Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Da Enxada ao Pix: A Metamorfose do Clientelismo na Guerra de Movimento
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Como virar votos quando ninguém quer mudar de lado? Por Wilson Gomes*Folha de S. PauloQuando o voto é também veto ao adversário, mudar pode significar romper lealdadesLealdades políticas, custos psicológicos e anos de hostilidade dificultam a tarefa de Lula
Se conquistá-los já é difícil, imagine virar votos. Ainda mais em certas circunstâncias que se empilham nesta eleição.
Primeiro, quando o voto e o veto se equivalem. Quer dizer, quando há praticamente um empate entre o percentual de votos obtido por um lado e o de rejeição do adversário. E vice-versa. Assim, quem tentar mudar um voto vai ter que lidar com algo muito profundo: a decisão do eleitor de não votar naquele candidato de jeito nenhum.
Quando as pessoas escolhem com base nas características dos candidatos ou nas políticas públicas que oferecem, há sempre a possibilidade de mudar uma ponderação por conta da propaganda, de informações novas, da conversa política cotidiana. Mas quando se vota em um candidato para evitar que o outro ganhe, a perspectiva de mudança é mais complicada.
Segundo, quando o voto se baseia na identificação com um lado e na hostilidade ao outro, deixa de expressar uma mera preferência para se tornar a reafirmação de pertencimento e lealdade ao grupo. Há muito mais em jogo que escolher simplesmente um candidato entre vários: reafirmar vínculos e crenças, demonstrar fidelidade e coerência. Mudar de voto significa abandonar os seus, romper solidariedades, trair valores. Afinal, se já desconfiamos do caráter de quem muda de lado no infortúnio, o que pensar de quem troca de campo quando a vitória está a um passo?
Há, além disso, um custo psicológico. Mudar de voto pode significar admitir, perante si mesmo, que se estava errado o tempo todo. Quanto mais investimos em uma escolha, mais difícil reconhecer o erro. Para preservar a imagem que fazemos de nós mesmos como pessoas lúcidas e coerentes, tendemos a minimizar as falhas do nosso candidato, desculpar seus erros e justificar suas contradições. Queremos evitar o desconforto de descobrir que nossas convicções podem não ser tão sólidas quanto imaginávamos. Não é para qualquer um pagar o preço emocional de uma decisão que contradiz tudo aquilo em que acreditou e que defendeu durante anos.
Tampouco se deve subestimar o papel do histórico de rancor e ressentimentos contra o outro lado. São oito anos —e três eleições— de hostilidades construídas sobre bases morais. A convicção de que o outro lado é vil, estúpido e fanatizado é alimentada pela lista das atrocidades que dizem e fazem os seus membros e pela memória de humilhações e ofensas. A identidade do grupo foi erguida sobre a crença na superioridade moral e cognitiva, em contraste com a maldade e a burrice dos inimigos. Como esperar que anos de rancor cedam, de repente, diante de argumentos, evidências e apelos vindos do outro lado?
Pode-se sempre argumentar que não teríamos tido a alternância em 2022 e no primeiro turno de 2026 se votos não pudessem ser revertidos. É fato. Lula agora perdeu votos que provavelmente foram seus na eleição passada. Mas o ponto não é que votos não podem ser virados —eles podem. É que certas circunstâncias desta eleição tornam isso particularmente difícil. Ao longo de um mandato, o eleitor acumula experiências, frustrações, informações e avaliações que podem levá-lo a mudar gradualmente de preferência, sem um momento específico de conversão. O que não sabemos é se aquilo que levou quatro anos para se materializar nas urnas pode acontecer novamente em 15 dias.
Admitamos que esses sejam os votos de uma fração dos chamados "independentes", que não votam por identificação com lulistas ou bolsonaristas e, portanto, não estariam submetidos aos mesmos engessamentos identitários. Supõe-se que sejam o fiel da balança que inclina a eleição para um lado ou outro. Nesse caso, o que poderia levá-los a reverter o voto dado no primeiro turno? Ou o que poderia motivá-los a votar agora, quando não o fizeram no primeiro, ou a dar um voto válido, quando se negaram a fazê-lo em 4 de outubro?
Na verdade, ninguém sabe como fazer isso porque ninguém conseguiu até agora reverter uma derrota no primeiro turno de uma eleição presidencial. A militância certamente não o fará, pois o militante identificado com o lulismo nem sequer reconhece a existência de eleitores independentes, tratando-os como bolsonaristas envergonhados que só podem ser desprezados ou intelectualmente corrigidos.
E a campanha, que já deveria ter-se dado conta de que tudo será decidido por aqueles 3% de votos errantes que não são de ninguém, o que fará a respeito disso? Vai focar em convertê-los ao lulismo em vez de apenas convencê-los a dar o voto que negaram no primeiro turno? Teremos duas semanas para ver como resolvem esse dilema.
*Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Fim da escala 6x1 venceria no primeiro turno, por Renato MeirellesO GloboMudança é apoiada por mais de sete em cada dez brasileiros
Mais de sete em cada dez brasileiros apoiam a mudança, uma votação que nem Lula nem Flávio Bolsonaro conseguiram. A proposta é maior do que os dois. E talvez seja justamente por isso que esteja mudando a conversa nesta reta final.
Imagine dona Beatriz, caixa de supermercado, casada com seu João, vigilante de shopping. Os dois trabalham seis dias por semana. Ela folga na terça, ele na quinta. Um domingo dos dois juntos virou luxo. Quando Beatriz descansa, lava roupa, vai ao posto de saúde, resolve a conta atrasada. João sai para trabalhar. Se alguém lhes perguntar sobre a economia, talvez respondam falando do preço do arroz. Se a pergunta for sobre a escala 6x1, responderão sobre a vida que gostariam de ter.
No primeiro turno, os dois anularam o voto. Não por falta de opinião, mas por excesso de cansaço da política. Agora, Beatriz começa a cogitar votar em Lula. João continua desconfiado. Não viraram petistas; descobriram uma proposta que cabe dentro de casa. E há milhões de casas em que o relógio, não a ideologia, organiza a vida.
Lula passou boa parte da campanha precisando se explicar: o preço da feira, as promessas que não saíram do papel, a sensação de que a vida não melhorou o suficiente. Flávio tinha pouco trabalho. Bastava perguntar se o brasileiro queria mais quatro anos de PT. É uma pergunta que mobiliza um antipetismo maior do que o próprio candidato.
O erro estava em responder falando quase sempre do legado. O legado é importante, mas está no passado. Quem passa seis dias trabalhando quer saber como será a próxima semana, não apenas como foi o país 20 anos atrás. Quando o PT sai da defesa da própria biografia e abraça o fim da escala 6x1, troca de assunto. Em vez de pedir reconhecimento, oferece uma perspectiva.
Não é tudo a mesma coisa. Proibir as bets é tentar impedir que o dinheiro da família desapareça num aplicativo. Reajustar o Bolsa Família é reforçar a renda de quem precisa, um programa já associado à história de Lula. A jornada 5x2 não é um benefício depositado nem uma proibição. É tempo para buscar o filho na escola, estudar, descansar. Atinge também quem nunca recebeu um benefício e jamais votou no PT.
É por isso que o apoio ultrapassa as fronteiras partidárias. Nem todo eleitor favorável à mudança gosta de Lula. Há quem seja de direita e trabalhe no comércio. Há a dona do mercadinho que também quer descansar, mas teme não conseguir pagar outro funcionário. Ignorar sua preocupação seria tão equivocado quanto chamar de preguiçoso quem gostaria de um sábado livre.
Flávio percebeu. Depois de chamar a discussão de oportunista, anunciou que votará pelo fim da escala. E, depois de cobrar tanto a presença de Lula, avisou que não irá ao debate da Band. Uma decisão não prova a causa da outra. Mas ambas revelam o peso de uma campanha que já não permite ao senador apenas cobrar explicações do presidente. O recuo não foi para agradar petistas. Foi para não contrariar parte de seus próprios eleitores. E isso já muda toda a dinâmica da reta final. Lula mudou de assunto. Flávio mudou de ideia.
Agora, ele também precisa explicar. Flávio defende como alternativa contratos por hora, com salário e direitos proporcionais, enquanto a proposta apoiada pelo governo reduz a jornada sem reduzir o salário. É uma discussão sobre o significado de liberdade. Responda com sinceridade. Alguém que já trabalhou de CLT acredita que férias remuneradas e décimo terceiro teriam sido conquistados se tudo dependesse exclusivamente da negociação entre patrão e empregado? Uma coisa é negociar livremente. Outra é precisar negociar sozinho, sem poder dizer não.
Mais de oito em cada dez brasileiros concordam que estamos cada vez mais cansados. O cansaço virou experiência nacional, embora os votos sejam diferentes. Trabalho não é apenas renda: é também a quantidade de vida que sobra depois dele.
Nada disso significa que Lula tenha virado a eleição. Concordar com uma proposta não é votar em quem a defende. Mas há uma descoberta que o PT demorou a fazer: o presidente pode ser menor do que suas ideias. Quando a campanha insistia no passado de Lula, era Lula quem precisava se explicar. Quando passou a falar do futuro dos brasileiros, foi Flávio quem precisou mudar de posição.
PELA SOBERANIA‘Pela democracia, soberania e justiça social’: manifesto gaúcho declara apoio a Lula e AlckminDocumento lançado em Porto Alegre reúne 242 nomes da sociedade civil em defesa da chapa para as eleições de 2026
2.out.2026 - 15:01
Porto Alegre (RS)
Fabiana Reinholz
Um grupo de 242 figuras da sociedade civil gaúcha lançou, nesta quinta-feira (1º), no auditório da Associação de Docentes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Adufrgs-Sindical), em Porto Alegre, um manifesto em apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República e de Geraldo Alckmin à vice-Presidência.
Flávio Bolsonaro e o projeto de poder da família | Cá Entre NósMeioEstreou há 17 horas#eleições2026 #PoliticaBrasileira #constituiçãofederal
Flávio Bolsonaro diz que, se eleito, quer mudar a Constituição para "redemocratizar" o país. Com a maior bancada do Congresso neste século, um centrão que chega como sócio menor, uma oposição sem número para abrir CPI e até quatro cadeiras no STF para indicar, um eventual governo Flávio teria um poder que nem Jair teve. Neste Cá Entre Nós, Flávia Tavares recapitula 27 anos de declarações autoritárias da família Bolsonaro, mostra como o bolsonarismo repete o roteiro de Donald Trump com dois anos de atraso e discute o argumento que vem circulando na esquerda: o de que a direita democrática, ao ajudar a eleger Flávio, pode estar decretando o próprio fim.
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Da Enxada ao Pix: A Metamorfose do Clientelismo na Guerra de Movimento
Em diálogo meta-jornalístico com a análise de Luiz Carlos Azedo, um manuscrito anônimo desvenda o "centro de gravidade" das urnas de 2026: a velha engrenagem política vestida de pós-modernidade.
O jornalismo político contemporâneo frequentemente busca em Clausewitz e Gramsci as lentes para traduzir o teatro das urnas. No rastro da análise fina de Luiz Carlos Azedo no Correio Braziliense, o segundo turno de 2026 desenha-se como um tabuleiro clássico: de um lado, a impetuosa “guerra de movimento” de Lula, tentando reverter a dianteira adversária nas ruas; de outro, a disciplinada “guerra de posições” de Flávio Bolsonaro, entrincheirado no apoio de governadores e na contenção de danos sociais.
Contudo, paralelamente ao rigor analítico do clipping diário, a literatura política marginal — aquela que nasce rabiscada à caneta em folhas soltas — capta o que os manuais teóricos às vezes camuflam. Um manuscrito recente sintetiza a gênese e o destino dessa disputa com precisão cirúrgica:
No princípio, era união (liberal) contra
Unidade (comunista)
O mundo girou
A Lusitana rodou
E o piloto ficou.
O lirismo político do fragmento ironiza a própria volatilidade das ideologias. Enquanto as militâncias se digladiam sob rótulos históricos — o liberalismo contra o comunismo —, a máquina do poder opera em órbita própria. O mundo gira, as forças estruturais se reorganizam (“a Lusitana roda”), mas a figura do governante profissional, o eterno “piloto”, permanece intocada. Mudar para continuar o mesmo: eis a primeira máxima do pragmatismo eleitoral.
É nesse cenário de sobrevivência que as promessas de campanha deixam de ser plataformas programáticas e passam a ser ferramentas de pura higienização biográfica. Quando o manuscrito questiona: “Qual é a grandeza da União? / É simplesmente limpar o / seu nome”, há uma dupla e ácida leitura. Dialoga tanto com a urgência institucional de um governo que precisa reabilitar sua imagem diante do eleitorado quanto com o pragmatismo de uma população sufocada pelo endividamento.
Azedo nos reporta que Lula, no ápice de sua ofensiva de movimento, dobrou a aposta na chamada “economia do afeto”. O anúncio de um programa Desenrola voltado para microempreendedores individuais (MEIs), acompanhado de um aporte de R$ 5 mil a fundo perdido para a compra de equipamentos, é o exemplo perfeito dessa dinâmica. É a captura do espírito do tempo. Se, por um lado, “A sociedade financia / a reeleição de incumbente” por meio do uso estratégico da máquina pública e das emendas de relator, por outro, o eleitorado aprendeu a precificar o seu consentimento.
Aqui, o diálogo lítero-político atinge o seu clímax ao resgatar a obra seminal de Victor Nunes Leal. No clássico Coronelismo, Enxada e Voto, a fidelidade do eleitorado de cabresto era mantida através de uma escassez palpável: entregava-se um pé de sapato antes do voto e o outro parceiro apenas após a confirmação da vitória. A engenharia do voto era analógica, rústica, mas extremamente eficaz na sua crueza.
O que testemunhamos nesta reta final de outubro de 2026, contudo, é a sofisticação tecnológica desse mesmo DNA dependente. O fechamento do manuscrito é, por si só, um tratado de sociologia política contemporânea:
Na enxadada - uma
minhoca pós moderna -
um PL antes do voto,
Pix no bolso na aprovação.
A "enxadada" agora é digital. A "minhoca pós-moderna" que fisga o eleitor ou o parlamentar aliado não é mais o quilo de alimento ou o calçado desemparelhado. Na guerra de movimento de Lula, a isca é o Pix direto na conta, o auxílio emergencial customizado, a transferência instantânea a fundo perdido. Do lado da guerra de posições do bolsonarismo, a reação é célere: para não perder terreno no eleitorado economicamente vulnerável, Flávio Bolsonaro adere estrategicamente ao fim da jornada 6x1 no Senado. No fundo, ambos os lados entenderam o "centro de gravidade" clausewitziano do pleito: o estômago e o bolso do trabalhador.
O "PL (Projeto de Lei) antes do voto" e o "Pix na aprovação" sintetizam o funcionamento da nossa República hiperconectada. Pouco importa se a batalha institucional ocorre nos canais suspensos do WhatsApp ou nos palanques da Avenida Paulista e de Copacabana. A grande ironia apontada pelo cruzamento entre o jornalismo de Azedo e o lirismo do manuscrito é que, sob o verniz da polarização ideológica e da tecnologia de ponta, o Brasil profundo continua operando sob a lógica do dote e da conveniência.
O mundo gira, a tecnologia avança, as táticas gramscianas se modernizam nas redes. Mas, no fim do dia, a engrenagem que move as trincheiras do poder permanece idêntica à dos tempos do coronel: ganha quem souber entregar o segundo pé do sapato mais rápido — mesmo que ele venha em forma de notificação no celular.
Use o código com cuidado.
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Lula faz “guerra de movimento” enquanto Flávio aposta na “guerra de posições”, por Luiz Carlos AzedoCorreio BraziliensePetista dobrou a aposta na “economia do afeto”: anunciou um Desenrola para os microempreendedores e que ainda dará um Pix de R$ 5 mil para compra de equipamentos
O prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831) tornou-se célebre sobretudo por explicar a lógica dos conflitos. Militar desde os 12 anos, enfrentou as forças napoleônicas, serviu no Exército russo, na batalha de Borodino, e participou da campanha de Waterloo, combatendo em Wavre. Morreu de cólera e deixou os manuscritos de Da Guerra, publicados por sua mulher, Marie von Brühl. “A guerra como continuação da política por outros meios”, seu conceito mais conhecido, subordina a ação militar ao objetivo político.
Clausewitz compreendeu que superioridade material não assegura vitória. Moral, capacidade de comando, concentração de forças e acontecimentos imprevistos podem mudar uma batalha. A estratégia exige identificar o centro de gravidade do adversário: aquilo que sustenta sua capacidade de resistir.
Neste segundo turno, essa reflexão ajuda a compreender como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disputa a reeleição, e Flávio Bolsonaro, que chegou à frente no primeiro turno, procuram explorar vulnerabilidades e recuperar ou manter a iniciativa política.
O jornalista e pensador marxista Antonio Gramsci (1891-1937) fez o caminho inverso, ao transportar conceitos militares para a disputa política. Preso pelo fascismo, nos Cadernos do Cárcere elaborou conceitos de poder político que combinam coerção e consentimento. Segundo ele, nas sociedades ocidentais, partidos, igrejas, associações e instituições culturais constituem defesas profundas da ordem social. Por isso, como estamos vendo agora, a conquista do governo não basta para ter a direção da sociedade.
No conceito gramsciano, a guerra de movimento é a ofensiva política direta, enquanto a guerra de posições é a disputa prolongada por organização, alianças e hegemonia. Não se trata de fazer passeatas ou jogar parado. Por analogia, no segundo turno, Lula tenta modificar rapidamente a dinâmica eleitoral, enquanto Flávio procura consolidar as vantagens políticas e sociais que o levaram à dianteira. Ambos combinam movimento e posição, mas com prioridades diferentes.
O resultado do primeiro turno impôs ao presidente a necessidade de sair da defensiva. Flávio obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O petista precisou romper a impressão de derrota antecipada, reanimar sua base e busca alcançar eleitores que não escolheram nenhum dos finalistas. Seu adversário pretende transformar a vantagem inicial em maioria de votos válidos e evitar um julgamento dos riscos de seu próprio programa.
A retomada das ruas é parte da ofensiva de Lula. A manifestação na Avenida Paulista, no domingo, e o ato em Copacabana, na segunda-feira, acompanhado de mobilizações em outras cidades, devolveu ao petista a força das ruas. Essa mobilização produz imagens para as redes e estimula conversas fora dos círculos partidários. A aposta é transformar entusiasmo em comparecimento e persuasão. Multidões reunidas, porém, por si mesmas, não medem a transferência de votos.
Conflito de mensagens
A pesquisa PoderData/Aya, divulgada ontem, oferece um sinal favorável a Lula: o presidente passou de 47% para 49% dos votos válidos, enquanto Flávio recuou de 53% para 51%. A distância caiu de seis para dois pontos percentuais. A pesquisa ouviu 3 mil eleitores, entre 10 e 12 de outubro, com margem de erro de 1,8 ponto. A reação é compatível com a retomada da iniciativa petista, mas atribuí-la somente às manifestações seria precipitado. As entrevistas ocorreram durante os atos.
A Nexus, realizada no mesmo período, registra Flávio com 52% e Lula com 48% dos votos válidos. Ouviu 2.002 eleitores, com margem de dois pontos. Mais revelador é que 92% declaram ter decidido o voto e apenas 7% admitem mudar. Como esta é a primeira rodada da Nexus depois do primeiro turno, ela não oferece uma comparação equivalente à da PoderData. A diferença entre os institutos não comprova que um captou o efeito das ruas e o outro deixou de percebê-lo.
Flávio pretende consolidar suas posições ao adotar como estratégia de campanha a “guerra de posições”, com apoio de governadores, prefeitos e estruturas locais de poder. O encontro em São Paulo com Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes ilustra uma campanha orientada a organizar apoios, reduzir abstenções e disputar indecisos, agora com apoio de aliados eleitos que ficaram neutros no primeiro turno.
Ao negar que eliminará benefícios sociais ou reajustes do salário mínimo, Flávio procura impedir que a ofensiva de Lula abra uma brecha entre o eleitor conservador e o eleitor economicamente vulnerável. Por essa razão, resolveu apoiar a aprovação do fim da jornada 6 x 1, em votação no Senado. Ontem, Lula dobrou a aposta na sua “economia do afeto”: anunciou que fara um Desenrola para os microempreendedores individuais (MEIs) e ainda dará um Pix de R$ 5 mil para cada um deles comprar equipamentos, a fundo perdido.
No WhatsApp, a disputa está acirrada. O crescimento do Exército do Lula, organizado por André Janones, levou o bolsonarismo a reagir com a Tropa do Flávio e ações judiciais. A suspensão do canal petista por Kassio Nunes Marques, posteriormente revertida, transformou a circulação de mensagens em batalha institucional. Para Lula, preservar esse instrumento é vital para o êxito da “guerra de movimento”. Neutralizar essa iniciativa, para Flávio, porém, desloca o centro da disputa eleitoral para a “guerra de posições”, onde está em boa vantagem.
Bezerra da Silva - Dedo Duro
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