Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
“Feitio
de Oração”: manuscrito da parceria com Vadico (1933).
“[...]Mas genuína parceria (letra da espiritualidade
e música da Terra) ficou também registrada na história de sua discografia
– Vila Isabel no Espaço / música, Hervé Cordovil/ letra
(psicografada) Noel Rosa”.
Eis a letra: [...]"
Minha “Vila” agora é outra
Muito longe da “Isabel”
Meu papel agora é doutra
Qualidade do papel
Que representei na Terra,
Andando de deu em deu,
Alma voltada pro samba,
Nada voltado pro céu!...
Se eu fizesse agora, um samba
Ia ter mais harmonia
Não teria gente bamba,
Não teria valentia,
Pois valente, nesta vila,
É aquele que perdoa,
Que padece e não estrila,
Não é rei nem quer coroa...
Se eu fizesse agora um hino...
Ah! Se um hino eu compusesse...
Começaria com sino,
Terminaria com prece,
Prece serena, tranquila...
E teria este pedaço:
“ Faça, Senhor, lá da Vila
A Vila Isabel do Espaço!”
"O
programa Sr. Brasil, de Rolando Boldrin, apresentou essa música cuja letra
ditada pelo Espírito Noel Rosa e musicada por Hervê Cordovil, comprova a
sobrevivência do espírito."
Feitio
de Oração
Noel Rosa
“Intérprete:
Castro Barbosa e Francisco Alves // Participação: Orquestra Copacabana
Composição: Noel Rosa e Vadico Ano de composição: 1933”
Letra
Quem acha vive se perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que por infelicidade
Meu pobre peito invade
Por isso agora lá na penha
Vou mandar minha morena
Pra cantar com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feitio de oração
Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia
Por isso agora lá na penha
Eu vou mandar minha morena
Pra cantar com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feitio de oração
Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia
Por isso agora lá na penha
Eu vou mandar minha morena
Pra cantar com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feitio de oração
O samba na realidade não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce do coração
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce no coração
Composição: Noel Rosa/Vadico
Marisa
Monte - Feitio de Oração - Noel Rosa (letra) & Vadico (música)
“Música
de Vadico e letra de Noel Rosa
Em 1933, trabalhando como pianista e arranjador na
Odeon, Vadico (Oswaldo Gogliano) foi apresentado pelo maestro Eduardo Souto a
Noel Rosa. Conforme contam Joaquim SEVERIANO e Zuza Homem de MELLO, ao ouvir
uma composição recente de Vadico, Noel ficou impressionado com a beleza e o
clima místico da melodia, trazendo dois dias depois a letra para aquele que foi
o primeiro samba da dupla, Feitio de oração, e marcando o início de uma
parceria que iria durar até 1936, um ano antes da morte do compositor. Vadico
era paulistano, nascido em 1910, no Brás; era descendente de imigrantes
italianos e todos os seus irmãos eram músicos. Seu irmão Dirceu fez o
Conservatório Dramático musical de São Paulo e sua irmã Rute era formada em
piano e harmonia. Sabe-se que a música européia tradicional exerceu uma
influência considerável na sua formação; sua educação musical incluiu o estudo
formal de piano, harmonia e composição. Anos depois, já durante o período de
sua carreira internacional, que começou em 1939, estudou harmonia, contraponto,
composição musical e regência com o compositor italiano Mario Castelnuovo
Tedesco (MARCONDES, 1998, p.797). Foi para o Rio de Janeiro em 1931, aos 21
anos de idade, mas um pouco antes disso já tinha duas composições gravadas: o
samba Deixei de ser Otário, de 1929, gravado por Genésio Arruda na Odeon, e o
samba Arranjei Outra, com Dan Mallio Carneiro, gravado por Francisco Alves em
1930. Vadico conheceu Noel Rosa em 1932, nos estúdios da gravadora Odeon, que
de imediato pôs letra em "Feitio de Oração", seguida de parcerias
notáveis como "Feitiço da Vila", "Pra que Mentir",
"Conversa de Botequim", "Cem Mil Réis", "Provei",
"Tarzã, o Filho do Alfaiate", "Mais um Samba Popular",
"Quantos Beijos" e "Só Pode Ser Você". Com Marino Pinto,
Vadico compôs sucessos como "Prece" e "Súplica". Também fez
parceria com Vinicius de Moraes em "Sempre a Esperar". Em 1939, foi
para os Estados Unidos apresentar-se com a orquestra de Romeu Silva na
Exposição Internacional de Mundial de Nova Iorque. No ano seguinte, retornou e
radicou-se no Estado norte-americano da Califórnia, onde viveu durante oito
anos. Lá, gravou músicas do filme "Uma Noite no Rio", com Carmen
Miranda, e a partir de então, tornou-se pianista da cantora luso-brasileira e
do Bando da Lua.”
Biografia
reconstitui (alguns) passos de Vadico, o maior parceiro de Noel
Na manhã de uma segunda-feira, 11 de junho de 1962, o compositor, músico e
arranjador paulistano Oswaldo de Almeida Gogliano saiu de casa, na cidade do
Rio de Janeiro (RJ), para trabalhar na gravadora Columbia e se despediu da
companheira com frase aparentemente sem sentido: "Hoje eu não
volto". O sentido da frase se fez logo, por volta das 9h daquela manhã,
quando o artista passou mal e caiu no estúdio da gravadora. Não voltou mais.
Nem à casa e tampouco à vida. Às 9h30m, Gogliano foi oficialmente declarado
morto, vítima do terceiro infarto.
Faltavam 13 dias para que ele completasse 52 anos de vida iniciada num dia de
São João, 24 de junho de 1910. Autor de biografias de expoentes da música
brasileira como o compositor baiano Assis Valente (1911 – 1958) e o cantor
fluminense Evaldo Braga (1945 – 1973), o jornalista e escritor baiano Gonçalo
Junior reconstitui boa parte dos passos de Gogliano, vulgo Vadico, para mostrar
que ele foi mais do que o parceiro do compositor carioca Noel Rosa (1910 –
1937) em músicas emblemáticas como Feitiço da Vila (1934), Feitio
de oração (1933), Conversa de botequim (1935) e Pra que
mentir? (1937) – a composição que dá nome ao relevante livro recém-lançado
pela editora Noir.
O subtítulo da biografia, Vadico, Noel Rosa e o samba, já diz muito sobre
o livro, pois, para contar bem a vida de Vadico, é preciso recontar a vida
do Poeta da Vila, com quem Gogliano fez sambas e sambas-canção que
entraram para a história, eternizando parceria iniciada em 1932 que
contabilizaria 12 composições, incluindo marcha feita como jinglepublicitário.
Mesmo admitindo com honestidade que algumas passagens da vida pessoal de
Gogliano continuam misteriosas ou ao menos nebulosas (caso do grau de
alcoolismo do compositor na fase final da vida), o autor cumpre bem a tarefa de
perfilar Vadico. Como dito, a intenção é realçar que Vadico foi mais do que o
mais inspirado parceiro de Noel (o que já é muito), ainda que, ao fim do livro,
paire a sensação de que nada do que Vadico fez após a precoce saída de cena de
Noel, em maio de 1937, foi mais importante do que composições que atravessam gerações
e modismos musicais como Feitio de oração e Feitiço da Vila.
Contudo, o autor cumpre a função de biógrafo ao relatar a luta de Vadico para
se impor como compositor nos espetáculos teatrais dos anos 1930, a relação
profissional e fraterna como Noel, a ida em junho de 1939 para os Estados
Unidos – país onde Vadico ficaria por 14 anos, trabalhando em Hollywood, em
atuação decisiva para a exposição mundial do nome e da ora do compositor Ary
Barroso (1903 – 1964) em filmes musicais feitos com visão estereotipada do
Brasil – e, sobretudo, a luta para ser reconhecido como parceiro de Noel na
volta ao Brasil.
A parte final do livro é ocupada sobretudo pela polêmica iniciada em 8 de maio
de 1957 pelo apresentador de TV Flávio Cavalcanti (1923 – 1986) no programa Um
instante, maestro! (TV Tupi). No tom sensacionalista que caracterizava os
programas que apresentava, Cavalcanti partiu em defesa de Vadico e atacou
postumamente Noel – compositor então revalorizado 20 anos após a morte, depois
de ter sido esquecido na década de 1940 – por ter vendido alguns sambas da
parceria com Vadico para a gravadora Odeon como se os sambas fossem somente
dele, Noel.
Mesmo tomando partido de Vadico, Gonçalo Junior
expõe os argumentos dos dois lados da briga que passou para os jornais quando o
compositor, músico e escritor carioca Henrique Foréis Domingues (1908 – 1980),
o Almirante, saiu em defesa de Noel, de quem fora amigo e colega no seminal
Bando dos Tangarás. O livro mostra como a briga arranhou a imagem de Vadico,
que apenas lutava pelos créditos e pelo recebimento dos justos direitos
autorais das composições, e cansou o já debilitado coração do compositor.
Noel à parte, se é que possível dissociar Vadico do Poeta da Vila,
Gogliano deixou cerca de 80 músicas, algumas inéditas em disco, inclusive peças
de arquitetura erudita. Fora da parceria com Noel, a mais conhecida é Prece (1956),
samba-canção feito com o compositor fluminense Marino Pinto (1916 – 1965). Nem
por isso, a vida de Vadico deixou de ser movimentada. Em 1959, para ajudar a
pagar as contas, ele tocava na carioca Boate Plaza, acompanhando cantor
iniciante que imitava descaradamente João Gilberto e que atendia pelo nome de
Roberto Carlos.
Ao sair de cena naquela manhã de junho de 1962, Vadico não conseguiu se mostrar
maior do que a obra feita com Noel, ainda que o talento de melodista e
arranjador refinado fosse inegável e reconhecido no meio musical. De todo modo,
a verdade é que quem fez uma melodia como a de Feitio de oração já
não precisava fazer mais nada para ter lugar de honra na história da música
popular do Brasil. (Cotação: * * * 1/2)
(Crédito da imagem: capa do livro Pra que mentir – Vadico, Noel Rosa e o
samba)
“Laurinha,
Golaço a lembrança de Vadico!
Aquele "Choro em Fá Maior" é uma graça de música.
O nome de Vadico está sempre associado ao de Noel Rosa pelas parcerias famosas,
e acabou ficando num segundo plano. Mas ouvindo melhor suas músicas podemos ver
sua verdadeira dimensão.
beijão
Henrique Marques Porto”
2010 foi recheado de centenários
importantes para a Música Popular Brasileira a exemplo de Copinha, Jorge
Veiga, Luiz Barbosa, Custódio Mesquita, Noel Rosa, Nássara, Haroldo Lobo, Adoniran
Barbosa e Vadico (24/06/1910 - 11/06/1962).
DOCE
DE CHORO : Choro em fá maior (J. Peixoto)
"DOCE DE CHORO : Choro em fá maior - Juvenal Peixoto
29 Juin 2018 : Je déchiffre tous les jours en exercice un nouveau Chorinho avec
mon saxophone en Ut* et je l'enregistre (photo sonore) en version courte
(phrases A-B-C-A). Cada dia, decifro em exercίcio um novo Chorinho com o meu
saxofone em C, e gravo uma versão curta (foto sonora) : frases A-B-C-A I play
and record one new Chorinho’s tune with my « C » sax, every day. Musicamistats
– Jean Pascal Leriche Saxophone "Buescher True tone" silver plated
1923 + mouthpiece/bec metal alto Otto Link 7."
DOCE
DE CHORO : Romanceando
“DOCE DE CHORO : Romanceando - Paulinho da viola
(Paulo César Batista de Faria) Je déchiffre tous les jours en exercice un
nouveau Chorinho avec mon saxophone en Ut* et je l'enregistre (photo sonore) en
version courte (phrases A-B-C-A). Cada dia, decifro em exercίcio um novo
Chorinho com o meu saxofone em C, e gravo uma versão curta (foto sonora) :
frases A-B-C-A I play and record one new Chorinho’s tune with my « C » sax,
every day. Musicamistats –
Jean Pascal Leriche Saxophone C-Melody "Conn New Wonder - Chu Berry"
1926 + mouthpiece/bec metal alto Otto Link 7.”
DOCE
DE CHORO : Quando fala o coração
“DOCE DE CHORO : Quando fala o coração - Avena
(Heitor) de Castro Je déchiffre tous les jours en exercice un nouveau Chorinho
avec mes saxophones vintage en Ut* et je l'enregistre (photo sonore) en version
courte (phrases A-B-C-A). Cada dia, decifro em exercίcio um novo Chorinho com
os meus saxofones em C, e gravo uma versão curta (foto sonora) : frases A-B-C-A
I play and record one new Chorinho’s tune with my « C » sax, every day. Musicamistats
– Jean Pascal Leriche 1) 0'00" : Saxophone C-Melody tenor neck Buescher
True tone" gold plated 1924 2) 2'00" : Saxophone C-Melody tenor neck
"Buescher True tone" silver plated 1923 3) 4'00" : Saxophone
C-Melody alto neck "Conn New Wonder - Chu Berry" silver, and keys gold
plated 1926. 4) 6'00" :
Saxophone C-Melody tenor neck "King H.N. White Model" gold plated
1923 5) 7'50" : Saxophone C-Melody tenor neck "Holton Elkhorn"
silver, and keys gold plated 1921 + mouthpiece/bec metal alto Otto Link 7.”
Beth
Ernest Dias e Francisca Aquino | Quando fala o coração / Sábado à tarde (Avena
de Castro)
“O duo de flauta e piano formado por Beth Ernest
Dias e Francisca Aquino em 1990, apresenta um repertório abrangente, que vai do
erudito ao popular. Tendo passado por diversas cidades brasileiras, além de
turnê nos EUA, as duas gravaram o CD "A Inúbia do Cabocolinho", com
obras de compositores brasileiros e portugueses do século XX. Apresentam-se
regularmente ao lado de consagrados chorões do Clube do Choro de Brasília, Café
Cultural da Caixa, Espaço Funarte Brasília, entre outros. Formação: Beth Ernest
Dias - flauta Francisca Aquino - piano Gênero: Instrumental Show que ocorreu no
Teatro Anchieta do Sesc Consolação dia 27/06/2011”
Romanceando
- Márcia Taborda
“Choros de Paulinho da Viola (2005)
Música
Romanceando
Artista
Márcia Taborda
Álbum
Choros de Paulinho da Viola
Licenciada por
ONErpm (em nome de Acari Records) e 1 associações de
direitos musicais”
“Feitio
de Oração”: manuscrito da parceria com Vadico (1933).
“Feitio
de oração” (Vadico/Noel Rosa) # Francisco Alves/Castro Barbosa e Orquestra
Copacabana. Disco Odeon (11042-A), 1931.
Composição: Antonio Carlos Jobim / Vinícius de
Moraes
Monólogo
de Orfeu - Vinícius de Moraes
A
ILHA DOS MORTOS - pintura de ARNOLD BÖCKLIN
Mulher mais adorada! Agora que não estás, deixa que rompa o meu peito em
soluços!
Te enrustiste em minha vida; e cada hora que passa é mais porque te amar, a
hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada...
E sabes de uma coisa? cada vez que o sofrimento vem, essa saudade de estar
perto, se longe, ou estar mais perto se perto, - que é que eu sei! essa agonia
de viver fraco, o peito extravasado, o mel correndo; essa incapacidade de me
sentir mais eu, Orfeu; tudo isso que é bem capaz de confundir o espírito de um
homem - nada disso tem importância quando tu chegas com essa charla antiga,
esse contentamento, essa harmonia, esse corpo!
E me dizes essas coisas que me dão essa força, essa coragem, esse orgulho de rei.
Ah, minha Eurídice, meu verso, meu silêncio, minha música! Nunca fujas de mim!
Sem ti sou nada, Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada.
Orfeu menos Eurídice...Coisa incompreensível! A existência sem ti é como olhar
para um relógio só com o ponteiro dos minutos.
Tu És a hora, és o que dá sentido e direção ao tempo, minha amiga mais querida!
Qual mãe, qual pai, qual nada! A beleza da vida és tu, amada, milhões amada!
Ah! criatura! quem poderia pensar que Orfeu: Orfeu Cujo violão é a vida da cidade
e cuja fala, como o vento à flor, despetala as mulheres - que êle, Orfeu
ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco. Vai teu caminho que eu vou te seguindo no
pensamento e aqui me deixo rente quando voltares, pela lua cheia, para os
braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente, Vai tua vida que eu estarei contigo!
Reproduzido do livro 'Orfeu da Conceição', Vinicius de Moraes, Livraria S.
José, Rio, 1960.
Conheça, através deste pequeno resumo, a história na qual Vinicius de Moraes se
inspirou para escrever a peça "Orfeu da Conceição".
O Mito de Orfeu
Orfeu teve desgraçado fim. Depois da expedição à Cólchida, fixou-se na Trácia e
ali uniu-se à bela ninfa Eurídice. Um dia, como fugisse Eurídice à perseguição
amorosa do pastor Aristeu, não viu uma serpente oculta na espessura da relva, e
por ela foi picada. Eurídice morreu em consequência, e desde então Orfeu
procurou em vão consolar sua pena enchendo as montanhas da Trácia com os sons
da lira que lhe dera Apolo. Mas nada podia mitigar-lhe a dor e a lembrança de
Eurídice perseguia-o em tôdas as horas.Não podendo viver sem ela, resolveu ir
buscá-la nas sombrias paragens onde habitam os corações que não se enterneceram
com os rogos humanos. Aos acentos melódicos de sua lira, os espectros dos que
vivem sem luz acorreram para ouvi-lo, e o escutavam silenciosos como pássaros
dentro da noite. As serpentes, que formam a cabeleira das intratáveis Eríneas,
deixaram de silvar e o Cérbero aquietou o abismo de suas três bocas. Abordando
finalmente o inexorável Rei das Sombras, Orfeu dêle obteve o favor de retornar
com Eurídice ao Sol.
Porém seu rôgo só foi atendido com a condição de que não olhasse para trás a
ver se sua amada o seguia. Mas no justo instante em que iam ambos respirar o
claro dia, a inquietude do amor perturbou o infeliz amante. Impaciente de ver
Eurídice, Orfeu voltou-se, e com um só olhar que lhe dirigiu perdeu-a para
sempre.
As Bacantes, ofendidas com a fidelidade de Orfeu à amada desaparecida, a quem
ele busca perdido em soluços de saudade, e vendo-se desdenhadas, atiraram-se
contra êle numa noite santa e esquartejaram o seu corpo.
Mas as Musas, a quem o músico tão fielmente servira, recolheram seus despojos e
os sepultaram ao pé do Olimpo. Sua cabeça e sua lira, que haviam sido atiradas
ao rio, a correnteza jogou-as na praia da Ilha de Lesbos, de onde foram
piedosamente recolhidas e guardadas.
Excerto de "La Leyenda Dorada de los Dioses y de los Heroes", de
Mário Meunier.
Monólogo
de Orfeu
Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços!
Te enrustiste em minha vida,
e cada hora que passa
É mais por que te amar
a hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada.
E sabes de uma coisa?
Cada vez que o sofrimento vem,
essa vontade de estar perto, se longe
ou estar mais perto se perto
Que é que eu sei?
Este sentir-se fraco,
o peito extravasado
o mel correndo,
essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu;
Tudo isso que é bem capaz
de confundir o espírito de um homem.
Nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga,
esse contentamento, esse corpo
E me dizes essas coisas
que me dão essa força, esse orgulho de rei.
Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música.
Nunca fujas de mim.
Sem ti, sou nada.
Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada.
Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível!
A existência sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu és a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo,
minha amiga mais querida!
Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura!
Quem poderia pensar que Orfeu,
Orfeu cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres -
que ele, Orfeu,
Ficasse assim rendido aos teus encantos?
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho
que eu vou te seguindo no pensamento
e aqui me deixo rente quando voltares,
pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!
Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d′água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...
“[...] Ao contrário de Parmênides, Beethoven parecia
considerar o peso como algo positivo. [...] O herói de Beethoven é um
halterofilista que levanta pesos metafísicos. [...]” (Kundera, 2017, P.41)
Ludwig
van Beethoven - The Late String Quartets
Os
últimos quartetos de Beethoven – Luis Fernando Verissimo
Por
Revista Prosa Verso e Arte
A turma era apaixonada pela Livia. Todos os cinco.
Livia lhes ensinara o “twist” e o beijo de língua. Livia usava brincos numa
orelha só. Livia fora a primeira a fumar maconha e fazer tatuagem. Era Livia
quem dizia o que eles deveriam ler, pensar e fazer, e não fazer. Foi da Livia a
ideia do pacto de sangue para unir a turma até a morte. Seria um corte na palma
da mão, depois decidiram que um corte num dedo produziria o mesmo efeito e não
prejudicaria o desempenho da Livia no violoncelo. Um cortezinho no dedo, depois
apertos de mão entre todos, finalmente seis mãos entrelaçadas num só nó
sangrento, e o grito da Livia, “Até a morte!”. Mas o ritual acabara assustando
em vez de unir mais a turma. O Maurinho, por exemplo, declarara que ficara
nervoso com o sangue, que a Livia estava querendo puxar a turma para um lado
escuro, que aquela coisa de líder e discípulos estava ficando séria demais, que
eles não eram, afinal, apenas “a turma da Livia”, como os chamavam na escola,
obrigados a seguir suas loucuras. Depois do pacto os cinco começaram a se
distanciar, da Livia e uns dos outros. Continuavam indo a todas as
apresentações de violoncelo da Livia e depois se reunindo no bar do seu
Antonio, onde a Livia tomava cerveja preta com grapa para, como ela dizia,
trazer de volta à Terra o espírito elevado pela música antes que ele evaporasse
nas alturas. E a cara dos cinco ouvindo a Livia tocar violoncelo continuava
sendo de adoração. “Embasbacados” era como o Lorival os descrevia. Os
embasbacados da Livia. Mas o domínio da Livia sobre eles estava indo longe
demais. O Maurinho foi o primeiro a desaparecer por completo depois do pacto de
sangue. O Magro, o último. Suspeitava-se que o Magro era o único da turma que
transara com a Livia e foi ele o último a acompanhar suas apresentações de
violoncelo e depois ir beber, só os dois, no bar do seu Antonio, onde uma noite
a Livia lhe dissera “Você também está dispensado”, decretando o fim oficial da
amizade eterna. No fim não ficara nada da amizade, nem um vestígio, nem uma
cicatriz, já que não tinham cortado a palma da mão. Foi cada um para um lado,
sem saber que caminho obscuro levara Livia para longe deles, para outro
Universo. Um dia, anos depois da formatura, anos depois do pacto, Maurinho
encontrou-se com o Magro por acaso e perguntou se ele sabia por onde andava a
Livia. O Magro não sabia. Não via mais nem seu nome no noticiário da música na
cidade. Livia volatizara-se. Os dois brindaram a Livia batendo suas xícaras de
cafezinho e dizendo “Linda!” “Linda!”. E que fim teria levado o resto da turma?
Maurinho se comprometeu a reuni-los, se conseguisse localizá-los, para
relembrar os velhos tempos. Talvez alguém tivesse notícia da deusa
desaparecida. A verdade era que ninguém sabia muito a respeito dela mesmo
quando se viam todos os dias. Ela era linda, ela lhes ensinava tudo o que sabia
e eles não sabiam, mas nunca convidara a turma a subir ao seu apartamento
quando iam buscá-la ou levá-la em casa, nem contara muito da sua família e da
sua vida quando não estava com eles. Não sabiam onde ela conseguia maconha, e
de onde tirava os livros que emprestava a quem prometesse lê-los e devolvê-los.
Ela não contava e eles não perguntavam. Todos se contentavam em adorá-la sem
fazer perguntas. Livia era Livia, as divindades não precisam contar os detalhes
banais da sua existência. As divindades não precisam ter vida doméstica. Depois
do encontro com Maurinho, Magro decidiu fazer o que deveria ter feito antes,
investigar o desaparecimento da Livia, o que seria um pouco como investigar seu
próprio passado. Estava entre empregos, tinha tempo de sobra. Ele também se
assustara com o ritual de sangue, com o caminho que estava tomando aquela
amizade, com a profundeza para a qual a Livia parecia querer atraí-los. Agora,
anos depois, poderia encontrar a Livia sem medo, conviver com o mito sem o
perigo de ser tragado pelo sumidouro. Procurou o edifício em que Livia morava.
O porteiro ainda era o mesmo e se lembrava, sim, deles e da dona Livia, que
vivia no quarto andar com o pai e a mãe. A mãe, dona Vitória, tocava piano. A
mãe se suicidara. O pai, o porteiro não sabia. O seu José raramente saía de
casa. Depois da morte da mulher tinha se mudado. Deixara tudo no apartamento do
quarto andar, inclusive o piano da mulher. Mas não os livros, que levara para o
novo endereço, caixas e caixas de livros. Não, o porteiro não sabia qual era o
novo endereço. A dona Livia? O porteiro também nunca mais a vira. Gostava dela,
apesar das suas esquisitices, das suas roupas malucas, dos brincos numa orelha
só, do véu rendado que cobria o seu rosto quando ela saía à rua depois da
escola. Magro deu uma risada. O véu! Ele se esquecera do véu. Quando Maurinho
conseguiu reunir a turma, menos o Lorival, que fora viver em Curitiba, a
primeira coisa que o Magro perguntou foi se todos se lembravam do véu.
— O véu! O que era mesmo que ela dizia? Que era para
proteger não o seu rosto do sol, mas os outros da luminosidade do seu rosto.
Uma luminosidade de santa.
— Dizia que não queria queimar a retina de ninguém.
— Agora estou me lembrando, ela dizia que tinha saído de um quadro do, como era
mesmo?
— Boticelli. Era uma virgem luminosa do Boticelli.
— Metade do que ela dizia eu não entendia.
— Mas ela era linda.
— Ah, era.
— E você, Magro? Dormiu com ela ou não dormiu?
— Tá doido.
— Conta, Magro.
— Não pintou nada. Eu sou louco?
O Magro poderia dizer que chegara à beira do sumidouro, mas recuara. Não era
louco.
— E vocês se lembram do pacto de sangue?
— O pacto de sangue… Até hoje eu não entendi o que ela queria com aquilo.
— O que ela esperava de nós…
O Magro contou que na última vez em que estivera com Livia ela dissera que ele
estava dispensado. Tinha a permissão dela para também desaparecer, como os
outros. Se a “turma da Livia” tinha uma missão a cumprir, tinha fracassado.
Estavam todos dispensados. Livia desistira deles.
— Que fim terá levado?
Magro contou o pouco que sabia. O suicídio da mãe pianista, as caixas e caixas
de livros do pai. E só. Também fracassara como investigador. Por ironia, foi
Maurinho, o primeiro desertor, quem descobriu onde estava Livia. Por acaso. O
primo de uma técnica em enfermagem que trabalhava numa clínica psiquiátrica
contara que na clínica havia uma louca que tocava um violoncelo imaginário, e
poderia ser a Livia. Alguém deveria ir visitá-la, para ter certeza. Só o Magro
se animou. A clínica ficava num antigo casarão pintado de verde. Mesmo depois
de tanto tempo, o Magro reconheceu o perfil da Livia, sentada perto de uma
grande janela numa sala vazia e ensolarada. Não teve um choque com sua velhice,
com seus cabelos desgrenhados ou com seu camisolão branco de tecido barato. Mas
quase parou, emocionado, quando ela virou o rosto e viu que ele se aproximava,
e sorriu — o sorriso era o mesmo! — e disse seu nome: “Felipe!” Ela se lembrava
do seu nome! Ele curvou-se para beijá-la mas não conseguiu dizer uma palavra.
Ela segurou sua mão e perguntou: “Como vão vocês?” Ele ainda demorou antes de
poder dizer “Bem, bem” e depois mentir: “Todos mandam lembranças.” Depois ele
foi buscar uma cadeira para sentar-se ao seu lado e ela pegou sua mão entre as
suas outra vez e repetiu: “Felipe!” E disse que ele decididamente não podia
mais ser chamado de Magro, e os dois riram, e o Magro teve que se controlar
para que a risada não desandasse em choro. Perguntou se ela estava sendo bem
tratada, se estava bem, se precisava de alguma coisa, e ela respondeu que
estava ótima. Que tinha tudo que precisava. E tinha a sua música.
— Seu violoncelo está aqui?
— Não. Eles não deixaram. O que não quer dizer que eu não toque todos os dias.
E quando acabou de rir, ela disse:
— Até formei um quarteto de cordas. Ensaiamos sempre. Cada um com seu
instrumento invisível, imagine só. Não é uma coisa de louco?
— São todos músicos?
— Não! A única música nesta casa sou eu. Os outros só fingem. Mas estamos
progredindo. Vamos até dar um recital. Música para surdos, o que você acha?
Vamos tocar exatamente o que Beethoven ouvia: nada. A sua música interna, a
música da sua cabeça, um silêncio inconspurcado por sons. In-cons-pur-cado. O
que você acha? Música sem a música para atrapalhar.
O Magro embasbacado.
Ela continuou:
— Lembra dos últimos quartetos de corda do Beethoven? Ninguém entendia o que
ele queria dizer com aquilo, com aquela confusão, aquela quase cacofonia. Eu
estou lhe aborrecendo?
— Não, não. Eu…
— Era diferente de tudo que Beethoven tinha feito até então. Ninguém entendia.
Um pouco como o véu preto que eu usava para tapar o rosto, lembra? O que era
aquilo? Loucura, só loucura. Era o que todo o mundo pensava.
— Nós não.
— Vocês também.
— Nós só achávamos… estranho.
— Era o que todo o mundo pensava dos últimos
quartetos de Beethoven. Uma excentricidade. Uma coisa que não era para ser
entendida, a não ser por ele mesmo, na sua reclusão de surdo. Mas não era isso.
Os críticos também se enganaram. Mais tarde disseram que Beethoven estava,
conscientemente, mudando o rumo da música. Que estava inaugurando a música
moderna. Que o Beethoven dos últimos quartetos era o precursor direto de
Schoenberg, de Stravinski, de Bela Bartok. E não era nada disso. Os quartetos
não estavam começando nada, estavam terminando. Beethoven estava não só
acabando com o período clássico como dizendo que a música racional não tinha
mais para onde ir, que a própria racionalidade chegara ao fim. Ele mesmo não
tinha mais para onde ir no mundo, a não ser para o seu exílio interior, para a
sua loucura. A verdade é que os últimos quartetos de Beethoven não foram os
últimos. Foram os penúltimos. Os últimos são os que nós tocamos. Ou fingimos
que tocamos. Você quer ouvir?
— Como?
— Fique aqui. Daqui a pouco vamos ensaiar. No fim do dia. Agora me conte de
vocês…
Naquela noite o Magro relatou a visita à Livia ao Maurinho. Contou que ao
entardecer tinham chegado os outros três membros do quarteto, cada um
arrastando uma cadeira e segurando um instrumento imaginário. E tinham começado
a fingir que tocavam, parando a intervalos para ouvir as correções e direções
da Livia. Eram dois senhores e uma moça, todos de camisolão igual ao dela.
Parecia um congresso de anjos. O apelido deles na clínica era “a turma da
Livia”.
E o Magro contou que nunca vira uma expressão de felicidade como a do rosto da
Livia tocando seu violoncelo invisível. Estava em outro Universo.
— Ela continua bonita?
— Linda. E o sorriso é o mesmo.
— Ela perguntou pela turma?
— Perguntou, perguntou. Queria saber tudo a nosso respeito.
Mas o Magro não disse ao Maurinho que se esforçara para encontrar alguma coisa
para contar da turma. Algum sucesso profissional, alguma grande alegria, alguma
notícia, por medíocre que fosse, que justificasse terem escolhido ficar no
Universo de cá. E que, não encontrando nada para dizer, o Magro se vira,
idiotamente, como se aquilo resumisse os feitos dos cinco, contando que o
Lorival se mudara para Curitiba.
— Luis Fernando Verissimo, no livro “Os últimos
quartetos de Beethoven e outros contos”. 1ª ed., Rio de Janeiro: Objetiva,
2013.
Saiba mais sobre Luis Fernando Verissimo:
Luis Fernando Verissimo – o cronista