mau amanheceu com a boca cheia de formiga
Lá na sua sepultura escreveram com desdenho:
"O Homem Mau morreu deitado e não faz falta pra ninguém"


Referência

https://ogimg.infoglobo.com.br/in/21045277-4ed-81b/FT460A/65627176_SC-O-escritor-Luiz-Lopes-Coelho-por-Cassio-Loredano.jpg
https://oglobo.globo.com/cultura/livros/critica-contos-reunidos-de-luiz-lopes-coelho-21045274
file:///C:/Users/User/Desktop/Os%20100%20Melhores%20Contos%20de%20Crime%20e%20Mist%C3%A9rio%20da%20Literatura%20Universal%20-%20Fl%C3%A1vio%20Moreira%20Da%20Costa%20(3).pdf

https://www.e-livros.xyz/imagens/livros/os-100-melhores-contos-de-crime-e-mistrio-da-literatura-universal-flvio-moreira-da-costa.jpg

quinta-feira, 25 de maio de 2017

ÉDIPO REI



5. ÉDIPO REI

Onde os culpados estarão?
Onde acharemos algum vestígio desse crime muito antigo?

Quem age sem receios não teme as palavras.

De mim, por mais que faças nada saberás.

(...)

ÉDIPO
Ah! Filhos meus, merecedores de piedade!
Sei os motivos que vos fazem vir aqui; vossos anseios não me são desconhecidos.
Sei bem que todos vós sofreis mas vos afirmo que o sofrimento vosso não supera o meu.
Sofre cada um de vós somente a própria dor; minha alma todavia chora ao mesmo tempo pela cidade, por mim mesmo e por vós todos.
Não me fazeis portanto levantar agora como se eu estivesse entregue ao suave sono.
Muito ao contrário, digo-vos que na verdade já derramei sentidas, copiosas lágrimas.
Meu pensamento errou por rumos tortuosos.
Veio-me à mente apenas uma solução, que logo pus em prática: mandei Creonte, filho de Meneceu, irmão de minha esposa, ao santuário pítico do augusto Febo para indagar do deus o que me cumpre agora fazer para salvar de novo esta cidade.
E quando conto os muitos dias transcorridos desde a partida dele, sinto-me inquieto com essa demora estranha, demasiado longa.
Mas, quando ele voltar, eu não serei então um homem de verdade se não fizer tudo que o deus ditar por intermédio de Creonte.

(Os anciãos do CORO, que se haviam agrupado em volta de Édipo enquanto ele falava, fazem um gesto indicando alguém que se aproxima.)

SACERDOTE
Sim, vejo que falaste a tempo; neste instante apontam-me Creonte; ei-lo de volta, enfim.

(Entra CREONTE, apressado, coroado de bagas de loureiro com aspecto alegre.)

ÉDlPO 
Traga-nos ele, deus Apolo, a salvação resplandecente como seu próprio semblante!

SACERDOTE
Ele parece alegre; as bagas de loureiro em forma de coroa são um bom sinal.

ÉDlPO
Ele já pode ouvir-nos; logo o escutaremos.
(Dirigindo-se a CREONTE.)
Filho de Meneceu, príncipe, meu cunhado, transmite-nos depressa o que te disse o deus!

CREONTE 
Foi favorável a resposta, pois suponho que mesmo as coisas tristes, sendo para bem, podem tornar-se boas e trazer ventura.

ÉDIPO
Mas, que resposta ouviste?
Estas palavras tuas se por um lado não me trazem mais temores por outro são escassas para dar-me alívio.

CREONTE
(Indicando os tebanos ajoelhados.)
Se é teu desejo ouvir-me na presença deles, disponho-me a falar.
Ou levas-me ao palácio?

ÉDIPO
Quero que fales diante dos tebanos todos; minha alma sofre mais por eles que por mim.

CREONTE
Revelarei então o que ouvi do deus.
Ordena-nos Apolo com total clareza que libertemos Tebas de uma execração oculta agora em seu benevolente seio, antes que seja tarde para erradicá-la.

ÉDIPO
Como purificá-la?
De que mal se trata?

CREONTE
Teremos de banir daqui um ser impuro ou expiar morte com morte, pois há sangue causando enormes males à nossa cidade.

ÉDIPO
Que morte exige expiação?
Quem pereceu?

CREONTE
senhor, outrora rei deste país, antes de seres aclamado soberano.

ÉDIPO
Sei, por ouvir dizer, mas nunca pude vê-lo.

CREONTE
Ele foi morto: o deus agora determina que os assassinos tenham o castigo justo, seja qual for a sua posição presente.

ÉDIPO
Onde os culpados estarão?
Onde acharemos algum vestígio desse crime muito antigo?

CREONTE
Em nossa terra, disse o deus; o que se busca encontra-se, mas foge-nos o que deixamos.

ÉDIPO
Foi no palácio, foi no campo ou em terra estranha que assassinaram Laio como nos falaste?

CREONTE
Disse ele, quando foi, que ia ouvir o deus e nunca mais voltou aos seus, à sua terra.

ÉDIPO
Nenhum arauto ou companheiro de viagem viu algo que pudesse orientar-nos hoje?

CREONTE
Todos estão agora mortos, salvo um que desapareceu com medo e pouco disse.

ÉDIPO
Que disse?
É pouco, mas um mínimo detalhe talvez nos leve a descobertas decisivas se nos proporcionar um fio de esperança.

CREONTE
Falou que alguns bandidos encontraram Laio e o trucidaram, não com a força de um só homem pois numerosas mãos se uniram para o crime.

ÉDIPO
Como teria ousado tanto o malfeitor sem conspirata em Tebas e sem corrupção?

CREONTE
Tivemos essa idéia, mas após o crime nenhum de nós em meio a males mais prementes pôde cuidar naquela hora de vingá-lo.

ÉDlPO
Que males, no momento em que o poder caía, vos impediram de aclarar o triste evento?

CREONTE
A Esfinge, entoando sempre trágicos enigmas, não nos deixou pensar em fatos indistintos; outros, patentes, esmagavam-nos então.

ÉDlPO
Pois bem; eu mesmo, remontando à sua origem, hei de torná-los evidentes sem demora.
Louve-se Febo, sejas tu também louvado pelos cuidados que tiveste quanto ao morto; verás que vou juntar-me a ti e secundar-te no esforço para redimir nossa cidade.
E não apagarei a mácula por outrem, mas por mim mesmo: quem matou antes um rei bem poderá querer com suas próprias mãos matar-me a mim também; presto um serviço a Laio e simultaneamente sirvo à minha causa.
(Dirigindo-se aos tebanos ajoelhados.)
Vamos depressa, filhos!
Vamos, levantai-vos desses degraus!
Levai convosco os vossos ramos de suplicantes; quando decorrer o tempo reúna-se de novo aqui a grei de Cadmos e dedicar-me-ei de todo ao meu intento.
Querendo o deus, quando voltarmos a encontrar-nos teremos satisfeito este nosso desejo, pois o contrário será nossa perdição.

SACERDOTE
Sim, filhos meus, ergamo-nos; foi para isso que aqui nos reunimos todos neste dia.
E possa Febo, inspirador das predições, juntar-se a nós, ele também, para salvar-nos e nos livrar deste flagelo para sempre!

(Retiram-se ÉDIPO, CREONTE, o SACERDOTE e o povo. Permanece em cena o CORO, composto de anciãos, cidadãos notáveis de Tebas.)

CORO
Doce palavra de Zeus poderoso, que vens trazendo da faustosa Delfos à ilustre Tebas?
Tenho meu espírito tenso de medo; tremo de terror, deus salutar de Delos, e pergunto, inquieto, por que sendas me conduzes, novas, talvez, ou talvez repetidas após o lento perpassar dos anos.
Dize-me, filha da Esperança áurea, voz imortal!
Invoco-te primeiro, filha do grande Zeus, eterna Atena, e tua irmã, guardiã de Tebas, Ártemis, que tem assento em trono glorioso na ágora de forma circular, e Febo, que de longe lança flechas: aparecei, vós três, em meu socorro!
Se de outra vez, para afastar de nós flagelo igual que nos exterminava pudestes extinguir as longas chamas da desventura, vinde a nós agora!
Ah! Quantos males nos afligem hoje!
O povo todo foi contagiado e já não pode a mente imaginar recurso algum capaz de nos valer!
Não crescem mais os frutos bons da terra; mulheres grávidas não dão à luz, aliviando-se de suas dores; sem pausa, como pássaros velozes, mais rápidas que o fogo impetuoso as vítimas se precipitam céleres rumo à mansão do deus crepuscular. Tebas perece com seus habitantes e sem cuidados, sem serem chorados, ficam no chão, aos montes, os cadáveres, expostos, provocando novas mortes.
Esposas, mães com seus cabelos brancos, choram junto aos altares, nos degraus onde gemendo imploram compungidas o fim de tão amargas provações.
E o hino triste repercute forte ao misturar-se às vozes lamentosas.
Diante disso, filha rutilante de Zeus supremo, outorga-nos depressa a tua sorridente proteção!
Faze também com que Ares potente, que agora nos ataca esbravejando e sem o bronze dos escudos queima-nos, vá para longe, volte-nos as costas, procure o leito imenso de Anfitrite ou as revoltas vagas do mar Trácio, pois o que a noite poupa o dia mata!
Zeus pai, senhor dos fúlgidos relâmpagos, esmaga esse Ares, Zeus, com teus trovões!
O meu desejo, Apolo, é que dispares com teu arco dourado flechas rápidas, inevitáveis, para socorrer-nos, para nos proteger; o mesmo espero das tochas fulgurantes com que Ártemis percorre os montes lícios; meu apelo também dirijo ao deus da tiara de ouro, epônimo de Tebas, Baco alegre de rosto cor de vinho, companheiro Dêls Mênades, para que avance e traga a todos nós a tão pedida ajuda com seu archote de brilhante chama contra esse deus que nem os deuses prezam!

(ÉDIPO reaparece, vindo do palácio, e dirige-se ao CORIFEU.)

ÉDIPO
Suplicas proteção e alívio de teus males.
Sem dúvida serão ouvidas tuas preces se deres a atenção devida à minha fala e tua ação corresponder às circunstâncias.
Quero dizer estas palavras claramente, alheio aos vãos relatos, preso à realidade.
Hei de seguir, inda que só, o rumo certo, o indício mais sutil será suficiente.
Já que somente após os fatos alegados honraram-me os tebanos com a cidadania, declaro neste instante em alta voz, cadmeus: ordeno a quem souber aqui quem matou Laio, filho de Lábdaco, que me revele tudo; ainda que receie represálias, fale!
Quem se denunciar não deverá ter medo; não correrá outro perigo além do exílio; a vida lhe será poupada. Se alguém sabe que o matador não é tebano, é de outras terras, conte-me logo, pois à minha gratidão virá juntar-se generosa recompensa.
Mas se ao contrário, cidadãos, nada disserdes e se qualquer de vós quiser inocentar-se por medo ou para proteger algum amigo da imputação de assassinato, eis minhas ordens:
Proíbo terminantemente aos habitantes deste país onde detenho o mando e o trono que acolham o assassino, sem levar em conta o seu prestígio, ou lhe dirijam a palavra ou lhe permitam irmanar-se às suas preces ou sacrifícios e homenagens aos bons deuses ou que partilhem com tal homem a água sacra!
Que todos, ao contrário, o afastem de seus lares pois ele comunica mácula indelével segundo nos revela o deus em seu oráculo.
Eis, cidadãos, como demonstro acatamento ao deus e apreço ao rei há tanto tempo morto.
O criminoso ignoto, seja ele um só ou acumpliciado, peço agora aos deuses que viva na desgraça e miseravelmente!
E se ele convive comigo sem que eu saiba, invoco para mim também os mesmos males que minhas maldições acabam de atrair inapelavelmente para o celerado!
Exorto-vos a proceder assim, tebanos, em atenção a mim, ao deus, por esta terra que em frente aos vossos olhos está perecendo entregue pelos numes à esterilidade.
Ainda que essa purificação forçosa não vos houvera sido imposta pelo deus, não deveríeis deixar Tebas maculada, pois era o morto um homem excelente, um rei; cumpria-vos esclarecer os fatos logo.
Considerando que hoje tenho em minhas mãos o mando anteriormente atribuído a Laio e que são hoje meus seu leito e a mulher que deveria ter-lhe propiciado filhos, e finalmente que se suas esperanças por desventura não houvessem sido vãs, crianças concebidas por uma só mãe teriam estreitado laços entre nós (mas a desgraça lhe caiu sobre a cabeça), por todos esses ponderáveis fundamentos hei de lutar por ele como por meu pai e tomarei as providências necessárias à descoberta do assassino do labdácida, progênie do rei Polidoro, descendente de Cadmos e Agenor, os grandes reis de antanho.
E quanto aos desobedientes, peço aos deuses que a terra não lhes dê seus frutos e as mulheres não tenham filhos deles, e sem salvação pereçam sob o peso dos males presentes ou vítimas de mal muitas vezes maior.
Mas, para vós, cadmeus que concordais comigo, possa a justiça sempre estar do vosso lado e não vos falte nunca a proteção divina!

CORIFEU
Escuta, então, senhor; tuas imprecações compelem-me a falar.
Não fui o assassino, nem sei quem foi; cabia a Febo, deus-profeta, que nos mandou punir agora o criminoso, dizer-nos quem outrora cometeu o crime.

ÉDIPO
São justas as tuas palavras, mas ninguém detém poder bastante para constranger os deuses a mudar os seus altos desígnios.

CORIFEU
Veio-me à mente uma segunda idéia; exponho-a?

ÉDIPO
Mesmo a terceira, se tiveres, quero ouvir.

CORlFEU
Sei que Tirésias venerável é o profeta mais próximo de Febo; se lhe perguntares, dele ouviremos a revelação dos fatos.

ÉDIPO
Não descurei desse recurso; aconselhado há pouco por Creonte, já mandei buscá-lo.
Espanta-me que ainda não tenha chegado. 

CORIFEU E quanto ao mais, só há rumores vãos, remotos.

ÉDIPO
Quais os rumores?
Quero conhecê-los todos.

CORIFEU
Dizem que Laio foi morto por andarilhos.

ÉDIPO
Também ouvi dizer, mas não há testemunhas.

CORIFEU
Mas se o culpado for sensível ao temor, não há de resistir quando tiver ciência de tua dura, assustadora imprecação.

ÉDIPO
Quem age sem receios não teme as palavras.

CORIFEU
(Vendo TIRBIAS aproximar-se.)
Já vejo aproximar-se quem vai descobri-lo. Estão trazendo em nossa direção o vate guiado pelos deuses, único entre os homens que traz em sua mente a lúcida verdade.

(Entra TIRÉSIAS, idoso e cego, conduzido por um menino.)

ÉDIPO
Tu, que apreendes a realidade toda, Tirésias, tanto os fatos logo divulgados quanto os ocultos, e os sinais vindos do céu e os deste mundo (embora não consigas vê-los), sem dúvida conheces os terríveis males que afligem nossa terra; para defendê-la, para salvá-la, só nos resta a tua ajuda.
Se ainda não ouviste de meus mensageiros, Apolo revelou ao meu primeiro arauto que só nos livraremos do atual flagelo se, descoberto o assassino do rei Laio, pudermos condená-lo à morte ou ao exílio.
Nesta emergência então, Tirésias, não nos faltes, não nos recuses a revelação dos pássaros nem os outros recursos de teus vaticínios; salva a cidade agora, salva-te a ti mesmo, salva-me a mim também, afasta de nós todos a maldição que ainda emana do rei morto!
Estamos hoje em tuas mãos e a ação mais nobre de um homem é ser útil aos seus semelhantes até o limite máximo de suas forças.

TIRÉSIAS
Pobre de mim!
Como é terrível a sapiência quando quem sabe não consegue aproveitá-Ia!
Passou por meu espírito essa reflexão mas descuidei-me, pois não deveria vir.

ÉDIPO
Qual a razão dessa tristeza repentina?

TIRÉSIAS
Manda-me embora!
Assim suportarás melhor teu fado e eu o meu.
Deixa-me convencer-te!

ÉDIPO
Carecem de justiça tais palavras tuas e de benevolência em relação a esta terra que te nutriu, pois não quiseste responder.

TIRÉSIAS
Em minha opinião a tua longa fala foi totalmente inoportuna para ti.
Então, para que eu não incorra em erro igual.. .

(TIRÉSIAS faz menção de afastar-se.)

ÉDIPO
Não, pelos deuses, já que sabes não te afastes!
Eis-nos aqui à tua frente, ajoelhados em atitude súplice, toda a cidade!

TIRÉSIAS
Pois todos vós sois insensatos.
Quanto a mim, não me disponho a exacerbar meus próprios males; para ser claro, não quero falar dos teus.

ÉDIPO
Que dizes?
Sabes a verdade e não a falas?
Queres trair-nos e extinguir nossa cidade?

TIRÉSIAS
Não quero males para mim nem para ti.
Por que insistes na pergunta?
É tudo inútil.
De mim, por mais que faças nada saberás.

ÉDIPO
Não falarás, então, pior dos homens maus, capaz de enfurecer um coração de pedra?
Persistirás, inabalável, inflexível?

TIRÉSIAS
Acusas-me de provocar a tua cólera?
Não vês aquilo a que estás preso e me censuras?

ÉDIPO
E quem resistiria à natural revolta ouvindo-te insultar assim nossa cidade?

TIRÉSIAS
O que tiver de vir virá, embora eu cale.

ÉDIPO
Mas tens de revelar-me agora o que há de vir!

TIRÉSIAS
Nada mais digo; encoleriza-te, se queres; cede à mais cega ira que couber em ti!

ÉDIPO
Pois bem.
Não dissimularei meus pensamentos, tão grande é minha cólera.
Fica sabendo que em minha opinião articulaste o crime e até o consumaste!
Apenas tua mão não o matou.
E se enxergasses eu diria que foste o criminoso sem qualquer ajuda!

TIRÉSIAS
Teu pensamento é este?
Então escuta: mando que obedecendo à ordem por ti mesmo dada não mais dirijas a palavra a esta gente nem a mim mesmo, pois és um maldito aqui!

ÉDIPO
Quanta insolência mostras ao falar assim!
Não vês que aonde quer que vás serás punido?

TIRÉSIAS
Sou livre; trago em mim a impávida verdade!

ÉDIPO
De quem a recebeste?
Foi de tua arte?

TIRÉSIAS
De ti; forçaste-me a falar, malgrado meu.

ÉDIPO
Que dizes?
Fala novamente!
Vamos!
Fala!
Não pude ainda compreender tuas palavras.

TIRÉSIAS
Não percebeste logo?
Queres que eu repita?

ÉDIPO
Parece-me difícil entender-te.
Fala!

TIRÉSIAS
Pois ouve bem: és o assassino que procuras!

(...)

Tradução de Mário da Gama Kury

SÓFOCLES (c. 496-406 a.C. | Grécia)

Édipo Rei, de Sófocles, consegue, cinco séculos antes de Cristo, tal a sua importância na história da humanidade, estar presente hoje na base da dramaturgia ocidental, na criação da psicanálise e... nos primórdios do romance policial. Pelo menos nove entre dez estudiosos de literatura policial (a exceção é o filósofo Roger Callois, em seu Le Roman Policièrej situam este marco da tragédia grega como um precursor do gênero de massa que só iria se desenvolver mais de vinte séculos depois. É isso que justifica (mesmo através de um pequeno desvio de "gênero ",já que teatro não é conto, embora ambos sejam narrativas ficcionais, mas com um objetivo, digamos assim, "didático") sua inclusão na nossa antologia, através de um trecho significativo, no qual esta aproximação pelo menos nos enriquece. A tradução, direta do grego, é do competente Mário da Gama Kury.


O Mito de Édipo Rei


Referência

file:///C:/Users/User/Desktop/Os%20100%20Melhores%20Contos%20de%20Crime%20e%20Mist%C3%A9rio%20da%20Literatura%20Universal%20-%20Fl%C3%A1vio%20Moreira%20Da%20Costa%20(3).pdf
https://www.e-livros.xyz/imagens/livros/os-100-melhores-contos-de-crime-e-mistrio-da-literatura-universal-flvio-moreira-da-costa.jpg

https://youtu.be/KBj-GEF1DDI

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O HOMEM...

... Vida, História e Arte

A MULHER...

... Arte, História e Vida






THE MAN JAMES EARL JONES 1972


IRVING WALLACE


... a si própria porquê e, instantaneamente, a memória levou-a até à fonte das suas preocupações.


 Em relação ao passado — a sua memória, um eficiente arquivo, recuou no tempo — ...


 “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, .... Já tinha lido O Homem sem saber que Irving Wallace era Irving ...


Já tinha lido O Homem sem saber que Irving Wallace era Irving Wallace e soube desde então que precisaria ler outro. O Milagre recomendo com 5 estrelas e mais uma para o preço que se pode encontrar o livro em um sebo. Cassiano Couto


Escritor norte-americano, Irving Wallace nasceu a 29 de Junho de 1916 na cidade de Chicago. Filho de emigrantes russos, o seu pai trabalhava como empregado de loja. Cresceu e estudou em Kenosha, no estado do Wisconsin e, com apenas quinze anos de idade, deu início a uma carreira como jornalista, publicando regularmente artigos em publicações periódicas. Terminados os seus estudos secundários, deu ingresso no Instituto Williams, onde estudou Escrita de Criação, prosseguindo depois no Los Angeles City College . Passou depois a trabalhar como jornalista independente, chegando a ser correspondente.
Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, serviu na Força Aérea como escritor para a imprensa e cinema militares, escrevendo em simultâneo artigos de propaganda para revistas como a American Legion Magazine e a Liberty . Após a guerra passou a escrever para publicações de gabarito, como o The Saturday Evening Post , a Cosmopolitan e a Esquire and Collier's .
A partir de 1948 passou a trabalhar como argumentista para a indústria cinematográfica de Hollywood, escrevendo, em co-autoria com Horace McCoy, títulos como The West Point Story (1950), Bad To Each Other (1953) e Jump Into The Hell (1955).
Em 1959 publicou o seu primeiro romance, The Sins Of Philip Fleming, obra que passou despercebida pela crítica. Seguiu-se The Chapman Report (1960, O Relatório Chapman ), romance que contava a história de um psiquiatra que decide levar a cabo um estudo sobre o comportamento sexual feminino, descobrindo que, afinal há subtilezas que não podem ser abrangidas.
Seguiu-se então um período em que Wallace se dedicou à produção de romances de agrado popular, procurando ingredientes que pudessem cativar o público, como o sexo, a alta finança e o antagonismo dirigido à União Soviética, bastante frequente nessa época em que a Guerra Fria mantinha o seu auge. Assim, em 1962 publicou The Prize (O Prémio ), em que contava a história de um grupo de sábios galardoados com o Prémio Nobel, e que são procurados por comunistas da então República Democrática Alemã. A obra foi adaptada para o cinema logo no ano seguinte, contando com a participação de nomes como Paul Newman e Elke Sommers no elenco.
Grande parte da sua obra foi convertida para a Sétima Arte, com destaque particular para o filme realizado em 1971 por Russ Meyer a partir do romance The Seven Minutes (1969, Os Sete Minutos ) e The Man (1964), realizado em 1972 por Joseph Sargent.
A publicação deste último romance em 1964, que imaginava o que aconteceria se um negro fosse eleito presidente dos Estados Unidos da América, valeu a Wallace o Supremo Prémio de Mérito do Instituto Memorial George Washington Carver, juntamente com uma tença oferecida pela mesma fundação. Entre muitos outros galardões atribuídos ao seu trabalho, salientam-se uma medalha de prata pelo Commonwealth Club em 1965 e a Rosa D'Oro de Veneza em 1975.
No ano de 1972 passou a desempenhar as funções de repórter na agência noticiosa dos periódicos Chicago News e Sun Times, tendo como missão a cobertura das convenções dos partidos Democrático e Republicano. Também nesse ano publicou The Word (1972, A Palavra ), romance em que contava a história da descoberta de um evangelho alegadamente escrito pelo irmão de Jesus Cristo. Em 1979 publicou The Pigeon Project (Projecto Pombo-Correio), obra em que procedia a uma reflexão sobre o sonho da invenção do elixir da juventude e, em 1984 seria a vez de The Miracle (O Milagre), romance que girava em torno da aparição de Lurdes em 1958.
Irving Wallace faleceu a 29 de Junho de 1990 em Los Angeles, vítima de um cancro no pâncreas.

BIBLIOGRAFIA

idioma
PT
ES
FR
ordenação
DATA EDIÇÃO
RANKING



O Maior Espectáculo do Mundo
Livros do Brasil
Edição: 09-2005


O Relatório Chapman
Livros do Brasil
Edição: 04-2003


O Homem
Livros do Brasil
Edição: 04-2003


O Prémio
Livros do Brasil
Edição: 04-2001


As Três Sereias
Livros do Brasil
Edição: 04-2000



Pecados Conjugais
Livros do Brasil
Edição: 04-1996


A Convidada de Honra
Livros do Brasil
Edição: 04-1993


O Salão Dourado
Livros do Brasil
Edição: 04-1993


A Conspiração
Livros do Brasil
Edição: 05-1992


A Vigésima Sétima Mulher
Livros do Brasil
Edição: 04-1991


Os Sete Minutos
Livros do Brasil
Edição: 04-1988


O Leito Celestial
Livros do Brasil
Edição: 04-1987


O Sétimo Segredo
Livros do Brasil
Edição: 04-1986



O Milagre
Livros do Brasil
Edição: 04-1984


A Segunda Dama
Livros do Brasil
Edição: 04-1983


O Todo - Poderoso
Livros do Brasil
Edição: 04-1983


A Palavra
Europa-América
Edição: 04-1981


Projecto Pombo - Correio
Publicações Europa-América
Edição: 04-1980


A MULHER...

...Arte, História e Vida





CLARICE LISPECTOR




O Triunfo, 2007, 10 min.


Curta inspirado no 1º conto de Clarice Lispector. Luísa desperta sozinha onde morava com o amante. Ambiente de um silêncio de morte, no qual ela passa a ver e ouvir, o que já existia, de um modo que não se dava antes.

Ficha Técnica:

Roteiro e direção: Geórgia Alves
Produção: Sérgio Montenegro Filho
Fotografia: Marcelo Lordello
Montagem: Marcelo Pedroso
Still: Larissa Alves
Atores e Bailarinos: Ana Paula Ferrari (Luísa) e Davison Carvalho (Jorge)
Criança: Enrico Mello
Participação Especial: Raimundo Carrero
Apoio: Símio Produções e Trincheira Filmes
Agradecimento Especial a Paulo Gurgel Valente

Músicas:

Piano Concierto A Minor - Schuman
God Bless the Child - Billie Holiday
Sinfonia N.3 "Heroica" - Ludwig Van Beethoven

Histórico: 1º Lugar Concurso ParaAmarClarice (1o.Lugar), Menção Honrosa no CinePe 2008 (Prêmio SINDICINE - Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual dos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal. Além de 3o. Festival de Vídeo do Recife (2007) e Participação no Festival do Caribe, Mostra Pernambuco em Cuba (2010). Para que endereço devo encaminhar o filme. Tenho cópia em DVD e miniDV. Outras informações e fotos de divulgação no endereço: http://otriunfofilme.blogspot.com/
Categoria
Filmes e desenhos
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Música
"Eroica. Symphony No. 3 in E flat major op. 55 - Allegro con brio (Beethoven)" por Symphonisches Orchester Berlin, Carl-August Bünte ( • )


A Paixão segundo G.H.

Clarice Lispector
Editora Rocco

Digitalizado por Michele


A POSSÍVEIS LEITORES

 Este livro é como um livro qualquer.
Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada.
Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém.
A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.
 C.L.


Considerado por muitos o grande livro de Clarice Lispector, A paixão segundo G.H. tem um enredo banal. Depois de despedir a empregada, uma mulher vai fazer uma faxina no quarto de serviço. Mal começa a limpeza, depara com uma barata. Tomada pelo nojo, ela esmaga o inseto contra a porta de um armário. Depois, numa espécie bárbara de ascese, decide provar da barata morta.
Ao esmagar a barata, e depois degustar seu interior branco, operou-se em G.H. uma revelação. O inseto a apanhou em meio a sua rotina “civilizada”, entre os filhos, afazeres domésticos e contas a pagar, e a lançou para fora do humano, deixando-a na borda do coração selvagem da vida. Esse desejo de encontrar o que resta do homem quando a linguagem se esgota move, desde o início, a literatura de Clarice.
Mesmo sem ser um livro de inspiração religiosa, G.H. tem, ainda, um aspecto epifânico. Ao degustar a pasta branca que escorre da barata morta, a protagonista comunga com o real e ali o divino - a força impessoal que nos move - se manifesta. E só depois desse ato, que desarruma toda a visão civilizada, G.H. pode enfim se reconstruir.
O escritor argentino Ricardo Piglia disse certa vez que toda a literatura pode ser reduzida a dois gêneros fundamentais: as narrativas de amor e as narrativas de mistério. Em G.H., essas duas claves básicas da ficção se entrelaçam. Pois é justamente a mistura letal de amor e mistério que chamamos de paixão.
JOSÉ CASTELLO
Jornalista, escritor e Mestre em Comunicação pela UFRJ.









Panorama com Clarice Lispector


Além da entrevista da escritora para Júlio Lerner, pouco antes de morrer, o especial traz ainda depoimentos de admiradores de Clarice.
Categoria
Entretenimento
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POR CARLOS WILLIAN LEITE
EM ENTREVISTAS


A ÚLTIMA ENTREVISTA DE CLARICE LISPECTOR


Uma rara entrevista de Clarice Lispector, concedida em 1977, ao repórter Júlio Lerner, da TV Cultura. Depois de gravada, Clarice pediu que a entrevista só fosse divulgada após sua morte. Foi ao ar dez meses depois. Clarice morreu em dezembro de 1977, aos 57 anos
De minha sala até o saguão dos estúdios tenho que percorrer cerca de 150 metros. Estou tão aturdido com a possibilidade de entrevistá-la que mal consigo me organizar naquela curta caminhada. Talvez falar sobre “A Paixão Segundo G.H”… Ou quem sabe sobre “A Maçã no Escuro” e “Perto do Coração Selvagem”… Vou recordando o que Clarice escreveu. Será que li tudo? Em apenas cinco minutos consegui um estúdio para entrevistá-la.
São quatro e quinze da tarde e disponho de apenas meia hora. Às cinco entra ao vivo o programa infantil e quinze minutos antes terei de desocupar o estúdio. Estou correndo e antes mesmo de vê-la a pressão do tempo começa a me massacrar. Não terei condições de preparar nada antes, nem mesmo conversar um pouco. Não poderei sequer tentar criar um clima adequado para a entrevista. Eu odeio a TV brasileira! Só meia hora para ouvir Clarice. O pessoal da técnica foi novamente generoso e se empenhou para conseguir essa brecha. Olho o relógio, não consigo me organizar, estou correndo, olho novamente o relógio. Estou desconcertado, atinjo o saguão dos estúdios e a vejo ali, dez metros adiante, Clarice de pé ao lado de uma amiga, perdida no meio do vaivém dos cenários desmontados, de diversos equipamentos e de técnicos que falam alto, no meio de um grande alvoroço.
Paro diante dela, estou um pouco ofegante, estendo-lhe a mão e sou atravessado pelo olhar mais desprotegido que um ser humano pode lançar a semelhante. Ela é frágil, ela é tímida, e eu não tenho condições para explicar que o problema do tempo elevou meus níveis de ansiedade. Clarice me apresenta Olga Borelli, entramos e a conduzo ao centro do pequeno estúdio. Peço para que ela sente numa poltrona de couro de tonalidade café-com-leite. Clarice segura apenas um maço de Hollywood e uma caixa de fósforos, providencio um cinzeiro, os refletores malditos são ligados. Clarice me olha. O olhar de Clarice me interroga, só disponho de uma única câmera, o olhar de Clarice suplica, Olga se ajeita numa lateral escurecida, chega Miriam, a estagiária do programa e fica encolhida e calada, o calor está ficando insuportável e o ar-condicionado não está ajustado, são apenas quatro e vinte, Clarice tenta me dizer alguma coisa mas não falo com ela, preocupado em ajustar uma questão de iluminação, o hálito da fornalha já nos atinge a todos, devemos ter agora no estúdio uns 50 ou 60 graus, maldita TV, bendita TV do terceiro mundo que me possibilita estar agora frente a frente com ela, Clarice me olha melindrosa, assustada e seu olhar me pede para que a tranquilize.
“OK, Júlio, tudo pronto”, a voz metálica vem da caixa dos alto-falantes. Peço a toda equipe para sair, cabo man, iluminador, assistente de estúdio, agradeço. Clarice percebe que caiu numa arapuca e já não há como voltar atrás. Peço silêncio e depois de uns dez segundos ecoa um “gravando”.
Não conversamos antes e disponho apenas de 23 minutos. Estou completamente desconcertado, fico um minuto em silêncio fitando Clarice. Estou oco, vazio, não sei o que dizer. Clarice me olha curiosa, mas vigilante, defendida. Sou o senhor do castelo e — prepotente — guardo comigo a chave desta prisão. Ninguém pode entrar ou sair sem meu expresso consentimento. Todos devem se submeter à minha autoritária vontade.
A fornalha arde, meu coração dispara, minha boca está seca e debaixo destes tirânicos mil sóis sou o maior dos tiranos. Começa a entrevista. A entrevista avança. Seus olhos azuis-oceânicos revelam solidão e tristeza. Clarice está nua, não há perdão, Clarice agora está encapotada, ela se deixa agarrar, mas logo escapa, e volta, e me pega, e me sugere o longe, o não dizível, depois se cala. E quando nada mais espero, ela volta a falar. Faço uma antientrevista, pausas, silêncios, Clarice agora está fugindo para uma galáxia inabitada e inatingível, mas volta em seguida e, tolerante, suporta toda a minha limitação.
Acho que ela vai se levantar a qualquer instante e me dizer: “Chega!”. Clarice pressente que por trás de meu sorriso aparentemente compreensivo e de minha fala suave esconde-se um ser diabólico autodenominado “repórter” e que quer possuir sua intimidade. Seu corpo exprime receios, ela me afasta, mas de novo me atrai, suas pernas se cruzam e se descruzam sem parar e telegrafam que de repente ela poderá se levantar e partir.

Clarice Lispector, de onde veio esse Lispector?
É um nome latino, não é? Eu perguntei a meu pai desde quando havia Lispector na Ucrânia. Ele disse que há gerações e gerações anteriores. Eu suponho que o nome foi rolando, rolando, rolando, perdendo algumas sílabas e foi formando outra coisa que parece “Lis” e “peito”, em latim. É um nome que quando escrevi meu primeiro livro, Sérgio Milliet (eu era completamente desconhecida, é claro) diz assim: “Essa escritora de nome desagradável, certamente um pseudônimo…”. Não era, era meu nome mesmo.
Você chegou a conhecer o Sérgio Milliet pessoalmente?
Nunca. Porque eu publiquei o meu livro e fui embora do Brasil, porque eu me casei com um diplomata brasileiro, de modo que não conheci as pessoas que escreveram sobre mim.
Clarice, seu pai fazia o que profissionalmente?
Representações de firmas, coisas assim. Quando ele, na verdade, dava era para coisas do espírito.
Há alguém na família Lispector que chegou a escrever alguma coisa?
Eu soube ultimamente, para minha enorme surpresa, que minha mãe escrevia. Não publicava, mas escrevia. Eu tenho uma irmã, Elisa Lispector, que escreve romances. E tenho outra irmã, chamada Tânia Kaufman, que escreve livros técnicos.
Você chegou a ler as coisas que sua mãe escreveu?
Não, eu soube há poucos meses. Soube através de uma tia: “Sabe que sua mãe fazia um diário e escrevia poesias?” Eu fiquei boba…
Nas raras entrevistas que você tem concedido surge, quase que necessariamente, a pergunta de como você começou a escrever e quando?
Antes de sete anos eu já fabulava, já inventava histórias, por exemplo, inventei uma história que não acabava nunca. Quando comecei a ler comecei a escrever também. Pequenas histórias.
Quando a jovem, praticamente adolescente Clarice Lispector, descobre que realmente é a literatura aquele campo de criação humana que mais a atrai, a jovem Clarice tem algum objetivo específico ou apenas escrever, sem determinar um tipo de público?
Apenas escrever.
Você poderia nos dar uma ideia do que era a produção da adolescente Clarice Lispector?
Caótica. Intensa. Inteiramente fora da realidade da vida.
Desse período você se lembra do nome de alguma produção?
Bem, escrevi várias coisas antes de publicar meu primeiro livro. Eu escrevia para revistas — contos, jornais. Eu ia com uma timidez enorme, mas uma timidez ousada. Eu sou tímida e ousada ao mesmo tempo. Chegava lá nas revistas e dizia: “Eu tenho um conto, você não quer publicar?” Aí me lembro que uma vez foi o Raimundo Magalhães Jr. que olhou, leu um pedaço, olhou para mim e disse: “Você copiou isso de quem?” Eu disse: “De ninguém, é meu”. Ele disse: Você traduziu?” Eu disse: “Não”. Ele disse: “Então eu vou publicar”. Era sim, era meu trabalho.
Você publicava onde?
Ah, não me lembro… Jornais, revistas.
Clarice, a partir de qual momento você efetivamente decidiu assumir a carreira de escritora?
Eu nunca assumi.
Por quê?
Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever. Ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu faço questão de não ser uma profissional para manter minha liberdade.
A sua produção ocorre com frequência ou você tem períodos?
Tenho períodos de produzir intensamente e tenho períodos-hiatos em que a vida fica intolerável.
E esses hiatos são longos?
Depende. Podem ser longos e eu vegeto nesse período ou então, para me salvar, me lanço logo noutra coisa, por exemplo, eu acabei uma novela, estou meio oca, então estou fazendo histórias para crianças.
Como você explica a Clarice Lispector voltada para a literatura infantil?
Começou com meu filho quando ele tinha seis anos, seis ou cinco anos, me ordenando que escrevesse uma história para ele. E eu escrevi. Depois guardei e nunca mais liguei. Até que me pediram um livro infantil. Eu disse que não tinha. Eu tinha inteiramente esquecido daquilo. Era tão pouco literatura para mim, eu não queria usar isso para publicar. Era para o meu filho. Aí lembrei: “Bom, tenho, sim”. Então foi publicado. Foram publicados três livros de literatura infantil e estou fazendo o quarto agora.
É mais difícil você se comunicar com o adulto ou com a criança?
Quando me comunico com criança é fácil porque sou muito maternal. Quando me comunico com o adulto, na verdade, estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma.
O adulto é sempre solitário?
O adulto é triste e solitário.
E a criança?
A criança tem a fantasia solta.
A partir de que momento, de acordo com a escritora, o ser humano vai se transformando em triste e solitário?
Ah, isso é segredo. Desculpe, não vou responder. A qualquer momento da vida, basta um choque um pouco inesperado e isso acontece. Mas eu não sou solitária. Tenho muitos amigos. E só estou triste hoje porque estou cansada. No geral sou alegre.
Normalmente o contato do jovem estudante com você revela que tipo de preocupação?
Revela coisas surpreendentes, que eles estão na minha.
O que significa “estar na sua”?
É que eu penso às vezes que eu estou isolada e quando eu vejo estou tendo universitários, gente muito jovem, que está completamente ao meu lado e é gratificante, não é?
Nós ouvimos com frequência que as novas gerações pouco leem no Brasil. Você confirma isso?
Bem, os universitários são obrigados a ler porque impõem a eles a obra. Agora não estou a par dos outros.
De seus trabalhos qual aquele que você acredita que mais atinja o público jovem?
Depende. Por exemplo, o meu livro “A Paixão Segundo G.H”, um professor de português do Pedro II veio até minha casa e disse que leu quatro vezes e ainda não sabe do que se trata. No dia seguinte uma jovem de 17 anos, universitária, disse que este é o livro de cabeceira dela. Quer dizer, não dá para entender.
E isso acontece em relação a outros trabalhos seus?
Também em relação ao outros trabalhos, ou toca ou não toca. Suponho que não entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Tanto que o professor de português e literatura, que deveria ser o mais apto a me entender, não me entendia. E a moça de 17 anos lia e relia o livro, não é? O que é um alívio.
Antes de nos encontrarmos aqui no estúdio você me dizia que está começando um novo trabalho agora, uma novela…
Não, eu acabei a novela.
Que novela é essa, Clarice?
É a história de uma moça que só comia cachorro-quente. A história é de uma inocência pisada, de uma miséria anônima…
O cenário dessa novela é…
É o Rio de Janeiro… Mas o personagem é nordestino, é de Alagoas…
Onde você foi buscar a inspiração, dentro de si mesma?
Eu morei no Recife, me criei no Nordeste. E depois, no Rio de Janeiro tem uma feira de nordestinos no Campo de São Cristóvão e uma vez eu fui lá. E peguei o ar meio perdido do nordestino no Rio de Janeiro. Daí começou a nascer a ideia. Depois eu fui a uma cartomante e ela disse várias coisas boas que iam acontecer e imaginei, quando tomei o táxi de volta, que seria muito engraçado se um táxi me atropelasse e eu morresse depois de ter ouvido todas aquelas coisas boas. Então a partir daí foi nascendo também a trama da história.
Qual o nome da heroína da novela?
Não quero dizer. É segredo.
E o nome da novela, você poderia revelar?
Treze nomes, treze títulos.
Rilke, em seu livro “Cartas a um Jovem Poeta”, respondendo a uma das missivas, pergunta a um jovem que pretendia se tornar escritor: se você não pudesse mais escrever, você morreria? A mesma pergunta eu transfiro a você.
Eu acho que, quando não escrevo estou morta.
Esse período?
É muito duro, esse período entre um trabalho e outro, e ao mesmo tempo é necessário para haver uma espécie de esvaziamento para poder nascer alguma outra coisa, se nascer. É tudo tão incerto…
Clarice, mas como é que você escreve? Existe algum horário específico?
Em geral de manhã cedo. As minhas horas preferidas são as da manhã.
Você acorda a que horas?
Quatro e meia, cinco horas. Fico fumando, tomando café, sozinha sem nenhuma interferência. Quando estou escrevendo alguma coisa eu anoto a qualquer hora do dia ou da noite, coisas que me vêm. O que se chama inspiração, não é? Agora quando estou no ato de concatenar as inspirações, aí sou obrigada a trabalhar diariamente.
Você se considera uma escritora popular?
Não.
Por qual razão?
Me chamam de hermética. Como é que eu posso ser popular sendo hermética?
E como você vê esta observação “hermética”?
Eu me compreendo. De modo que não sou hermética para mim. Bom, tem um conto meu que não compreendo muito bem…
Que conto?
“O ovo e a galinha”.
Entre seus diversos trabalhos existe um filho predileto. Qual aquele que você vê com maior carinho até hoje?
“O ovo e a galinha”, que é um mistério para mim. Uma coisa que eu escrevi sobre um bandido, um criminoso chamado Mineirinho, que morreu com três balas quando uma só bastava. E que era devoto de São Jorge e que tinha uma namorada.
Sobre esse seu trabalho em torno de Mineirinho, qual o enfoque você deu?
Eu não me lembro muito bem, já faz bastante tempo. Há qualquer coisa assim como “o primeiro tiro me espanta, o segundo tiro não sei o que, o terceiro tiro…” Eu me transformei no Mineirinho, massacrado pela polícia. Qualquer que tivesse sido o crime dele uma bala bastava, o resto era vontade de matar. Era prepotência.
Em que medida o trabalho de Clarice Lispector no caso específico de Mineirinho pode alterar a ordem das coisas?
Não altera em nada. Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa.
No seu entender, qual é o papel do escritor brasileiro hoje?
De falar o menos possível
Você tem mantido contato como outros escritores?
Eventualmente.
Quais aqueles que você acredita serem os mais significativos?
Eu prefiro não citar nomes porque eu vou esquecer alguns e vai ofender, vai ferir. Assim, eu não cito ninguém.
Você discute muito com a Clarice Lispector escritora?
Não. Eu me deixo ser…
E convivem em paz?
Ás vezes não em paz, mas…
Normalmente, que tipo de problema a Clarice Lispector escritora traz a você?
Às vezes o fato de me considerar escritora me isola.
Por qual razão?
Me põe um rótulo.
E você acredita que as pessoas olham para você através desse rótulo?
Às vezes através desse rótulo. Tudo o que eu digo, a maior bobagem, é considerada como uma coisa linda ou uma coisa boba. É por isso que não ligo muito para essa coisa de ser escritora e dar entrevistas e tudo.
Você acredita que uma pessoa vá a uma livraria comprar especificamente um livro de Clarice Lispector?
Parece que isso acontece. Eu sei porque às vezes me telefonam e me perguntam em que livraria encontram meu livro. Então eu sei que tem pessoas que vão procurar exatamente o meu livro. É que no fundo eu escrevo muito simples, sabe?
Será que as coisas simples hoje são recebidas de maneira complicada?
Talvez, talvez… Eu escrevo simples. Eu não enfeito.
Na sua formação como escritora quais aqueles autores que você sente que realmente lhe influenciaram, que marcaram?
Eu não sei realmente porque misturei tudo. Eu lia romance para mocinhas, livro cor-de-rosa, misturado com Dostoiévski. Eu escolhia os livros pelos títulos e não pelos autores. Misturei tudo. Fui ler, aos treze anos, Hermann Hesse, [o romance] “O Lobo da Estepe”, e foi um choque. Aí comecei a escrever um conto que não acabava nunca mais. Terminei rasgando e jogando fora.
Isso ainda acontece de você produzir alguma coisa e rasgar?
Eu deixo de lado… Não, eu rasgo sim.
É produto de reflexão ou de uma emoção?
Raiva, um pouco de raiva.
De quem?
De mim mesma.
Por que, Clarice?
Sei lá, estou meio cansada.
Do quê?
De mim mesma.
Mas você não renasce e se renova a cada trabalho novo?
Bom, agora eu morri. Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta. Estou falando do meu túmulo.

Entrevista concedida ao jornalista Júlio Lerner, em 1 de fevereiro de 1977, para o programa “Panorama”, da TV Cultura, de São Paulo.







A Hora da Estrela (filme completo)

A Hora da Estrela(1985). Direção: Suzana Amaral

Macabéa, uma nordestina de dezenove anos, orfã de pai, mãe e da tia que a criou, vai para o Rio de Janeiro ser datilógrafa. Ela vai morar numa pensão e tem uma vida sem muitas emoções, pois é indiferente a elas.

Elenco:

Marcélia Cartaxo .... Macabéa
José Dumont .... Olímpico de Jesus
Fernanda Montenegro .... madame Carlota, a cartomante
Tamara Taxman .... Glória
Umberto Magnani .... seu Raimundo
Denoy de Oliveira .... Pereira

english subtitles
Categoria
Jogos
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Música

"Espelho I" por Marcus Vinícius ( • )


DEVIR EM ÁGUA VIVA E NA ESCRITA DA HISTÓRIA
Lohanne G. Silva1

RESUMO O objetivo do trabalho é investigar as proximidades entre o processo de criação de Clarice Lispector e a escrita da história. Para isso destaco como fontes e objetos de estudo o livro Água viva (1973), o datiloscrito desta obra guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa e os quadros pintados por Clarice nas décadas de 1960 e 1970, pertencentes ao acervo da mesma instituição e ao Instituto Moreira Salles. Por meio dos documentos referentes ao percurso criativo de Clarice Lispector, pude perceber que Água viva é uma obra elaborada detalhadamente, contrapondo-se a uma visão de uma escrita automática. Por isso destaco a importância da análise do processo de criação para o estudo da obra. Neste trabalho, procuro tecer as relações entre história e literatura que se aproximam na dimensão de uma escrita em devir e no processo criativo da produção textual, no qual há simultaneamente inspiração e trabalho.

PALAVRAS-CHAVE: Clarice Lispector. Água viva. História. Literatura. Processo de criação.

[...] não há quase história senão da percepção, enquanto que aquilo do que se faz história é antes a matéria de um devir, não de uma história.2
História não te prometo aqui. Mas tem it.3
Isto não é história porque não conheço história assim, mas sei só ir dizendo e fazendo: é história de instantes que fogem como os trilhos fugitivos que veem da janela do trem.4
Entende-me: escrevo-te uma onomatopeia, convulsão da linguagem. Transmito-te não uma história mas apenas palavras que vivem do som.5

Água viva, de Clarice Lispector, é, sobretudo, um exercício de pensar diferente, de escrever diferente. O tempo neste livro é o “já”, o “já” que é o tempo dos instantes que se seguem, é o presente em contínuo movimento. Seu livro é formado por devires, é movimento,

1 Doutoranda no Curso de História da Universidade Federal de Uberlândia.
2 DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução Suely Rolnik. v. 4. São Paulo: Ed 34, 1997. p. 165.
3 LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 38.
4 Idem, ibidem. p. 73.
5 Idem, ibidem. p. 27. 2 é linha de fuga, de desterritorialização. Não pretende contar uma história, não tem uma narrativa delineada. Com isso Clarice procurou vencer os instantes na intenção de falar apenas no presente, de escrever improvisando: “Estou improvisando e a beleza do que improviso é fuga”6 .






Clarice Lispector
Escritora e jornalista brasileira

Biografia de Clarice Lispector
Clarice Lispector, (1920-1977) foi uma escritora e jornalista brasileira, de origem judia, foi reconhecida como uma das mais importantes escritoras do século XX. "A Hora da Estrela" foi seu último romance, publicado em vida.
Clarice Lispector (1920-1977) nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Filha de família de origem judaica, seu pai Pinkouss e sua mãe Mania Lispector emigraram para o Brasil em março de 1922, para a cidade de Maceió, Alagoas, onde morava Zaina, irmã de sua mãe. Nascida Haia Pinkhasovna Lispector, por iniciativa do seu pai todos mudam de nome e Haia passa a se chamar Clarice.
Em 1925 muda-se com a família para a cidade do Recife onde Clarice passa sua infância no Bairro da Boa Vista. Aprendeu a ler e escrever muito nova. Estudou inglês e francês e cresceu ouvindo o idioma dos seus pais o iídiche. Com 9 anos fica órfã de mãe. Em 1931 ingressa no Ginásio Pernambucano, o melhor colégio público da cidade.
Em 1937 muda-se com a família para o Rio de Janeiro, indo morar no Bairro da Tijuca. Ingressa no Colégio Sílvio Leite, onde era frequentadora assídua da biblioteca. Ingressa no curso de Direito. Com 19 anos publica seu primeiro conto "Triunfo" no semanário Pan. Em 1943 forma-se em Direito e casa-se com o amigo de turma Maury Gurgel Valente. Nesse mesmo ano estreou na literatura com o romance "Perto do Coração Selvagem", que retrata uma visão interiorizada do mundo da adolescência, e teve calorosa acolhida da crítica, recebendo o Prêmio Graça Aranha.
Clarice Lispector acompanha seu marido em viagens, na carreira de Diplomata do Ministério das Relações Exteriores. Em sua primeira viagem para Nápoles, Clarice trabalha como voluntária de assistente de enfermagem no hospital da Força Expedicionária Brasileira. Também morou na Inglaterra, Estados Unidos e Suíça, sempre acompanhando seu marido.
Em 1949, nasce na Suíça seu primeiro filho, Pedro, e em 1953 nasce nos Estados Unidos o segundo filho, Paulo. Em 1959, Clarice se separa do marido e retorna ao Rio de Janeiro, com os filhos. Logo começa a trabalhar no Jornal Correio da Manhã, assumindo a coluna Correio Feminino. Em 1960 trabalha no Diário da Noite com a coluna Só Para Mulheres, e lança "Laços de Família", livro de contos, que recebe o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Em 1961 publica "A Maçã no Escuro" pelo qual recebe o prêmio de melhor livro do ano em 1962.
Clarice Lispector sofre várias queimaduras no corpo e na mão direita, quando dorme com um cigarro aceso, em 1966. Passa por várias cirurgias e vive isolada, sempre escrevendo. No ano seguinte publica crônicas no Jornal do Brasil e lança "O Mistério do Coelho Pensante". Passa a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro. Em 1969, já tinha perto de doze volumes publicados. Recebeu o prêmio do X Concurso Literário Nacional de Brasília.
A melhor prosa da autora se mostra nos contos de "Laços de Família" (1960) e de "A Legião Estrangeira" (1964). Em obras como "A Maçã no Escuro" (1961), "A Paixão Segundo G.H." (1961) e "Água-Viva" (1973), os personagens, alienados e em busca de um sentido para a vida, adquirem gradualmente consciência de si mesmos e aceitam seu lugar num universo arbitrário e eterno.
Clarice Lispector, escreveu "Hora da Estrela" em 1977, onde conta a história de Macabéa, moça do interior em busca de sobreviver na cidade grande. A versão cinematográfica desse romance, dirigida por Suzana Amaral em 1985, conquistou os maiores prêmios do festival de cinema de Brasília e deu à atriz Marcélia Cartaxo, que fez o papel principal, o troféu Urso de Prata em Berlim em 1986.
Clarice Lispector morreu no Rio de Janeiro, no dia 9 de dezembro de 1977. Seu corpo foi sepultado no cemitério Israelita do Caju.

Obras de Clarice Lispector

Perto do Coração Selvagem, romance, 1944
O Lustre, romance, 1946
A Cidade Sitiada, romance, 1949
Alguns Contos, conto, 1952
Laços de Família, conto, 1960
A Maçã no Escuro, romance, 1961
A Paixão Segundo G.H., romance, 1961
A Legião Estrangeira, conto, 1964
O Mistério do Coelho Pensante, literatura infantil, 1967
A Mulher Que Matou os Peixes, literatura infantil, 1969
Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres, romance, 1969
Felicidade de Clandestina, conto, 1971
Água Viva, romance, 1973
Imitação da Rosa, conto, 1973
A Via Crucis do Corpo, conto, 1974
A Vida Íntima de Laura, literatura infantil, 1974
A Hora da Estrela, romance, 1977







Referências


https://www.wook.pt/autor/irving-wallace/7857

http://www.congressohistoriajatai.org/anais2014/Link%20(157).pdf

https://www.ebiografia.com/clarice_lispector/

http://www.carlaportugues.com.br/site/wp-content/uploads/2013/04/apaixaosegundogh.pdf

http://www.revistabula.com/503-a-ultima-entrevista-de-clarice-lispector/