terça-feira, 3 de março de 2026

Entre a Ampulheta e o Algoritmo: o Brasil que cresce para fora e o desafio de se reinventar por dentro

SUBTÍTULO PIB de R$ 12,7 trilhões revela força exportadora e limites estruturais do mercado interno; em paralelo, a revolução da inteligência artificial impõe uma estratégia de adaptação produtiva, educacional e institucional para evitar que o crescimento econômico se torne insuficiente diante da transformação tecnológica. RESUMO (ABSTRACT) O crescimento de 2,3% do PIB brasileiro em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirma a resiliência da economia e a força de seu setor exportador, especialmente agropecuária e petróleo. No entanto, a desaceleração da indústria de transformação, o investimento ainda moderado e a percepção persistente de carestia evidenciam limites estruturais na capacidade de o crescimento se traduzir em melhora ampla do poder de compra e da qualidade do emprego. O artigo analisa essa tensão — um país que se projeta externamente enquanto enfrenta desafios internos de diversificação produtiva e distribuição de renda — e a conecta a um segundo vetor decisivo: a aceleração da inteligência artificial. À luz da advertência de Yuval Noah Harari, publicada no The New York Times, argumenta-se que a adaptação ampla — combinando competências intelectuais, socioemocionais e práticas — torna-se elemento estratégico tanto para indivíduos quanto para a própria estrutura econômica nacional. Entre expansão externa, restrições internas e incerteza tecnológica, o desafio brasileiro deixa de ser apenas crescer e passa a ser transformar crescimento em desenvolvimento sustentável, socialmente disseminado e tecnologicamente preparado para o futuro.
Crescer para fora, apertar por dentro? O PIB de R$ 12,7 trilhões e a vida concreta do país Ilustração: a economia brasileira representada como uma ampulheta. Na parte superior, exportações, petróleo e agro; na inferior, consumo pressionado, preços elevados e famílias ajustando o orçamento. O Brasil encerrou 2025 com crescimento de 2,3% e um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 12,7 trilhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em termos per capita, a renda média anual alcançou R$ 59.687,49, com alta real de 1,9%. O número é positivo. Indica que a economia produziu mais do que no ano anterior. Não há recessão, nem estagnação formal. Mas a pergunta que atravessa a estatística e chega ao cotidiano é outra: esse crescimento mudou a vida concreta de quem trabalha, consome e paga contas todos os meses? A imagem que acompanha este artigo sintetiza uma tensão estrutural. Na parte superior da ampulheta, vê-se o Brasil exportador: grãos, petróleo, navios carregados, moedas acumuladas. Na parte inferior, o país da renda comprimida, do supermercado mais caro, do combustível instável, do orçamento doméstico ajustado. Entre uma parte e outra, um estreitamento: a passagem do crescimento agregado para o bem-estar cotidiano. Não se trata de oposição simplista entre “economia real” e “números oficiais”. Trata-se de observar a composição do crescimento. O motor externo permanece forte O principal destaque de 2025 foi a agropecuária, com expansão de 11,7%. Soja e milho registraram produções recordes. A extração de petróleo também avançou. As exportações de bens e serviços cresceram 6,2% no ano e 14,2% no quarto trimestre frente ao mesmo período de 2024. O Brasil mostrou, mais uma vez, alta competitividade na produção de commodities. Vendeu mais ao exterior, gerou divisas, sustentou parte relevante do desempenho macroeconômico. Esse movimento confirma uma característica histórica: o país é altamente eficiente quando se trata de produzir e exportar recursos naturais em larga escala. É uma vantagem comparativa consolidada. Mas o crescimento puxado por commodities possui limites conhecidos. Ele depende de preços internacionais, de ciclos externos e de condições climáticas. E, sobretudo, não garante, por si só, expansão ampla do emprego urbano ou aumento proporcional da renda do trabalho. A engrenagem interna cresce menos Enquanto o campo avançou com vigor, a indústria de transformação recuou 0,2% no acumulado do ano e caiu 2,0% no quarto trimestre na comparação anual. A construção civil perdeu fôlego no fim do ano. O investimento total da economia — medido pela formação bruta de capital fixo — ficou em 16,8% do PIB, praticamente estável e abaixo de patamares observados em economias emergentes que crescem de forma mais acelerada. Investimento é o que amplia a capacidade produtiva futura: novas fábricas, máquinas, infraestrutura, tecnologia. Quando ele cresce pouco, o potencial de expansão estrutural também se mantém contido. O consumo das famílias avançou 1,3%, bem menos que os 5,1% registrados em 2024. O dado ajuda a explicar a percepção difusa de desaceleração no cotidiano. A economia cresceu, mas em ritmo insuficiente para produzir uma sensação generalizada de prosperidade. No quarto trimestre, o PIB praticamente ficou estável em relação ao trimestre anterior (alta de 0,1%). O investimento caiu 3,5% nessa comparação. O consumo das famílias ficou parado. O dinamismo perdeu intensidade ao longo do ano. Crescimento médio, impactos desiguais O PIB é um indicador agregado. Ele informa o volume total produzido, não a forma como essa produção se distribui entre setores, regiões ou estratos sociais. A inflação, por exemplo, afeta grupos de maneira diferente. Famílias de renda mais baixa destinam parcela maior do orçamento a alimentação, transporte e energia — itens frequentemente mais voláteis. Mesmo com controle da inflação média, a percepção de carestia pode permanecer elevada para parte significativa da população. Além disso, setores como agropecuária moderna e extração de petróleo são intensivos em capital e tecnologia, mas não necessariamente em emprego de massa. Podem gerar grande valor adicionado sem multiplicar postos de trabalho urbanos na mesma proporção. Esse descompasso ajuda a entender a distância entre o crescimento estatístico e a experiência cotidiana. Juros, crédito e limites do mercado interno A política monetária restritiva adotada para conter a inflação teve efeitos esperados: desacelerou o crédito e reduziu o ritmo do consumo. Juros mais altos encarecem financiamentos e afetam decisões de investimento empresarial. O resultado é uma economia que cresce, mas com menor tração doméstica. O setor externo sustenta parte relevante do avanço, enquanto o mercado interno opera em compasso mais cauteloso. Esse padrão não configura crise. Mas indica dependência relativamente elevada de poucos motores de expansão. Estrutura produtiva e horizonte de desenvolvimento O desempenho de 2025 reforça um traço estrutural: forte inserção internacional baseada em commodities e desempenho mais modesto na indústria de transformação. Economias que conseguem combinar competitividade no setor primário com base industrial robusta e alta taxa de investimento tendem a apresentar crescimento mais disseminado e sustentável. O Brasil demonstra capacidade produtiva significativa, mas enfrenta o desafio de ampliar sua complexidade econômica. Não se trata de negar os méritos do agronegócio ou da indústria extrativa, mas de observar que o desenvolvimento envolve diversificação produtiva, inovação tecnológica e integração mais profunda entre setores. Entre o número e a vida concreta A frase que inspira esta reflexão — “o Brasil cresce para fora, aperta por dentro” — não é um juízo moral, mas uma hipótese interpretativa. Crescer para fora significa ampliar exportações, consolidar posição internacional, fortalecer contas externas. Apertar por dentro significa crescimento insuficiente do mercado interno, investimento contido, renda pressionada e percepção persistente de carestia. A imagem da ampulheta traduz essa tensão: no topo, o fluxo de riqueza gerado pelo setor exportador; na base, a filtragem lenta desse crescimento até alcançar o consumo e o bem-estar das famílias. Transformar crescimento em desenvolvimento exige que o fluxo não se estreite no meio. Exige maior taxa de investimento, expansão da produtividade, geração de empregos qualificados e estabilidade de renda. O PIB de R$ 12,7 trilhões confirma que o Brasil é uma economia grande e relevante. O crescimento de 2,3% confirma que não houve retração. Mas o desafio permanece: converter expansão quantitativa em transformação qualitativa. Entre estatística e cotidiano existe uma ponte estrutural. Em 2025, ela avançou — mas ainda não na velocidade capaz de alterar de forma ampla a experiência diária da maioria. O país cresceu. A questão central é como fará esse crescimento atravessar a ampulheta e chegar, de maneira mais ampla e consistente, à vida concreta.
Yuval Noah Harari defende adaptabilidade diante das incertezas da inteligência artificial Por ocasião de artigo publicado no The New York Times O historiador israelense afirmou que a humanidade enfrenta um momento inédito de incerteza quanto ao futuro do trabalho e das relações sociais em razão do avanço da inteligência artificial. A questão não é apenas quais setores crescerão, mas como as próprias bases do mercado de trabalho poderão se reorganizar. 📌 Versão em Português “Esta é a primeira vez na história em que ninguém tem ideia de como o mundo será daqui a dez anos — como será o mercado de trabalho, como serão as relações sociais, e assim por diante. Portanto, diversifique seus riscos. Não foque apenas em uma área restrita, como programação. Dê igual importância à sua mente (habilidades intelectuais), ao seu coração (habilidades sociais) e às suas mãos (habilidades práticas). É na combinação dessas três dimensões que os humanos ainda mantêm uma grande vantagem sobre a inteligência artificial.” 📌 English Version “This is the first time in history that nobody has any idea what the world will look like in 10 years — what the job market will look like, what social relations will look like, and so on. So hedge your bets. Don’t focus on a narrow subject like coding. Give equal importance to your head (intellectual skills), your heart (social skills), and your hands (motor skills). It is in the combination of these three that humans still have a large advantage over AI.” Nota editorial A declaração reforça um ponto que dialoga diretamente com o cenário econômico descrito ao longo deste artigo. Se o Brasil enfrenta o desafio de transformar crescimento quantitativo em desenvolvimento estrutural, indivíduos e instituições enfrentam desafio semelhante no plano tecnológico: não basta especialização estreita; é necessária formação ampla, adaptável e capaz de combinar competência técnica, inteligência social e habilidades práticas. Em um ambiente econômico marcado por crescimento concentrado, investimento ainda limitado e rápida transformação tecnológica, adaptabilidade deixa de ser virtude abstrata e passa a ser estratégia concreta. Síntese final O Brasil cresceu 2,3% em 2025. A estrutura desse crescimento revela avanços e limites. E o ambiente tecnológico global adiciona uma camada adicional de incerteza. Entre expansão externa, desafios internos e transformação digital acelerada, a variável estratégica comum é clara: capacidade de adaptação — institucional, produtiva e individual. Crescimento é dado estatístico. Desenvolvimento é construção histórica. E adaptação, hoje, tornou-se condição de sobrevivência econômica.

O Voto Não Revoga a Dignidade

Direito e Razão: Teoria do Garantismo Penal por Luigi Ferrajoli (Autor) "Nenhuma maioria, nem mesmo a unanimidade, pode legitimar a violação de direito fundamental." Luigi Ferrajoli A parte crítica, repito, não é menos importante do que a construtiva. Uma e outra se apoiam e se justificam reciprocamente. Não é casual que, naSífjágrnas finais, Ferrajoli cite com honra o "precioso pequeno livro" de Jhering, A luta pelo direito, no qual a luta pelo direito se apresenta como um dever para nós mesmos e para os demais. Não é por acaso que nas mesmas páginas se recupere com honra o princípio da "garantia social", enunciado no art. 23 da Constituição francesa de 1793, definida como a "ação de todos para assegurar a cada um o gozo e a conservação de seus direitos". Paradoxalmente, para concluir, até mesmo o mais perfeito sistema do garantismo não pode encontrar em si mesmo sua própria garantia e exige a intervenção ativa por parte dos indivíduos e dos grupos na defesa dos direitos que, ainda quando se encontrem normativamente declarados, nem sempre estão definitivamente protegidos. íTiirim) junho de 1989. NORBERTO BOBBIO
Marcelo Cerqueira, advogado de presos políticos e deputado Publicado em 03/03/2026 - 06:51 Luiz Carlos Azedo Brasília, Congresso, Eleições, Justiça, Memória, Militares, Partidos, Política, Política, Rio de Janeiro, Segurança, Violência O ex-parlamentar foi um dos principais advogados de perseguidos da ditadura militar do Rio de Janeiro e protagonizou no Congresso a campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela A história da redemocratização brasileira não pode ser contada sem referência a Marcelo Cerqueira, um dos mais combativos advogados e parlamentares do período autoritário. Militante da causa democrática, notabilizou-se por sua atuação jurídica em defesa de perseguidos políticos e pela presença destacada na campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”, que percorreu o país conclamando a sociedade à reconciliação nacional.
BORA COMEÇAR MEU POVO! Letícia Damasceno, âncora do Integração Notícia, em registro desta terça-feira, 03 de março de 2026. À frente do matinal da TV Integração Juiz de Fora desde setembro de 2025, a jornalista tem se destacado pela sensibilidade e conexão direta com a Zona da Mata, especialmente após a cobertura emocionante das chuvas no Jardim Natal. Além da bancada, Letícia segue dando voz às periferias através do quadro "Fala Comunidade".
A frase sintetiza uma das ideias centrais do garantismo de Luigi Ferrajoli: os direitos fundamentais não se submetem ao voto. Não são concessões do Estado. Não dependem de consenso. São limites ao poder. Ferrajoli desenvolveu essa tese em Direito e Razão, obra que marca o pensamento jurídico contemporâneo. O livro nasceu nos anos de chumbo na Itália, quando o sistema penal foi instrumentalizado para combater a violência política dos anos 1970. A tese central é simples e radical: nenhuma emergência, nenhum clamor popular, nenhuma unanimidade justifica violar direitos fundamentais. Porque quando esses direitos cedem diante da vontade majoritária, o que sobra não é democracia. É tirania com votos.
segunda-feira, 2 de março de 2026 Quem pode investigar quem? Por Carlos Pereira O Estado de S. Paulo A intervenção do Supremo em CPI desafia os contornos práticos da separação de poderes Quando a interferência do Supremo Tribunal Federal na política é indevida? A pergunta não é retórica. Ela ganha concretude quando o Judiciário intervém no funcionamento de uma Comissão Parlamentar de Inquérito – instrumento clássico de controle político exercido por minorias parlamentares. Uma CPI é, muitas vezes, o que resta a uma minoria legislativa para fiscalizar governos, expor condutas potencialmente ilícitas e produzir informação qualificada. Em democracias ancoradas no princípio da separação de poderes, trata-se de mecanismo legítimo de controle. Paradoxalmente, porém, raramente uma CPI consegue impor perdas políticas reais a governos. A maioria parlamentar tende a esvaziar investigações inconvenientes. Por isso mesmo, a Constituição protege o direito de minorias instaurarem CPIs desde que preenchidos requisitos formais. Uma vez instalada, a comissão não é estática. Ao longo das investigações, fatos novos surgem, conexões inesperadas aparecem e o escopo original pode ser ajustado. A dinâmica investigativa não é linear. CPIs não são peças processuais imutáveis; são arenas políticas de produção de informação. Foi nesse contexto que a CPI do Crime Organizado redirecionou seus trabalhos e passou a investigar o Banco Master. Aprovou a quebra de sigilos da empresa Maridt Participações, pertencente ao ministro Dias Toffoli e seus irmãos. O ministro Gilmar Mendes anulou a decisão sob o argumento de desvio de finalidade e abuso de poder. A questão central não é se o Supremo pode controlar atos de uma CPI. Pode – e deve – quando há violação de direitos fundamentais ou extrapolação constitucional. O Judiciário é guardião das garantias individuais, inclusive contra abusos parlamentares. O problema surge quando o controle deixa de ser jurídico e passa a definir o alcance político da investigação. Se qualquer adaptação do objeto for tratada como desvio, o instrumento perde elasticidade – e efetividade. O risco é transformar controle judicial em veto antecipado. É evidente que CPIs podem ser instrumentalizadas politicamente. Mas essa é precisamente sua natureza: são instrumentos políticos de investigação. O filtro contra abusos não pode ser a supressão prévia da apuração, mas a exigência de fundamentação adequada, respeito ao devido processo e proporcionalidade nas medidas adotadas. O STF está protegendo direitos ou delimitando o alcance da fiscalização parlamentar? A resposta não define apenas o destino da CPI do Master. Ela ajuda a estabelecer os contornos práticos da separação de poderes no Brasil contemporâneo. • RODA VIVA | ALESSANDRO VIEIRA | 02/03/2026
segunda-feira, 2 de março de 2026 Segredo judicial, uso e abuso, por Demétrio Magnoli O Globo A aparente parceria Toffoli-Moraes espalha um rastro de suspeita sobre toda a paisagem Nos sistemas democráticos, a sociedade deposita confiança extrema nas autoridades encarregadas de gerenciar a Justiça. A prova encontra-se no instituto do segredo judicial. Aceitamos que elas detenham informações temporariamente vedadas a nós — concordamos com uma radical assimetria de poder. A implicação: vandalizar o privilégio do monopólio da informação é uma traição maior de confiança. O STF envereda por esse caminho, sob a alegação paradoxal de que vivemos em excepcionalidade permanente. O segredo de Justiça tem diversas finalidades, como proteger as investigações contra interferências dos acusados e preservar a identidade das vítimas de certos crimes repugnantes. Serve, ainda, no caso desse tipo de crimes, para evitar a exposição pública de suspeitos não declarados réus. As manipulações do segredo no inquérito 4.781, das fake news, e na efêmera relatoria de Toffoli à frente do caso Master cumprem outras funções, que são ilegítimas. O inquérito das fake news, instituído de ofício pelo STF e sem sorteio de relatoria, nasceu como excepcionalidade, nos idos de março de 2019. Sob o pesado manto do segredo, censurou reportagem de uma revista, derrubou um número desconhecido de perfis de redes sociais e prolongou-se no tempo, englobando uma vasta coleção de casos sem conexão direta com o objeto original. A emergência criada pela conspiração golpista do bolsonarismo, justificativa oferecida pelo plenário do tribunal, esgotou-se com a transformação dos investigados em réus, há quase um ano — mas o inquérito prosseguiu. Seu desdobramento mais recente foi a imposição de medidas cautelares contra auditores da Receita Federal, seguida pela abertura de investigação contra Kleber Cabral, presidente da entidade de classe dos auditores, motivada apenas por entrevistas concedidas à imprensa. O segredo imposto ao inquérito não protege as investigações ou preserva vítimas. Sua utilidade primária é limitar o escrutínio público dos atos judiciais do relator, Alexandre de Moraes. Não sabemos que perfis de redes sociais foram derrubados nem o motivo de tais atos de censura permanente. Ignoramos as razões para a retirada de passaportes e a aplicação de tornozeleiras eletrônicas a funcionários públicos não declarados réus. Desconhecemos o teor da acusação contra um líder classista que se limitou a pronunciar críticas às duras cautelares contra seus representados. O segredo de Moraes tem validade seletiva, não excluindo a publicidade oportunista. Os nomes dos auditores investigados foram, oficialmente, tornados públicos. Por essa via, o relator pinta um rótulo na testa de cada um — mas, ao mesmo tempo, impede que apresentem à opinião pública seus argumentos de defesa. A segunda utilidade do segredo judicial controlado pelo relator é a intimidação do conjunto dos auditores fiscais. Toffoli aprendeu a lição do abuso de poder. Na relatoria do caso Master, impôs segredo máximo sobre o inquérito e cercou a investigação da PF por restrições incomuns, sob a justificativa absurda de evitar choques a um sistema financeiro que já absorveu a liquidação do banco de fantasia. Aí, o segredo judicial é uma venda aplicada aos olhos da sociedade, proibindo-a de conhecer a extensa teia de relações políticas de Daniel Vorcaro. Os atos intimidatórios de Moraes, que parecem conectados às iniciativas extravagantes de Toffoli, configuram uma invasão das prerrogativas de André Mendonça, novo relator do caso Master. No fim, o relator do inquérito das fake news nomeou a si mesmo correlator do inquérito sobre a pirâmide financeira de Vorcaro. A aparente parceria Toffoli-Moraes espalha um rastro de suspeita sobre toda a paisagem. É que, sobre os dois ministros, paira a sombra de segredos não judiciais: o contrato da mulher de Moraes com o Master e os negócios da empresa de Toffoli com fundos vinculados a Vorcaro. Pode não ser nada — ou ser muito. O abuso do segredo volta-se contra o próprio STF, oferecendo verossimilhança às narrativas políticas extremistas. Passa da hora de levantar as cortinas, iluminando o palco onde circulam os juízes de capa preta.

domingo, 1 de março de 2026

Brasil

🔴 BREAKING NEWS: Programa Especial - Conflito EUA x Irã | 01/03/2026 CNN Brasil Transmissão iniciada há 56 minutos #CNNBrasil Assista AO VIVO ao Programa Especial - Conflito EUA x Irã - deste domingo, 1º de março de 2026. #CNNBrasil
📰 Gazeta de Notícias Edição da Manhã — Segunda-feira, 2 de março de 2026 Rio de Janeiro CRÔNICA DA SEMANA Entre a Razão e o Sonho da Paz Por Machado de Assis & Carolina Augusta Xavier de Novais Introdução Dizem que a humanidade progride como um cavalheiro distraído: dá dois passos adiante, detém-se para contemplar a paisagem, e logo percebe que trouxe consigo as mesmas sombras de ontem. Não mudaram muito os homens; mudaram as máquinas que os acompanham. Observávamos, Carolina e eu, duas curiosas imagens chegadas à redação desta Gazeta. Parecem pinturas vindas de dois sonhos distintos — ou talvez de duas consciências do mesmo mundo. Uma fala com a razão severa dos filósofos. A outra com o murmúrio poético dos artistas. Comecemos pela primeira. I — A Razão que Contempla o Abismo Figura 1 — O mundo político fragmentado entre poder, guerra e esperança. Aqui o planeta surge como um tabuleiro onde a política move peças que lembram generais, tratados e máquinas de destruição. Há uma sensação inquietante: a própria Terra parece transformada em objeto de cálculo. Não nos surpreende. Desde os clarões de Hiroshima e Nagasaki, a humanidade passou a viver com uma consciência nova — a de que o progresso pode também ser o engenheiro da ruína. Dir-se-ia que o espírito de Albert Einstein, se porventura passeasse pelas redações do século XXI, suspiraria ao ver que a ciência continua poderosa, mas a prudência humana ainda é uma aprendiz tardia. Fala-se hoje de países como personagens de tragédia antiga, cada qual defendendo sua própria narrativa de segurança. O resultado, contudo, permanece semelhante: o planeta inteiro transforma-se em palco de uma prudência armada. Carolina observa — e concordo com ela — que essa pintura tem algo de fragmentação cubista. O mundo aparece dividido em ângulos que não se encaixam, como se as próprias ideias de poder e paz tivessem perdido o centro. II — O Sonho que Ainda Caminha Figura 2 — Alegoria visual sobre esperança humana em meio às ruínas do tempo. A segunda imagem parece menos severa — mas talvez seja mais profunda. Nela vemos uma criança e uma figura que lembra o andarilho silencioso do cinema. Sentados diante de um planeta cansado, observam o tempo escorrer como um relógio que se dissolve. É difícil não recordar o humanismo melancólico de Charlie Chaplin. Chaplin sempre soube que o mundo pode ser absurdo — e que, ainda assim, o riso e a ternura são pequenas formas de resistência. Há nessa pintura algo de sonho: uma árvore que nasce no deserto, um planeta sustentado pela mão humana, uma criança segurando um ramo verde como quem acredita no amanhã. Talvez seja isto que nos falte com frequência — não tecnologia, nem discursos — mas a simples imaginação de um futuro comum. Epílogo No fundo, estas duas imagens contam a mesma história por caminhos distintos. A primeira diz: “Cuidado com o poder.” A segunda responde: “Lembrem-se da humanidade.” Entre essas duas frases talvez esteja todo o destino do nosso século. Se a razão e o sonho conseguirem caminhar juntos, haverá esperança. Se não, continuaremos a repetir — com máquinas cada vez mais perfeitas — os erros muito antigos do coração humano. E assim encerramos esta crônica de segunda-feira com a observação doméstica de Carolina, que sempre preferiu a sabedoria simples às teorias grandiosas: “Se o mundo insiste em fabricar armas, que ao menos as crianças continuem plantando árvores.” Conselho modesto — mas talvez suficiente para começar uma paz. Gazeta de Notícias Tipografia imaginária, porém sincera. 🌿🕊️ S
👆o morro do Cristo, no centro da cidade, partido ao meio. No sopé vários prédios atingidos, deslizamentos, etc. "A fotografia enviada mostra o Morro do Imperador, também chamado Morro do Cristo, com uma grande cicatriz de deslizamento descendo da crista da montanha até a área urbana de Juiz de Fora. No alto aparece o Cristo Redentor de Juiz de Fora e várias torres de transmissão; ao pé do morro veem-se prédios atingidos ou ameaçados pelo deslizamento. Essa imagem dialoga de forma surpreendente com a literatura memorialística de Pedro Nava, especialmente no livro Baú de Ossos. Ao reconstituir a paisagem urbana de sua infância, Nava recorda o casarão de sua avó, viúva do engenheiro Henrique Halfeld, um dos fundadores da cidade. Pela posição dominante dessa casa na antiga malha urbana, o autor cria uma imagem literária forte: a cidade parecia “partida ao meio” pelo casarão da avó. Essa “divisão” em Nava era simbólica. A casa funcionava como ponto de referência que organizava a memória familiar e o espaço urbano: de um lado a cidade que crescia e se modernizava; de outro o núcleo tradicional ligado à família Halfeld, cuja história se concentrava na área central próxima ao atual Parque Halfeld. A fotografia contemporânea parece transformar essa metáfora em imagem concreta. O morro que domina a cidade surge literalmente cortado por uma fenda, uma cicatriz geológica que desce até o tecido urbano. Assim, a paisagem cria uma espécie de eco visual da narrativa de Nava: antes, a cidade “dividida” pela memória e pela casa familiar; agora, o morro que vigia a cidade aparece fisicamente rasgado. Desse modo, a foto não apenas registra um evento natural — um grande deslizamento —, mas também oferece uma leitura simbólica da cidade. Juiz de Fora continua deitada sob o Morro do Imperador, como tantas vezes descrita por seus cronistas; porém, a montanha que a domina parece hoje marcada por uma fratura que lembra, de maneira inesperada, a poderosa metáfora criada por Pedro Nava em suas memórias." "Às vezes, compreender uma época exige atenção não apenas aos fatos extraordinários, mas às pequenas frases que circulam entre eles. Porque muitas vezes é nelas que o tempo se deixa ver." "Versão final resumida: A foto mostra um deslizamento de terra real que abriu uma grande cicatriz na encosta da montanha. A terra e as rochas desceram pela vegetação formando um sulco vertical até a área urbana abaixo. No topo do morro há antenas e construções, indicando ocupação humana próxima da área instável. Ideia central: registro visual de um desastre natural causado por deslizamento de encosta, visível claramente a olho nu. 🌄" Brasil, Mostra A Tua Cara | Ester Carro | 11/08/2024 TV Cultura 🔥 *UM LIXÃO VIROU PARQUE. MULHERES ESTÃO REFORMANDO CASAS NA FAVELA. A DIGNIDADE ESTÁ TRANSFORMANDO VIDAS.* Neste domingo, 1º de março, às 10h30, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”apresentará uma história real que inspira e emociona. O jornalista Ricardo Viveiros entrevistará a arquiteta Ester Carro, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, nascida e criada no Jardim Colombo, na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo. À frente do Instituto Fazendinhando, Ester lidera projetos que estão mudando a realidade da região. 💪 O projeto Fazendeiras capacita mulheres da comunidade para atuarem em reformas e acabamentos, gerando renda, autonomia e transformação social. 🌿 O projeto Fazendinha transformou um antigo lixão em parque e espaço de convivência para a comunidade. Na entrevista, Ester também fala sobre urbanismo social, suas experiências internacionais e o impacto da maternidade em sua trajetória. ✨ Uma conversa sobre coragem, pertencimento e transformação. 📺 Não perca! Domingo, 1º de março, às 10h30, na TV Cultura. Brasil (Gal Costa) letra completa Brasil Canção de Gal Costa ‧ 1991 Não me convidaram Pra essa festa pobre Que os homens armaram pra me convencer A pagar sem ver Toda essa droga Que já vem malhada antes de eu nascer Não me ofereceram Nem um cigarro Fiquei na porta estacionando os carros Não me elegeram Chefe de nada O meu cartão de crédito é uma navalha Brasil Mostra tua cara Quero ver quem paga Pra gente ficar assim Brasil Qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim Não me convidaram Pra essa festa pobre Que os homens armaram pra me convencer A pagar sem ver Toda essa droga Que já vem malhada antes de eu nascer Não me sortearam A garota do Fantástico Não me subornaram Será que é o meu fim? Ver TV a cores Na taba de um índio Programada pra só dizer "sim, sim" Brasil Mostra a tua cara Quero ver quem paga Pra gente ficar assim Brasil Qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim Grande pátria desimportante Em nenhum instante Eu vou te trair (Não vou te trair) Compositores: George Alberto Heilborn Israel / Agenor De Miranda Araujo Neto / Nilo Romero Filho Ironia social e política: da frase de Francelino ao trocadilho de Belmiro A história recente do Brasil oferece um curioso jogo de espelhos entre política, cultura popular e linguagem. Uma frase dita em 1976 atravessa décadas, ganha novos sentidos no rock dos anos 1980 e reaparece, quase cinquenta anos depois, em tom de humor irônico numa entrevista empresarial. Essa trajetória ajuda a compreender como certos símbolos críticos do país são continuamente reaproveitados para comentar o presente. Tudo começa com Francelino Pereira, então presidente da ARENA durante o regime militar. Em 1976, ele expressou perplexidade diante da desconfiança popular em relação ao processo político da época e perguntou: “Que país é este?”. A frase tinha, naquele contexto, um tom de incredulidade institucional — uma tentativa de defender a legitimidade do sistema político sob o qual o país vivia. Poucos anos depois, a pergunta ganharia outro destino. O compositor Renato Russo transformou a expressão em matéria-prima para uma crítica social muito mais agressiva. A canção Que País É Este, lançada pela banda Legião Urbana, não repete a frase como dúvida, mas como denúncia. O verso famoso — que fala da presença de problemas “nas favelas” e “no Senado” — transforma a perplexidade de um político em um grito de indignação contra corrupção, desigualdade e violência. Nesse processo, Renato Russo não apenas repetiu a frase; ele a subverteu. A pergunta institucional tornou-se um refrão de protesto. Aquilo que antes expressava espanto diante da descrença popular passou a apontar diretamente para as razões dessa descrença. Décadas depois, o mesmo repertório simbólico reaparece de forma inesperada. Durante uma entrevista na CNN Brasil, o empresário Belmiro Gomes, CEO do Assaí Atacadista, fez um trocadilho inspirado na música: “Da favela ao Senado tem manjar pra todo lado.” A frase altera o verso da canção ao substituir “sujeira” por “manjar”. O resultado é uma ironia leve, quase bem-humorada, mas carregada de implicações. “Manjar” sugere fartura, banquete, algo abundante. Assim, o que antes era descrito como sujeira política passa a ser insinuado como um banquete de interesses distribuído entre diferentes esferas da sociedade. O efeito irônico se torna ainda mais interessante quando se observa o perfil social de quem pronuncia a frase. Belmiro Gomes tem origem popular e construiu carreira no varejo até chegar ao topo de uma grande empresa. Sua trajetória de ascensão econômica ecoa, de certo modo, a narrativa de mobilidade social associada ao atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também emergiu de origem humilde no Nordeste e alcançou o poder político máximo do país. Essa coincidência de trajetórias produz uma ironia adicional. Em 1976, a frase de Francelino era pronunciada por um representante do regime e contestada por setores da oposição. Décadas depois, o cenário se inverte parcialmente: antigos grupos oposicionistas chegaram ao poder, enquanto figuras vindas de origens populares passaram a ocupar posições de destaque tanto na política quanto no empresariado. Nesse contexto, o trocadilho de Belmiro pode ser lido como uma crítica bem-humorada ao ambiente econômico contemporâneo — marcado por debates sobre juros elevados, desigualdade de renda, apostas online e outras pressões que afetam principalmente as camadas populares. O humor da frase suaviza a crítica, mas não elimina sua força simbólica: a ideia de que certos mecanismos do sistema parecem funcionar como um “banquete” para alguns enquanto outros lidam com dificuldades cotidianas. Há ainda um elemento cultural interessante nessa cena. Mesmo após ascender às esferas mais altas da política ou da economia, muitos personagens públicos brasileiros mantêm traços linguísticos populares — expressões coloquiais, sotaques regionais e modos de falar associados às classes trabalhadoras. Isso reforça a ligação simbólica com a origem social e também aproxima o discurso das experiências do público mais amplo. Assim, a frase percorre um longo caminho histórico. Nasce como perplexidade política nos anos 1970, transforma-se em protesto punk no rock dos anos 1980 e reaparece, décadas depois, como ironia econômica em pleno debate contemporâneo. O resultado é um exemplo típico da cultura política brasileira: uma mesma expressão atravessando regimes, gerações e posições ideológicas diferentes, sempre reaparecendo como forma de comentar — com indignação, sarcasmo ou humor — a eterna pergunta sobre o país.