sexta-feira, 3 de abril de 2026

Irã está vencendo?

No The Ezra Klein Show, especialistas explicam que o conflito não tem vencedores claros — mas o Irã pode estar ganhando vantagem estratégica, explorando erros dos EUA, pressão econômica global e sua posição no Oriente Médio. "Irã não é mais uma ameaça", diz Trump em discurso à nação Em discurso à nação realizado na Casa Branca, presidente dos EUA afirmou que a guerra está "quase no fim" Da CNN Brasil 01/04/26 às 22:24 | Atualizado 01/04/26 às 23:13 Em pronunciamento no horário nobre, o presidente Trump afirmou que os EUA estão “à beira de encerrar a ameaça do Irã”, mas manteve aberta a possibilidade de intervenção terrestre. O fechamento efetivo do Estreito de Hormuz começa a pressionar o mundo, com risco de escassez e alta global de preços. Quais são as opções de Trump? Declarar vitória e recuar, ou intensificar ações militares? Encerrar o conflito sem atingir objetivos estratégicos pode ter consequências profundas para EUA, Irã e o mundo. Para a especialista Suzanne Maloney, não há uma vitória real à vista — e esse desfecho pode ser perigoso no longo prazo. Entrevista gravada antes do discurso, mas cuja análise antecipou fielmente o tom adotado. Is Iran Winning? | The Ezra Klein Show padronizado):

Cartas persas

Em Cartas persas, obra publicada anonimamente em 1721, Montesquieu cria um relato ficcional sobre a temporada francesa de dois amigos persas, Rica e Usbek, durante o reinado de Luís XIV. Ao se apagar como autor, Montesquieu se distancia e critica a sociedade, costumes e instituições políticas de seu país com liberdade.

Além disso, como aponta Jean Starobinski no prefácio, a obra rejuvenesce a ficção:

“Através dessa encenação inventa-se um estilo: ele reduz a matéria habitual do ensaio à substância de uma carta ou de uma série de cartas; portanto, autoriza a encurtar, a desbastar, a cortar rente, a tornar inúteis preâmbulos e explicações.”

Conclusão

Em suma, a Carta 51 constitui um tratado sobre a corrupção do poder. Nela, evidencia-se que o despotismo não é um fenômeno meramente geográfico, mas uma patologia política que emerge sempre que a vontade individual se sobrepõe ao império da lei.

A Rússia de Nargum funciona como um laboratório em que Montesquieu experimenta ideias que culminariam em O Espírito das Leis: a necessidade de freios e contrapesos e o respeito à alma orgânica das nações.

SAIBA QUEM ASSUMIRÁ O PODER DE TRANSIÇÃO NO IRÃ APÓS A MORTE DE KHAMENEI


Ensaio comparativo

Um paralelo entre “De Moscou, 2 da lua de Chalval, de 1713” e “De Washington, 2 de abril de 2026” revela como certas intuições políticas atravessam os séculos.

Moscou simboliza o despotismo explícito; Washington, a promessa — nem sempre realizada — de limitação do poder. Em ambos os casos, permanece a mesma questão central: como impedir que a vontade individual suplante a lei?

Assim, o pensamento de Montesquieu segue atual: a liberdade política depende não apenas de instituições formais, mas de uma cultura política vigilante.


Conclusão filosófica

Entre a lua literária de Montesquieu e a lua explorada em 2026, há uma continuidade: ambas funcionam como espelhos da condição humana.

A primeira reflete a necessidade de limitar o poder político; a segunda, a urgência de governar com responsabilidade o poder técnico.

Meditação
Baden Powell

Composição: Antonio Carlos Jobim

Astronauta
João Gilberto

Composição: Pingarilho, Marcos Vasconcelos

Última lua cheia de 2021 acontece nesta madrugada


Carta fictícia – Rio de Janeiro, 2021

A Usbek, em Paris

Meu caro Usbek,

Cheguei enfim a esta terra vasta e rumorosa, onde o poder não reside apenas nas mãos que governam, mas nas narrativas que moldam a percepção da verdade.

Aqui, a liberdade não se perde de um golpe, mas se dissolve lentamente — ora na vontade de um só, ora na vaidade de muitos.

Teu fiel amigo,
Rica

Sexta-feira, 3 de abril de 2026

Dinheiro e religião, por José de Souza Martins

Valor Econômico

O texto discute criticamente a relação entre religião, dinheiro e poder no Brasil contemporâneo, defendendo maior rigor na separação entre Estado e instituições religiosas.

S
Cartas persas Em 'Cartas persas', obra publicada anonimamente em 1721, Montesquieu cria um relato ficcional sobre a temporada francesa de dois amigos persas, Rica e Usbek, durante o reinado de Luís XIV. Ao se apagar como autor, Montesquieu se distancia e critica a sociedade, costumes e instituições políticas de seu país com liberdade. Além de, como aponta Jean Starobinksi no prefácio, rejuvenescer a ficção. "Através dessa encenação inventa-se um estilo: ele reduz a matéria habitual do ensaio à substância de uma carta ou de uma série de cartas; portanto, autoriza a encurtar, a desbastar, a cortar rente, a tornar inúteis preâmbulos e explicações. O missivista persa pode ir direto ao essencial sem enredar-se em todas as questões acessórias que, para um autor ocidental, inevitavelmente se teriam acumulado."
“Conclusão Em suma, a Carta 51 é um tratado sobre a corrupção do poder. Ela demonstra que o despotismo não é um fenômeno puramente geográfico, mas uma patologia política que ocorre sempre que a vontade individual suplanta a regra da lei. A Rússia de Nargum é o laboratório onde Montesquieu testa as teses que culminariam no Espírito das Leis: a necessidade urgente de freios, contrapesos e o respeito à alma orgânica das nações.”
SAIBA QUEM ASSUMIRÁ O PODER DE TRANSIÇÃO NO IRÃ APÓS A MORTE DE KHAMENEI 👆”Conclusão Em suma, a Carta 51 é um tratado sobre a corrupção do poder. Ela demonstra que o despotismo não é um fenômeno puramente geográfico, mas uma patologia política que ocorre sempre que a vontade individual suplanta a regra da lei. A Rússia de Nargum é o laboratório onde Montesquieu testa as teses que culminariam no Espírito das Leis: a necessidade urgente de freios, contrapesos e o respeito à alma orgânica das nações.” Seu trecho está bem articulado e transmite claramente a ideia central, mas dá para lapidar um pouco o estilo para deixá-lo ainda mais fluido e sofisticado. Aqui vai uma versão levemente revisada: Versão sugerida: Em suma, a Carta 51 constitui um tratado sobre a corrupção do poder. Nela, evidencia-se que o despotismo não é um fenômeno meramente geográfico, mas uma patologia política que emerge sempre que a vontade individual se sobrepõe ao império da lei. A Rússia de Nargum funciona como um verdadeiro laboratório em que Montesquieu experimenta as teses que, mais tarde, se consolidariam em O Espírito das Leis: a necessidade premente de freios e contrapesos, bem como o respeito à alma orgânica das nações. Se quiser, posso adaptar o tom (mais simples, mais crítico, mais acadêmico, etc.) ou expandir essa conclusão com mais análise. Elaborar um pequeno ensaio comparativo da lua De Moscou, 2 da lua de Chalval, de 1713; com a lua De Washington, 2 de Abril, de 2026? Um paralelo entre “De Moscou, 2 da lua de Chalval, de 1713” e “De Washington, 2 de abril de 2026” permite observar como certas intuições políticas atravessam os séculos, ainda que os contextos históricos sejam radicalmente distintos. No primeiro caso, trata-se de uma carta fictícia inserida nas Cartas Persas, de Montesquieu, em que o autor utiliza o olhar estrangeiro para criticar o despotismo e refletir sobre os fundamentos do poder. No segundo, a referência a “Washington, 2026” evoca o coração institucional de uma democracia contemporânea, frequentemente associada ao ideal de separação de poderes formulado em O Espírito das Leis. Na carta ambientada em Moscou, o poder aparece concentrado, quase absoluto, sustentado por costumes e por uma lógica de obediência que naturaliza a autoridade do governante. A distância geográfica serve como recurso retórico: ao falar da Rússia, Montesquieu fala, na verdade, de qualquer regime em que a lei se submete à vontade de um só. Já em “Washington, 2026”, o que se projeta é um cenário institucional marcado por freios e contrapesos — ao menos em teoria — onde Executivo, Legislativo e Judiciário se equilibram mutuamente. Ainda assim, a comparação revela tensões: mesmo em democracias consolidadas, há riscos de personalização do poder, polarização extrema e erosão das normas. O contraste, portanto, não é absoluto, mas dialético. Moscou (1713) simboliza o despotismo explícito; Washington (2026), a promessa — nem sempre plenamente realizada — de limitação do poder. Em ambos os casos, a questão central permanece a mesma: como impedir que a vontade individual suplante a lei? Assim, o pensamento de Montesquieu continua atual, sugerindo que a liberdade política não depende apenas de instituições formais, mas de uma cultura política vigilante e de um compromisso contínuo com o equilíbrio entre os poderes. À guisa de conclusão, coteje a lua de 1713 em Carta 51 com a lua de 2026 a ser circunavegada por 4 astronautas no comunicado feito da nave espacial ao vivo? À guisa de conclusão, o cotejo entre a lua evocada na Carta 51 — datada simbolicamente de 1713, no universo das Cartas Persas — e a lua de 2026, circunavegada por quatro astronautas em comunicação ao vivo, revela menos uma mudança de objeto do que uma transformação do olhar humano sobre ele. Em Montesquieu, a “lua” funciona como recurso literário e calendário exótico: um artifício que desloca o leitor europeu e o obriga a enxergar sua própria realidade política sob estranhamento. Trata-se de uma lua simbólica, mediadora da crítica ao poder e ao despotismo. Já a lua de 2026 — a mesma que, desde Apollo 11 Moon Landing, deixou de ser apenas objeto de contemplação para tornar-se destino de exploração — é concreta, técnica e partilhada em tempo real. Ao ser circundada por astronautas que transmitem sua experiência ao vivo, ela encarna o ápice de uma racionalidade científica e de uma capacidade tecnológica que transcende fronteiras nacionais. Aqui, não há exotismo literário, mas sim universalidade empírica: a lua é vista por todos, simultaneamente, como experiência comum da humanidade. Entretanto, o paralelo revela uma permanência essencial. Se, em 1713, a lua servia para questionar os fundamentos do poder e expor suas arbitrariedades, em 2026 ela continua a suscitar reflexões sobre os limites e as ambições humanas — agora não apenas no plano político, mas também no tecnológico e ético. A transmissão ao vivo da nave espacial, embora símbolo de progresso, também levanta questões sobre quem controla tais empreendimentos, quais interesses os orientam e como o poder — antes concentrado nos tronos — se redistribui entre Estados, agências e corporações. Assim, entre a lua literária de Montesquieu e a lua explorada pelos astronautas, desenha-se uma continuidade: ambas funcionam como espelhos da condição humana. A primeira reflete a necessidade de limitar o poder político; a segunda, a urgência de governar com responsabilidade o poder técnico. Em ambos os casos, permanece atual a advertência implícita: sem freios, contrapesos e consciência crítica, toda forma de poder — terrestre ou cósmica — tende a ultrapassar seus próprios limites.” Meditação Baden Powell Quem acreditou No amor, no sorriso, na flor Então sonhou, sonhou... E perdeu a paz O amor, o sorriso e a flor Se transformam depressa demais Quem, no coração, Abrigou a tristeza de ver Tudo isto se perder E, na solidão, Procurou um caminho e seguiu Já descrente de um dia feliz Quem chorou, chorou E tanto que seu pranto já secou Quem depois voltou Ao amor, ao sorriso e à flor Então tudo encontrou Pois a própria dor Revelou o caminho do amor E a tristeza acabou... Composição: Antonio Carlos Jobim. https://www.letras.mus.br/baden-powell/1207225/ https://youtu.be/rtfQKhqE6uQ Astronauta João Gilberto Ela agora Mora só no pensamento Ou então no firmamento Em tudo que no céu viaja Pode ser um astronauta Ou ainda um passarinho Ou virou um pé de vento Pipa de papel de seda Ou quem sabe um balãozinho Pode estar num asteroide Pode ser a Estrela D'alva Que daqui se olha Pode estar morando em Marte Nunca mais se soube dela Desapareceu Composição: Pingarilho, Marcos Vasconcelos. https://www.letras.mus.br/joao-gilberto/46547/ https://youtu.be/EVPXfKN-I5I
Última lua cheia de 2021 acontece nesta madrugada Pico de iluminação será atingido 01h32 deste domingo (19), no horário de Brasília, de acordo com a Nasa Angela Eichhorst, da CNN 18/12/21 às 09:52 | Atualizado 18/12/21 às 10:08 De Rio de Janeiro, 12 da Lua das Transações Instantâneas, de 2021 A Usbek, em Paris Meu caro Usbek, Cheguei enfim a esta terra vasta e rumorosa, onde os homens se gabam de haver destronado os reis, apenas para multiplicar seus tronos em mil pequenas disputas invisíveis. Aqui não há um soberano único que oprima em silêncio; há, antes, uma multidão de príncipes discursivos que, a cada dia, reivindicam para si o direito de dizer o que é a verdade — e, sobretudo, o que deve ser acreditado. Entre as novidades que mais me causaram espanto está um engenho chamado “Pix”, pelo qual as riquezas mudam de mãos com a velocidade do pensamento. Não há bolsas de moedas, nem longas esperas: um gesto basta, e o ouro — que já não é ouro — atravessa o espaço como se obedecesse a um feitiço. Julguei, a princípio, tratar-se de um instrumento de liberdade, pois permitiria aos súditos escapar à lentidão e aos intermediários que, em outros tempos, lhes sugavam o sangue. Enganei-me apenas em parte. Pois logo percebi que, embora o mecanismo seja comum a todos, sua glória é disputada como se fosse um cetro. Cada facção atribui a si a invenção do prodígio, e não há narrativa que não seja contestada por outra, com igual veemência e menor pudor. Assim, aquilo que deveria unir os homens pelo comércio rápido os separa pelo desejo de primazia. Dir-se-ia, meu caro Usbek, que aqui o poder já não reside somente nas mãos que governam, mas nas bocas que contam a história do governo. Não basta fazer: é preciso convencer que se fez — e, mais ainda, que só um poderia tê-lo feito. Dessa forma, o império da lei, de que tanto se orgulham, encontra-se sitiado por um outro império, mais sutil e talvez mais tirânico: o da narrativa. Não vi correntes, nem guardas a vigiar cada gesto; mas vi homens cativos de opiniões que defendem como dogmas e de versões que abraçam como se fossem decretos. Cada qual se crê livre porque pode falar, sem notar que sua fala já vem moldada por partidos invisíveis que disputam seu espírito como outrora se disputavam territórios. Se em Moscóvia, de que te escrevi outrora, o despotismo se revelava na figura terrível de um só, aqui ele se disfarça na multiplicidade. Não há menos risco, apenas outra forma de perigo: quando todos pretendem governar a verdade, a própria verdade se torna serva. Assim, este país, que se proclama republicano, oferece ao observador estrangeiro um curioso espetáculo: aboliram o trono, mas não o desejo de ocupá-lo. E como já não podem fazê-lo pela força direta, erguem-se tronos de palavras, onde reinam por instantes aqueles que melhor dominam a arte de persuadir. Concluo, portanto, que o despotismo, como bem suspeitávamos, não pertence a climas nem a povos, mas ao coração humano quando não encontra freios. Aqui, como em toda parte, a liberdade não se perde de um golpe, mas se dissolve lentamente, ora na vontade de um só, ora na vaidade de muitos. Adeus, meu caro Usbek. Continuarei a observar este povo engenhoso, onde o progresso das máquinas não impediu a antiguidade das paixões. Teu fiel amigo, Rica
sexta-feira, 3 de abril de 2026 Dinheiro e religião, por José de Souza Martins* Valor Econômico O que significa uma igreja manter um banco no seu interior e no mesmo endereço? Igreja como mero ramo de negócio lucrativo A frequência de notícias de pastores e missionários de igrejas evangélicas em casos de anomalias envolvendo formas não convencionais de ganhar dinheiro, apuradas pela polícia e pela Justiça, indica que o problema passou dos limites da “normalidade”. Entre as mais recentes estão casos ligados a algumas igrejas evangélicas neopentecostais. O que significa uma igreja manter um banco no seu interior e no mesmo endereço? Igreja como mero ramo de negócio lucrativo. Em vez de sacrário, um gasofilácio sem fundo. Por que o dinheiro nas mãos dessa gente torna-se isento de suspeita? Supostamente porque esses religiosos falam e agem em nome de Deus. Mas fomentar essa crença transforma esse negócio de falar em nome de Deus em negócio suspeito. É que, dinheiro sujo, ao passar pelas mãos de quem se diz de Deus, fica limpo. Mesmo que não fique. Para certas religiões não importa o que as coisas são, mas o que parecem ser. Seguindo a lógica bíblica da separação de que se dê a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, não seria melhor que Deus tivesse CPF? De modo que, se ele invadir a seara de César, pague a César os tributos que lhe cabem. No Brasil, antes mesmo do primeiro vagido, cada criança já recebe, sem solicitar, compulsoriamente, o seu número de CPF. Já se torna devedor potencial do imposto de renda por algum dinheiro que algum dia venha a receber. Se o homem é criado à semelhança de Deus, e se a sociedade é relacional, baseada na reciprocidade dos seres que a compõem, não há por que negar a Deus, naqueles que em nome dele falam, a semelhança que, em troca, lhe toca. É necessário concluir no Brasil o processo de extinção dos estamentos e das imunidades e privilégios que reivindicam. Igualdade já, antes que seja tarde! Certas religiões e seitas surgiram nas últimas décadas como álibi preventivo para o uso irregular de dinheiro em mãos erradas obtido de modo errado. Lembro-me de quando, a partir de meados dos anos 1950, de repente, botequins se transformavam em templos, em questão de horas. Modestos, é bem verdade. Aos berros, pastores passaram a contar aos novos crentes seus enormes pecados por serem membros do gênero humano, pecados que as pessoas nem sabiam que haviam cometido sem cometer. Para livrar-se desse fardo, bastava aceitar Cristo como salvador que cada qual seria salvo pela fé. De repente, os salvos, aliviados, começavam a fazer pingar o dízimo no gasofilácio. Não só o da gratidão, mas também o da prevenção. A grande diferença entre católicos e evangélicos é justamente a de que os católicos nascem culpados do pecado original, não cometido por eles. Nascem com o crédito do perdão divino na renovação voluntária dessa pecaminosidade, reiterada, se reconhecida na confissão dos pecados acumulados. Os católicos têm ainda, na morte, o benefício do purgatório, no caminho do céu, em vez do inferno, momento transitório de finalização de um rito de purificação pelo fogo. Viver é muito perigoso, como lembrou Guimarães Rosa. A Reforma protestante aplainou o caminho para o céu e estabeleceu que o céu já é antecipado pela fé. Os crentes já estão remidos antes de pecar. A religião, de quem opta por ela, já é um estado de antecipação do mundo celestial. Tudo que se faz nela e por meio dela já está purificado Mesmo mãos sujas são insujáveis. Só que, ao que parece, esqueceram de combinar isso com Deus. Pelo menos, esqueceram de combinar com a polícia e a Justiça que, em nome de César, têm ido atrás dos que acham que, por serem crentes e membros de igrejas “assim” com Deus, estariam livres das grades. Talvez tenha chegado a hora de reconhecer que Deus mesmo não conseguiu manter limpas as mãos dos que pecam em nome da fé. E convencer César a estabelecer rigorosas regras humanas para abertura e funcionamento de igrejas e seitas. Como as há para botequins. O direito à liberdade de crença e de fé precisa ser reinventado em nome das razões de Estado e da igualdade jurídica, em defesa da própria fé. De modo que seja suprimido o pressuposto que aqui no Brasil vai se tornando iníquo, o de que a salvação pela fé abre as portas da impunidade e da delinquência fiscal e política. Uma boa e necessária medida seria a de definir critérios legais regulamentadores da separação entre Estado e religião. Nada de celebrações, ritos, cultos, orações, cânticos, louvores em recintos do Estado, palácios governamentais, mesmo de residência de governantes, do Legislativo, do Judiciário e do Executivo. Não se trata de proibir religião, mas de assegurar-lhe, qualquer que seja ela, que o melhor e mais apropriado lugar para exercê-la é o templo. Os lugares sagrados das respectivas concepções do sagrado, e não os lugares profanos, que lhes são impróprios. Profanação pode ser crime. *José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte). https://gilvanmelo.blogspot.com/2026/04/dinheiro-e-religiao-por-jose-de-souza.html

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