terça-feira, 3 de junho de 2025

"Entre a Memória e o Poder: as sinucas políticas da história em repetição"

Sinuca de Bico
O palácio Guanabara na manhã de 11 de maio, logo após o ataque dos integralistas 1938 11 de maio Integralistas tentam derrubar Getúlio Residência oficial é cercada; família do presidente fica cinco horas sob tiroteio Do Palácio Laranjeiras em 1937 à Praça dos Três Poderes em 2025, os antigos companheiros de viagem agora se confrontam sob novas máscaras — intentonas ideológicas, alianças tácitas e o eterno retorno das disputas pelo Estado, enquanto o cidadão zapeia entre canais, buscando sentido na política que se repete e se reinventa.
Breve histórico Construído entre 1909 e 1913 para servir de residência do empresário Eduardo Guinle, o Palácio das Laranjeiras foi projetado pelos arquitetos Armando Carlos da Silva Telles e Joseph Gire, no estilo Luís XIII. O Palácio das Laranjeiras foi durante anos utilizado por presidentes da República e governadores para receber autoridades estrangeiras em visita ao Brasil. O palacete foi vendido pela família Guinle ao governo brasileiro em 1946. Com a morte de Getúlio Vargas no Catete, o presidente eleito Juscelino Kubistchek resolveu usar o Laranjeiras como residência oficial. No ano de 1975, o presidente general Ernesto Geisel passou o Palácio das Laranjeiras para o governo do recém-criado Estado do Rio de Janeiro, transformando o palacete em residência oficial dos governadores.
@poesia.flix Ilustrações para te fazer refletir (por Pawel Kuczynski) 🎨 Construção Chico Buarque Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho seu como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo Bebeu e soluçou como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contramão atrapalhando o sábado Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir A certidão pra nascer, a concessão pra sorrir Por me deixar respirar, por me deixar existir Deus lhe pague Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir Pela fumaça desgraça que a gente tem que tossir Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir Deus lhe pague Composição: Chico Buarque.
'A Enciclopédia de Istambul' | Crítica da Sinopse enciclopédica: A dialética da fragmentação política: de 1937 à geopolítica fragmentada de 2025 Entrada: Fragmentação Política e Alianças Tácitas no Brasil e no Ocidente Descrição: A análise da fragmentação política brasileira, tradicionalmente marcada pela rivalidade estéril entre forças antagônicas que se neutralizam, perpetuando a hegemonia de um poder adaptável e resiliente, ganha novos contornos em 2025. O paralelo histórico entre as “intentonas” de 1937 e os rearranjos políticos contemporâneos — com destaque para a Alinhada Aliança "Branca" Tácita (AABT) — revela como alianças frágeis, dissimuladas e funcionais perpetuam uma lógica de exclusão e cooptação. O percurso reflexivo deste ensaio articula os seguintes pontos: A tentativa de apagamento da história: o esforço de Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro em reescrever a narrativa da CPI da Lava Toga, bem como a ofensiva bolsonarista contra Alexandre de Moraes, enquanto repetição contemporânea das práticas de manipulação memorialista. A crise da governabilidade na Europa: a derrocada da esquerda portuguesa e a ascensão da extrema-direita, refletindo tendências globais de erosão das alianças tradicionais e a necessidade de novas coalizões para isolamento de forças autoritárias. O cenário brasileiro de 2025: o projeto de reeleição de Lula, sua tensão interna com aliados, e a permanência do vice “decorativo” Geraldo Alckmin, contrastando com as movimentações oposicionistas lideradas por Tarcísio de Freitas e a família Bolsonaro. O risco de repetição da “sinuca de bico”: a impossibilidade de superação das fragmentações e o retorno das lógicas políticas de 1937 sob novas roupagens. Ensaio: Fragmentação e permanência: a anatomia da política brasileira e ocidental em 2025 I. O retorno do recalcado: a tentativa de apagamento e a reescrita da história Ao comentar a tentativa de Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro de apagar a CPI da Lava Toga da memória política, o programa Papo Antagonista assinala um fenômeno característico dos regimes e grupos que não conseguem assumir integralmente o peso de suas escolhas políticas: a necessidade de suprimir as evidências de seus próprios erros históricos. Esse movimento insere-se na tradição autoritária da manipulação da memória, cuja linhagem pode ser traçada até os eventos de 1937, quando as tentativas fracassadas de integralistas e comunistas foram, em seguida, obliteradas e reconfiguradas pela narrativa oficial do Estado Novo. O bolsonarismo, ao reescrever sua participação na ofensiva contra o Judiciário e na deslegitimação das instituições democráticas, busca negar a própria marca que inscreveu na história recente: a tentativa de instrumentalização do aparato legislativo para enfraquecer o Supremo Tribunal Federal, agora projetada na figura de Alexandre de Moraes, alvo preferencial da nova ofensiva político-midiática e diplomática da direita brasileira, inclusive com articulações junto ao governo Trump. II. A Aliança Branca Tácita (AABT): governabilidade sem clareamento O governo Lula, em sua terceira encarnação, representa uma expressão renovada, mas não superada, da velha lógica da aliança branca tácita: o pacto heterogêneo, funcional mas opaco, onde os que estão dentro não necessariamente participam do clareamento das decisões. Geraldo Alckmin é o emblema máximo desta configuração: vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, mas, conforme relatado pela imprensa, encontra-se “desanimado”, informado tardiamente sobre decisões que impactam sua pasta. Sua figura pública é a de um “cargo decorativo”, funcional para a ampliação eleitoral, mas politicamente irrelevante para a condução efetiva do governo. Tal configuração remete diretamente ao dilema histórico de alianças frágeis e contraditórias: a união do PT com setores liberais e conservadores para barrar a ascensão da extrema-direita resulta numa coalizão que não só é instável, mas também incapaz de estabelecer uma hegemonia política clara e coesa. III. A Europa como espelho: a crise do socialismo democrático em Portugal A crise do Partido Socialista (PS) em Portugal, com a renúncia de Pedro Nuno Santos e a ascensão de José Luís Carneiro, sinaliza um fenômeno paralelo ao brasileiro: a dificuldade das forças tradicionais de centro-esquerda em manter coesão e apoio popular diante do avanço da extrema-direita, simbolizada pelo Chega. O PS, agora fragilizado, busca construir pontes ao centro, em diálogo com o PSD, na tentativa de isolar os setores mais radicais, mas ao custo de sacrificar sua identidade ideológica e programática. Tal arranjo de centro, embora pragmático, carrega o risco clássico de dissolução política, semelhante ao que o PSB propõe no Brasil: a defesa de uma frente ampla, mas carente de clareza ideológica e de coesão programática. Em ambos os casos, o esforço pela manutenção da governabilidade resulta em alianças frágeis, suscetíveis ao colapso frente a uma oposição disciplinada e radicalizada. IV. Lula e a reafirmação da polarização: entre o “bonitão” e o risco estrutural Lula, ao afirmar-se como “bonitão”, “apaixonado” e “motivado”, personifica a tentativa de reafirmação de sua liderança carismática num cenário de polarização crescente e erosão da base governista. Sua presença ao lado de João Campos, na posse do novo presidente do PSB, confirma a aposta na manutenção de Alckmin na vice e na continuidade da aliança que garantiu sua vitória em 2022. No entanto, o presidente está ciente da ameaça latente: a possível vitória da oposição no Senado, que criaria um campo propício para a ofensiva bolsonarista visando a promoção de impeachments de ministros do STF, a começar por Alexandre de Moraes. Esse cenário, de aguda polarização e possibilidade de obstrução institucional, reproduz as armadilhas da fragmentação política histórica: o risco de que a coalizão no poder, ancorada mais na repulsa ao adversário do que na adesão a um projeto, não consiga resistir à ofensiva de uma direita radicalizada e disciplinada. V. A oposição fragmentada ou convergente? As peças no tabuleiro de 2026 Do lado oposicionista, o quadro é igualmente marcado por ambiguidades. Tarcísio de Freitas desponta como candidato natural, mas sua hesitação é proporcional à dependência do bolsonarismo. A possível candidatura de Michele Bolsonaro ou de Eduardo Bolsonaro projeta a continuidade do capital político familiar, independentemente das barreiras jurídicas que pesam sobre Jair Bolsonaro. Esse movimento reproduz uma das marcas do bolsonarismo: a combinação entre perseguição institucional (como réu no processo de tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023) e mobilização política contínua, alimentada pelo ressentimento e pela narrativa de perseguição. O campo de centro e centro-direita permanece disperso: Eduardo Leite, Ronaldo Caiado e Romeu Zema mantêm pretensões próprias, mas sem força suficiente para articular uma candidatura de terceira via sólida. Assim, a repetição do binarismo político parece inexorável, com a democracia como “linha divisória inescapável” no segundo turno, conforme assinalou o novo presidente do PSB. VI. Conclusão: a sinuca de bico como destino ou oportunidade? O Brasil, assim como Portugal e outras democracias ocidentais, encontra-se diante da mesma disjuntiva estrutural: a de escolher entre a persistência da lógica da fragmentação política, com alianças frágeis e opacas, ou a construção de novos pactos republicanos, que permitam superar a repetição histórica do “eterno retorno” das polarizações estéreis. A superação desta “sinuca de bico” exige mais do que acordos eleitorais: demanda uma reforma profunda na cultura política, capaz de estabelecer um compromisso democrático substantivo e de longo prazo. O risco, caso esse desafio não seja enfrentado, é que as democracias ocidentais permaneçam prisioneiras de seus espectros: ora tentando apagar o passado, como faz o bolsonarismo com a CPI da Lava Toga; ora repetindo a fragmentação que impede a construção de alternativas sólidas, como testemunha a derrocada do socialismo democrático em Portugal. E assim, como na canção que celebra a leveza do pensamento, resta perguntar: será que a política pode, enfim, “voar” para além da repetição, ou permanecerá, como sempre, aterrada na lógica paralisante da fragmentação? Epígrafe final “O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar” — Felicidade
Epígrafe “Como pedra que, no leito do rio, é polida pela corrente sem jamais se mover, assim a política, mesmo quando se julga avançar, apenas repete seu formato — geometria fria, forma resistente, imóvel.” (À maneira de João Cabral de Melo Neto, com o rigor de Camões e a melancolia metafísica de Pessoa.)
Bibliografia utilizada BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Unesp, 1995. → Fundamenta a análise sobre a distinção entre alianças de centro, direita e esquerda, bem como os dilemas das frentes amplas. SCHMITT, Carl. O Conceito do Político. Lisboa: Edições 70, 2012. → Fundamenta a oposição amigo/inimigo como estruturante das polarizações políticas, essencial à compreensão da atual política brasileira e portuguesa. SARTORI, Giovanni. Partidos e Sistemas Partidários: um quadro para a análise. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007. → Fundamenta as análises sobre a fragmentação partidária e os sistemas eleitorais que dificultam governabilidades coesas. MOURA BRASIL, Felipe. Papo Antagonista, episódio de 02/06/2025. → Fonte direta sobre a tentativa de apagamento da CPI da Lava Toga e da articulação bolsonarista. AZEDO, Luiz Carlos. Análise política publicada em 03/06/2025. → Base factual para a análise sobre o projeto de reeleição de Lula e o cenário eleitoral de 2026. OLIVEIRA, Cláudio de. Reportagem sobre a crise no Partido Socialista de Portugal. → Fonte direta para a análise da fragmentação política europeia, especialmente portuguesa. MOURA, Glauber. 1937: O Estado Novo e a Política do Extermínio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. → Fundamenta o paralelo histórico entre as intentonas de 1937 e os processos políticos contemporâneos. NORA, Pierre. Entre Memória e História: a problemática dos lugares. Revista História & Crítica, n. 15, 1987. → Fundamenta a concepção de manipulação da memória histórica, central na análise do bolsonarismo e sua tentativa de apagamento da Lava Toga.
STF-Supremo Tribunal Federal | Ele explica Glossário conceitual 1. Alinhada Aliança "Branca" Tácita (AABT) → Expressão cunhada neste ensaio para designar o pacto implícito entre forças políticas que, embora formalmente divergentes, alinham-se para preservar a estabilidade sistêmica, mas sem esclarecer, democratizar ou tornar transparente esse alinhamento aos cidadãos. 2. Coalizão heterogênea → Aliança entre partidos de orientações políticas diversas, usualmente celebrada para a obtenção de maiorias parlamentares, mas que frequentemente resulta em baixa coesão e governabilidade frágil. 3. Intentonas de 1937 → Referência aos movimentos conspiratórios de caráter extremista, tanto de direita (AIB – Ação Integralista Brasileira) quanto de esquerda (ANL – Aliança Nacional Libertadora), que precipitaram o golpe de Getúlio Vargas e a instauração do Estado Novo. 4. Fragmentação partidária → Fenômeno pelo qual o sistema político se torna excessivamente dividido entre múltiplos partidos, dificultando a formação de maiorias estáveis e conduzindo, frequentemente, à paralisia ou à necessidade de alianças pragmáticas e inconsistentes. 5. Polarização política → Processo pelo qual as forças políticas e sociais se distribuem em polos opostos, reduzindo o espaço para moderação e compromissos transversais, aumentando o risco de radicalização. 6. Supressão da memória histórica → Estratégia política que busca apagar ou reescrever eventos do passado para fins de legitimação política, frequentemente associada a regimes autoritários ou a grupos que desejam ocultar erros históricos. 7. Governabilidade frágil → Situação na qual, apesar de formalmente no poder, uma coalizão política não detém força suficiente para implementar de forma consistente sua agenda, sendo constantemente vulnerável a crises internas ou à obstrução parlamentar. 8. Terceira via → Expressão usada para designar tentativas de construir alternativas políticas ao tradicional binarismo esquerda-direita, frequentemente associadas a movimentos de centro, com discurso de superação da polarização. 9. Populismo punitivo → Estratégia política que se baseia na mobilização emocional contra supostos “inimigos” do povo, frequentemente atacando instituições democráticas sob o pretexto de moralização ou purificação política. 10. Sinuca de bico → Expressão popular brasileira que, neste ensaio, é usada conceitualmente para designar situações políticas nas quais todas as saídas possíveis conduzem a impasses ou dilemas graves, sem solução ótima evidente.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

CARA:

"O Lula é de esquerda?" Bolívar Lamounier (Dores do Indaiá, 25 de abril de 1943)[1] Bacharel em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1964 e Doutor em Ciência Política pela Universidade da Califórnia, Los Angeles (1974).
“Carlos Alberto, Paulinho e Bellini; Laerte, Orlando e Coronel; Sabará, Livinho, Vavá, Valter Marciano e Pinga”
Aldir Blanc Citando a escalação do Vasco campeão de 1956 GUINGA, PARCEIRO O que mais te dá saudade? E queria pedir para você escalar o time do Vasco campeão de 1956. Sem olhar no Google. Saudade mesmo é a saudade terrível dos avós que me criaram, meus avós maternos. O vô português, Seu Aguiar, e a vó que me criou mesmo, vó Noêmia, do subúrbio de Cascadura. Meu avô foi muito importante na minha vida porque era quem trazia os gibis e os livros de bolso. Cheguei a ter dois mil gibis, que deram na mudança pra Maia Lacerda. E não se faz isso com criança, faço esse alerta aqui: tenham mais cuidado com o que pertence de fato às crianças. E havia entre esses livros uma coisa preciosíssima, umas coisas de capa dura com um quadrinho em cada página. Tinha muito daquilo, era um negócio muito antigo. Sou um colecionador compulsivo. Há uma batalha mensal aqui em casa, porque não jogo nada fora. Uma revista de nudismo sueca de 1957 pode ter alguma coisa ali que vai gerar uma letra um dia. E tenho experiência com isso, às vezes sai mesmo. Uma Saudade a Mais, Uma Esperança a Menos Silvino Neto E o time de 56? Carlos Alberto, Paulinho e Bellini; Laerte, Orlando e Coronel; Sabará, Livinho, Vavá, Valter Marciano e Pinga. Técnico Martim Francisco, na chuva, com uma toalha em cima, depois de uma das maiores chuvaradas que caiu no Rio de Janeiro, num sábado, 2 a 1 Vasco. O técnico do Bangu era Zizinho. Gol do Vavá quase terminando o jogo, os portugueses me jogaram pro alto, e meu pai correu atrás de mim porque desapareci no meio da torcida. Voltei pra casa todo cheio de caixa de papelão, porque meu pai fez uma espécie de armadura pra mim. Foi por isso que fiz um samba: “Naquela tarde chuvosa no Maracanã/ O goleiro do Bangu bobeou/ Vavá marcou” e vai por aí afora. Futebol era inesquecivel, né? De repente ficou esquisito pra caramba, muita estrelinha, muito chatinho. Eu gostei de ganhar o ouro, gostei da falta que o Neymar bateu, mas quando ele aparece com os parças, me dá uma vontade de esquecer tudo isso e me dedicar ao badminton.
Os Trapaceiros, 91 × centímetro, 1594-1595. Kimbell Art Museum, Fort Worth (Texas). Transfered from en.wikipedia The Cardsharps, c. 1594, by Caravaggio "... o IOF é dos impostos menos relevantes dentro da economia brasileira." Rodrigo Zeidan 'IOF não é instrumento para essa circunstância, é um abuso de poder' Alexandre Schwartsman IOF é paliativo. Fernando Haddad
Post Rodrigo Zeidan @RodZeidan Deitado eternamente em berço esplêndido. Parece que estamos sendo governados por um político aposentado. Os primeiros governos FHC e Lula foram excelentes porque eles exauriram capital político em reformas profundas, vencendo oposições ferrenhas. Rodrigo Zeidan em Deitado eternamente em berço esplêndido. Parece que estamos sendo governados por um político aposentado. Países melhoram quando governos usam as curtas janelas de oportunidade para implementar políticas certas, mas impopulares. Podemos resumir opções políticas em uma matriz que combina a popularidade de uma medida e sua eficácia para resolver algum problema social. Normalmente, já exaurimos políticas boas e populares há décadas. Ninguém discute que o governo deve prover saúde, educação e segurança social em alguma medida. O problema é quando o presidente vende medida popular, mas ruim. É nesse rio que os populistas nadam de braçada. Difícil mesmo é implementar reformas impopulares, especialmente de longo prazo. Os incentivos do ciclo político premiam políticas de curto prazo. Além disso, é custoso, politicamente, confrontar o legislativo e o resto da sociedade para passar medida impopular. Os primeiros governos FHC e Lula foram excelentes exatamente porque eles exauriram seu capital político em reformas profundas, vencendo oposições ferrenhas e colocando em risco suas reputações. Como exemplo, as privatizações de FHC e o Bolsa Família foram excelentes políticas que até hoje têm seus detratores. O PT foi contra muitas das reformas para sedimentar o Plano Real, enquanto vários partidos de direita tachavam de "assistencialismo barato" a maior política social da história brasileira, o Bolsa Família. Isso também vale para o mundo. A reforma da previdência francesa, que elevou a idade mínima de aposentadoria de 62 para 64 anos, é um consenso entre economistas. Mas Macron só conseguiu fazê-la por estar de saída e, mesmo assim, precisou de medidas extremas e controversas, ignorando os protestos que chegaram a parar o país. Obviamente, não é preciso ser mágico para entender que um país vai para trás quando o presidente faz medidas ruins, sejam elas populares ou não. Os subsídios tresloucados dos governos Dilma e todo o conjunto da obra bolsonarista estão aí para mostrar isso (para não ser acusado de falsa equivalência, o governo anterior foi mil vezes pior; afinal, Dilma não tinha a pior equipe econômica da história nem vendia negacionismo científico em cadeia nacional de TV, gerando morte e caos). Populismo é a guerra comercial de Trump que vai jogar o mundo em uma recessão sem trazer nenhum benefício aos EUA, mas é fácil de ser difundida com o argumento de que vai trazer empregos para o país (não vai). O mesmo acontece com a deportação de imigrantes ilegais. É erro gigantesco de longo prazo, moral e economicamente, mas é fácil de ser vendida para o público. Lula 3 não se encaixa em nenhum desses modelos. Não está fazendo nada de ruim. Ou de bom. É um governo no qual o presidente escolhe não gastar qualquer capital político, governando em velocidade de cruzeiro. Parece que estamos sendo governados por um político aposentado, deitado em berço esplêndido. Mas Lula já enfrentou crises dentro do partido, oposição ferrenha e mídia crítica para melhorar o país. Ele sabe fazer e também sabe o que acontece quando cai no populismo. Fazer o certo dá trabalho. É claro que é mais fácil flanar pelo mundo aparecendo em fotos que trabalhar duro em medidas importantes, porém impopulares. Mas precisamos disso. De um presidente presente. Corajoso. E disposto a fazer mais. WW Especial - O governo está deitado em berço esplêndido? - 01/06/2025 CNN Brasil Transmissão ao vivo realizada há 12 horas #cnnbrasil CONFIRA O BLOCO EXTRA DO PROGRAMA: • WW Especial - O governo está deitado em be... Assista ao conteúdo extra do programa WW Especial deste domingo, 1º de junho de 2025. O tema do programa é: O governo está deitado em berço esplêndido? Participam deste programa Rodrigo Zeidan, professor da NYU Shanghai e da FDC, Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do grupo Eurasia, e Bolívar Lamounier, sociólogo e cientista político. #cnnbrasil Abaixo segue um resumo técnico, factual e formal, com informações verificáveis, adequado para uso em publicações com rigor jurídico ou acadêmico: IOF – Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro, ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) é um tributo federal de competência exclusiva da União, conforme disposto no artigo 153, inciso V, da Constituição Federal de 1988 (CF/88). Incide sobre operações de crédito, câmbio, seguro e sobre títulos ou valores mobiliários. O § 1º do mesmo artigo autoriza o Poder Executivo a alterar suas alíquotas, respeitados os limites e condições estabelecidos em lei. Essa prerrogativa permite ao governo federal utilizar o IOF como instrumento de política econômica e monetária. Instituído originalmente pela Lei nº 5.143, de 20 de outubro de 1966, o imposto teve sua abrangência ampliada pela CF/88, que consolidou sua incidência sobre diversas modalidades de operações financeiras. A disciplina atual do IOF está prevista no Decreto nº 6.306, de 14 de dezembro de 2007, que regulamenta sua aplicação. Se desejar, posso complementar com as referências normativas completas (como o link direto para os dispositivos constitucionais ou leis mencionadas). Deseja isso? As respostas de IA podem incluir erros. Para receber aconselhamento jurídico, consulte um profissional. IOF (Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro, ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários) Compartilhe: Compartilhe por Facebook Compartilhe por Twitter Compartilhe por LinkedIn Compartilhe por WhatsApplink para Copiar para área de transferência Publicado em 10/07/2015 11h42 Atualizado em 21/08/2023 23h03 São contribuintes do IOF as pessoas físicas e as pessoas jurídicas que efetuarem operações de crédito, câmbio e seguro ou relativas a títulos ou valores mobiliários. A cobrança e o recolhimento do imposto são efetuados pelo responsável tributário: a pessoa jurídica que conceder o crédito; as instituições autorizadas a operar em câmbio; as seguradoras ou as instituições financeiras a quem estas encarregarem da cobrança do prêmio de seguro; as instituições autorizadas a operar na compra e venda de títulos ou valores mobiliários ESPECIAL IOF Governo tenta dar fim à turbulência sem parecer que capitulou Congresso e setor privado pressionam por alternativas: Haddad diz que, sem ajuste no imposto, País fica 'ingovernável' VERA ROSA BRASÍLIA
CONJUNTURA Haddad defende reformas estruturais em meio à crise do IOF Ministro da Fazenda também frisou que "não vai abrir mão das metas fiscais para 2025" Haddad disse que há uma "sintonia" do governo com a Câmara e o Senado, mas também reconheceu que a "última palavra é do Congresso" - (crédito: Diogo Zacarias/Fazenda) O ministro da Fazenda Fernando Haddad defendeu a importância de realizar reformas estruturais. Segundo ele, essas medidas "dão conforto" ao país em um cenário a médio e longo prazo. No entanto, em meio à ampliação das alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), Haddad também frisou que "não vai abrir mão das metas fiscais para 2025". Leia também: Governo é pressionado a derrubar decreto que elevou alíquota do IOF "Eu tenho duas alternativas. Uma é, com uma medida regulatória, resolver o problema de forma paliativa para cumprir as metas do ano. A outra, que interessa mais à Fazenda, é voltar para as reformas estruturais. Em 2023, várias foram feitas, nós ganhamos nota com as agências de risco, ganhamos prestígio, os investimentos voltaram", afirmou Haddad em entrevista coletiva em Brasília, nesta segunda-feira (2/6). Leia também: IOF é o "bode na sala" para negociar emendas O Congresso Nacional deu um prazo de 10 dias para o governo federal apresentar alguma alternativa ao decreto que elevou alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Haddad disse que há uma "sintonia" do governo com a Câmara e o Senado, mas também reconheceu que a "última palavra é do Congresso". "Se houver uma compreensão que é hora de avançar, eu acredito que vamos dar uma perspectiva muito mais sustentável, sem essas medidas paliativas", citou o ministro. Segundo o Ministério da Fazenda, as mudanças no IOF são um esforço para o equilíbrio fiscal, com foco na uniformização e correção de distorções. "Elas contribuem para harmonização da política fiscal com a monetária, buscam reduzir a volatilidade cambial, e, com isso, criam condições para trazer maior estabilidade macroeconômica e favorecer investimentos de longo prazo no país", diz.
segunda-feira, 2 de junho de 2025 O futuro do trabalho para jovens - Ricardo Henriques O Globo O principal mantra da educação moderna é desenvolver a capacidade de aprender a aprender A edição deste ano do relatório “O Futuro dos Empregos” estimou que 22% das ocupações seriam impactadas até 2030 por tecnologias e mudanças demográficas, climáticas, econômicas e geopolíticas. A pesquisa mostrou ainda que 40% das competências exigidas devem mudar e que 63% dos empregadores citam a lacuna dessas habilidades como o principal problema que enfrentarão. Mudanças no mundo do trabalho são comuns, mas hoje vivenciamos um período de transformações aceleradas, que afetarão em especial os jovens. Reflexos disso foram identificados em outra pesquisa (The State of the Global Teenager Career Preparation), divulgada há duas semanas pela OCDE. Com base no Pisa (exame internacional com jovens de 15 anos), o estudo revelou que, de 2000 a 2023, a incerteza dos estudantes sobre as carreiras que pretendem seguir mais que dobrou, chegando a 39% na média da OCDE. Jovens de maior vulnerabilidade socioeconômica, justamente os que mais necessitariam de orientação profissional, são os que menos relatam receber apoio. O Brasil não participou do levantamento, mas outros estudos identificaram desafios semelhantes. Um deles, publicado em 2023 pelo Instituto Cíclica (“O Futuro do Mundo do Trabalho para as Juventudes Brasileiras”), destacou piora nos indicadores de rendimento e ocupação entre jovens, situação que é mais grave entre aqueles de maior vulnerabilidade, com maior probabilidade de começarem a trabalhar em empregos precários. Também em 2023, um levantamento da consultoria Vozes para o Instituto Unibanco (“Inclusão Produtiva de Jovens”) sistematizou 60 práticas nacionais e internacionais, tendo como referência os princípios da ONU na iniciativa “Decent Jobs For Youth”. Ações bem-sucedidas envolvem estratégias de educação formal e não formal (ajuda na elaboração de currículos, preparação para entrevistas), sempre criando pontes com contratantes, reforçadas até com parte da formação no trabalho. Também se destacam orientações individualizadas, plataformas de emprego e subsídios, sempre priorizando os mais vulneráveis. A missão da escola deve remeter à formação para o trabalho, mas não pode se resumir a isso, sobretudo porque é necessário articular essa dimensão fundamental com o preparo para a cidadania e o pleno desenvolvimento humano. Tampouco faz sentido espelhar currículos considerando apenas demandas do mundo produtivo e de serviços, pois, entre outras razões, em épocas de grande inconstância ocupações outrora consideradas promissoras podem, em pouco tempo, estar obsoletas. Em resumo, a educação não pode estar a serviço apenas do mundo do trabalho, mas é possível construir pontes qualificadas entre esses dois mundos. Especialmente no caso da educação profissional, é importante sempre procurar alinhamento entre as demandas (efetivas ou potenciais) dos setores privado ou público com as oportunidades de qualificação oferecidas aos estudantes, considerando seus projetos de vida, expectativas e ambições. Os setores econômicos precisam ser envolvidos também na busca de soluções de qualificação ao longo da vida, considerando a plasticidade do mundo do trabalho, inclusive para aqueles que já deixaram a escola, tema de minha última coluna neste espaço. Isso tudo não elimina a necessidade de criar, aprimorar ou expandir estratégias de orientação vocacional desde a educação básica. Diante do risco real de agravamento das desigualdades, jovens de menor nível socioeconômico precisarão de maior apoio. Não esqueçamos que, além de ter acesso a oportunidades de formação e orientação mais precárias, esse público é duplamente prejudicado por não possuir redes de mobilidade social que facilitem o acesso ao primeiro emprego ou permitam a recolocação ao longo da carreira, algo corriqueiro em famílias com maior capital econômico e cultural. Essa lacuna precisa ser preenchida por políticas públicas e privadas, de novo, envolvendo tanto instituições de ensino quanto o mundo do trabalho. Se, por um lado, tamanha responsabilidade não pode recair apenas sobre os ombros da escola (e nem caberia culpá-la pelo aumento das incertezas), por outro, ela, como sempre, tem papel fundamental para que jovens desenvolvam variadas e complexas habilidades (cognitivas, socioemocionais, criativas...) que facilitem sua adaptação em cenários de instabilidade e imprevisibilidade. Daí porque, conforme repetidas vezes argumentei nesse espaço, o principal mantra da educação moderna é desenvolver a capacidade de aprender a aprender. exibições de letras 3 Nação / Aquarela do Brasil / O Mestre Sala Dos Mares (Montreaux 1983) João Bosco Dorival Caymmi falou pra Oxum Com Silas tô em boa companhia O céu abraça a terra Deságua o rio na Bahia Dorival Caymmi falou pra Oxum Com Silas tô em boa companhia O céu abraça a terra Deságua o rio na Bahia Brasil, ô ô Brasil, ô ô Jeje, minha sede é dos rios A minha cor é o arco-íris Minha fome é tanta Planta flor, irmã da bandeira A minha sina é verde-amarela Feito a bananeira Ouro cobre o espelho esmeralda No berço-esplêndido a floresta em calda Manjedoura d'alma Labarágua, sete quedas em chama Cobra de ferro, Oxumaré Homem e mulher na cama Brasil, ô ô Jêje, tuas asas de pomba Presas nas costas com mel e dendê Aguentam por um fio Sofrem o bafio da fera O bombardeiro de Caramuru A sanha da Anhanguera Jêje, tua boca do lixo Escarra o sangue de outra hemoptise No canal do mangue O uirapuru das cinzas chama Rebenta a louça, Oxumaré Dança em teu mar de lama Dorival Caymmi falou pra Oxum Com Silas tô em boa companhia O céu abraça a terra Deságua o rio na Bahia Dorival Caymmi falou pra Oxum Com Silas tô em boa companhia O céu abraça a terra Deságua o rio na Bahia Brasil, meu Brasil brasileiro Ah! Abre a cortina do passado Tira a mãe preta do cerrado Bota o rei congo no congado Cantar de novo o trovador À merencória luz da Lua Toda canção do seu amor Quero ver essa Dona caminhando Pelos salões, arrastando O seu vestido rendado Esse coqueiro que dá coco Aonde eu amarro a minha rede Nas noites claras de luar Oi, essas fontes murmurantes Onde eu mato a minha sede Onde a Lua vem brincar Esse Brasil lindo e trigueiro É o meu Brasil brasileiro Terra de samba e pandeiro Brasil, terra boa e gostosa Da morena sestrosa De me olhar indiferente O Brasil, samba que dá Para o mundo se admirar O Brasil do meu amor Terra de Nosso Senhor Brasil, terra de Nosso Senhor Brasil, terra de nosso amor Há muito tempo nas águas da Guanabara O dragão do mar reapareceu Na figura de um bravo feiticeiro A quem a história não esqueceu Conhecido como navegante negro Tinha dignidade de um mestre sala E ao acenar pelo mar da alegria das regatas Foi saudado no porto, pelas mocinhas francesas Jovens polacas e por batalhões de mulatas Rubras cascatas jorravam das costas Dos santos entre cantos e chibatas Inundando o coração do pessoal do porão Que a exemplo do feiticeiro gritava (o quê, gente?) Glória aos piratas, às mulatas, às sereias Glória à farofa, à cachaça, às baleias Glória a todas as lutas inglórias Que através da nossa história Não esquecemos jamais Salve o navegante negro Que tem por monumento As pedras pisadas do cais Mas, Salve! Salve o navegante negro Que tem por monumento As pedras pisadas do cais Mas faz (Muito tempo) Composição: João Bosco / Aldir Blanc / Paulo Emilio / Ary Barroso.
RIO — Aldir Blanc diz que fazer 70 anos é “como ser atropelado por um caminhão-cegonha que, em vez de transportar carros, transporta guindastes e tratores”. Às vésperas de chegar lá (o aniversário é dia 2 de setembro), ele parece reagir bem ao atropelamento. Com uma inteligência fina (e, às vezes, saudavelmente grossa), uma sensibilidade que une o amor (pelos netos, pela vida e pelas canções) e a contundência do observador político que põe o dedo na ferida, um humor de sutilezas e gargalhadas, o vascaíno e salgueirense conversou com O GLOBO sobre sua formação, suas paixões, seus projetos e seu olhar para o mundo hoje. As perguntas foram enviadas por cantores, compositores, parentes e amigos do letrista de cerca de 500 canções, incluindo clássicos como “ O bêbado e a equilibrista ” (com João Bosco) e “ Resposta ao tempo ” (com Cristovão Bastos). Uma obra da qual Aldir se orgulha, mas que não parece alimentar nele qualquer tipo de arrogância. Em vez disso, ele cita a lição do pai, Seu Alceu, “um cara que dizia: ‘eu também sou doutor, quando chego no botequim com o jornal pra fazer fezinha, o cara pergunta: ‘vai ser cerveja ou limão da casa hoje, doutor?’ Esse diploma é o que me interessa”. MARIA BETHÂNIA, CANTORA Qual a música mais bonita do mundo para você? A música mais bonita do mundo pra mim pode ser tirada do repertório do Noel Rosa. Pode ser “Feitiço da Vila”, “Três apitos”, pode ser uma que me fala ao coração de uma forma que não consigo ouvir sem chorar, que é “Último desejo”. Isso vem de Vila Isabel. Nasci numa rua bem no coração do Estácio que se chamava Pedreira, não tinha saída. Morava num lugar escuro e pequeno. Com três anos e pouco fui pra Vila Isabel, pra Rua dos Artistas. Uma casa, na visão da criança, imensa, com um quintal enorme, com muitas árvores, goiabeira, larajeira, bananeira. Tinha uma goiabeira branca que se curvava imensa até o chão. Eu subia por ela e ficava lá em cima sonhando, lendo Monteiro Lobato, atirando com atiradeira em manga, porque não tinha coragem de matar passarinho. Com quase 11 anos, sou surpreendido com a volta pro Estácio, na Rua Maia Lacerda. Aí começa a sucursal do inferno. Hoje o que se chama bullying. Deus me livre, nem gosto de falar. Tenho boas memórias, claro. Eu fui campeão do mundo no Estácio ouvindo rádio com meu avô paterno fazendo uma cena cômica. No primeiro gol da Suécia, meu avô, que era discretíssimo e dizia que não tinha time de futebol, entrou na sala e disse: “sueco é tudo corno, eles têm prazer em dar a mulher deles pros outro comerem”. E sumiu. Quando o jogo acabou, com 5 a 2 pro Brasil, ele voltou pra sala e disse: “Desculpas, o sueco não é nada disso, é gente boa”. Mas esse lugar, o Estácio, você saía de casa, com 12, 13 anos, e você apanhava, os seus trabalhos eram jogados na água, suas cartolinas com trabalhos pro Externato São José eram rasgadas, a pasta era virada na água do meio-fio, você levava uns tapas se estivesse com sorte. Quem fazia isso? Mecânicos, PMs, motoristas de caminhão com mais de 20 anos. Qual a alternativa do garoto? E tem um detalhe importante: como meu avô paterno, Alfredo, era nascido e criado no Estácio, e meu pai, Alceu, era nascido e criado no Estácio, ambos na Maia Lacerda, não valia chiar. Era apanhar, entrar em casa, lavar a cara, voltar e apanhar de novo. Porque era muito feio o neto do Seu Alfredo e o filho do Seu Ceceu chiando: “Pai, apanhei!”. Até que um cara chamado Luiz Arrepiado me disse: “Cara, chega perto deles fingindo que vai pedir desculpa e dá uma cabeçada no nariz com toda força”. Depois que isso aconteceu a primeira vez refrescou um pouco. ELIFAS ANDREATO, ILUSTRADOR Lembrando Santo Agostinho, “Por que não recuamos quando todos dizem ‘vamos’?” Há gente demais dizendo “vamos” sem saber para onde. Na vertigem do entretenimento, será que não temos que recuar para nos separar da manada que sabe todas as letras das modas sertanejas? Num conto que acabo de escrever sobre Vila Isabel, falo exatamente sobre isso, a necessidade de uma forma qualquer de recomeço. Que não é recomeço, é viver o dia a dia sabendo o que ele traz de novo. E não repetindo esse troço que estão nos empurrando, que é ridículo. A música sertaneja foi com muita justiça chamada de sertanagem. Grande parte do rock brasileiro não vale porra nenhuma. A tal música gangsta é puro lixo. Você vai ter como ídolo um sujeito como Snoopy Dogg, que vai à convenção de cafetões? O que é um cafetão? Um sujeito que explora mulheres, as agride, muitas vezes as mata. Por que eu vou ter um ídolo desses? BAIANO, AMIGO Você me contou com raiva as perseguições sofridas na adolescência. Como transformou a raiva em poesia? Um amigo, Gilberto, hoje médico, me levou à Civilização Brasileira. Até então eu só lia capa e espada, Charlie Chan, Rafael Sabatini, livros de bolso. E lá eu fui apresentado à magnifica Coleção Vera Cruz, da Civilização Brasileira. Tudo começa ali pra mim, com Cony, Antonio Callado, Adonias Filho, Guimarães Rosa. É daí que vou pra outros autores internacionais, além dos poetas. Lembro o encanto com que li Vinicius, pelo qual todo jovem passa, e o encanto com que li Drummond em “Dentaduras duplas”, “Mas essa lua/ Mas esse conhaque/ Botam a gente comovido como o diabo”. MARIANA BLANC, FILHA Monteiro Lobato, Nelson Rodrigues... como o homem de esquerda amou tanto os conservadores? Típica pergunta da filha pra botar pilha no pai. Nelson Rodrigues não é um conservador em literatura. E não sei até que ponto se pode levar além da lenda o fato de ele ter se tornado reacionário pra livrar o filho, na cadeia, torturado... Muita gente hoje nega: não teve tortura, foi um período paradisíaco. Não foi. Mas é a literatura dele que me interessa, embora eu tenha lido com muito prazer a espetacular biografia do Ruy Castro. Quanto ao Monteiro Lobato, o que ele me deu em Vila Isabel na infância é tão grande que nem sei se ele é de direita ou não. Não me interessa, pra ser sincero. E essa discussão em torno da Tia Anastácia é um absurdo. É como a história do sociólogo que desencavou que Noel, que dormia na casa do Cartola, era racista. Isso é totalmente absurdo, não dou a menor pelota pra essas teorias. HELOÍSA SEIXAS, ROTEIRISTA DO MUSICAL “ERA NO TEMPO DO REI” O que achou da experiência de escrever para o teatro musical? Eu tenho alguns orgulhos. A comenda Moacyr Scliar, que me foi dada pelo Conselho Federal de Medicina, por serviços prestados à medicina e à literatura. Ainda duvido disso até hoje. Outro orgulho é justamente o musical “Era no tempo do rei”, com uma colaboração do Carlos Lyra dificil de avaliar. É um dos caras que merecem a tal piada, “esse aí põe música no catálogo telefônico”. O musical que fiz com Cristóvão Bastos sobre a Tia Zulmira (“Tia Zulmira e nós”) , pro João Máximo, no qual tive oportunidade de lidar com a vida e a obra de um dos meus maiores idolos, o Sérgio Porto, Stanislaw Ponte Preta. E também um orgulho imenso de um musical feito pelo Cláudio Tovar, “Um cara bacana”. Também trabalhei com Mauricio Tapajós em duas revistas de Gugu Olimecha: “A tocha na América” e “Fi-lo porque qui-lo”. “O gozado é que o censor era mais estúpido do que a gente imagina” Aldir Blanc Sobre sua experiência com a censura durante a ditadura Duas experiências enriquecedoras, lidando todo dia com o censor. Isso me ensinou muito. O gozado é que o censor era mais estúpido do que a gente imagina. Fui uma vez liberar “O mestre-sala dos mares”. Primeiro você passava por uma triagem de ex-policias, era um cabide de emprego aquilo. Até ser passado pra uma sala. Ali era mais complicado. Eu estava lá, e apareceu um cara, camisa arregaçada e coldre de cintura, e começou a gritar loucamente, surtado, que era preciso matar o Ney Matogrosso, porque ele havia encontrado um neto envolto nu nas cortinas imitando o Ney Matogrosso. É claro que você que tá sentado numa cadeirinha com uma coronha de 38 encostada no nariz se borra porque de repente eles podem resolver não mais matar o Ney Matogrosso, que tá longe, mas o Aldir Blanc, que tá presente. Não seria uma coisa inusitada pra época. O mais interessante é que esse sujeito virou pra mim e começou a fazer um sinal esfregando o dedo no antebraço. Eu não tava entendendo nada, até que ele disse que o problema de “O mestre-sala dos mares”, que não tinha esse título ainda, era primeiro “O almirante negro”, “O navegante negro”, o problema era justamente a palavra “negro”. E o censor era negro. Ou seja, ele tava inteiramente vendido ao sistema. Foi minha primeira vez ao lidar com um racismo oficial. Lembro que saí de lá e tomei uma cerveja um quarteirão depois e não conseguia chegar com o copo na boca de tanto que eu tremia. Não tanto por medo, mas pela revelação de que o problema com João Cândido, com a Revolta da Chibata, era um problema racial e não politico. O João Cândido é um herói nacional sim, queiram ou nao queiram. E eu ainda tive que superar muitas coisas desse período do Estácio pra chegar ao elogio a João Candido. Porque eu conheci o racismo ao contrário. Na Maia Lacerda eu era o branco azedo que estudava em colégio de padre. E apanhava por isso. Então eu conheço esse lado do racismo na pele. CARLOS LYRA, PARCEIRO Quais são suas inspirações? Sem dúvida, quem letra é o garoto do curtíssimo período que passou em Vila Isabel, dos 3 aos quase 11 anos. Quando esse garoto morrer, o letrista, articulista, seja lá o que for, morre junto. HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO, LETRISTA Quando sairá uma coletânea de seus escritos? E uma caixa de CDs? E um DVD? A Mórula vai relançar “Rua dos artistas e arredores”, “Porta de tinturaria” e um livro com coisas que escrevi no site No., principalmente sobre jazz. A editora encomendou a Allan Sieber capas no estilo da Codecri naqueles anos (estão previstos ainda para o ano que vem “Aldir Blanc — Crônicas inéditas”, com textos para a revista “Bundas”, O GLOBO, entre outros; e “Vila Isabel, inventário da infância”, uma reedição do livro, ao lado de outras crônicas sobre o bairro) . Sobre a caixa de CDs... Meus mesmo eu tenho três. O feito com Mauricio Tapajós, o dos 50 anos, e o “Vida noturna". O “50 anos” foi fruto do sonho do meu grande parceiro e irmão Marco Aurélio Braga Nery de criar um selo de música popular. Ele foi um herói. Depois, ficou com câncer de pulmão por fumar muito, veio a falecer, e o CD ficou à deriva, inclusive foi colocado maldosamente por vagabundos em bancas. Com o disco que eu mais gosto, “Vida noturna”, aconteceu uma coisa estranhíssima. Ele começou a vender muito, as lojas pediam mais e botei-as em contato com a Lua Discos, que disse que o CD estava em processo de reimpressão. Isso durou anos, não tive prestação de contas nenhuma. Anos depois, o CD reaparece e eu tô aguardando a prestação de contas ainda. É assim que funciona. O disco com Mauricio, a minha parte me pertence, e eu posso botar numa caixa. O que tá na Lua Discos eu tenho que ver com um advogado como faz. Sobre filme, o Alexandre Ribeiro de Carvalho fez um documentário, “Dois pra lá, dois pra cá”. E Isabel Diegues fez “Vila Isabel”, baseado no meu livro “Vila Isabel, inventário da infância”. Queria aproveitar pra fazer um registro importante sobre o livro “A cruz do Bacalhau” (Ediouro), que fala do Vasco, escrito por mim e por José Reinaldo Marques. Fiz ali um time de vascaínos da música brasileira e embaixo pus: “Ideia chupada do livro de Sérgio Augusto sobre o Botafogo”. Isso foi tirado, o crédito que dei a ele pela ideia, e não admito que aconteça isso. Antes disso ligamos para a editora, pedindo a última versão parar revisarmos a iconografia. A resposta que nos deram foi que “nosso departamento de iconografia não erra”. O resultado é que, além dessa falta de crédito, temos erros como Alcir Portela sendo chamado de Jorginho Carvoeiro numa foto. E um negro baixinho e musculoso, visivelmente dos anos 90, com a legenda Danilo Alvim, um jogador que era branco, esquelético e que jogou em 1950. Atá hoje me esculhambam por uma culpa que eu e José Reinaldo não temos. FERNANDO SZEGERI, AMIGO O que, de verdade, dói? E o que, a despeito da dor toda, faz seguir em frente? O que, afinal, vale a pena? O que vale a pena mesmo é, nessa altura do campeonato, quando você fica esperando a neta que vai chegar daqui a pouco, ajudar as filhas. Isso é minha grande paixão. Minha mãe teve psciose puerperal e nunca se recuperou, até morrer no começo dos anos 2000. Sempre foi muito quieta, muito sofrida. E eu fui criada por avô e avó maternos. Então eu faço questão, como avô, de cumprir com os ensinamentos que recebi dos dois. O compositor e escritor Aldir Blanc Foto: Leo Martins / Agência O Globo O compositor e escritor Aldir Blanc Foto: Leo Martins / Agência O Globo DJAVAN, PARCEIRO Você que também é músico e fez letras para músicas tão complexas, por que se dedicou menos a compor melodias? Ah, meu violão é o chamado na gíria musical de boca-de-tigre, que você toca de ver os parceiros tocar. Tinha alguma intuição na hora que tava bebendo, fazia melodia que era um negócio. Mas agora não bebo há anos, abro raras exceções como hoje ou o dia em que meu pai morreu, então falta um pouquinho de álcool nas juntas. Droga nunca usei. Por ter vindo da psiquiatria, vi tanta coisa triste envolvendo droga, tanta gente pirando até mesmo com a pretensamente salutar maconha, que eu nunca fui chegado. Sempre tive um problema de sangramento nasal, então pra mim é intolerável a ideia de cheirar. Fiz uma vez uma experiência com maconha, que me deu uma sede e uma taquicardia desgraçada. Devo ter tomado umas 10 cervejas pro coração serenar e pra língua voltar a funcionar. Então pra que que eu quero essa merda na minha vida? Eu quero é beber. A melodia que fiz que mais gosto é “Paquetá, dezembro de 56”. E das que fiz a letra, minha preferida é a que mais apanhou nas mãos e cucas pretensamente eruditas de imbecis, que é “O bêbado e a equilibrista”. Eu não tolero algumas críticas feitas à música. Falar que o verso “caía a tarde feito um viaduto” é incompreensivel é de rara estupidez. Até porque o meu avô paterno passou segundos antes embaixo dele. E ele caiu e quase matou meu avô, que ficou empoeirado. Como não cai? Vai pro inferno. Aí entra a frase que eu gosto de repetir: todo sujeito que se preocupa muito com o significante é um insignificante. Correndo por fora, tem uma música que fiz com Jayminho (Vignoli) , “Amei uma enfermeira do Salgado Filho” (“Lupicínica”). Sou apaixonado por ela. Trabalhei e estive internado em hospital. E vi como essas pessoas se dedicam. De médico à paciente que passou por uma cirurgia duríssima (ele sofreu uma fratura no fêmur) , sou muito grato à enfermagem. Fiz questao de deixar claro isso num samba-canção. JAGUAR, CARTUNISTA Você disse numa crônica que já incorreu no pecado da soberba. Se eu tivesse seu talento, não conseguiria me livrar dele. Como você conseguiu? Eu consegui porque meu pai queria ser aviador e não passou do terceiro ginasial. Toda vez que tomava umas e outras dizia que é preciso estudar e me levava pra ver demonstração dos aviões da Fab. De casaco, no sol, eu desmaiava na calçada. É muito fácil não ter soberba com esse passado. Quando não acontecia uma diarreia devastadora em cima de um cavalo na Quinta da Boa Vista. Quando Seu Félix, nunca me esqueci o nome do cara que alugava os cavalos, chegava com um cavalo pequenininho pra mim, meu pai, que era louco por cavalos e dizia que a coisa mais bonita da vida era corrida de potro de primeira vez em cancha reta, afirmando até que isso era mais bonito que minha mãe, o que me deixou muito puto na época, quando ele via um pangaré se aproximando, fazia um gesto pro cara e vinha outro cavalo pra eu montar, um grande. Invariavelmente eu me cagava na sela. PUBLICIDADE “Fui o único cara provavelmente no Brasil que se cagou todo vendo os campeões do mundo” Aldir Blanc Em resposta a Jaguar Aí era levado pra um banheiro próximo, com jornal, chave pra abrir o banheiro que tava sempre trancado... Se eu for falar da minha dor de barriga... Fui o único cara provavelmente no Brasil que se cagou todo vendo os campeões do mundo, Bellini carregando a taça. Estava agarrado a uma grade, olhei pro meu pai que estava embaixo, passei a mão na barriga, ele achou que era fome e passou, via cinco ou seis mãos, duas soberbas laranjas, que foi chupar e se cagar. Porque eu estava tentando falar que estava com dor de barriga. Ele me tirou da grade, perto da Cinelândia, com o público se afastando, me lavou no Iapetec q ficava na Graça Aranha, na pia, com um caseiro sacudindo tristemente a cabeça diante daquele espetáculo, e eu voltei pra casa com uma camiseta escrita “Viva os campeões do mundo” e de toalha na cintura, no Estácio, com a galera toda na esquina fazendo “êêêêê”. Não tinha como ter soberba. DORINA, CANTORA Pessimista, esperançoso ou tico-tico no fubá? Ah, “pessimista esperançoso”, se não tô enganado, é um choro-canção inédito do Ratinho, que foi descolado pelo Abelzinho do Cavaco e que nao tem letra, mas vou letrar. Então, no momento, tô muito mais “Pessimista esperançoso” que “Tico-tico no fubá”. “Fazer 70 anos é como ser atropelado por um caminhão-cegonha” Aldir Blanc Sobre envelhecer PUBLICIDADE TIAGO PRATA, MÚSICO E FUNDADOR DO BLOCO BLANC BLOCK Aos 50 anos, você dizia que insistia na juventude. E agora? Agora insisto em acordar vivo. Fazer 50 anos é uma história. Ainda há sonhos. Hoje minha vida tá muito ligada à convivência com filhas e netos. E fazer 70 anos é como ser atropelado por um caminhão-cegonha que em vez de transportar carros transporta guindastes e tratores. Difícil levantar no dia seguinte. Como disse João Ubaldo, apanhar as meias embaixo da cama é olímpico. NANA CAYMMI, CANTORA Te liguei para pressionar pela letra pra música de Cristovão Bastos pra minissérie “Hilda Furacão”, e deixei recado dizendo que a gente não tinha mais tempo. E você escreveu “Resposta ao tempo”. Sua inspiração teve a ver com o recado? E eu adoraria gravar mais músicas suas. Tenho pudor de cantar algumas, como “Catavento e girassol”, aquele verso do “bate bronha”. Mas que músicas suas você gostaria que eu tivesse gravado? Não teve a ver com aquilo. Uma das coisas mais curiosas de “Resposta ao tempo”, não tenho vergonha de dizer, é que fiz a letra em 15 minutos, com um café, em cima da perna. Ela foi parar no Mariozinho (Rocha, então diretor musical da TV Globo) , que a colocou prum personagem secundário da novela das oito. Quando surgiu a crise da abertura de “Hilda Furacão”, ele pegou “Resposta ao tempo”. A música acabou sendo o grande sucesso daqueles anos, 1998 ou 1999. Com a Nana teve uma coisa engraçada. Ela estava fazendo um disco. PUBLICIDADE Eu e Cristovão fizemos com carinho “Dores Dolores”. Ela não gostou e pediu outra. Eu pensei: “Não é possível, essa música é linda”, e acabou sendo gravada pela Clarisse Grova. Daí fizemos “Resposta ao tempo”. Então, Nana, a música minha que eu queria que você tivesse gravado é “Dores Dolores” (risos). Nana, ouve de novo! E ela podia cantar “Catavento e girasssol” ou qualquer coisa que eu tenha feito que chegue perto do samba-canção, porque ninguém interpreta samba-canção como ela. ELZA SOARES, CANTORA Você tem consciência de seu talento como compositor? Quando o sujeito começa a se achar, ele perde, já dizia o mestre (“Quem acha vive se perdendo”, verso de “Feitio de oração”, de Noel Rosa e Vadico) . Não me preocupo com isso. A Mary ( Sá Freire, sua mulher ) fica brabíssima com o fato de eu às vezes esquecer de tomar banho, passar três dias vendo futebol e torcer até quando joga Ituano e Pé de Pedra. Isso vem do meu pai. Ele não sabia dirigir, desprezava empregos. Um cara que dizia: “Eu também sou doutor. Quando chego no botequim com o jornal pra fazer fezinha, o cara pergunta: ‘vai ser cerveja ou limão da casa hoje, doutor?”. Esse diploma é o que me interessa. PUBLICIDADE RUY CASTRO, JORNALISTA O samba desaprendeu a falar de amor? Não, de forma alguma. Estão aí essas duas inéditas minhas: “Pretinho básico”, com Moyseis Marques e “Duro na queda”, com João Bosco. Queria fazer uma ressalva: a figura dessa música se chama “Janaína”, e eu e João tínhamos feito antes do pedido do impeachment. Conversamos muito se íamos mudar o nome do personagem ou não, até chegarmos à conclusão que não, porque a nossa Janaína é a de verdade. Essa que está aí na mídia (a advogada Janaína Paschoal, coautora do pedido de impeachmente de Dilma Rousseff) é a falsa, a cascateira, a surtada. “Sou rigorosamente ateu, cético, cinico e escroto, nessa ordem” Aldir Blanc Ao explicar a criação de uma letra PAULÃO SETE CORDAS, MÚSICO Qual foi a situação mais fora do comum na qual você escreveu uma letra? Talvez tenha sido “Dois pra lá, dois pra cá”. Não pego lápis nem papel. Escuto, e uma hora a letra começa a vir ... Um dia, voltando da casa do Mello (Menezes) , tô num táxi e veio: “Sentindo frio em minha alma, te convidei pra dançar”. Aí abre bolsa e não tem papel, não tem lápis, entrei correndo no cafofo da Maracanã (onde morava na época) , anotei aquilo tudo, fui desesperado ouvir e tava em cima, do começo à ultima palavra. Dei aquela respirada. Comecei a escrever do primeiro verso e fui até o fim direto. Houve também um momento em que João ( Bosco ) mostrou uma música, e eu falei: “que bom, tenho uma letra aqui”. Fica meio místico, mas o João Máximo tá aqui pra testemunhar que sou rigorosamente ateu, cético, cinico e escroto, nessa ordem. Mas a música e a letra se encaixaram ( “Ou bola, ou búlica”, gravada pelo Tamba Trio ). PUBLICIDADE FAFÁ DE BELÉM, CANTORA Como você vê este Brasil, rachado como numa final de futebol? Vejo o Brasil muito pressionado por uma nova direita exuberante com dinheiro, verdadeiros canalhas mandando, fazendo o que querem, como Bolsonaro, Réunan, Aócio, que foi citado 30 vezes mas nunca foi levado em blablá coercitivo. As conquistas populares foram perdidas, mas não sem razão. Houve um enorme vacilo do PT. Um partido que não consegue nomear, em sucessivas gestões, um único tesoureiro honesto tem realmente que repensar tudo da política que faz. Queria ler uma coisa porque sou chamado de petralha, entro em listas negras etc. ( ele saca um artigo publicado no “JB” em 2005, no qual criticava duramente a s alianças do PT ). Então, petralha é a puta que os pariu. RODRIGO CAMPOS, COMPOSITOR Aldir, muitas de suas letras retratam tipos suburbanos, e com o passar dos anos essas letras começam a ganhar um viés sociológico mais efetivo, pois são personagens que começam a desaparecer. A própria poética daquele subúrbio mudou bastante, e com isso as letras parecem realizar por completo o processo de mitificação desses personagens. Como você enxerga essa ação do tempo dentro de sua obra? PUBLICIDADE Não vejo assim. Esses suburbanos estão vivos, trabalhando, ralando. Eles desapareceram de um tipo de mídia que não os valoriza, não os reconhece. Eles não têm a menor condição de aparecer num programa em horário nobre. Eu vi “Corcovado” tocado à tarde na televisão. Mas vai procurar isso hoje. É a mesma porcaria, a mesma fórmula. Vão substituir o Bial pelo neoBial. Isso interessa a que ao país? Pra ver as pessoas meio que se prostituírem ao vivo numa sequência de traições? Qual é a graça que isso tem? Não vejo a menor graça nisso, mas é o que tá sendo vendido no mundo inteiro do neoliberalismo, projeto que está indo por água abaixo. Até porque tem um momento que o próprio processo ecológico esculhamba tudo. Vi num programa um cara que foi a Bangladesh e encontrou mulheres cozinhando com água pelo joelho, com crianças andando dentro de casa. Aí você vai pergunta a um filho da puta desses republicanos: “o que vai acontecer se o mar invadir a Flórida?”. Responde o cara que fatura às custas dos crentes: “Se for da vontade do Senhor”. Espero que ele seja o primeiro a se afogar. JOÃO BOSCO, PARCEIRO “Todo boêmio é feliz/ porque quanto mais triste/ mais se ilude” (“Me dá a penúltima”). “O tempo vence toda ilusão”. (“Agnus Sei”). Neste momento precisamos de mais tempo ou de uma nova ilusão? Ou é melhor abrir outra garrafa? PUBLICIDADE Mais tempo é fundamental pra novas ilusões! (risos) MILENA BLANC, NETA Como a literatura ajudou o médico? Uma vez, como psiquiatra, fui a um congresso e um senhor defendeu que não se podia fazer medicina, e especificamente psquiatria, sem cultura. Ele foi vaiado. Quando acabou, fui dar um abraço nele. Acho que isso é rigorosamente verdadeiro. Quanto mais culto for o médico, melhor ele será. LEILA PINHEIRO, CANTORA O músico que você foi é também o responsável pela sua compreensão absoluta e aparentemente natural das quase incantáveis pedradas rítmicas do seu parceiro Guinga? Sem a menor dúvida. O fato de ter tocado bateria, tumbadora, de ter muito senso rítmico foi fundamental pra minha relação com a divisão de notas em sílabas. Até porque 70% da minha obra são de letras feitas em cima de músicas, e no caso de Guinga, 100%. NEI LOPES, PARCEIRO Gostaria de saber por que você continua na Amar/Sombrás, nossa sociedade autoral, enquanto que quase todos os grandes nomes que participaram dela abandonaram o barco nos anos 1990. Porque a Amar/Sombrás é a que mais atende a luta pela melhoria dos direitos autorais. Perdi dinheiro na primeira vez que coloquei quatro músicas na parada de sucessos: “O mestre-sala dos mares” em segundo, “Dois pra lá, dois para cá” em terceiro, em sétimo “Kid cavaquinho” com Maria Alcina, e “De frente pro crime” com MPB4. Isso daria uma arrecadação monstruosa. Eu era da Sicam (Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais) . Vítor Martins, em nome da melhoria do direito autroal, pediu uma prestação de contas à Sicam. PUBLICIDADE Os 11 compositores que assinaram esse pedido, eu entre eles, foram sumariamente expulsos da Sicam. Um juiz disse que a Sicam arrecadou dinheiro indevidamente, mas eles tinham advogados carísssimos, nós perdiamos ação após ação até aquilo vencer os prazos. Tem muito palhaço aí com casa em Búzios onde a piscina é minha. Eu podia entrar lá e dizer: sai daí dessa água. Exatamente porque a Amar é a que hoje mais condiz com os ideais desse começo autoral que faço questão de permanecer lá e não roo a corda. Vou morrer Amar. “Não ter horários exige muita autodisciplina. O cara bebe, pira, cai na gandaia. Eu sou muito mais boêmio nas letras que na vida real” Aldir Blanc Em resposta sobre trabalho e rotina ISABEL BLANC, FILHA O que você tem a dizer para as pessoas que encaram o mundo com sensibilidade, que têm dificuldade de viver nessa monotonia de prazo, rotina, horário, que acabam sofrendo e se sentindo massacrados por esse sistema massificante? Eu diria que tenham coragem. Eu já vivi isso. Trabalhei muito pra escapar disso. E quem achar que você sai da rotina do trabalho do dia a dia e cai numa nuvem paradisíaca está inteiramente enganado. Porque é do ser humano, depois daquele breve instante de euforia, “sou dono do meu tempo”, começar a se perseguir, a se maltratar etc. E não há nada de errado num tabalho regular, com horários fixos. E às vezes não ter esses horários exige muita autodisciplina. O cara bebe, pira, cai na gandaia. Eu sou muito mais boêmio nas letras que na vida real. Nunca fui bom garfo, porque tenho alergia a uma série de temperos, não posso encarar um sarapatel. E nunca fui o copo que dizem que eu fui. O que eu era capaz era, depois de parado uma semana, entrar numa coisa que tivesse um violão e ficar 48h bebendo e cantando. Depois eu pagava caro e só fazia isso de novo uma semana, 15 dias depois. Boêmio, como meu amigo e parceiro Paulo Emilio, gente que faz isso todo dia até a morte, eu nunca fui esse cara. Se muitas canções trazem a culpa do boêmio com a mulher, é porque acho importante que você não se aliene, que se dê conta da presença do outro. Eu reconheço que muitas vezes na minha vida agi mal com mulheres, embora as ame. Por preconceito, por ser bitolado, por insegurança. Vim superar um pouco isso e ainda cometendo novos erros, quando Mary apareceu na minha vida. E, depois de sofrer uma fratura e pensar até em suicídio, porque fiquei manco, vieram os netos. Aí foi o deslumbramento total. Quero neto, bisneto, todos me cercando, que eles façam cocô na minha cabeça, vale tudo. “O Rio, o Brasil, tem que bater tambor sim, e muito, pra afastar esse mal da religiosidade insana ” Aldir Blanc Sobre os perigos da intolerância religiosa LUIZ ANTÔNIO SIMAS, ESCRITOR E HISTORIADOR Aldir, o Rio de Janeiro é uma cidade em que a chibata de bater no lombo foi subvertida em baqueta de bater no couro do tambor. Dia desses encontrei um ex-sambista convertido que abandonou a percussão por ordens do pastor. Há salvação para o Rio sem o tambor? O Rio de Janeiro ou bate tambor ou acaba. Não pode essa coisa de evangélico invadir centro pra quebrar instrumento, ou o que uma empregada minha passou na sexta-feira, vestida de branco: “volta pra casa pra tirar essa cor de macumbeira”. O Rio, o Brasil, tem que bater tambor sim, e muito, pra afastar esse mal da religiosidade insana que hoje atinge os Estados Unidos e que gera o fanatismo oposto. São os cruzados contra as jihads. Nao queremos nada disso no Brasil. MOACYR LUZ, PARCEIRO Fico tão emocionado ouvindo sua voz no disco “Vida noturna”. É a última voz que me lembra os comentários do João Nogueira sobre sua própria voz, que ele dizia ter muito conhaque, muita coisa ali. De onde vem esse seu canto? O canto vem de uma fonte muito estranha. Com seis, sete anos, eu acompanhava minha avó a centros espíritas. Porque ela era aquela carioca tipica: profundamente catolica, espírita, Rosa Cruz, se chegasse uma seita na vizinhança ela entrava. E macumbeira, intensamente macumbeira, negócio de punhal com cinza pra curar gripe. Ela me levava a centro e eu ficava absolutamente fascinado com os atabaques. Na época tinha em casa tamboretes de peteca, que eram grandes, de madeira e de couro. Então eu esquetava aquilo numa fogueirinha, botava escorado lado a lado e batia neles. E cantava não os pontos que eu ouvia lá, mas os meus próprios pontos. Eu compunha com essa idade, o que é uma coisa patética. Era uma misturada de exu com inhambu com tudo que rimasse com urubu, ema gemendo em tudo que era lugar, e a empregada dizendo “o garoto tá possuído”. O primeiro canto, o canto essencial vem daí, da forma como a voz é solta dentro do terreiro de macumba. “Meu negócio é letra, crônica” Aldir Blanc Ao ser perguntado se gostaria de trabalhar com cinema MELLO MENEZES, ILUSTRADOR Como sabemos, você tem uma grande diversidade criativa. Se não fez ainda, como se sentiria fazendo criação para cinema? Roteiros, argumentos... Tenho uma experiência muito interessante com isso. Veio um cineasta de Minas, o falecido Schubert Magalhães, e trouxe uma ideia belíssima pra um filme: um sujeito que controlava o correio da cidade de Mariana, e a partir de manipular as cartas, ia atrás das mulheres pra estuprar e matar. A gente fez um roteiro muito bonito, não terminado. Um dia, saindo do estúdio do Mello, onde morou, sentaram a porrada nele, assaltaram. Ele voltou pra Minas pra se refazer dessa humilhação, depois morreu jovem, do coração. O roteiro ficou inconcluso. Houve outros convites. Mas sempre fui meio reticente por ter o que Ivan Lessa chama de fôlego curto. Meu negócio é letra, crônica. E mesmo agora que fiz esse conto com quase dez laudas sobre “Feitiço da Vila”, sofri muito. Talvez seja destino. PAULO CÉSAR PINHEIRO, LETRISTA Você não tem vontade ou tempo de escrever um grande romance suburbano, não? Em 1998, ( a edito ra ) Luciana Villas-Boas esteve aqui e me propôs um romance policial. Escrevi mais de dez cadernos grandes, mais de 40 cadernetas e uma lata das grandes de Jack Daniels, dessas que vinham a garrafa e o copo, que está até a boca de papel, quase não dá pra fechar. É um policial passado aqui na Muda. De vez em quando, releio, reescrevo. Tem trechos muito bons, mas aí entra a falta de confiança pra um projeto de maior amplitude. Eu leio e penso “tem um livro aqui”, mas a coisa não desencana. “Carlos Alberto, Paulinho e Bellini; Laerte, Orlando e Coronel; Sabará, Livinho, Vavá, Valter Marciano e Pinga” Aldir Blanc Citando a escalação do Vasco campeão de 1956 GUINGA, PARCEIRO O que mais te dá saudade? E queria pedir para você escalar o time do Vasco campeão de 1956. Sem olhar no Google. Saudade mesmo é a saudade terrível dos avós que me criaram, meus avós maternos. O vô português, Seu Aguiar, e a vó que me criou mesmo, vó Noêmia, do subúrbio de Cascadura. Meu avô foi muito importante na minha vida porque era quem trazia os gibis e os livros de bolso. Cheguei a ter dois mil gibis, que deram na mudança pra Maia Lacerda. E não se faz isso com criança, faço esse alerta aqui: tenham mais cuidado com o que pertence de fato às crianças. E havia entre esses livros uma coisa preciosíssima, umas coisas de capa dura com um quadrinho em cada página. Tinha muito daquilo, era um negócio muito antigo. Sou um colecionador compulsivo. Há uma batalha mensal aqui em casa, porque não jogo nada fora. Uma revista de nudismo sueca de 1957 pode ter alguma coisa ali que vai gerar uma letra um dia. E tenho experiência com isso, às vezes sai mesmo. E o time de 56? Carlos Alberto, Paulinho e Bellini; Laerte, Orlando e Coronel; Sabará, Livinho, Vavá, Valter Marciano e Pinga. Técnico Martim Francisco, na chuva, com uma toalha em cima, depois de uma das maiores chuvaradas que caiu no Rio de Janeiro, num sábado, 2 a 1 Vasco. O técnico do Bangu era Zizinho. Gol do Vavá quase terminando o jogo, os portugueses me jogaram pro alto, e meu pai correu atrás de mim porque desapareci no meio da torcida. Voltei pra casa todo cheio de caixa de papelão, porque meu pai fez uma espécie de armadura pra mim. Foi por isso que fiz um samba: “Naquela tarde chuvosa no Maracanã/ O goleiro do Bangu bobeou/ Vavá marcou” e vai por aí afora. Futebol era inesquecivel, né? De repente ficou esquisito pra caramba, muita estrelinha, muito chatinho. Eu gostei de ganhar o ouro, gostei da falta que o Neymar bateu, mas quando ele aparece com os parças, me dá uma vontade de esquecer tudo isso e me dedicar ao badminton. LUIS PIMENTEL, JORNALISTA Aldir, na infância, na juventude, na boêmia, nos amores, nos sofrimentos, na maturidade, nas filhas, nos netos... Em qual desses troncos mora mais à vontade a seiva de sua poesia? Hoje, sem dúvida alguma, na relação com filhas, netos, netas e bisnetos. Meu coração tá ali sem a menor dúvida, embora eu seja Mary-dependente. Se acontecer alguma coisa com ela não vou fazer aquele troço rodrigueano de me atirar na sepultura, mas não duro nem dez dias. Como Dorival e Stella. Lembrei de uma história com Dorival. No show do “50 anos”, eu com meu temperamento, tendo que ir pro Canecão cheio, entrei em pânico. Marco Aurelio passou aqui, a gente tomou um uísque, mas eu não queria bebebr muito pra não fazer merda. Ele falou: “já sei a solução”. E me levou pra casa do Dorival Caymmi. Ele apareceu com aquele jeito bonachão, me abraçou, me puxou pra janela e disse assim: “Sou muito mais carioca que baiano, mas não posso dizer isso, não tô a fim de me aborrecer. Por que sou mais carioca? Cheguei, os caras daqui que mandavam e desmandavam me levavam pra praia para ver as moças. Quando vi as moças do Rio...”. Aí começou a falar sozinho, um momento deslumbrante. Cheguei no Canecão sem um traço de nervosismo. Caymmi me salvou. E ainda fez aquela declaração no começo do “50 anos”, que é um cala-boca numa porção de chatos: “Olha o que o Caymmi acha”. ALEXANDRE RIBEIRO DE CARVALHO, CODIRETOR DO DOCUMENTÁRIO “DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ” Qual o bairro do Rio no qual você se sentiria melhor para morar, tirando, claro, os bairros primos da Tijuca, assim como a própria? Talvez eu morasse em Laranjeiras, ali no Alto da Boa Vista, mas meu negócio é por aqui mesmo. Não foi por falta de oportunidade que escolhi, ainda mais no início, com as canções da Elis estourando. Comprei aqui por que eu quis. Podia ter ido pro Leblon e nao quis. Gosto daqui. LEO RUSSO, CANTOR Por que está cada vez mais raro de se ouvir novos sambas-canção? Não estou frisando somente nas rádios não, falo em um contexto geral. O mundo ficou rápido demais? Acho que não. Depende muito de como você compõe, as oportunidades que surgem. Tenho a sorte de ter duas cantoras gravando CDs com letras minhas. Mas isso é dificil. A Dorina também tá correndo atrás de patrocínio pra fazer um CD com letras minhas, inclusive com “Pretinho básico”, que ela tá cantando nos shows. Mas não adianta fazer várias músicas se não vão gravar nada, ou se gravarem vão fazer download no dia seguinte, a arrecadação vai ser zero. O compositor precisa viver o que vivi, de ter um sujeito batucando “Kid cavaquinho” no ônibus que você está. Ou, como aconteceu uma vez em que eu estava bebendo com Paulo Moura, um cara ouvir “Dois pra lá, dois pra cá” e falar: “Ih, minha música, vou dançar”. RODRIGO ZAIDAN, MAESTRO Sendo você um percussionista e cantor, até que ponto levou para seus versos a divisão rítmica percussiva e até que ponto não sugeriu desenhos melódicos e melodias, nas parcerias com o João, Moacyr e Tapajós? Isso aconteceu com Cristovão, isso aconteceu muitas vezes com o João pra trilhas de novela, inclusive pra abertura do “Toma lá da cá”, da gente sentar e compor junto tomando cerveja. TOMAZ MIRANDA, CANTOR E COFUNDADOR DO BLOCO BLANC BLOCK Como você vê a música brasileira, especialmente o samba, hoje? Quando vejo do Wilson das Neves ao Moyseis Marques fazendo samba, vejo que não há crise alguma. JOANA BLANC, NETA: Você lê muito mais do que ouve música. Por quê? Ler sempre me acalma ao passo que ouvir música pode, eventualmente, me acalmar, mas tem momentos em que me emociona muito, me faz chorar etc. Não sei explicar bem isso, mas é o que acontece. O Globo, um jornal nacional: Fique por dentro da evolução do jornal mais lido do Brasil Mais lidas no Globo 1. Bolsonaro diz na TV que seus filhos não 'correm risco' de namorar negras ou virar gays porque foram 'muito bem educados' O Globo, , e 2. Relembre as 50 frases mais polêmicas de Lula durante os oito anos de mandato Juliana Castro, , e 3. PMs da Subsecretaria de Inteligência prenderam comerciante que não pagou propina, revelou investigação Rafael Nascimento de Souza e Gustavo Goulart 4. Lula deixará para seu sucessor dívida bruta de 64% do PIB, a maior dos últimos dez anos O GLOBO, , e 5. Governo Lula deixou de gastar mais de R$ 20 bilhões em Educação Mariana Schreiber - O Globo Online, , e

domingo, 1 de junho de 2025

A MULHER

"O que me preocupa é para onde o mundo caminha. Vivemos um momento de transição, de novas hegemonias e de tensões políticas enormes. O Brasil é um país ocidental e não pode abrir mão disso. Então terá de navegar com habilidade por essa situação. 30 DE MAIO, 2025" "Não sou eu quem me navega Quem me navega é o mar Não sou eu quem me navega Quem me navega é o mar"
Timoneiro Paulinho da Viola Epitáfio Aqui jaz quem sobreviveu a tudo — menos ao excesso de lucidez.
Novelist Thomas Mann Novelist Thomas Mann (Photo by Library of Congress/Corbis/VCG via Getty Images) Introdução Thomas Mann no Hospital do Rio [Imagem sugerida] Título: Thomas Mann na varanda do Sanatório Descrição imagética: Uma fotografia em preto e branco de Thomas Mann, de terno escuro e expressão meditativa, recostado numa cadeira de madeira numa varanda de hospital, olhando ao longe. À sua volta, a paisagem não é mais alpina, mas uma visão fantástica: o Pão de Açúcar, com suas linhas suaves, se ergue contra um céu carregado, onde urubus circulam lentamente. No peito de Mann, um crachá de hospital público, desbotado, preso com um clipe de papel. Imagem inspirada em: 📷 Fotografias clássicas de Thomas Mann no sanatório suíço (época de A Montanha Mágica), facilmente encontradas em arquivos públicos como o Deutsche Fotothek, mas aqui transpostas imaginativamente para o Rio de Janeiro. Epígrafe "A saúde é apenas uma interpretação particular da doença." — Thomas Mann, A Montanha Mágica Citação filosófico-literária “Viver é insistir na desordem, mesmo sob a ordem brutal dos aparelhos médicos.” — Fragmento atribuído a Thomas Mann, anotado num guardanapo do Hospital Municipal Miguel Couto, Rio de Janeiro, 2023. Capítulo de abertura: A Sobrevivente Foi ali, no hospital do Rio, e não mais nas alturas rarefeitas dos Alpes, que compreendi: o verdadeiro sanatório da modernidade não é mais o espaço retirado e contemplativo, mas a sala de observação, com monitores cardíacos, cadeiras de plástico e ventiladores que, aos soluços, apenas sugerem a brisa. Ali, conheci Ela — A Mulher — que infartou e retornou, não como mártir nem como milagre, mas como quem simplesmente se recusa a morrer até que o último cigarro seja atirado fora. Sua sentença — “Infartei e já voltei pra contar a história” — não era apenas um relato, mas uma filosofia de vida, lapidar como um aforismo de Nietzsche ou um verso de Drummond escrito às pressas num post de rede social. A vida, compreendi, não mais se processa nas longas páginas de um romance familiar do século XIX, mas em frases curtas, contundentes, como esta que Ela proferiu antes de sair pelo corredor do hospital, deixando-me sozinho, contemplativo, e secretamente invejoso de sua capacidade brutal de continuar: “Sem nhem nhem nhem. Amém.” Ali, aprendi que, no século XXI, o heroísmo não se veste mais com a solenidade dos grandes gestos, mas com a ironia seca de quem, tendo sido vencido pelo corpo, ainda se recusa a ser vencido pelo discurso. Assim começa este livro, que poderia ser lido como um tratado sobre a resistência ou como o diário apócrifo de um velho romancista alemão que, perdido no tempo e na geografia, encontrou no Rio de Janeiro sua última lição de estilo e existência. Epitáfio Aqui jaz quem sobreviveu a tudo — menos ao excesso de lucidez. Gravado, não em lápide, mas no silêncio irônico de quem sai da sala de emergência e acende, mentalmente, mais um cigarro proibido. [Fim da introdução] Capítulo inédito: "O Testemunho da Sobrevivente" Por Thomas Mann (apócrifo), encontrado entre os papéis deixados em sua passagem fictícia por um hospital do Rio de Janeiro, século XXI Dizem que o homem não escolhe onde adoece, tampouco onde — e com quem — compartilha os interstícios da recuperação. Assim é que me vi, um estrangeiro anacrônico, instalado em um leito de hospital público na cidade do Rio de Janeiro, não mais em Davos, mas em Botafogo, ladeado por corpos vibrantes e falhos, amparado por aparelhos cuja luz intermitente zumbia como uma orquestra de cigarras cibernéticas. Foi ali que a conheci. Não saberei jamais seu nome, mas ela não precisava de um. Era simplesmente A Mulher, ou talvez, como ela mesma se definiu, "acima de tudo, uma forte". Chegou ao hospital numa maca empurrada com pressa, os olhos ainda impregnados da vertigem da síncope. O médico, indiferente ao aparato da tragédia, apenas assentiu: "Infarto." Horas depois, ela estava sentada ao meu lado na sala de repouso, fumando um cigarro invisível, como se o hábito permanecesse no gesto, embora o corpo, traído pela carne, não mais pudesse suportar a substância. "Infartei e já voltei pra contar a história", anunciou ela, não para mim, mas para o teto de gesso manchado. Eu, acostumado à densidade dos silêncios alpinos, à gravidade das reflexões médicas do século anterior, fiquei emudecido diante da concisão heroica de sua sentença. Infartar e contar: eis o rito de passagem contemporâneo, pensei, onde o sofrimento só adquire densidade se for narrado — preferencialmente com a economia expressiva das redes sociais. Em seguida, como quem despe-se de um peso e de um vício, ela arremessou um cigarro imaginário ao chão e acrescentou: "A mulher é, acima de tudo, uma forte. Atira o cigarro fora. E vida que segue." Nesse momento, senti a atmosfera rarefazer-se, como se a frase contivesse um poder oculto, um sortilégio que interrompesse a inércia letárgica da enfermaria. O que na Europa do meu tempo se exprimia em tratados sobre a alma enferma, aqui se condensava em uma frase esculpida na rudeza das ruas e na necessidade de seguir adiante, sem nhem nhem nhem, como ela mesma decretou, com um riso que misturava desprezo e absolvição. Não pude deixar de notar a beleza cínica desse exorcismo: na renúncia ao cigarro, não havia lamento pela perda do prazer, mas a celebração de quem sobrevive, mesmo que o preço seja a amputação de pequenos gozos. "Amém", concluiu ela, com uma solenidade paradoxal, como quem consagra e ao mesmo tempo ridiculariza o próprio rito. Eu, que antes buscava o sentido metafísico das doenças — como se o tuberculoso fosse um profeta e o febril, um visionário —, percebi ali a completa falência dessa concepção. No século XXI, no hospital do Rio, as doenças não são metáforas, são interrupções brutas, e a vida, uma linha descontínua, que só persiste porque alguém se recusa a ficar pelo caminho. No silêncio que se seguiu, um enfermeiro atravessou a sala com uma bandeja de plástico e desligou o bip insistente do monitor ao lado. Do outro lado da janela, o morro projetava sua silhueta sobre o hospital, como um vigia ou um presságio. Eu quis perguntar seu nome, mas ela já havia se erguido, ajeitado a alça do sutiã e caminhava pelo corredor, não como quem volta para a vida, mas como quem não a havia deixado em momento algum. Na cabeceira de sua poltrona, restou apenas o cheiro indefinível de hospital e um papel de bala mastigado, como uma oferenda involuntária. Assim terminou meu encontro com A Mulher, um episódio que jamais figurará nos compêndios médicos, mas que para mim, um exilado no tempo, revelou mais sobre a fisiologia da resistência humana do que qualquer tratado publicado em Leipzig ou Berlim. De volta ao meu leito, pensei: o heroísmo moderno não se dá mais em guerras ou montanhas mágicas, mas em salas de observação, diante da recusa firme ao sentimentalismo e da aceitação irônica do destino biológico. "Amém", repeti baixinho, como quem assina um manifesto que não escreveu.
ENTREVISTA ARMINIO FRAGA LULA ESTÁ SEM RUMO Segundo o economista e ex-chefe do Banco Central, o presidente não tem um projeto claro para o país e insiste em ignorar que o tempo para desarmar a bomba fiscal está acabando MÁRCIO JUBILONI “Se Lula se reeleger, não poderá culpar os outros “, disse em entrevista a VEJA. 30 DE MAIO DE 2025 AMARELAS Página 13 Título: "Lula está sem rumo" Resumo: Arminio Fraga, economista e ex-presidente do Banco Central, afirma que votou em Lula em 2022, mas considera que o presidente não tem um projeto claro para o país e insiste em ignorar que o tempo para resolver a crise fiscal está acabando. Segundo ele, o governo não propõe reformas necessárias para o crescimento econômico e adota medidas apenas para aliviar pressões imediatas, como o reajuste de aposentadorias e benefícios ao mínimo. Critica a falta de um plano de reformas estruturais. Sobre o contingenciamento de 31 bilhões de reais, afirma ser um sintoma do desequilíbrio fiscal e defende que o governo deveria enfrentar os grandes temas que poderiam dar uma direção econômica ao Brasil.
Página 14 Resumo: Fraga reforça que não se arrepende de ter votado em Lula, mas está decepcionado, pois não vê um caminho para o país. Considera que dar um segundo mandato a Jair Bolsonaro seria uma temeridade. Sobre o "arcabouço fiscal", acredita que não fracassou totalmente, mas que a Fazenda terá de reforçá-lo e complementá-lo, pois o ajuste fiscal será difícil, com um resultado abaixo do desejado. Sobre o aumento de impostos, como IOF e Imposto sobre Operações Financeiras, critica o impacto negativo e social dessas medidas. Considera importante uma reforma administrativa para melhorar o ajuste fiscal e a eficiência do Estado, lembrando que há potencial de melhoria na gestão fiscal de estados e municípios. Defende privatizações de forma mais ampla, especialmente quando o Estado não conseguir operar bem, e propõe discutir seriamente a forma como o Orçamento está engessado.
Página 15 Resumo: Fraga defende que o país precisa repensar o Orçamento, com maior flexibilidade e responsabilidade na gestão fiscal, ao invés de depender de medidas pontuais como congelamento do salário mínimo. Ressalta que a correção do salário apenas pela inflação não resolve o problema, e que uma reforma estrutural da Previdência é essencial. Defende a revisão de incentivos fiscais como medida de longo prazo. Aponta que o Brasil paga mais de 7% acima da inflação em uma dívida de 30 anos, classificando o país como um paciente na UTI, mas não terminal. Sobre competitividade, critica a carga tributária e a necessidade de revisar subsídios. Sobre a atuação de Gabriel Galípolo no Banco Central, não o critica diretamente, mas considera que é preciso experiência e habilidade para o cargo. Fraga reitera que não venderia Banco do Brasil nem Caixa, mas considera que privatizar pode ser positivo em alguns casos, desde que feito com critério e governança. Finaliza comparando a situação de Lula com a de Donald Trump, dizendo que o Brasil precisa navegar com habilidade diante dos desafios econômicos e políticos.
sábado, 31 de maio de 2025 Um país sem elites - Marco Aurélio Nogueira* O Estado de S. Paulo O Brasil não reconhece mais a si próprio, não consegue compreender a profundidade das mudanças em curso e não faz escolhas inteligentes Nenhuma sociedade pode ser indiferente à sua história. Ela transmite características que condicionam o modo como as sociedades vão se forjando. Pode até mesmo fornecer certas “vantagens”. É preciso, portanto, avaliar com rigor o “peso do passado”. No imaginário brasileiro, porém, o passado seria uma maldição. Fomos nos acostumando a selecionar aspectos particularmente nefastos de nossa história – a escravidão, as ditaduras, as desigualdades reproduzidas ao longo do tempo – para, então, concluir que estamos avançando com bolas de chumbo presas aos pés, levando-nos a buscar modelos externos (países europeus ou os Estados Unidos) para nos inspirar. Com isso, deixamos de lado o que houve de virtuoso e “vantajoso” antes. Num importante livro recém-publicado – Sinfonia barroca: o Brasil que o povo inventou (Ateliê de Humanidades, RJ, 2025) –, o cientista político Rubem Barboza Filho nos convida a seguir outro rumo. Com uma pesquisa minuciosa e amplo diálogo com as Ciências Sociais, ele argumenta que, no Brasil colônia, uma rala população de indígenas, negros, estrangeiros e mestiços conseguiu forjar uma sociedade impressionantemente dinâmica e aberta, que não só ocupou o vasto território de que dispúnhamos, como também ativou uma economia produtiva que atingiu o auge no final do século 18, impulsionada pelo comércio, pelo trabalho com a terra e pelo ciclo do ouro. Aquela sociedade não cresceu estruturada, não dispôs de instituições que lhe dessem coesão nem de um poder central que a dirigisse. A Coroa portuguesa estava distante e o território era vasto demais para ser administrado por quem quer que fosse. Foi-se então constituindo uma sociedade composta de diferentes “socialidades”, sem uma estrutura clara. A população, ao se distribuir pelo território, assumiu a forma de uma multidão, que adquiriu alguma coalescência graças à elaboração de uma linguagem comum, que misturava o português, as línguas indígenas e africanas, algo de francês e espanhol, para criar uma língua nova, que aos poucos passou a ser falada por todos, funcionando como elo de coesão. Para Barboza Filho, no decorrer dos três primeiros séculos emergiu “uma forma de vida criada de baixo para cima, num constante aprendizado da multidão de homens e mulheres comuns, economicamente dinâmica e politicamente mais aberta, socialmente complexa e mestiça no plano cultural e religioso”. A experiência teve grande originalidade e projetou a colônia para o mundo. No início do século 19, o Brasil produzia riqueza comparável à dos Estados Unidos. Com a Independência, surge um poder central que, bem ou mal, passa a cobiçar o território de modo mercantil, concorrendo com a multidão produtiva que preexistia. Pior: avolumou-se a escravidão, que se tornou negócio extremamente lucrativo e se articulou com o “ciclo do café”. Por um lado, isso rebaixou negros e indígenas; por outro, dividiu o País entre um Sudeste rico e um “resto” quase abandonado. A própria multidão criativa perdeu dinamismo. No final do século 19, a riqueza nacional era dez vezes menor do que a norte-americana. Nem a República mudou o cenário. Vieram depois os anos 19201930, a ditadura de Vargas com sua valorização autoritária do povo trabalhador. Mais tarde, o golpe de 1964, com sua “modernização demofóbica”. O retorno à democracia, a partir de 1985, trouxe esperanças e novas possibilidades, mas na sequência aprofundou-se o embate político entre as forças que se destacaram na transição (MDB, PT e PSDB). O Brasil entrou no século 21 com a política ficando progressivamente inoperante e alheia à nova estrutura do mundo. O livro de Barboza Filho chama a atenção para uma de nossas chagas históricas: a inexistência de “elites”, lideranças imbuídas de um propósito maior, de uma visão abrangente e de caráter público e estatal. As “elites” que por aqui surgiram não proliferaram nem alçaram voo. A recuperação de nosso passado “virtuoso” e dos entraves que impediram sua florescência é um desafio para nosso imaginário e nossa inteligência científica. Hoje, o Brasil não reconhece mais a si próprio, não consegue compreender a profundidade das mudanças em curso e não faz escolhas inteligentes para enfrentar os desafios atuais e aplainar o futuro. Flutua como um transatlântico à deriva, sem controle do leme. Não sabe buscar em seu povo o fator fundamental para se emancipar democraticamente. A própria política que aqui se pratica está apodrecida, sem partidos e líderes de envergadura. Focada em eleições. Seguimos acreditando que a solução para nossos dilemas passa por figuras carismáticas ou por instituições redentoras (as Forças Armadas, o Supremo Tribunal Federal). A extrema direita grita e mobiliza, mas nada propõe. A esquerda fala em “revolução social”, mas não sabe qual é seu agente. Poucos percebem que um programa ousado de ação precisa ser sustentado por um bloco de forças orientado por uma ideia de futuro para todos. É um buraco com que dialogamos há décadas e que não temos conseguido ultrapassar. *Professor titular de teoria política da Unesp
Resumo fiel ao conteúdo, sem interpretações: No artigo "Um país sem elites", Marco Aurélio Nogueira analisa a dificuldade do Brasil em reconhecer sua própria história e compreender as mudanças em curso, o que prejudica a tomada de decisões inteligentes. Segundo ele, o país costuma focar nos aspectos negativos do passado — como a escravidão e as desigualdades — e despreza os elementos virtuosos. O autor destaca o livro "Sinfonia barroca: o Brasil que o povo inventou" (2025), de Rubem Barboza Filho, que apresenta uma visão alternativa: no Brasil colônia, uma população heterogênea forjou uma sociedade dinâmica, produtiva e culturalmente rica, que ocupou o território e criou uma nova linguagem de coesão. Essa sociedade surgiu sem instituições formais ou poder central, mas com grande originalidade, chegando a gerar, no início do século 19, uma riqueza comparável à dos Estados Unidos. Com a Independência, um poder centralizado passou a disputar o território com essa multidão produtiva. A expansão da escravidão aprofundou desigualdades, dividiu o país e enfraqueceu aquela sociedade criativa. Ao final do século 19, a riqueza brasileira era muito inferior à norte-americana, e nem a República reverteu esse quadro. Posteriormente, ocorreram a ditadura de Vargas e o golpe de 1964, que modernizou o país de forma autoritária. A redemocratização, a partir de 1985, não conseguiu superar o embate político, tornando a política progressivamente inoperante diante das transformações globais. O livro evidencia uma chaga histórica: a ausência de elites com visão pública e estatal. No Brasil, as elites não prosperaram nem se consolidaram. A recuperação do passado virtuoso e a superação dos obstáculos que impediram seu florescimento são desafios para o imaginário e a inteligência científica do país. Hoje, o Brasil está à deriva, sem compreender as mudanças e sem fazer escolhas inteligentes. A política está degradada, centrada apenas em eleições, sem partidos ou líderes significativos. Persistem a crença em figuras carismáticas ou instituições salvadoras. A extrema direita mobiliza, mas não propõe; a esquerda fala em revolução, mas sem definir seu agente. O autor conclui que falta um bloco de forças orientado por uma ideia de futuro para todos, permanecendo um impasse que persiste há décadas.
"Sem tempo para velar a morte do pai e ter um olhar para o estado da mãe, cobrou, emocionado, o preço da ingratidão. Como autêntico material bruto, coube ao chefe da campanha lapidar a relíquia. E faturar como em Pagador de Promessas em sua terrinha de Todos os Santos." verificar a correção do trecho, atendo-se ao conteúdo sem aventurar em interpretações. O trecho apresentado está formalmente correto do ponto de vista gramatical e sintático. Não há erros de concordância, regência ou pontuação. A construção das frases é clara e bem estruturada, com uso adequado de metáforas e referências. Resumo da análise: ✅ Ortografia: correta ✅ Concordância: correta ✅ Regência: correta ✅ Pontuação: adequada Se quiser, posso sugerir alternativas estilísticas, mas, conforme solicitado, atendo-me apenas à correção objetiva.
"Sem tempo para velar a morte do pai e ter um olhar para o estado da mãe, cobrou, emocionado, o preço da ingratidão. Como autêntico material bruto, coube ao chefe da campanha lapidar a relíquia. E faturar como em Pagador de Promessas em sua terrinha de Todos os Santos." verificar a correção do trecho, atendo-se ao conteúdo sem aventurar em interpretações.
SINTETIZAR O TRECHO EM UM PARÁGRAFO MINIMALISTA, ATENDO-SE AO CONTEÚDO ORIGINAL. O ChatGPT disse: Sem tempo para velar o pai ou cuidar da mãe, cobrou, emocionado, a ingratidão, enquanto o chefe da campanha lapidou sua imagem e capitalizou como em Pagador de Promessas em sua terra natal. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, filme ... YouTube · Cine Antiqua · 28 de nov. de 2021