terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Eixo do mundo em desalinho


Moendo sonhos


Servindo para ser virtuoso no devir.

Realidades, interpretações e metáforas infinitas


Como destacou o americano Marshall Berman, em Aventuras no marxismo: “O que torna 'O capital' tão fascinante é que, mais do que qualquer outra coisa que Marx tenha escrito, o livro traz à tona sua visão da vida moderna como totalidade. Essa visão está espalhada sobre uma imensa tela: mais de mil páginas só no primeiro volume; centenas de personagens – mineiros e meeiros, donos de loja e donos de moinho, poetas e panfletistas, médicos e religiosos, pensadores e políticos, anônimos de mundialmente famosos – falando com voz própria”.


Examinando o mundo de Cartola

Um samba (e uma aula) de Cartola para entender a metáfora
Professor Diogo Arrais usa a canção de Cartola, "O Mundo é um Moinho", para explicar a metáfora
Por Editado por Camila Pati
access_time2 jun 2015, 14h03


 Partitura:" Cartola usou o recurso da figuratividade para eternizar seus sentimentos"  (Ryan McVay/Thinkstock/)

* Escrito por Diogo Arrais, professor de Língua Portuguesa do Damásio Educaional

Angenor de Oliveira, compositor fluminense, mais conhecido como Cartola, é um dos raros seres que vivifica a metáfora; que dá vida à transposição do sentido próprio ao sentido figurado.

Já no título da canção “O Mundo é um Moinho”, percebe-se a fundamentação da relação de semelhança subentendida entre o “mundo” e o “moinho”. O moinho de Cartola não tritura qualquer coisa; tritura sonhos de um alguém que se ilude na vida.

Com o vocativo “amor” – função sintática do chamamento devidamente separado por vírgula – ele implora:

“Ainda é cedo, amor / Mal começaste a conhecer a vida / Já anuncias a hora da partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar”

Gravados com sincronizados violão, cavaquinho e flauta, os versos (aqui em meus singelos comentários também metafóricos) pedem com lágrimas; é um genuíno samba em tom de súplica.

Sentindo o mais fundo dos amores, toma Cartola o moinho como “amigo” visual. Graças à metáfora, versos dizem em tom implorativo:

“Ouça-me bem, amor / Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos / Vai reduzir as ilusões a pó”

Quase aos últimos segundos musicais, o compositor professa para um alguém que está a se aventurar:

“Quando notares estás à beira do abismo / Abismo que cavastes com teus pés”

Por meio do gentil acento grave, denota o poeta a localidade feminina (à beira do abismo) para, mais uma vez, advertir. Não é um abismo qualquer, mas um abismo cavado por próprias decisões (representadas lá pelos pés).

Como ser humano que muito amou, Cartola usou o recurso da figuratividade para eternizar seus sentimentos e deixar-nos o Texto para a vida.

Eterno Cartola!



"(...) O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação." Carlos Drummond de Andrade





E foi Cartola quem nos lembrou que o mundo é um moinho…
Posted on novembro 1, 2017 by Tribuna da Internet
Paulo Peres
Site Poemas & Canções
O cantor e compositor carioca Angenor de Oliveira (1908-1980), mais conhecido como Cartola, considerado por diversos músicos e críticos como o maior sambista da história da música brasileira, ao compôr “O Mundo é um Moinho” originou algumas discussões sobre o significado da letra. Segundo alguns críticos, Cartola teria feito essa música para sua enteada, filha de Dona Zica, que teria o propósito de sair de casa para se prostituir. Ao ouvir os versos escritos pelo mestre, percebe-se o quão plausível pode ser essa versão da lenda. Contudo, há quem defenda que a letra de seja mesmo para a enteada, mas motivada por uma decepção amorosa.
O samba “ O Mundo é um Moinho” foi gravado no LP Cartola, em 1976, pela RCA.

O MUNDO É UM MOINHO
Cartola
Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés


Cartola, no moinho do mundo

Carlos Drummond de Andrade
100 anos: 1902-2002



Drummond: na praia, em pose que virou estátua em Copacabana
 

A crônica ao lado não está em nenhum livro de Drummond. É um tributo ao compositor mangueirense Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980), e tem uma história curiosa. Foi publicada no Jornal do Brasil em 27/11/1980, três dias antes da morte do criador de "As Rosas Não Falam".
Ao saber que Cartola estava doente, Drummond decidiu escrever-lhe uma homenagem. "Em seus derradeiros momentos de lucidez, em sua cama no hospital, Cartola ainda pôde lê-la, transformando-a em sua última felicidade", conta o jornalista e pesquisador musical Arley Pereira, autor do livro Cartola – 90 Anos.

Embora reservado e totalmente avesso às freqüentações públicas, Drummond acompanhava com grande interesse as manifestações da cultura popular, o que pode ser claramente observado nesta crônica.

Ele também ficou muito satisfeito, em 1980, quando Martinho da Vila (com Rodolfo de Souza e Tião Graúna)
compôs para a escola da Vila Isabel o samba-enredo "Sonho de um Sonho", baseado em poema homônimo de sua autoria (de Claro Enigma, 1951).

                           •
Neste 20 de novembro, dia do herói Zumbi dos Palmares, com esta crônica em que Drummond evoca os grandes Cartola, Pixinguinha e Carlos Cachaça, estendo a homenagem a todos os artistas negros do país ― sem esquecer, já que nosso foco é o texto, o mestre Machado de Assis.
                           •
Mais uma vez, todos nós ficamos em débito com a colega jornalista Marta Alves, por ter desentranhado das névoas do passado esta delícia de crônica.


Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.

Eu fiz o ninho.
Te ensinei o bom caminho.
Mas quando a mulher não tem brio,
é malhar em ferro frio.

Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).

Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:

Com a mesma roupagem
que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent
no Itamaraty.

Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

* * *

Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.




Drummond: 100 anos
Carlos Machado, 2002
Carlos Drummond de Andrade
In Jornal do Brasil
27/11/1980
© Graña Drummond




Cartola e seu Pai – O Mundo é um Moinho






Cartola
Cantor e compositor brasileiro
Por Dilva Frazão
Biografia de Cartola
Cartola (1908-1980) foi cantor e compositor brasileiro. "As Rosas Não Falam", música e letra de sua autoria, um clássico do samba, foi escrita quando cartola tinha 67 anos.
Cartola (1908-1980) nasceu no Rio de Janeiro, no dia 11 de outubro de 1908. Passou sua infância no bairro de Laranjeiras. Só estudou o curso primário. Mudou-se para o Morro da Mangueira, onde começou a frequentar a vida boêmia e as rodas de samba. Tocava violão e cavaquinho.
Com quinze anos trabalhou como tipógrafo e pedreiro. Durante esse período usava um chapéu, o que lhe valeu o apelido de Cartola. Em 1926, com dezoito anos foi expulso de casa, pelo pai, indo morar sozinho num barraco e depois foi viver com Deolinda.
Cartola foi um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, tendo sugerido o nome da escola e as cores, verde e rosa. O primeiro samba da escola é de sua autoria "Chega de Demanda". Foi no morro da Mangueira que conheceu Carlos Cachaça, seu parceiro em vários sambas. Na década de 30, Carmem Miranda, Sílvio Caldas, Araci de Almeida e Francisco Alves, foram grandes interpretes de suas músicas.
É impossível falar de samba sem falar em Cartola. Autor de sambas inesquecíveis como "As Rosas não Falam", "O Mundo é um Moinho", "O Sol Nascente", “Luz Negra” e “Rugas”. Com a morte de Deolinda, Cartola deixa o morro da Mangueira e se afasta do meio musical. Passa sete anos vivendo como lavador de carro e vigia.
Em 1956, resgatado pelo jornalista Sérgio Porto, Cartola volta a compor. Encontra Dona Zica e juntos abrem um restaurante Zicartola, que foi um dos mais importantes pontos de encontro entre o samba tradicional e a música que despontava na Zona Sul do Rio. Quem passasse pelo restaurante podia ouvir Tom Jobim ao violão. Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Clementina de Jesus, entre outros.
As composições de Cartola voltam a ser gravadas. Nara Leão lança “O Sol Nascerá” (1964), Elizeth Cardoso grava “Sim na Copacabana” (1965). Em 1968 classificava “Tive, Sim”, na Bienal do Samba, realizada em São Paulo. Depois de alguns anos o Zicartola fechou as portas. Juntos, Cartola e Zica voltaram a sua vida comum. Em 1970 cartola foi convidado como anfitrião de um show semanal no prédio da extinta União Nacional dos Estudantes, no Flamengo e o nome do espetáculo mostrava a importância do sambista: “Canta Cartola”.
Angenor de Oliveira morreu no Rio de Janeiro, no dia 30 de novembro de 1980.



“E vai também a partitura no tom que minha aluna canta:”






Postado por VANESSA NUNES



Referências

https://www.uai.com.br/app/noticia/pensar/2013/04/20/noticias-pensar,141784/um-livro-capital.shtml
https://abrilexame.files.wordpress.com/2016/09/size_960_16_9_musica6.jpg?quality=70&strip=info&resize=680,453
https://exame.abril.com.br/carreira/uma-aula-de-cartola-para-entender-a-metafora/
http://www.tribunadainternet.com.br/e-foi-cartola-quem-nos-lembrou-que-o-mundo-e-um-moinho/
http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond34.htm
https://youtu.be/L8U1Y9PBfig
http://mundovelhomundonovo.blogspot.com.br/2016/09/yira-yira.html
https://www.ebiografia.com/cartola/
http://4.bp.blogspot.com/-ivlmojS4HtE/UUtTSFLYu3I/AAAAAAAABFQ/v4L2dMbWU9Y/s320/O+mundo+%C3%A9+um+moinho-+Cartola.jpg
http://cantarf.blogspot.com/2013/03/o-mundo-e-um-moinho-cartola.html



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